1. A PRESENTAÇÃO
1.3 Os caminhos da prática da entrevista: a hibridização entre jornalismo e ciência
1.3.3 Leonor Arfuch e Paul Thompson: as verdades acessadas
Para Leonor Arfuch o desenrolar conjunto de práticas voltadas ao registro e à publicação de vidas ou experiências íntimas, na mídia e nas ciências sociais, teria gerado muitos produtos híbridos e um questionamento perturbador:
Num mundo em que o jornalismo se torna cada vez mais especializado, em que a divulgação científica e o discurso acadêmico, que inclusive podem remeter ao mesmo enunciador, estão separados frequentemente só por sutilezas da linguagem, em que a pesquisa jornalística costuma abordar temáticas e empreender caminhos próximos à sociologia ou à antropologia e as ciências sociais não podem se abstrair, por sua vez, dos usos e lógicas midiáticas, as fronteiras discursivas, nunca tão nítidas, se entrecruzam sem cessar. (2010, p.241)
Dada a dificuldade de estabelecer as fronteiras dos usos dos relatos orais entre os dois campos, abrir-se-ia, para a autora, a possibilidade de um questionamento rigoroso às pesquisas sociais embasadas nos relatos orais: a investigação acadêmica, afinal, ter-se-ia tornado jornalismo?
Isso porque as diferenças epistemológicas do uso dos relatos em pesquisa – a elaboração prévia de um projeto de acordo com pressupostos teórico-metodológicos específicos; a coleta delimitada por um projeto criterioso; a elaboração de um corpus que seja representativo; o trabalho de análise atrelado a determinados objetivos; e, finalmente, a difusão restrita ao universo acadêmico – não seriam suficientes para distinguir os dois usos mediante a constatação de um postulado comum:
[...] a ideia de que é possível conhecer, compreender, explicar, prever, e até
remediar situações, fenômenos, dramas históricos, relações sociais, a partir
das narrativas vivenciais, autobiográficas, testemunhais dos sujeitos envolvidos [...]. Democratização da palavra, recuperação da memória do povo, indagação do censurado, do silenciado, do deixado de lado pela história oficial ou, simplesmente, do banal, da simplicidade, frequentemente trágica, da experiência cotidiana: eis aqui o imaginário militante do uso da voz (dos outros) como dado, como prova e como testemunho de verdade, científica e midiática. (p.250)
A pesquisa acadêmica, ao fazer uso de tais procedimentos, correria sempre o risco de estabelecer um campo de problemas dados como reais e verdadeiros a priori, fazendo de seus objetivos tão somente a denúncia dos males sociais e o clamor pela supressão das insuficiências institucionais, ao modo do que fazem as práticas jornalísticas, muitas vezes resvalando no sensacionalismo.
Para evitar esses perigos, Arfuch apela para a consciência necessária, da parte do pesquisador, de que toda narrativa que fazemos de nós mesmos seria, em alguma medida, uma construção, uma ficção necessária. Partir dessa premissa seria o meio de garantir à pesquisa sua diferenciação por meio de um questionamento constante em relação à legitimidade dos relatos e a seu teor de evidência, com vistas a evitar efeitos indesejáveis tais como a absolutização representativa da fonte, a supervalorização de personalidades ou, no caso de uma pesquisa com grupos específicos, a participação em um processo de exclusão social pela afirmação de suas diferenças.
Mas como seria possível concretizar essa consciência? Para apontar a referencialidade enganosa dos relatos, a autora propõe que se dê à mostra constantemente, no caso de estudos em que o foco é o relato pessoal, a dinâmica entre entrevistador e entrevistado; e, para os casos em que o foco é uma coletividade ou um tema público, um cuidado adicional: o cruzamento de relatos de origens sociais diversas. Demonstrar-se-iam, assim, não conteúdos
carregados de evidências históricas, mas lógicas comunicacionais a partir das quais os sujeitos e as coletividades construiriam sua própria singularidade. Essa análise, a que Arfuch dá o nome de pragmática, em contraposição à conteudística,
permite se aproximar da interação entre os sujeitos por meio de sua inscrição discursiva, do modo como suas posições, suas vozes, seus pontos de vista, seu espaço\temporalidade se constroem nos próprios enunciados, para além de sua intencionalidade manifesta ou hipotética e de suas características reconhecíveis enquanto “sujeitos empíricos” – não somente no dito, na frase sintaticamente articulada, mas na interjeição, no desvario, no silêncio, no corte, na mudança de assunto, na omissão. Estar atento a essas vibrações – inclusive duplamente o entrevistador sobre si próprio –, que também são da ordem do corpo, aproxima de certo modo o pesquisador da escuta psicanalítica, desse estar ao pé do “muro da linguagem” [...], num estado de “atenção flutuante” que permita apreender o que acontece fora do questionário. (p.270)
A atenção do pesquisador, assim, alcançaria estatuto científico por meio da atribuição não de um conteúdo sobre a realidade do mundo, mas de um conjunto de relações que conformariam sua própria subjetividade, fosse ela individual ou coletiva. Daí a defesa de Arfuch de uma escuta psicanalítica da parte do pesquisador – atenta às omissões, aos silêncios e às hesitações.
Dessa maneira, o uso dos relatos orais feito pelas ciências sociais e história oral, ameaçado pela acusação do subjetivismo de suas fontes (a ilusão biográfica), busca nesse mesmo subjetivismo sua legitimidade. A entrevista seria um meio de acessar não a verdade dos fatos, diretamente, mas uma verdade ainda maior, já que escondida: aquela que elaboraríamos para nós mesmos como sujeitos individuais ou como coletivo. Não se trataria de atribuir uma verdade a priori sobre a realidade, como o fariam os jornalistas, mas de uma análise que acessaria a verdade de nós mesmos, entidades ficticiamente reais. Daí a tese de Arfuch de que o espaço conformado pela miscelânea de gêneros biográficos em profusão em nossa sociedade permitiria perceber dilemas próprios dessa misteriosa entidade anunciada no subtítulo de sua obra: a subjetividade contemporânea.
Portadores de uma realidade supostamente mais verdadeira ou de constructos formados por todos e cada um de nós, os relatos biográficos extraídos por meio das entrevistas exercem um fascínio cada vez maior na mídia, nas ciências sociais e na historiografia. Daí aventarmos a hipótese, nessa circulação dos discursos, da sedimentação de um modo cada vez mais presente de atribuir um caráter cabal de veridicção aos discursos: a verdade vivida, pela via do testemunho. Que argumentos, afinal, poderiam refreá-lo, se mesmo seu relativismo torna-se, com o apoio da psicanálise e de outros campos do saber
como a análise do discurso, a potência de seu teor de verdade? Verdade não só do sujeito como também do tempo?