CUIDADO EM SAÚDE DO LESADO MEDULAR
LESADO MEDULAR E O VIVER COM DIGNIDADE
A dignidade está vinculada à autonomia do homem que se governa com retidão e honra. Todo ser humano tem o direito de viver com qualidade e dignidade. Viver sem a presença desse binômio é sobreviver. O lesado medular enfrenta diariamente o desafio de viver dignamente. Mesmo que ela possua uma condição de corpo saudável, a vida pode se apresentar difícil de ser vivida. Imaginar uma situação na qual existe o comprometimento da sensibilidade e mobilidade dos membros superiores e/ou inferiores torna a vida completamente diferente, nas questões mais simples do dia a dia.
São diversas as dificuldades enfrentadas diariamente pelo lesado medular, com paraplegia ou tetraplegia. Os cuidados antes rotineiros e quase mecânicos se tornam uma maratona com etapas a serem vencidas. O que se fazia sem pensar, automaticamente, passa a ser planejado e executado com dificuldade e lentidão.
O lesado medular necessita levantar mais cedo, pois seus cuidados com a higiene pessoal exigem mais tempo; realizar o cateterismo vesical, um procedimento invasivo, limpo e com riscos. Devido a isso o lesado medular e sua família devem receber orientação e treinamento de enfermagem.
O cuidado de esvaziar a bexiga deverá ser repetido seis vezes ao dia. Para uma pessoa hígida o ato de esvaziar a bexiga é realizado espontaneamente. A próxima etapa é a de se vestir, de preferência, com roupas confortáveis, devendo tomar o cuidado para que as costuras fiquem viradas para fora, a fim de evitar lesões na pele. A roupa deve ser adequada à temperatura ambiente, principalmente a utilizada nos membros inferiores por serem os mais frios, pois a do lesado medular não tem o controle da temperatura corporal. O calçado deve ser confortável e macio. O banheiro para o seu uso deve estar adaptado com portas mais largas para que ela possa chegar até a pia e abrir a torneira. Quando a pessoa é tetraplégica, a escova de dentes deve ter seu cabo adaptado, como também outros acessórios necessários à higiene.
A segunda etapa é o café da manhã que deve ser nutritivo, rico em fibras e com frutas laxativas para auxiliar no funcionamento do intestino. Os utensílios devem ser adaptados, visando a independência do lesado medular.
Na etapa seguinte a pessoa que desenvolve alguma atividade como estudar ou trabalhar separa o material que irá utilizar durante o período em que estiver fora de casa; o material que ela usa para autocaterismo, já é preparado com antecedência, ela e/ou o cuidador separará algumas toalhas higiênicas ou fraldas se for o caso.
Já para a sua locomoção, ela precisa do auxílio de alguém para ir até o carro, para desmontar a cadeira ou para ir até o ponto de ônibus. A cadeira ideal deve ter pinos que facilitem a movimentação sem precisar do auxilio de alguém. Quando se tem condições financeiras utiliza-se de uma almofada importada com o objetivo de proporcionar um maior alívio da pressão no glúteo e ísquio.
No trabalho, na escola ou na universidade surgem muitas dificuldades, falta de estacionamento e/ou vaga para deficientes utilizada por carro que não é de pessoa com deficiência. A Lei Federal 10.098 de 19 de dezembro de 2000, no artigo 7 estabelece 2% do total de vagas dos estacionamentos para serem utilizadas exclusivamente por veículos com pessoas com deficiência (BRASIL, 2000). Salas com portas estreitas, rampas de difícil acesso e íngremes, banheiros não adaptados ou mesmo longe das salas de aula. Tudo isso são empecilhos para que a do lesado medular possa se locomover melhor e adaptar-se a nova vida. Na sala de aula deve-se ter um lugar fixo, adaptado a sua necessidade e seus colegas de turma devem ser solidários para ajudá-la. Ao executar as atividades de escrita ela é mais lenta que os demais, o que a faz levar mais tempo para
concluir algumas tarefas, por isso é necessário a compreensão de todos. A quarta etapa se inicia após o almoço. É importante que depois da refeição, o lesado medular descanse um pouco para diminuir o edema dos pés. É aconselhável que ele faça atividades físicas para fortalecer a musculatura dos membros superiores e/ou inferiores, uma vez que os utiliza para a locomoção. Uma situação financeira favorável proporciona o uso de academias e a contratação de um personal trainer que a acompanhe nas atividades, mas infelizmente esta não é a realidade de muitas pessoas com essa deficiência.
Há outras dificuldades que poderão ser encontradas quando o lesado medular for passear, pois pode se deparar com barreiras que não atendam suas necessidades de cadeirante, tais como, prédios sem elevadores, ruas sem rampas, ônibus não adaptados, exemplos de constrangimentos que poderiam ser evitados se houvesse o cumprimento da legislação.
No final do dia, no retorno do trabalho, da escola ou da universidade há mais uma etapa a ser vencida. Neste momento chega a hora do banho e da evacuação, e ele poderá necessitar do auxílio de um familiar ou de um cuidador. Pode ser necessário o uso de laxantes na evacuação, juntamente com massagens abdominais e estímulo retal por meio de toque para estimular o relaxamento do esfíncter anal.
Sugere-se que o cuidador, na hora do banho, faça uma massagem na pele e utilize um óleo ou um produto que auxilie na hidratação para ativar a circulação dos membros inferiores. Nessa hora é aconselhável também, inspecionar lesões pelo corpo, pois há o risco de desenvolver úlceras de pressão. Estas devem ser evitadas já que sua cicatrização é lenta, podendo levar mais de um ano para a cicatrização e recuperação da integridade da pele.
Chega então a etapa final do dia. É hora de descansar, e recolocar os pés em posição elevada. O lesado medular preferencialmente deve dormir em um colchão especial, a fim de evitar úlceras por pressão. Há necessidade de reposicionamento no leito a cada duas horas. Além disso, há que se ter cuidados para que os membros inferiores não fiquem excessivamente fletidos, pois isso diminui o retorno venoso e pode causar edema.
CUIDADOS EM SAÚDE DO LESADO MEDULAR