1 PRESSUPOSTOS TEÓRICOS
1.8 LETRAMENTO DIGITAL
A partir do invento das tecnologias digitais, entrou em cena uma nova demanda no campo da comunicação: a linguagem digital. Utilizada nas produções áudio visuais para fins de propaganda, entretenimento e informações institucionalizadas ou não, torna-se um grande chamariz para o público usuário de computadores e celulares, porém ainda alheia à maior parte dos aprendizados previstos pela escola.
Segundo Pereira (2017), atualmente o grande desafio das escolas, educadores e da própria sociedade civil é a exclusão ou analfabetismo digital. É necessário entender o que é importante e o que não é para promover um ensino que não fique alheio a esses desafios. Explica que a escola e seus participantes terão que enfrentar alguns problemas para superar tais dificuldades, problemas esses relacionados com a própria questão da evolução e mudanças no campo externo, tecnologia e no ambiente político.
Ao percorrer sua análise pelo campo da inclusão digital, o autor afirma que assim como não basta alfabetizar, sendo necessário letrar, ou seja, levar a ler e escrever dentro de um contexto onde a leitura e a escrita fazem sentido, também não basta que o indivíduo tenha apenas acesso aos recursos tecnológicos. A simples aproximação com os computadores, por exemplo, pode ser chamada de popularização ou democratização da informática. Porém é preciso ir além, buscando que se promova a sua inclusão digital.
Ao refletir sobre o termo digital, Pereira (2017, p. 16) nos explica que tal palavra está diretamente relacionada ao computador, pois são máquinas que trabalham com dígitos (números) “e significa, num sentido mais vasto, um modo de processar, transferir ou guardar informações.” Os números, então, seriam utilizados para representar qualquer informação, por exemplo, “uma mensagem escrita, uma fotografia, uma imagem, um vídeo, uma música, etc”. Todas essas informações são representadas digitalmente no computador.
Nas palavras do autor, portanto, inclusão digital é
um processo em que uma pessoa ou grupo de pessoas passa a participar dos métodos de processamento, transferência e armazenamento de informações que já são do uso e do costume de outro grupo, passando a ter os mesmos direitos e os mesmos deveres dos já participantes daquele grupo onde está se incluindo. (PEREIRA, 2017, p. 17)
Para Kenski (2012, p. 33), a linguagem digital, utilizando-se das diversas TICs criadas, fomenta mudanças nas formas de acesso à cultura, entretenimento e informação. Sua disponibilização, assim como seu uso expandido em diversos setores e para fins pessoais
revelam o poder que essas tecnologias conquistaram em diferentes âmbitos. Nas palavras da autora, tal poder “influencia cada vez mais a constituição de conhecimentos, valores e atitudes. Cria uma nova cultura e uma outra realidade informacional.”
Kenski (idem) também discorre sobre o híbrido tecnológico. Inicialmente, constitui-se como a convergência, nos ambientes digitais, entre a computação, comunicações e os tipos e suportes dos conteúdos (livros, fotos, filmes, músicas, textos). Então, para fazer circular as informações, articulam-se celulares, televisores, computadores e satélites. Esclarece-nos sobre a internet, pontuando seus aspectos positivos como a possibilidade de estar sempre em contato com outras pessoas, dialogando, pedindo ajuda, interagindo, evitando ficar sozinho frente ao computador. A internet seria o espaço onde nos conectamos com tudo aquilo que existe no espaço digital, chamado de ciberespaço. Este apresenta seu conteúdo próprio, com uma nova ética: a cibercultura.
Porém, a autora concorda com Pereira (2017) ao afirmar que toda essa interatividade requerida e proporcionada pelas redes digitais interligadas não está acessível a todos, fato que constitui, novamente, uma exclusão social. Tem acesso às informações aqueles que possuem condições e velocidade de navegação, pois podem beneficiar-se da visualização de vídeos e outros arquivos pesados.
De acordo com Pereira (idem, p. 17), é preciso que se domine a tecnologia da informação, saber operar na vasta gama de recursos que oferece em forma de softwares, internet, etc. Além de saber buscar a informação, é necessário “extrair conhecimento”. Alerta que no Brasil, as instituições escolares, professores e alunos estão excluídos digitalmente e que tal fato ocorre em outros países também, porém mais recorrente em países de terceiro mundo, onde as diferenças sociais são mais profundas.
Ainda explica que na Sociedade da Informação, o maior problema a ser atacado é o da falta de acesso à informação, como ocorre em áreas rurais distantes, por exemplo, onde não chegam revistas, jornais e livros, tornando o computador um artigo de luxo. Segundo o autor, a exclusão digital é um problema de segunda ordem que soma-se e agrava as exclusões social e econômica.
Já a convergência digital, conforme Pereira (2017), refere-se às
plataformas de redes de computadores para transportar essencialmente tipos similares de serviços; (...) dispositivos microprocessados (...) como: telefone, televisão, câmeras fotográficas e computadores pessoais; digitalização, fornecendo a rota para unificar meio e mídia. (PEREIRA, 2017, p. 18)
Os aparelhos podem estar integrados digitalmente em uma grande rede convergida. Isso se refere ao uso que fazemos do celular, por exemplo, em que podemos enviar fotos a partir dele ou conectar o notebook à televisão ou ao DVD. A convergência digital “possibilita o acesso à informação em qualquer lugar, a qualquer momento.” (PEREIRA, 2017, p. 19).
Esclarece também que a convergência digital nos permite acessar vários dados escolares importantes, por exemplo, ou poder escolher o nosso local de trabalho (no jardim, no shopping, em casa, etc). Ela já teria modificado radicalmente todos os setores da sociedade civil, pois os bancos se realinharam, com menos caixas, mais gerentes e podemos pagar boletos via internet, assim como fazer empréstimos e transferências. Afirma que essa virtualização também chegará no meio escolar com a implantação de escolas virtuais, por exemplo, o que poderia trazer benefícios de custo, tempo e espaço. Nas palavras do autor, “Temos que ter em mente que o processo de virtualização é a essência da Sociedade da Informação, porque a representação da informação não é física, nem abstrata, mas, seguramente, ela é digital.” (PEREIRA, 2017, p. 20)
Coscarelli (2017) acrescenta ideias imprescindíveis ao letramento digital e pontua que com o surgimento das novas tecnologias torna-se fundamental considerá-las e utilizá-las no processo educativo, visto que elas detonaram novas percepções sobre o conhecimento e outros formatos de texto, mais interativos, como os hipertextos. Numa sociedade marcada pelo digital, enfatiza ser necessário, portanto, uma alfabetização e letramento significativos.
Conforme nos explica Kenski (1999), a linguagem digital presente nesses textos não se apresenta na forma de narrativa contínua nem sequencial da escrita. Ela é descontínua e seu tempo e espaço são instantâneos, acontecendo no momento de sua apresentação. Ao tratar dos diferentes modos de apreensão do conhecimento, a autora traz a metáfora da árvore e do rizoma. A da árvore consistiria em compreendermos que nossa construção de conhecimento baseia-se sempre em um eixo maior, um “tronco” para o qual voltamos para fazer relações quando expostos a novas informações. Ocorre uma relação de decalque e reprodução, em que decalcar é retirar de um contexto já conhecido para transpor em uma outra situação. Nosso pensamento não compreende a multiplicidade, por isso precisaria de unidade principal forte que desse sustentação às ramificações.
Já na construção rizomática da compreensão, as conexões entre os pontos que levam ao conhecimento ocorrem durante todo o trajeto, como se fossem todas as pequenas ramificações de um rizoma (tubérculo) se interligando a cada informação nova. Os textos digitais, por sua vez, exigiriam e encaminhariam para esse tipo de compreensão, múltipla em suas possibilidades. De acordo com a autora, esse novo modo de construção do conhecimento, a
partir da interrelação e interconexão com diversos pontos que vão emergindo das redes da multimídia, acabam impondo a necessidade de novas formas de ensinar, impactando o trabalho docente.
Coscarelli (2017) também nos lembra que os textos digitais apresentam uma realidade dinâmica e virtual, mas que não são todos que têm a oportunidade de uma educação formal que lhes ensine a lê-los significativamente. Citando McLuhan (1964) afirma que tais textos apresentam a mensagem no formato de imagem audiovisual que possui grande capacidade de comunicação e entendimento do homem. Esclarece que hoje o processo educacional deve pautar-se numa abordagem inter-, trans- e pluridisciplinar dos conteúdos, abandonando o viés da fragmentação dos mesmos. A sistematização do conhecimento deveria se dar dentro desse novo mecanismo que considera a flexibilidade, a plasticidade, a interação, a cooperação e adaptação, fatores inerentes a qualquer situação de aprendizagem nos novos tempos.
Em Coscarelli (idem), a interdisciplinaridade é entendida como a união de duas ou mais disciplinas, dando forma a um discurso e linguagem novos e em outras relações de estrutura. A transdisciplinaridade considera a interdependência entre diversos elementos da realidade. Nessa perspectiva, o contexto teria papel fundamental, pois é ele que determina os objetivos e os aspectos da produção envolvidos no ato educacional, sendo que o texto é que representará a realidade e seu contexto.
A autora ainda alerta que apesar do uso de diferentes e novas mídias em algumas situações educacionais, o importante a se pensar é o elemento da interatividade, sem o qual não haverá alfabetização resultando na exclusão digital. Acredita-se que uma maior familiarização dos alunos com os meios tecnológicos contribui com a formação escolar dos mesmos. Porém, seria preciso atentar-se para “uma atitude ativa, reflexiva e construtiva sobre o conhecimento” (COSCARELLI, 2017, p. 90) para evitar que o único objetivo seja de abandonar instrumentos tradicionais como folha e lápis para incluir telas e teclados.