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Segundo recorte: o corpo produtivo do escritor

4. T RÊS TRAJETOS EM TRÊS TEMPOS : o século dos escritores

4.2 A escrita dos escritores

4.2.2 Segundo recorte: o corpo produtivo do escritor

Próximos da década de 1940, mais especificamente no ano de 1939, o inquérito literário realizado pelo jornalista José Benedito Silveira Peixoto nos dá mostras de outro endereçamento à relação entre o escritor e sua prática. A novidade é patente no fato de que o

53 RIBEIRO, João. Entrevistador: João do Rio. O momento literário. Rio de Janeiro: Livraria Garnier, s/d, p.21. 54 COELHO NETO. Entrevistador: João do Rio. In: RIO, João do. O momento literário. Rio de Janeiro:

jornalista reserva toda uma seção de interrogações que não se encontram nos inquéritos anteriores, como: qual a hora em que, regra geral, você sente melhor disposição para

escrever?; como você prefere escrever? a tinta, a máquina ou a lápis?; precisa de excitantes para escrever?; tem um ambiente adequado para escrever?; revê os seus textos? (PEIXOTO,

1971a), às quais respondem os escritores:

– À noite. Devo, entretanto, dizer que é pela manhã, ao fazer a barba, que penso e concateno as ideias sôbre o que deverei escrever, à noite. Gasto uma hora fazendo a barba e passando a limpo, no cérebro, uma crónica, uns versos, alguma coisa que tenha desejo de transportar para o papel. Quando, porém, tomo da caneta... Ah, meu caro!... Sou um torturado, ao escrever. – Torturado?!

– Sim, torturado! Jamais pude escrever um soneto, assim de um só arranco. Nunca me foi dado escrever sequer uma crónica de um só jato. Os meus originais são verdadeiros logogrifos.

– Como você prefere escrever?

– Escrevo com caneta-tinteiro, com tinta roxa. – Por que roxa?

– Acho mais repousante, para a vista. Deixe-me lhe dizer que não sei escrever sôbre uma escrivaninha, ou mesa. Tenho uma cadeira especial, com braços suficientemente largos, para que aí possa colocar os cigarros, o sifão, a garrafa de whisky, o gêlo. Tomo da prancheta (só sei escrever na prancheta), ponho a cadeira perto da janela (preciso de paisagem, principalmente de céu, para produzir alguma coisa), acendo a lâmpada do “abat-jour” e, então sim, começo a rabiscar... E é fumando, fumando sem parar, é bebericando whisky, é olhando o céu, que vou escrevendo.55

Aí estão, a um primeiro olhar, os temas e as questões implicados no processo criativo dos literatos, tal como o conhecemos hoje. A elaboração e ruminação da ideia antes de chegar ao papel, as sensações e dificuldades enfrentadas diante da página em branco e, um dado um tanto curioso e muito constante neste momento, uma espécie de preparação ou de cerimonial detalhado da escrita: os horários, a postura corporal, o espaço, a dieta e a mobília, todos elementos crivados de acordo com uma apropriação, ou não, a determinado gesto. Estaríamos, portanto, no que diz respeito àquilo que vimos perseguindo aqui, em um momento bastante diverso daquele do alvorecer do século, em que pouco ou quase nada se dizia sobre a prática em si da escrita. Distantes de um primeiro momento, não estaríamos, no entanto, defronte à conformação daquilo que veremos mais adiante sob a noção geral de processo criativo. Aqui, mais do que lá, o que está em questão, como já nos dá indício a resposta anterior, é a relação do escritor com sua prática numa chave fisiológica, isto é, uma relação em que o que está em pauta é mais a capacidade produtiva do corpo do escritor, à maneira do que já se anunciava, de modo incipiente, nos inquéritos anteriores. Daí a ênfase, nesse momento, de uma relação

com a escrita em termos da superfície dessa prática, daquilo que acarretaria como atividade produtiva, como trabalho, como atividade. São observações como a que segue:

Observei que a alimentação afeta profundamente a produção intelectual. O excesso de comida diminui a atividade do raciocínio e a sensibilidade e a intensidade anímica do homem. O álcool aumenta a atividade emotiva, acorda o inconsciente e, no início da libação alcoólica, ativa o raciocínio. Porém, o álcool envenena o organismo e diminui sua durabilidade; em consequência, diminui, também, a percepção e a sensibilidade do homem. O lampejo de clarividência que, às vezes, é obtido com o álcool, não compensa os efeitos nocivos posteriores que daí resultam. Aliás, essa clarividência pode ser obtida por outros meios, como, por exemplo, mediante uma disciplina de abandono da rotina e certos processos de livre associação de ideias. A clarividência é, em suma, consequência do contraste, ou do contrário da monotonia. Seguindo a rotina normal do dia do homem de hoje, creio, no entanto, que as horas da manhã são as melhores para o trabalho.56

Um dado curioso sobre esse caráter superficial da discussão a respeito da escrita, é que toma bastante espaço, nesse momento, a discussão sobre o instrumento mais apropriado para escrever. Os interrogados elaboram uma série de justificativas em torno de suas preferências. Assim, a máquina de escrever seria mais adequada, por permitir a visualização mais limpa e final do texto, além de propiciar maior rapidez à produção; a caneta borra, deixa nódoas, e torna confuso o pensamento;

o lápis não precisa de interrupções para beber tinta, nem sofre engasgos e nem faz borrões como a caneta-tinteiro e seu trabalho não é atordoante e sincopado, como o da máquina de escrever. É o mais fiel dos registradores do pensamento.57

Não se pode deixar de referir aqui uma mudança significativa do universo literário. Cerca de 40 anos após o inquérito de João do Rio, a quase totalidade dos escritores entrevistados por Silveira Peixoto no final dos anos 1930 tinha sido ou ainda era composta por funcionários do sem-número de redações que vigoraram no país até então. São Gazetas,

Folhas, Tribunas, Diários, uma profusão de periódicos que figuram nos depoimentos de

agora. O novo homem de letras prenunciado por João do Rio, aquele que, fosse por meio do ofício jornalístico, fosse da publicidade que este proporcionava, garantiria não apenas seu sustento, mas também seu lugar e sua função sociais, ocupa agora o centro do palco. Um dos depoentes, também jornalista, dá um exemplo bastante claro de tal mudança, bem como daquilo que ela representaria para o estatuto do escritor, ao relembrar a desaprovação de suas tendências literárias por parte de seu pai:

56 CARVALHO, Flávio. Entrevistador: Silveira Peixoto. In: PEIXOTO, Silveira. Falam os escritores. v. 3, São

Paulo: Secretaria da Cultura, 1976, p.124.

57 LEAL, Alberto. Entrevistador: Silveira Peixoto. In: PEIXOTO, Silveira. Falam os escritores. v. 3, São Paulo:

– Você disse que seu pai não gostava muito...

– É. Ele fez tudo para curar-me o sarampão da literatura. Dizia-me, a cada passo: “Nada de caraminholas, meu filho! É o comércio que deves seguir. No Brasil, quanto mais burro mais peixe”. Pouco depois, aí por 1918, quando, no Rio, procurava conciliar o estudo com o trabalho, as advertências paternas vinham mais rijas e diretas: “Manda ao diabo os livros, rapaz! Olha que as letras não dão nada neste país. Os homens da pena vivem na maior miséria, enquanto os meus patrícios, agarrados ao balcão, ficam podres de rico!” E enfileirava exemplos: de um lado, os comendadores empanturrados de dinheiro e de importancia social; de outro, os literatos, pingando miséria, e faziam ponto no Garnier e na porta do Jornal do Comércio. Devo dizer que, tendo chegado muito moço ao Rio, meu pai guardava bem presente o quadro da vida intelectual dos fins do Império e do começo da República. Sabia de ciência certa como viviam os Patrocínios, os Guimarães Passos, os Bilacs, os Murats, naquele período de singular efervescência, quando o homem de letras admitia, como única forma de rebeldia contra o convencionalismo, fazer o contrário do que faziam os escravos desse convencionalismo. O homem comum tomava banho e vestia-se bem? O homem de letras vivia sujo e mal vestido. O homem comum, ou seja, o filisteu, era temperante? O homem de letras encharcava-se de cachaça. O homem comum, ou seja, o burguês punha todo o brio na pontualidade com que saldava as dívidas? O homem de letras, mesmo quando podia, não as pagava. Diante disso, é de estranhar que meu pai temesse pelo meu futuro, vendo-me caminhar para uma classe tão desmoralizada?

– Ele estava com a razão...

– Estava, sim. É certo que, em 1915, as coisas já estavam um tanto mudadas. Datam de então as transformações radicais que ia sofrer a vida intelectual no Rio. Estava prestes a desaparecer o poeta das mesinhas de café. A Grande Guerra apontava rumos novos até ao literato. E é isso que você está vendo agora: os escritores já moram, já almoçam e jantam, já têm esposas e filhos. Os homens de letras não vêem mais na vida boêmia – boêmia no pior sentido – um ato fecundo de rebeldia; a rebeldia transpõe-se da vida para as ideias.58

O que importa assinalar agora é que o fato de o problema da escrita estar inserido nesse contexto de indistinção entre literato e jornalista talvez explique o acento técnico dado à questão neste momento, hipótese que se confirma em referências recorrentes ao universo de trabalho das redações: seus espaços, funções e instrumentos, como se vê na narrativa abaixo, uma entre tantas semelhantes desse período:

– Exatamente. Logo me pegaram para redatoriar o jornalzinho. Acadêmico de Direito em férias, vi naquilo uma oportunidade para fazer figura, terçando armas com os adversários da imprensa local. E comecei a escrever... Mas o fato era que, além dos artigos políticos e da indefectível crónica social, necessário se tornava arranjar “enchimento” para uma porção de outras colunas. Foi então que, premido por essa circunstância, debandei a escrevinhar uns contos, cujos heróis eram tipos pitorescos, apanhados ao vivo, ali mesmo na província. Os contos agradaram, e quando eu passava

pelas ruas muitos eram os que vinham comentar comigo aquelas histórias ingénuas e despretensiosas. Um dia...59

Em suma, nesse primeiro momento de aproximação à questão da prática da escrita per

se, o que mais atenção recebe tanto do entrevistador quanto do entrevistado são as feições

técnicas da escrita, sua relação com o corpo, com o tempo e com os materiais do escritor.