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Letramentos sociais e letramento ideológico

No documento Diamantina 2022 (páginas 30-33)

Apesar de antiga, continua latente a luta das mulheres contra a opressão e o preconceito. O discurso de que mulher é um sexo frágil e inferior ao homem, de que as mulheres não podem trabalhar fora de casa, porque lugar de mulher é no lar, cuidando da casa e da criação e procriação dos filhos, ainda é um discurso recorrente que mantém as mesmas em situação de opressão e subalternidade em relação aos homens, como é comum vermos em nossas famílias, em nossa vizinhança, nas manchetes de jornais, nas novelas da TV, em todo lugar. Silva (2020, p.73), com base nas discussões de Hooks (2017) sobre resistência e transformação das mulheres, esclarece que “(...) se faz importante destacar que os processos, de resistência à subalternização, protagonizados pelas mulheres, não necessariamente implicam em ultrapassar a opressão vivida nas interações que se estabelecem fora do território”.

Apesar das importantes mudanças ocorridas nos últimos anos, a exemplo da lei Maria da Penha3, as narrativas de violência contra a mulher extrapolam o autoritarismo do marido e chegam à violência extrema, como bem apontam os números de feminicídio no Brasil, agravados durante a pandemia de covid19. Segundo monitoramento feito por Um Vírus e Duas Guerras, fruto de uma parceria entre sete veículos de jornalismo independente, uma mulher é morta a cada nove horas no país4. O monitoramento foi feito em 20 estados do Brasil e detectou que, a cada 100 mil mulheres, o índice médio de feminicídio é de 0,34%.

3Lei 14.340, de 7 de agosto de 2006. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2004-2006/2006/lei/l11340.htm. Acesso em 02/03/2021.

4Disponível em: https://projetocolabora.com.br/especial/um-virus-e-duas-guerras/. Acesso em: 21 maio. 2021.

Não obstante muitas conquistas tenham ocorrido, como o voto, o divórcio, há ainda muito a ser feito, pois salta aos olhos o número de mulheres privadas de seus direitos.

Há indícios de que as mulheres vítimas das maiores violências tenham baixos níveis de letramento, além de outras questões como desamparo, desemprego, terror psicológico etc., que também podem ser fruto, em alguma medida, do baixo letramento.

Para além dessas estatísticas, a Constituição Federal (CF) de 1988 prevê no Art.5º, I –“Homens e mulheres são iguais em direitos e obrigações, nos termos desta Constituição”. Tal inciso fala da igualdade de gênero e revela que, independentemente de gêneros, somos, ou deveríamos ser, iguais em direitos. Para reiterar o respeito ao direito à educação, a constituição estabelece, em seu Art. 205, que “[a] educação, direito de todos e dever do Estado e da família, será promovida e incentivada com a colaboração da sociedade, visando ao pleno desenvolvimento da pessoa, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho”.

Como se percebe, o documento oficial assegura a todos o direito à educação, independentemente de cor, raça, sexo, orientação sexual, renda, idade e identidade de gênero.

Além disso, prevê a obrigação do estado na sustentação e garantia dos nossos direitos. Em consonância com a CF, a LDB, a Lei nº 10.639/035 que visa assegurar e valorizar a diversidade cultural especialmente na escola um dos lócus responsáveis pelo acolhimento e, conhecimento e valorização de vínculos históricos e culturais que não estão visibilizados nos currículos e no material escolar com o objetivo de trazer à luz sobre a modificação de repertórios que estavam cristalizados em seus currículos, fazendo-os presentes no dia a dia da escola e nos projetos pedagógicos desenvolvidos neste espaço escolar; desta forma não só integrando ao currículo, mas promovendo uma educação reflexiva e conscientizadora. Já a Lei 11.645/ 20086, que incluiu no currículo escolar o ensino da História e Cultura Indígena, uma vitória dos movimentos negros e indígenas cuja luta exigiu mudança nos conceitos preconceituosos e discriminatórios que eram mostrados em imagens e relatos nos materiais didáticos em relação a estes povos, reivindicando atitudes e pensamentos mais realistas e que registrem e divulguem como esta realmente, ou seja, uma história condizente com a história e cultura destes povos originários. Ao mesmo tempo, estas duas leis também confirmam a obrigatoriedade do estado de oferecer uma educação voltada para a equidade de gênero e raça nas instituições de ensino.

5 Disponível em: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/2003/l10.639.htm. Acessado em: 07 nov. 2022.

6 Disponível em: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2007-2010/2008/lei/l11645.htm. Acessado em: 09 nov. 2022.

Apesar de serem direitos assegurados legalmente, externalizo mais uma vez a importância de buscarmos esses direitos, pois trata-se de uma questão de sobrevivência, na medida em que nem sempre se concretizam. Nesse sentido, devemos lutar contra a opressão, em busca de letramentos que fortaleçam o debate sobre a valorização da vida e da igualdade de valor e de direitos, independentemente de raça e gênero.

Compactuando com esta linha de pensamento, entendo que as lutas para extirpar os estereótipos de gênero, direcionadas para a construção de uma sociedade que valoriza a igualdade de gênero, passam por práticas com a leitura e a escrita que compreendem não só o entendimento dos contextos das lutas como também a operacionalização das ações contra o opressor. Ademais, é sempre bom lembrar que estas lutas estão amparadas por lei. Neste direcionamento, Street destaca que as lutas que enfrentamos na busca de letramentos que desmontem essa estrutura machista passam pelos letramentos ideológicos. Como pontua Street (2014, p.149):

Precisamos, assim, não só de modelos “culturais” de letramento, mas de modelos

“ideológicos”, no sentido de que em todos esses casos os usos e significados de letramentos envolvem lutas em prol de identidades particulares contra outras identidades, frequentemente impostas.

Para Street (idem), movimentos de letramentos de resistência política, como “o feminismo e outros movimentos, por exemplo, ao resistirem às convenções dominantes de fala/escrita atuam para torná-las explícitas como um passo na direção de transformá-las”

(STREET, 2014, p. 147). Essas reflexões não nos surpreendem, pois é notório que o movimento feminista tem sido exemplo de resistência, há muitos anos, em razão das limitações e dos discursos referentes à identidade e ao papel da mulher impostos equivocadamente pela sociedade desde sempre.

Assim, consideramos de suma relevância os novos estudos sobre o letramento que legitimam as práticas letradas concebidas nas variadas instituições sociais permeadas pelo indivíduo, apontadas aqui como letramentos sociais. Além disso, acreditamos que os letramentos são concebidos pelos indivíduos em todas as instituições; são os responsáveis pela abrangência da luta feminina, bem como pela ascensão desse movimento em prol da legitimação das mulheres e de suas lutas no contexto atual. Como pontua González (1983, p.

226):

Por aí se vê que o barato é domesticar mesmo. E se a gente detém o olhar em determinados aspectos da chamada cultura brasileira a gente saca que em suas manifestações mais ou menos conscientes ela oculta, revelando, as marcas da africanidade que a constituem. (Como é que pode?) Seguindo por aí, a gente

também pode apontar pro lugar da mulher negra nesse processo de formação cultural, assim como os diferentes modos de rejeição/integração de seu papel.

Concordamos com o autor no sentindo de que há uma invisibilização dos sujeitos afrodescendentes no que diz respeito especialmente às políticas públicas educacionais, como se pode verificar no documento oficial maior, cujas diretrizes são voltadas para á educação básica, como é o caso da Base Nacional Comum Curricular, que embora não cite o tema em seu documento, silenciando desta forma às culturas negras e às questões de gênero, oportuniza os professores a encontrarem uma brecha, a partir do conhecimento do seu mundo e dos seus alunos, para trazer a temática para discussão em sala de aula.

2.3 A discussão da invisibilidade de políticas públicas antirracistas e feministas

No documento Diamantina 2022 (páginas 30-33)