1.3 A Medicina legal e as doenças mentais.
1.3.2 O problema das monomanias impulsivas e a herança dissimilar.
Três anos após a publicação do tratado de medicina legal de Leoncio Barreto, o médico bogotano Nicolas Buendia24 apresenta sua tese Las monomanias impulsivas. Estudio médico y legal (1893). Esta tese representa o primeiro estudo escrito no país sobre patologia mental que une a perspectiva clínica e a legal, analisada através de alguns casos de monomania de sujeitos que tinham cometido um crime e que se encontravam internados no Asilo de San Diego.
Como médico interno do Hospital San Juan de Dios de Bogotá, Buendia realizou um interessante estudo teórico, clínico e prático sobre as monomanias impulsivas. Nele chama a atenção de seus colegas médicos a realizar estudos relacionados com a patologia mental -campo descuidado dentro do saber médico- e afirma que a monomania é uma doença que existe mesmo no país, sendo uma obrigação médica fazê-la conhecer perante a justiça. A tese está divida em três partes: estudo da
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Nicolas Buendia nasceu em 1868 em Bogotá e morreu em 1943. Obteve seu diploma de médico na Universidad Nacional de Colombia, foi membro do Colégio Real de Médicos de Londres, professor da cátedra de clínica obstétrica desde 1904 até 1934. Fundador e presidente da Sociedad de
Cirugia de Bogotá e da cruz vermelha nacional. (UNIVERSIDAD NACIONAL
monomania em geral como entidade patológica; descrição das diferentes variedades das monomanias, acompanhada de casos clínicos colombianos sobre monomanias homicidas e, uma terceira parte, sobre as monomanias impulsivas em relação com a medicina legal.
Buendia defende em sua tese os postulados de Esquirol sobre as monomanias ou loucuras parciais, embora seja consciente das críticas que autores como Falret e Morel fizeram a esta definição e suas formas de classificação.25
Jean-Étienne Esquirol desenvolveu entre 1810 e 1820 sua definição de monomania com o intuito de substituir o conceito de melancolia usado por Pinel. Trata-se de um tipo de doença mental no qual o delírio está limitado a um objeto ou a um conjunto pequeno de objetos. Segundo Esquirol, a monomania se confundia comumente com a mania, a melancolia e a hipocondria. A forma do delírio se constituiria na característica principal para diferenciar a monomania das outras formas de loucura.
O delírio dos hipocondríacos é parcial e por um objeto que altera a saúde ou turva as funções da vida de assimilação; existe sempre dispneia. Na monomania ou melancolia, o delírio deriva da desordem das afecções morais que reage sobre o entendimento. A mania tem por característica um delírio geral, cujo princípio está na desordem do entendimento, desordem que provoca as afecções morais. Esta distinção abrange toda a vida do homem, suas relações físicas, intelectuais e
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“Um dos primeiros adversários [ao conceito de monomania] foi Falret, que negou a existência da monomania e declarou que essa doutrina repousava sobre bases filosóficas erradas e hipotéticas, sobre observações clínicas defeituosas e superficiais e sobre a interpretação falsa dos fenômenos patológicos. Segundo esse alienista, os partidários da monomania só tinham em consideração o predomínio de certos grupos de ideias delirantes que se encontram em alguns loucos, descuidando o estudo dos demais sintomas, tanto físicos quanto intelectuais, que caracterizam a doença mental. Depois de Falret, Morel combateu energicamente a doutrina dos delírios parciais. Para Morel, esta forma de loucura não é um tipo distinto, nem uma entidade patológica bem caracterizada, e o que tem o nome de monomania não são mais que diferentes síndromes sintomáticas fabricadas artificialmente reunindo elementos diferentes em suas causas, em sua natureza e em seu desenvolvimento [...] Apesar da obstinada oposição à doutrina de Esquirol, esta é admitida hoje por quase todos os autores de maior reputação científica” (BUENDÍA, 1893, p. 3)
morais. As afecções morais são debilitantes, opressivas e tristes; o delírio que estas produzem caracteriza a melancolia dos autores, aquela que nós temos nomeado de lipemania. Conservamos o nome de monomania ou delírio parcial, para aquele que depende das paixões excitantes, expansivas e alegres. A monomania é uma espécie intermediária entre a lipemania (sic) e a mania; ela participa da lipemania (melancolia) pela fixação e a concentração de ideias, e da mania pela exaltação das ideias e pela atividade física e moral. (ESQUIROL, 1819, p. 115)
A diferença de Pinel, para quem a melancolia representava só uma forma mais de alienação mental, a definição da monomania de Esquirol se estabelecia como uma nova patologia que devia diferenciar- se das outras26 (CAMPOS; MARTÍNEZ; HUERTAS, 2000, p. 62). Esta forma especial de delírio estava acompanhada também de mudanças na fisionomia e no comportamento dos monomaníacos. Geralmente se reconheciam por serem pessoas apaixonadas, excessivas, intensas, alegres, pedantes, loquazes, inventivas, enérgicas, de temperamento sanguíneo ou nervoso-sanguíneo, facilmente excitáveis, coléricas e furiosas. (ESQUIROL, 1819, p. 116).
O conceito de monomania evolucionou rapidamente, apesar das críticas e a falta de aceitação entre os alienistas franceses. Em 1820 Etienne-Jean Georget (1795-1828) concentrou-se no estudo dos estados ferozes e coléricos dos monomaníacos e suas inclinações à criminalidade. Com o intuito de oferecer uma explicação para aqueles casos criminais nos quais não se reconhecia motivação alguma dos criminosos para assassinar, Georget, baseando-se em peritagens psiquiátricos, descreveu as monomanias sem delírio ou monomania homicida. Segundo este alienista, tratava-se de sujeitos que atuavam sem consciência, sem paixão, sem delírio, sem motivo, de maneira independente de sua vontade.
Ainda que polémica, a monomania homicida foi uma peça chave para o devir da psiquiatria e para sua legitimação social. Sendo de difícil
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Segundo Pierre Darmon, é precisamente com Esquirol que se funda a clínica e a nosografia psiquiátrica. (DARMON, 1991, p. 123). Pelo contrário, Manual Desviat afirma que em Esquirol estes aspectos ainda são globais e confusos, atribuindo aos estudos de Jean Pierre Falret os começos da construção da clínica psiquiátrica. (DESVIAT, 2012).
diagnóstico, a monomania homicida precisava dos conhecimentos especializados dos alienistas, que os tornava em um elemento decisivo para as decisões no âmbito legal. Rapidamente, estas teorias foram aceitas entre os jurisconsultos franceses, -não sem algumas reticências- permitindo a expansão do poder psiquiátrico a um terreno de intervenção novo. (CAMPOS; MARTÍNEZ; HUERTAS, 2000; CASTEL, 2009)
Na Colômbia, o conceito de monomania e o modelo que gerou começaram a ser reconhecidos pelos médicos desde o final do século XIX. No âmbito jurídico a aceitação desse modelo foi lenta e condicionada por uma série de nuanças próprias do processo de medicalização da justiça.
A tese de Buendia é um bom exemplo disso. Seguindo a Esquirol, o médico bogotano descreve a monomania como uma lesão parcial da inteligência, das faculdades afetivas e da vontade e a divide em três espécies: a monomania intelectual, constituída por ideias delirantes circunscritas, por associações viciosas dessas ideias e por ilusões que presidem aos raciocínios; monomania afetiva, na qual o raciocínio não está alterado, mas existe uma perversão das faculdades morais e afetivas (moral insanity, dos autores ingleses) e monomania instintiva ou impulsiva na qual o raciocínio e os sentimentos estão bem, mas a vontade é impotente para resistir às determinações afetivas e intelectuais. (BUENDÍA, 1893, p. 5)
Sobre a classificação das monomanias, Buendia argumenta que boa parte das dificuldades no estudo da patologia mental se devia precisamente à multiplicidade de classificações, dado que cada autor tinha a sua própria. É muito difícil, afirma, para aquele que consulta vários autores saber que correspondência têm entre si as diferentes descrições e as várias nomenclaturas. Afinal de contas, a classificação escolhida por Buendia é muito mais conveniente que metódica. Segundo ele, Esquirol era, para esse momento, o autor mais aceito e aquele que resumia melhor -em três grandes grupos- as variedades possíveis das monomanias.
Conforme Buendia, a monomania era uma doença comum na Europa, sendo que uma terceira parte da população que se encontrava nos hospícios sofria dela, pelo contrário, na Colômbia, a maioria das pessoas asiladas nos manicômios sofria de loucuras tóxicas devidas ao alto consumo de álcool e de chicha27. No entanto, assegura, que a falta de estatísticas e de estudos sobre o tema, não permitia saber a frequência
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real dessa doença entre os internados e, ainda menos, entre a população geral.
Apesar de que Buendia compartilhe com Esquirol sua definição de monomania e sua classificação, a maneira como entende a etiologia das monomanias em geral e, especificamente, das monomanias impulsivas, que são seu objeto de estudo, aproxima-o aos conceitos dos degeneracionistas28. Para ele a principal causa das monomanias impulsivas se devia à herança dissimilar.
Em sua opinião, esse tipo de herança cumpria um papel de primeira ordem na gênese das monomanias.
Não se pode dizer que todo monomaníaco engendra um monomaníaco, isto é, que a herança seja sempre similar: há casos em que isto se observa, mas é muito raro. A monomania suicida é um exemplo de transmissão similar [...] É mais frequente encontrar entre os progenitores de um monomaníaco, indivíduos neuropatas, desequilibrados, excêntricos, epilépticos ou loucos. Por isto, entendesse por monomania hereditária não aquela que provêm de uma herança semelhante, mas aquela que é causada pela transformação sucessiva de um estado patológico do sistema nervoso, estado que se
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Segundo o historiador espanhol Ricardo Campos Marín, para o caso espanhol a aceitação da doutrina degeneracionista implicou o abandono paulatino da doutrina das monomanias e estou gerou, segundo aponta Campos, que durante os primeiros anos de apropriação do degeneracionismo na Espanha (1876-1900) os conceitos próprios à teoria da degeneração fossem usados comumente nos tribunais, mas que encontrassem resistência na prática clínica. Campos afirma que isto se explica porque durante esses anos, o alienismo espanhol esteve fortemente influído pela monomania como forma de explicar a natureza da doença mental e porque parte da legitimação da profissionalização da psiquiatria estava sustentada na tentativa de demonstrar a curabilidade da loucura, pelo que era difícil que os médicos aceitassem a teoria da degeneração, teoria ligada à incurabilidade da doença mental. Aceitar esta teoria significava ir contra os interesses científicos e econômicos, pôr em perigo as instituições que dirigiam, as quais estavam destinadas a clientes que procuravam e aos que se oferecia tratamento e cura. Se os alienistas eram mais receptivos ao degeneracionismo em suas intervenções nos tribunais, foi, segundo Campos, pela repercussão pública desse discurso e o papel social que representava nesse cenário. Para ele, a utilização do degeneracionismo nos tribunais durante esse período foi instrumental. (CAMPOS, 1999).
modifica com a influência generativa (BUENDÍA, 1893, p. 7).
Na psiquiatria clássica de Pinel e Esquirol29, o problema da herança estava presente como um elemento mais, junto com outras causas como a influência da educação na infância, as crenças políticas ou religiosas, os amores contrariados, a leitura de livros fantásticos, o temperamento ou a presença de outras doenças como a sífilis, a epilepsia ou as febres, entre outras. Não existia uma hierarquia causal, pois do que se tratava era de descrever um conjunto complexo de circunstâncias que se articulavam de um modo particular para produzir a doença. (CAPONI, S., 2012b; PESSOTTI, 1996)
No que se refere à herança30, Pinel, em seu Traité Médico- Philosophique sur l’alienation mentale (1809) afirma, que em alguns casos, a alienação mental pode ser produzida por uma lesão orgânica ou por uma disposição hereditária. A alienação originaria ou hereditária, é um tipo de mania produzida por uma disposição hereditária que se
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Tanto em seu artigo “Folie” publicado no Dictionnaire das Sciences
Médicales de 1816 quanto em seu livro Des maladies mentais considérées sous les rapports médical, hygiénique et médico-légal (vol.1) de 1838, Esquirol
menciona dentro das causas físicas da loucura a herança como causa predisponente mais comum. Baseando-se em estudos estatísticos realizados com os pacientes dos asilos, ele encontra que essa causa, entre muitas outras, se apresenta com mais frequência. Note-se que se trata de uma causa predisponente e não de uma causa única. (1838, 1816).
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Segundo o pesquisador Mauro Vallejo a herança em Pinel, era impensável. Vallejo argumenta que ao final do século XVIII e durante as primeiras décadas do século XIX na França o discurso da higiene se estabeleceu como o marco explicativo capaz de habilitar, mediante sua insistência na prevenção, um conjunto de ferramentas terapêuticas para uma medicina que se mostrava incapaz de confrontar com êxito os desarranjos e as patologias. Esse paradigma médico explica o tratamento moral de Pinel e sua caracterização da alienação. O campo da higiene foi, segundo este pesquisador, a fonte do tratamento moral, de um lado, porque deu significação a noções como as paixões, e por outro lado, porque possibilitou localizar as duas técnicas de tratamento usadas por Pinel, isto é, a repressão e o uso coercitivo do dispositivo asilar, como duas derivações necessárias dentro de uma medicina higienista. As teorias de Pinel fizeram eco da medicina higiênica, que reduzia a práxis galênica a uma tarefa de controle e regulação dos hábitos e dos estímulos. A procura pela moderação das paixões foi a tarefa principal. Razões pelas que a herança só podia ser para o alienismo um elemento difuso e secundário (VALLEJO, 2012).
manifesta de maneira contínua ou intermitente por diversas causas relacionadas com a vida do paciente. Segundo ele, o caráter hereditário da mania não se podia negar, especialmente quando se observava sua presença em gerações sucessivas (PINEL, 1809, p. 13).
Tanto para Pinel quanto para Esquirol, a herança é de tipo similar ou por semelhança, isto é, de pais monomaníacos, nascem filhos monomaníacos, sendo que a doença pode ou não manifestar-se dependendo da presença de outras causas. Pelo contrário, para os degeneracionistas, a herança de tipo dissimilar ou herança de transformação é o eixo central e a causa principal das doenças mentais.
Vários autores31 têm apontado que a teoria da degeneração se sustenta na ideia segundo a qual a herança não se limita à transmissão do similar, mas que pode ser produtora de mudanças e de agravamentos, até estados malsãos, que presentes nos pais, aparecem nos filhos com uma gravidade crescente, por efeito dessa transmissão geracional. Esta ideia se torna teoria médica com o Traité des Dégénérescences Physiques, Intellectuelles et Morales de l’Especie Humaine de Benedict- August Morel publicado em 185732.
Em Morel a herança mórbida ou patológica será ao mesmo tempo o principio etiológico que define um tipo específico de loucura, denominada por ele como “loucura hereditária” e a condição necessária e dinâmica das doenças mentais. A herança é o principio de distribuição e desenvolvimento de todas as patologias mentais. (DORON, 2011, p. 1338).
Esse processo se inicia com uma causa predisponente que provoca padecimentos mentais pouco graves, mas que se transmitem aos descendentes. Esta predisposição produzirá uma doença nervosa que na presença de uma causa determinante física, social ou moral, levará inevitavelmente ao aparecimento de uma nova doença mental que se transmitirá aos descendentes como uma nova predisposição hereditária. Neste ciclo, o que se repete ou transmite não é a mesma doença, mas uma série de predisposições e manifestações previsíveis e sempre mutáveis (CAPONI, S., 2012b, p. 90). Daí que, de pais monomaníacos
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Ver, entre outros estudos: (CAPONI, S., 2012b; COFFIN, 2003; DORON, 2011; FOUCAULT, 2007; SERPA, 2010; VALLEJO, 2011)
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Segundo o pesquisador Mauro Vallejo, o papel e o funcionamento da herança e sua relação com a teoria da degeneração se fará muito mais claro e evidente em um livro posterior do mesmo Morel, publicado em 1859, intitulado
Des caractères de l’hérédité dans les maladies nerveuses (VALLEJO, 2011, p.
podem surgir, já não somente monomaníacos, mas também, dementes, idiotas, alcoólatras, etc., com diferentes estigmas físicos e morais.
Na Colômbia, a tese de Buendia, representa um dos primeiros textos33 em que os conceitos da teoria da degeneração começam a ser aplicados para explicar as doenças mentais e para se referir a certo tipo de indivíduos que apresentam determinadas características.
Voltando a Buendia, se entende então, que para ele a etiologia das monomanias tem como explicação principal essa herança dissimilar, sendo que causas como a leitura de livros excitantes, as desgraças familiares, as preocupações do espírito ou a exaltação religiosa, são simplesmente causas ocasionais. Desta maneira, a tese de Buendia se encontra a meio caminho entre uma concepção esquiroliana e uma postura tipicamente degeneracionista. Esta postura se faz mais evidente quando Buendia analisa as monomanias impulsivas, concretamente as de tipo homicida. Segundo Buendia,
A herança que traz essa degeneração intelectual
ingênita [grifado nosso], que se tem chamado
também de idiossincrasia nervosa, é a causa mais comum, aquela que tem grande importância por ser a mais frequente, ou que se apresenta sempre no passado mórbido e nos antecedentes da família dos monomaníacos. A maioria destes doentes têm entre seus progenitores neuropatas, epilépticos, histéricos ou loucos, pelo que, trazem ao nascer
uma organização mental doente [grifado nosso],
que nas primeiras épocas da vida não se revela com traços apreciáveis, mas na medida em que, com a organização física se desenvolve também o organismo intelectual, começam a aparecer os sinais desse vicio congênito, que com o tempo se torna mais e mais aparente; revelando na infância a perversão dos instintos, a excentricidade dos sentimentos e dos gostos, e, sobretudo, a inferioridade do juízo e do sentido moral. Na juventude estes defeitos da constituição intelectual se fazem mais evidentes, e se manifestam pela superficialidade do espírito, pela inconstância do
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O primeiro trabalho que incorpora como teoria fundamental de suas explicações a teoria da degeneração foi escrito em 1890 pelo médico colombiano Lisandro Reyes, intitulado Contribution a l’Etude de l’État mental
caráter e das ideias e pela singularidade dos hábitos (BUENDÍA, 1893, p. 17)
Este trecho mostra com mais clareza a permeabilidade das ideias degeneracionistas nos argumentos de Buendia. De um lado, a maneira como a herança permite delimitar junto ao indivíduo degenerado seu grupo familiar e as transformações mórbidas que afetam as diferentes gerações. E, por outro lado, a definição dos sinais, das marcas ou dos estigmas que se apresentam nos degenerados prematuramente, que são cada vez mais apreciáveis na medida em que as perturbações se acentuam e que permitem identificá-los.
Uma das observações feitas por Buendia pode exemplificar melhor sua postura teórica. A ideia de que as monomanias são lesões do entendimento, da inteligência, ou da vontade, e ao mesmo tempo, sua decisiva característica hereditária e degenerativa.
O senhor D, de 40 anos, é filho de pais alcoólatras, um dos quais morreu a causa de uma crise de delirum tremens. Uma de suas irmãs é histérica e a outra sofre de epilepsia. D é solteiro e tem um filho de 4 anos, que segundo Buendia, “tem uma cabeça extremadamente grande, fala imperfeitamente, caminha com dificuldade e se enfurece sem motivo, em uma palavra, tem todas as características dos degenerados [grifado nosso]” (BUENDÍA, 1893, p. 29). Quando D era criança sofreu um violento traumatismo na cabeça, do qual conserva uma cicatriz na região parietal direita. Tempo depois, foi mordido por um porco no braço direito, que lhe deixou também uma cicatriz. Desde sua juventude padeceu de dores fortes de cabeça que duravam até três dias, períodos nos quais mudava constantemente de caráter, mostrando-se contente e depois irritado, sem motivo nenhum. O único vício de D era o álcool. É excêntrico, misantropo, reservado e iracundo; não sabe ler nem escrever e sua inteligência é mediana. O dia 3 de dezembro de 1891, D teve seu primeiro surto de delírio, consumando um fato criminoso que o levou perante a justiça. Na madrugada desse dia, D se sentiu mal e pediu para seu vizinho e amigo ajuda, pois se encontrava com muita vontade de “matar alguém”. O vizinho não levando a sério suas palavras o enviou de novo para sua casa. Nas primeiras horas da manhã D ia para a casa de seu amigo e no caminho encontrou-se com um vendedor de ovos, a quem matou violentamente com um pau. Consta nos autos do processo que D não conhecia a sua vítima, pelo que carecia de motivo para a execução do ato. Depois de ser conduzido ao presidio, D foi sometido a vários inquéritos e exames por parte de dois médicos que asseguraram
se encontrava em pleno uso de suas faculdades intelectuais, falava sobre sua doença e recordava o crime cometido.
Segundo Buendía, a conservação perfeita da memória demonstrava que nem o alcoolismo nem a epilepsia influíram em D para