2. SE PODES OLHAR, VÊ SE PODES VER, REPARA
2.2 Levantamento de artigos do ano de 2017 – percepções
Dos artigos selecionados no ano de 2017, quatro publicações abordavam especificamente o tema das ocupações estudantis nas escolas de ensino médio. Essas ocupações ocorreram no Brasil, durante os anos de 2015 e 2016, e foram resultado de um movimento contra diversos aspectos políticos que pretendiam implantar no ensino público. Dos quatro artigos, três abordavam esses acontecimentos ressaltando os aspectos políticos na qual essa ferramenta foi usada para organização do movimento.
A questão social das ocupações trata as redes sociais em sua potencialidade de militância e denúncia. A crítica à mídia tradicional e denúncia à precariedade de muitas escolas estiveram evidentes nesses artigos e, sem dúvida, houve uma retomada da ideia de que a escola pública é de todos, fortalecida por meio das narrativas descritas nesses artigos.
O artigo 19 tratou do movimento em uma escola do Rio Grande do Sul, onde a rede social foi utilizada como ferramenta de divulgação do movimento, do cotidiano dos estudantes que ocupavam a escola, de suas reivindicações, organização e denúncia às narrativas que não retratavam os acontecimentos. As redes sociais são problematizadas a partir do conceito de ciberdemocracia de Pierre Levy e do cuidado de si de Michel Foucault. O artigo descreve que a página no Facebook, segundo os estudantes, foi fonte de informação que trouxe o apoio dos pais, professores e outros internautas que se colocaram a favor da mobilização estudantil.
Ao usar o conceito de cuidado de si, os autores defendem as redes sociais como um lugar profícuo para práticas políticas e éticas, e a escrita de si como materialização da experiência ética quanto prática da liberdade. Para os autores,
Se compreendermos que as redes sociais virtuais possibilitam também esse exercício pessoal de leitura e releitura de si por si mesmo e uma abertura de si mesmo ao outro, esta “escrita de si” pode desempenhar um papel importante que ultrapassa o compartilhamento intenso de informações ou pontos de vista,
mas que lança um o olhar sobre si, o olhar do outro e um olhar sobre a história – um compartilhar de projetos e de afetos e modos alternativos de viver. A “escrita de si” é uma das formas de materializar a experiencia ética enquanto prática de liberdade. A manifestação da liberdade passa, assim, a ter efeito no momento em que a produção de conhecimento é forçada ao seu limite. Dito de outra forma, questionando as formas pelas quais os sujeitos são coagidos dentro de um dado regime de verdade, as formas de ordenação contemporânea rompem-se. (p. 110)
O foco dos autores está na potência desse movimento no âmbito social e quais foram as repercussões do uso das redes sociais com essa finalidade. Trata-se de uma pesquisa, que podemos descrever como um estudo de caso, embora não explicitado pelos autores, no sentido de utilizarem uma experiência específica para problematizar a questão das ocupações com o uso das redes sociais. Algo muito parecido acontece no artigo 17, que relata as ocupações em Porto Alegre, de uma maneira mais abrangente que o artigo 19, por englobar várias escolas do mesmo município. Diferentemente da anterior, a pesquisa foi realizada com base nas páginas do Facebook utilizadas no período das ocupações, organizando as publicações em categorias como oficinas, organização, apoio, entre outros. O artigo trata as ocupações como uma experiência que permite a reinvenção da escola. Utilizando o conceito tecnologias da inteligência e inteligência coletiva proposto por Pierre Levy, os autores vão problematizar as aprendizagens que extrapolam os domínios dos indivíduos e realizam, por meio das publicações das redes sociais, o levantamento das atividades propostas nas escolas ocupadas para defenderem que a ocupação não significava paralização, assim como foi um espaço de denúncia em relação aos problemas de infraestrutura, parcelamento do pagamento dos professores, falta de merenda para todos os alunos, falta de material etc. Também salientam como a viralização dessas denúncias é positiva, da mesma maneira que as aprendizagens que os alunos vivenciaram na participação das ocupações.
Esses artigos mostram o poder de articulação política que as redes sociais geram, uma vez que estabelecem novas relações de poder, e tornam a informação disponível e acessível a um maior número de usuários que podem se posicionar contra ou a favor de tais movimentos sem a interferência ou manipulação direta das mídias de massa.
Outro ponto importante é que os pesquisadores escreveram sobre acontecimentos recentes e singulares a fim de compor um registro das experiências que tais movimentos resultaram para a educação no Brasil e nas problematizações geradas.
As redes sociais promovem novos espaços para a denúncia e resistência por parte dos alunos e professores, permitem expor fora do contexto da mídia tradicional as
narrativas que anteriormente não conseguiam atingir o grande público, uma vez que a informação era centrada nos veículos de comunicação altamente influenciados pela política. Em relação a esse movimento, os quatro artigos demonstram essa situação.
Embora com objetivos distintos, acredito que a problematização de um tema tão atual com ferramentas tão atuais mostra que as redes sociais podem ser utilizadas no contexto educacional de forma a criar reflexões sobre que tipo de escola queremos e lutamos – há muita potência aqui.
O professor – Nesse agrupamento, três artigos40 discutiam questões relacionadas ao sujeito professor. O artigo 12 descreve a prática do cyberbullying contra professores e o uso das redes sociais para promover esse tipo de violência. Observa-se nessas práticas descritas pelo autor o deslocamento da autoridade do professor na sala de aula, as questões relacionadas a violência na escola, a relação na dinâmica professor-aluno e, consequentemente, a mudança nas relações subjetivas da escola.
O artigo 33 descreve com base nos comentários de uma publicação jornalística compartilhada nas redes sociais, o discurso de má formação docente. Observa-se a desvalorização da profissão, o discurso de má formação, do professor responsável pelo fracasso do aluno de forma que o foco migra das instituições e seus instrumentos para a atuação individual dos sujeitos. Segundo os autores,
Foi possível perceber como a identidade do professor, muitas vezes, é fragilizada por discursos que depreciam essa profissão. São vozes advindas de diferentes esferas discursivas – da esfera midiática, da esfera acadêmica, etc., - que insiste em culpabilizá-lo pelo “fracasso escolar”, de acentuar sua formação como deficiente ou precária. Mediante essa depreciação está, pois, o sujeito- professor e sua forma de se posicionar, frente a esses enunciados. Assim, foram observados enunciados proferidos pelos próprios professores que corroboram com o discurso depreciativo sobre a identidade docente, como também os que refutam a identidade do professor “mal formado”. (Artigo 33, p. 527)
Interessante notar que o menos comentado pelos autores analisados é o objeto de estudo da pesquisa: o currículo.
O artigo 29 problematiza a formação do formador na cibercultura e em uma de suas conclusões afirma que é preciso continuar investindo na formação de professores para que o exercício docente esteja mais sintonizado com as novas demandas sociais, culturais e políticas da cibercultura. Em ambos os casos, a má formação docente é diretamente associada ao fracasso da vinculação das práticas educacionais com a nova realidade imposta pelas tecnologias digitais no contexto da educação.
O artigo 5 descreve como alguns docentes utilizam as redes sociais como forma de valorização docente. Observa-se que reforçam de maneira positiva sua identidade por meio das redes sociais, usam-nas como mecanismo de promoção social de suas práticas e forma de aproximação com os alunos.
Enquanto o artigo 5 mostra a valorização dos docentes que se adaptam as questões performáticas das redes sociais e se envolvem no convívio digital com seus alunos como parte de sua rotina ubíqua, os artigos 29, 33 e 12 mostram o lado inverso dessa relação, no qual o docente é envolvido em um discurso predominante de desvalorização, má formação e violência. Interessante notar que, no artigo 33, o meio ou a rede não foram problematizados, mesmo trabalhando a questão discursiva apoiada em Bakhtin. Esses discursos utilizados foram recortes de redes sociais, mas especificamente de comentários online sobre um determinado fato noticiado em relação a má formação docente, no entanto não houve questionamento do meio ou da rede. Ou seja, a potência que o comentário assume no ambiente virtual ou como os usuários ficam mais confortáveis em expressar opiniões por esse tipo de ferramenta computacional.
Os dados quantitativos demonstraram que a maioria das pesquisas é direcionada aos discentes, em sua maioria as pesquisas estão vinculadas a práticas de aulas presenciais ou transportam uma prática presencial para o ambiente virtual. Embora o ano de 2017 não tenha nenhuma predominância em relação aos periódicos, nos dados gerais, alguns periódicos destacam-se em número de artigos no período de 2014 – 2018.
A problematização das questões pedagógicas, afluem da ideia da pedagogia no contexto do ensino baseado em técnicas específicas de governamento, que funcionam como regimes de verdade em uma perspectiva foucaultiana. Para Sawicki (1998),
...não existem práticas pedagógicas inerentemente libertadoras ou inerentemente repressivas, pois qualquer prática é cooptável e qualquer prática é capaz de tornar-se uma fonte de resistência. Afinal, se as relações de poder são dispersas e fragmentadas ao longo do campo social, assim também o dever ser a resistência ao poder. (Jana Sawicki, 1988b apud. Jennifer M. Gore, 1995, p. 9)
Ao pensar as práticas pedagógicas dentro dessa perspectiva, abre-se uma janela para problematização de como tais discursos e práticas corriqueiros e cotidianos, essencialmente replicadoros/disciplinadoros que possuem potencial efetivamente nocivo ou benéfico para os novos desafios vigentes na educação escolar. Para Gore (1995),
Tal como a vejo, esta análise de nossa localização no interior de relações de poder-saber, da sociedade disciplinar e de regimes de verdade nos permite começar a identificar as características de discursos e práticas particulares que têm efeitos perigosos, dominadores ou negativos. Olhar outra vez para os mecanismos de nossas instituições educacionais, questionar a “verdade” de nossos próprios e cultivados discursos, examinar aquilo que faz com que sejamos o que somos, tudo isso abre possibilidade de mudança. De fato, um pouco antes de sua morte, Foucault disse: “Todas as minhas análises são contra a ideia de necessidades universais na existência humana. Elas mostram a arbitrariedade das instituições e mostram quais espaços de liberdade podemos ainda desfrutar e como muitas mudanças poder ainda ser feitas.”(GORE, 1995, pg. 17)
As percepções aqui apresentadas tendem a essa função convidativa de ver o que é apresentado e observar como o que é posto evidência, assim como também as censuras identificadas podem ser ferramenta individual para as inquietações aos quais os pesquisadores no contexto de redes sociais e educação estão sendo problematizadas.
O ensino de idiomas é abordado nos artigos 141 e 3042. Nesses artigos, algumas estratégias similares são desenvolvidas utilizando redes sociais diferentes.
No artigo 1, em relação à rede social os seguintes procedimentos foram adotados, em linhas gerais não se limitando a eles:
1. Criação de um grupo fechado no aplicativo WhatsApp;
Uma das principais justificativas para o desenvolvimento dessa proposta, com a utilização do aplicativo, é a necessidade de ampliar o tempo de exposição dos alunos com a língua e complementar as atividades realizadas em sala de aula, tendo em vista que essa disciplina conta com apenas 40 horas anuais no Currículo Escolar. (A1, p. 1298)
2. O professor propôs atividades orais, escritas, lúdicas e com recursos midiáticos.
3. Na primeira atividade, foram dados comandos para a realização dos diálogos. 4. Foi criada uma sistemática, definindo como, circuito de rodadas de perguntas
e respostas
Foi utilizada como referencial a teoria da aprendizagem significativa de Ausubel, os autores concluíram que o uso da ferramenta foi positivo e abordaram os benefícios do uso da rede social escolhida.
No artigo 30, em relação à rede social, os seguintes procedimentos foram adotados, em linhas gerais não se limitando a eles:
1. Criação de um grupo fechado na rede social Facebook;
Criamos um grupo fechado no Facebook (ideia aprovada por todos os agentes envolvidos) com a intenção de que a interação ganhasse outras dimensões, na 41 Espanhol, utilizando a rede social WhatsApp.
expectativa de que as discussões feitas em sala de aula pudessem extrapolar as paredes da sala de aula e continuar em outros espaços tempos, de maneira mais espontânea ampliando-se as oportunidades de compartilhamento de ideias e informações. (Artigo 30, p. 139)
2. Inserção dos alunos da disciplina ministrada no referido grupo;
3. O docente propôs uma atividade (texto, música, vídeo e/ou reportagem) com a contribuição dos alunos para a aquisição de conteúdo.
4. Os alunos participaram por meio de postagens no contexto em discussão ou comentários.
Os autores se apoiaram nas teorias de novos letramentos e multiletramentos e identificaram o uso da rede social como positivo em complementação a proposta pedagógica da disciplina.
Em ambos os casos, a rede social foi utilizada em apoio as aulas presenciais: expandiram o tempo de aula; estabeleceram procedimentos disciplinadores no intuito de organizar a aprendizagem; fizeram uso da rede social como ferramenta de compartilhamento de informação e interação em diversos formatos digitais; estabeleceram a realização assíncrona de atividades; e embora estejam pautados em propostas pedagógicas e referencias teóricos diferentes, ambos obtiveram resultados e identificaram os mesmos benefícios de forma geral no uso das redes sociais no ensino de idiomas.
O artigo 27, em comparação com os artigos 1 e 33, mostra os mesmos resultados gerais no que tange ao uso da rede social Facebook como também estende uma prática disciplinar. No entanto, aproxima o proposto na disciplina em que está vinculada e a experiência realizada com os alunos do ensino superior com o uso associado de um Ambiente Virtual de Aprendizagem (AVA). Considerando que a proposta tinha como objetivo aprimorar a compreensão do modo como desenvolvem as práticas pedagógicas de um professor, com conhecimentos na utilização das tecnologias articuladas com seu domínio curricular, e tendo em vista que se tratava da formação de professores, foi observado a associação de várias metodologias como aprendizagem baseada em problemas e projetos, TPACK (Technological Pedagogical Content Knowledge) e POPBL (Blended Online). O uso da rede social foi avaliado como secundário em comparação aos outros artigos analisados em decorrência da associação de outras ferramentas.
O artigo 40 propõe a utilização de métodos pedagógicos inovadores utilizando websites de internet (em especial redes sociais) e em sua pesquisa obteve resultados positivos nesse sentido. O autor conclui que,
Há, portanto, um claro conjunto de evidências quantitativas e qualitativas de que a aplicação dos métodos aqui descritos obteve êxito em seu objetivo. Com alta taxa de participação e feedback positivo, os alunos demostraram interesse e envolvimento. Dessa forma, recomenda-se que professores atentem para a mudança de comportamento dos jovens alunos da Geração Z e proponham estratégias inovadoras que envolvam a internet, especialmente aqueles websites nos quais a maioria dos alunos tem claro interesse e habilidade. (Artigo 40, p. 261)
O método pelo qual o autor se refere é a aproximação com os alunos por meio de um grupo no Facebook ou a criação de um canal no YouTube. Nesse como nos outros casos, observa-se a transposição das práticas pedagógicas presenciais para o ambiente da rede social online, espaço que os alunos possuem conhecimento e engajamento social. O autor estabelece essa estratégia como método da pesquisa e seus resultados foram mensurados por meio da devolutiva dos estudantes que demonstraram que a disciplina ficou mais atrativa com a utilização das estratégias pedagógicas vinculadas às redes sociais43.
Qualquer proposta pedagógica fundamentada e bem executada em conjunto com as redes sociais tende a ter resultados gerais positivos no que tange a aproximação dos alunos. O que é evidenciado nos artigos mapeados, nos quais todos descrevem o resultado da experiência como positivo. Esse fenômeno se dá por alguns motivos, tais como: 1. Os alunos já utilizam e estão envolvidos inteiramente com o ambiente virtual; 2. Se a estratégia metodológica for clara, o aluno ficará mais confortável uma vez que pode participar a qualquer tempo; 3. No geral, as experiências que não funcionam não viram artigos, pois a narrativa de sucesso impera em relação à narrativa do fracasso.
43 O autor do artigo A40 deixa claro que o uso das redes sociais constitui um método acessório a sua disciplina.