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A utilização das redes sociais na área da educação e ensino : um levantamento da produção acadêmica

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Academic year: 2021

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UNIVERSIDADE ESTADUAL DE CAMPINAS Faculdade de Educação

CRISTINA DE OLIVEIRA MORISHITA

A UTILIZAÇÃO DAS REDES SOCIAIS NA ÁREA DA EDUCAÇÃO E ENSINO – UM LEVANTAMENTO DA PRODUÇÃO ACADÊMICA

Campinas 2019

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CRISTINA DE OLIVEIRA MORISHITA

A UTILIZAÇÃO DAS REDES SOCIAIS NA ÁREA DA EDUCAÇÃO E ENSINO – UM LEVANTAMENTO DA PRODUÇÃO ACADÊMICA

Dissertação de Mestrado apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Educação da Faculdade de Educação da Universidade Estadual de Campinas como parte dos requisitos exigidos para a obtenção do título de Mestra em Educação, na área de

concentração de Educação.

Orientadora: Profa. Dra. Alexandrina Monteiro

ESTE TRABALHO CORRESPONDE À VERSÃO FINAL DE DISSERTAÇÃO DEFENDIDA PELA ALUNA CRISTINA DE OLIVEIRA MORISHITA, E

ORIENTADA PELA PROFA. DRA.

ALEXANDRINA MONTEIRO.

Campinas 2019

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UNIVERSIDADE ESTADUAL DE CAMPINAS FACULDADE DE EDUCAÇÃO

DISSERTAÇÃO DE MESTRADO

A UTILIZAÇÃO DAS REDES SOCIAIS NA ÁREA DA EDUCAÇÃO E ENSINO – UM LEVANTAMENTO DA PRODUÇÃO ACADÊMICA

Autora: Cristina de Oliveira Morishita

COMISSÃO JULGADORA:

Profa. Dra. Alexandrina Monteiro. Prof. Dr. Alexandre Filordi de Carvalho. Prof. Dr. Silvio Donizetti de Oliveira Gallo. Prof. Dr. Marcelo Vicentin.

A Ata da Defesa com as respectivas assinaturas dos membros encontra-se no

SIGA/Sistema de Fluxo de Dissertação e na Secretaria do Programa de Pós-graduação em Educação da Faculdade de Educação.

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AGRADECIMENTOS

À minha orientadora, Profa. Dra. Alexandrina Monteiro, por me ensinar a ser uma melhor pesquisadora, por sua paciência e gentileza.

Ao Prof. Dr. Alexandre Filordi de Carvalho, por me ensinar a ser uma melhor leitora, por suas indicações de leituras e conselhos.

Ao Prof. Dr. Silvio Donizetti de Oliveira Gallo, por me permitir participar de suas aulas e por suas valorosas sugestões para a minha pesquisa.

Ao Prof. Dr. Marcelo Vicentin, por sua disponibilidade em participar da defesa e suas contribuições para minha pesquisa.

Aos amigos/familiares que de alguma forma contribuíram na minha jornada: Renato Amaral, Rubens Gurgel, Andrea Santos, Meire Yokota, Alberto Morishita e Lucia Oliveira.

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RESUMO

Considerando o impacto que o uso das redes sociais possui na vida dos indivíduos e sua influência direta no processo educacional contemporâneo, este trabalho se propõe a realizar uma pesquisa bibliográfica de cunho qualitativo, no intuito de investigar artigos acadêmicos publicados em revistas avaliadas como A1 e A2 na plataforma Sucupira da CAPES (Coordenação de Pesquisa e Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior) que abordam o uso das redes sociais na área da Educação e Ensino. Como recorte, foram consultados os periódicos acadêmicos publicados em português brasileiro a partir dos seguintes verbetes: redes sociais, Facebook, Instagram, Twitter, WhatsApp e LinkedIn, no período de 2014 a 2018, totalizando a seleção de 56 artigos que compõem os dados dessa pesquisa. Para a composição do corpus de análise, foram selecionados 22 artigos publicados no ano de 2017, considerando a ocorrência de temas relacionados a questões sociais e pedagógicas. O trabalho está organizado em quatro partes, no qual, inicialmente, é discutido de maneira introdutória algumas concepções sobre o conceito de rede e, posteriormente, sobre redes sociais. A primeira parte realiza algumas problematizações em relação à educação em face das tecnologias digitais, especialmente as redes sociais. A segunda parte consiste na trajetória metodológica e levantamento quantitativo de dados da pesquisa no intuito de evidenciar as principais questões discutidas nos periódicos acadêmicos no Brasil. A terceira parte se concentra na problematização da influência das produções acadêmicas no campo da educação e na produção da verdade, para tanto é utilizado o conceito de verdade desenvolvida pelo filósofo francês, Michel Foucault, em sua aula inaugural no Collège de France, proferida em 2 de dezembro de 1970. Por fim, na quarta parte, apresentamos algumas percepções para pesquisas futuras, considerando especialmente aspectos de ordem social e de práticas educacionais. Destacamos que, em grande parte do material analisado, percebemos se tratar mais de relatos de experiências que ampliam ou transpõem práticas pedagógicas tradicionais; de modo geral o corpus analisado apresenta em sua totalidade que o uso das redes sociais no campo da educação e ensino é algo positivo bem como poucos problematizam essa temática numa perspectiva mais filosófica ou epistemológica.

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ABSTRACT

Considering the impact of the use of social networks on the lives of individuals and their direct influence on the contemporary educational process, this paper proposes to conduct a qualitative bibliographic research in order to investigate academic articles published in journals evaluated as A1 and A2. Sucupira platform of CAPES (Coordination of Research and Improvement of Higher Education Personnel) that addresses the use of social networks in the area of Education and Teaching. As a clipping, the academic journals published in Brazilian Portuguese were consulted from the following entries: social networks, Facebook, Instagram, Twitter, WhatsApp and LinkedIn from 2014 to 2018, totaling the selection of 56 articles that compose the data of this research. For the composition of the corpus of analysis, 22 articles published in 2017 were selected, considering the occurrence of themes related to social and pedagogical issues. The work is organized in four parts. Initially, some conceptions about the concept of networking and later about social networks are discussed in an introductory manner. The first part discusses some issues regarding education in the face of digital technologies, especially social networks. The second part focuses on the questioning of the influence of academic productions in the field of education and the production of truth. To this end, the concept of truth developed by the French philosopher Michel Foucault is used in his inaugural Collège de France lecture on December 2, 1970. The third part consists of the methodological trajectory and quantitative survey data in order to highlight the main issues discussed in academic journals and identify some points of analysis. Finally, in the fourth part we present some analyzes, especially considering aspects of social order and educational practices. We emphasize that in most of the analyzed material we perceive that these are more reports of experiences that extend or transpose traditional pedagogical practices; In general, the corpus analyzed presents in its entirety that the use of social networks in the field of education is positive, and few question this theme from a more philosophical or epistemological perspective.

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LISTA DE FIGURAS

Figura 1 - Número de usuários de redes sociais no Brasil para 2015 a 2011 (em milhões). ... 43

Figura 2 - As redes sociais mais populares no mundo, em janeiro de 2019, pelo número de usuários ativos (em milhões)... 44

Figura 3 - Penetração das principais redes sociais no Brasil a partir do 4º trimestre de 2017 ... 45

Figura 4 – Infográfico: O que querem os alunos conectados? ... 53

Figura 5 – Uso das Redes sociais nas pesquisas acadêmicas no Brasil de 2014 - 2018 ... 60

Figura 6 - Uso das redes sociais nos artigos acadêmicos por ANO ... 61

Figura 7 - Nível de Ensino (artigos publicados em periódicos de 2014 - 2018) ... 62

Figura 8 - O uso da rede social, amplia/problematiza uma prática escolar? ... 63

Figura 9 - Tipo de Pesquisa ... 64

Figura 10 - População Estudada ... 64

Figura 11 - Artigos que utilizavam mais de uma rede/outros ... 74

Figura 12- Resultados da #qualiscapes no Instagram... 90

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LISTA DE TABELAS

Tabela 1 - Principais recursos utilizados nas redes sociais com objetivo educacional* ... 57

Tabela 2 - Distribuição de artigos acadêmicos sobre redes sociais e educação (por ano) ... 65

Tabela 3 - Artigos que utilizavam exclusivamente o WhatsApp ... 65

Tabela 4 - Artigos que utilizavam exclusivamente o Twitter ... 67

Tabela 5 - Artigos que utilizavam exclusivamente o YouTube ... 68

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SUMÁRIO

INTRODUÇÃO ... 11

1. A ESCOLA E AS REDES SOCIAIS ... 27

2. SE PODES OLHAR, VÊ. SE PODES VER, REPARA... 41

2.1 O corpus de pesquisa ... 58

2.1.1 WhatsApp ... 65

2.1.2 Twitter ... 67

2.1.3 YouTube ... 68

2.1.4 Facebook... 69

2.1.5 Outros artigos, várias redes ... 74

2.2 Levantamento de artigos do ano de 2017 – percepções ... 77

3. COM O QUE SE PARECE? (OS CEGOS E O ELEFANTE) ... 84

3.1 A produção de verdades na classificação dos periódicos acadêmicos no Brasil ... 89

4. AOS QUE VÊEM E REPARAM (CONSIDERAÇÕES FINAIS) ... 95

Fontes Primárias ... 99

Referências Bibliográficas ...107

____________. As múltiplas dimensões do aprender... Anais do COEB 2012 - Congresso de Educação Básica: aprendizagem e currículo. Florianopólis, 2012. ...108

TORRES, A. T. Influenciadores na Sociedade em Rede: uma análise do programa Roda Viva especial de 30 anos. Disponível em: <http://hdl.handle.net/11449/181938>. Unesp. 2019. .110 ANEXO I – REVISTAS CONSULTADAS NOS VERBETES “REDES SOCIAIS”, “FACEBOOK”, “WHATSAPP”, “TWITTER” E “INSTAGRAM” E O TOTAL DE OCORRÊNCIAS ...111

ANEXO II – ARTIGOS ACADÊMICOS UTILIZADOS PARA A ANÁLISE QUALITATIVA – ANO DE 2017 ...119

ANEXO III – LISTA DE OCORRÊNCIAS POR PERIÓDICO (INCLUÍDOS OS PERIODICOS COM 1 OCORRÊNCIA) ...123

ANEXO IV – POEMA BLIND MEN AND THE ELEPHANT ...124

ANEXO V – ARTIGOS ACADÊMICOS SOBRE REDES SOCIAIS E EDUCAÇÃO (2017) ...126

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INTRODUÇÃO

Talvez a sociedade digital de nosso tempo não possa ser plenamente compreendida ou entendida em decorrência das multiplicidades de discussões oriundas dos novos dispositivos tecnológicos e novas subjetividades associadas a eles.

Giorgio Agamben, em seu ensaio O que é contemporâneo?, afirma que o sujeito contemporâneo é, justamente, aquele que sabe ver a obscuridade, que é capaz de escrever mergulhando a pena nas trevas do presente (AGAMBEN, 2009, p. 63). Essas inquietações seriam o intempestivo Nietzschiano em sua antagônica desconexão e dissociação com seu próprio tempo, o que Agamben denominou como inatual, que é capaz de perceber e aprender com o seu tempo.

Para afastar-me, primeiro digo de onde me afasto, como cheguei onde estou e aonde pretendo ir com esta pesquisa que se circunscreve, em um corpus estabelecido por produções acadêmicas que envolvem os usos das redes sociais no campo da educação, a partir da seguinte questão investigadora: como as redes sociais foram abordadas, nos últimos cinco anos, em artigos científicos do campo da educação?

Na continuidade do texto, indico alguns encontros e seus efeitos na construção deste trabalho. Peço desculpas ao leitor, pois me atrevo a fazer esse tópico da introdução em primeira pessoa, para partilhar como parte desses encontros que me trouxeram até essa fase da pesquisa.

***

Encontro com a obra de Michel Foucault. Em minha trajetória acadêmica e profissional, na área da tecnologia da informação e comunicação, sempre estive focada em adquirir competências tais como: aprender novas linguagens de programação, ensinar meus alunos tanto a planejar sistemas com exatidão como técnicas e práticas específicas para o trabalho no século XXI.

Com o tempo, percebi que deveria me aprofundar no campo educacional em estudos mais conceituais, portanto, aproximei-me de formações voltadas para novas metodologias e discussões curriculares em diferentes perspectivas.

Outrossim, sentindo a necessidade de me aperfeiçoar ainda mais, resolvi me candidatar ao processo seletivo para o curso de mestrado na Faculdade de Educação da Unicamp. Nas linhas de pesquisa, procurei por docentes que tratavam com o que me parecia familiar e optei pelo currículo. Preocupada com a prova do processo seletivo,

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passei a pesquisar e me aproximar da bibliografia indicada para a seleção e de docentes da linha que pretendia me candidatar.

Um desses textos, intitulado “Aprendizagem como/na prática”, da pesquisadora Jean Lave, encantou-me. Após passar pelas outras etapas do processo seletivo, fui percebendo que minha formação na área da educação era a ponta de um iceberg que desconhecia e eu ainda estava no hemisfério sul, rumo a uma longa jornada.

Como uma aluna treinada e disciplinada, comecei a ler as muitas leituras indicadas pela minha orientadora. No entanto, tudo me parecia muito estranho, o que para mim parecia óbvio deixava de ser. Lia os textos inteiros, mas, durante as aulas, sentia-me totalmente perdida, constantemente acreditava piamente ter lido o texto errado, comecei a questionar a minha habilidade de leitura e interpretação de texto. Afinal, do que essas pessoas estão falando? Educação anarquista, educação libertária... e por que um autor teria seu próprio dicionário? Essa última pergunta entendi rápido. Contudo, comecei a me perguntar coisas como: por que existe a escola? O que compõe um currículo? Qual sua função? Por que comparar a escola com a prisão? Como isso se materializa na minha própria experiência no campo da educação?

Em um determinando momento, resolvi assumir minhas muitas limitações, o que envolveu fazer perguntas, que nem sempre tinham respostas. E, continuei a ler textos que não entendia e ainda leio. Afinal, aquelas ideias me inquietavam muito! Diante disso, gostaria de ter tido a possibilidade de me dedicar exclusivamente a essa empreitada, mas não me foi possível. Precisava ler, discutir, vivenciar, como também trabalhar.

Após algum tempo, ocorreu-me que o que entendia por inabilidade de leitura, tratava-se da dificuldade em olhar as questões sob outra perspectiva, para além do entendimento que atua no senso comum. E embora isso me tivesse sido dito há muito tempo, demorou para fazer sentido. Precisei conviver com outros colegas pesquisadores que discutiam propostas instigantes e que me relatavam também terem vivido essas dificuldades. Em relação ao tema da pesquisa, depois de muitos desencontros, percalços e mudanças ... busquei algo que de algum modo se aproximasse da minha formação na área da computação e educação. Assim, senti-me desafiada a pensar sobre essa relação numa perspectiva foucaultiana. Mas o que isso significa?

Inicialmente, passei a analisar trabalhos sobre redes sociais desenvolvidos por outros pesquisadores que também optaram por uma abordagem foucaultiana. Trabalhos que citarei ao longo do texto. Porém me faltava uma questão, um problema. Afinal, que

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tipo de contribuição minha dissertação de mestrado poderia apresentar? Uma vez que a cada dia tenho mais dúvidas do que respostas o que possivelmente signifique que eu esteja finalmente chegando a algum lugar.

Em um exercício de pensamento, passei a questionar sobre o porquê de escrever este trabalho. Após refletir, creio que, em parte, porque estou dentro de um sistema educacional, e desafios emergem diariamente; depois, porque estudar é algo que sempre me deu prazer, além disso não posso negar a importância de um título para minha carreira profissional. Da mesma forma que a aproximação com as leituras, instigaram-me a pensar a educação em outra chave, para além da minha formação tecnológica e atuação profissional. Nessa trajetória, não me tornei foucaultiana, mas certamente fui afetada por seus textos. Nesse sentido, a opção – talvez audaciosa – de caminhar com Foucault foi se constituindo e me constituindo por um processo de inquietação.

Nessa perspectiva, o tema que se iniciou como uma discussão curricular dos cursos técnicos foi sendo deslocada para o uso das redes sociais e depois, foi se direcionado para as relações com o campo da educação e, finalmente, optei por analisar como o campo da educação vem se apropriando das redes sociais em seus discursos.

Esse interesse, em função do tempo que tinha para a realização da pesquisa, foi se reduzindo a análise de artigos que abordam o uso das redes sociais no contexto escolar e foram publicados em revistas avaliadas como A1 e A2 pela CAPES no período de 2014 -2018.

Feito esse recorte, minha questão era: quais contribuições poderia meu trabalho fazer para os estudos foucaultianos na educação? Certamente não em profundidade, mas em potência, penso que este trabalho, movido pela minha própria inquietação, levou-me a compreender que numa pesquisa com Foucault não se trata de obter respostas, e sim de elaborar boas perguntas.

Assim, posso afirmar que o embasamento teórico, realiza dois movimentos: 1. Mobiliza algumas concepções de diferentes campos teóricos para pensar o

conceito de rede e posteriormente de redes sociais.

2. No intuito de identificar possíveis problematizações decorrentes do levantamento de dados da pesquisa, uso o conceito de verdade proposto por Michel Foucault como arcabouço teórico. Dessa forma, as considerações finais desta pesquisa buscam identificar o que surge, e quais as inquietações que me ajudam a pensar essa nova realidade em construção na Educação e possíveis

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problematizações futuras. No entanto, o cerne desta dissertação é o levantamento dos artigos classificados como A1 e A2 pela Capes na área da educação e ensino. Sem o compromisso de obter respostas, propor caminhos ou dialogar com todas as possibilidades de discussões teóricas que se apresentam.

Trago o movimento teórico antes do problema, porque essa pesquisa nasce dessa forma não ideal. O meu objeto de pesquisa nasce como uma curiosidade. Como já dito, fiz várias alterações de trajetória, todavia acho que sempre entendi que o meu objeto de pesquisa deveria ser algo que me interessasse como indivíduo.

***

Sempre gostei das redes sociais, mas geralmente atuo como espectadora, como a maioria dos usuários. No tempo do finado Orkut1, sofrendo com a limitação da internet discada, estar em rede foi basicamente minha principal missão como estudante, ao ponto de comentar nas redes sociais o que eu estava estudando, enquanto supostamente eu estudava.

Tornei-me professora, antes mesmo de concluir meu curso tecnológico, e, naquela época, eu me dividia na missão de estudante conectada nas redes sociais e professora que tentava lecionar para outros estudantes conectados o tempo todo nas redes sociais.

Assim, interessou-me discutir como o campo educacional abordava questões relacionadas às redes sociais e proponho a seguinte questão de fundo: como o campo da educação tem abordado o uso das redes sociais digitais em práticas de ensino escolar? Responder essa pergunta, obviamente estaria além das possibilidades desta dissertação, portanto, faço um recorte e opto por analisar um conjunto de trabalhos acadêmicos publicados em revistas consideradas de excelência pelo campo da educação no período de 2014 a 2018, para a análise quantitativa e o ano de 2017, para a análise qualitativa.

Para esta análise, elaboro um percurso metodológico no qual inicialmente listo as revistas qualificadas como A1 e A2, procuro os artigos a partir da busca de palavras chaves – usando diversas combinações. Após esse estágio, faço a leitura desses textos e os organizo a partir de alguns parâmetros que discutirei mais à frente. A partir desse

1 Rede social da Google criada em 2004, que foi durante muito tempo a rede mais utilizada no Brasil, descontinuada em 2014.

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levantamento, faço uso de recursos quantitativos no intuito de analisar a frequência das pesquisas em torno desse tema publicadas, nos periódicos escolhidos a partir das avaliações realizadas pela área de educação da CAPES.

O foco na análise dos artigos é estabelecido considerando se eles abordam pesquisas em andamento ou concluídas, se abordam experiências ou estudos de caso, ou se são resultados de trabalhos de mestrado ou doutorado.

Meu interesse principal é realizar uma análise que atenda a questão norteadora: como as redes sociais digitais são problematizadas em artigos acadêmicos no campo da educação e ensino?

Dentre os períodos levantados de 2014 a 2018, foi selecionado o ano de 2017, por ter sido o ano que apresentou o maior número de artigos sobre esse tema no intervalo analisado. Escolhido o ano, passo a realizar a leituras e organização para assim produzir o corpus dessa pesquisa.

***

Encontro com as redes. Considerando o tema central desta pesquisa que é o uso das redes sociais no campo da educação entendemos ser necessário iniciarmos nossa discussão apresentando os diversos entendimentos desse termo – redes – e em que sentido o campo da tecnologia se apropriou dele.

A origem etimológica da palavra rede vem do latim rēte, que possui a ideia de entrelaçamento, tendo como principal uso o contexto da pesca ou têxtil (entrelaçamento de fios) como empregado na mitologia, na lenda de Hefesto, que usou uma rede de malha inquebrável, para prender sua esposa Afrodite e seu amante Ares, expondo-os para todo o Olimpo. Na Antiguidade, destaca-se o uso do termo aplicado metaforicamente por Hipócrates, para descrever a superfície do cérebro, como uma densa rede de fios.

No século XVII e XVIII, o termo continuou com uso predominante no campo da tecelagem, caça e pesca; destaca-se a inclusão do termo no campo da medicina pelo naturalista, Dr. Marcelo Malpighi (1628-1694), para descrever o corpo reticular de pele. Para Pierre Musso, a grande ruptura que faz advir o conceito de rede à virada do século XVIII para o século XIX é sua “saída” do corpo. A rede não é mais apenas observada sobre ou dentro do corpo humano, ela pode ser construída. (PARENTE, 2004, p. 20)

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A proliferação dos usos do termo no século XX, deve-se a sua multiplicidade de sentidos adquiridos, que tornou o conceito uma chave-mestra, que abrange três dimensões de significações: em seu ser, em sua dinâmica e em sua relação com um sistema complexo.

Hoje, o conceito de rede tornou-se uma espécie de chave-mestra ideológica, porque recobre três níveis misturados de significações: em seu ser, ela é uma estrutura composta de elementos em interação; em sua dinâmica, ela é uma estrutura de interconexão instável e transitória; e em sua relação com um sistema complexo, ela é uma estrutura escondida cuja dinâmica supõe-se explicar o funcionamento do sistema visível (PARENTE (Org.) 2004, p. 32) E dentro dessas dimensões de significação, muitas outras interpretações e aplicações de sentido são claramente observadas. Essa polissemia faz com que seu sentido se torne até mesmo antagônico2, conforme a pesquisa de Vermelho et. al (2015), e sua suposta origem alterada dependendo de seu referencial teórico e campo do conhecimento (VERMELHO et. al, 2015; PORTUGAL, 2007; NIDECKER, 20133).

A teoria dos grafos, formulada por Leonhard Euler, no campo da matemática (GOODRICH & TAMASSIA, 2004); o estudo da dinâmica social e econômica na era da informação, desenvolvida por Manuel Castells (1999), assim como o estudo das redes neurais artificiais (KANDEL, 2014), mostram a proficuidade do conceito de rede. A razão para o antagonismo do termo é justificado por Duncan J. Watts como:

De certa forma, nada pode ser mais simples do que uma rede. Reduzida ao seu esqueleto básico, uma rede nada mais é do que um conjunto de objetos conectados entre si de certo modo. Por outro lado, a simples generalidade do termo rede o torna difícil de definir com precisão, e esse é um dos motivos que torna a ciência das redes uma empreitada importante. Podemos estar falando de pessoas em uma rede de amigos ou em uma grande empresa, de roteadores na internet ou neurônios disparando do cérebro. Todos esses sistemas são redes, mas todos são completamente distintos de uma forma ou de outra ... (WATTS, 2009, p. 11, grifo meu)

Afinal, se nada pode ser mais simples, e o fato de ser simples e genérico torna difícil definir, apresenta-se aqui o prelúdio denominado rede para a discussão sobre redes sociais.

No campo da filosofia, Pierre Musso (2004) propõe o que ele denomina de: a filosofia da Rede. Em sua proposta, ele descreve a noção de rede como “... onipresente, e

2 Segundo o artigo, “O termo rede, carrega significados ambíguos, visto que indica ao mesmo tempo: aprisionar ←→ libertar. Desse modo, existe uma contradição no próprio conceito.” (VERMELHO et. al., p.5, 2015).

3 Esse artigo faz referência ao livro “Writing on the Wall – Social Media, The first 2.000 years”, de Tom Standage”. No entanto, foram encontradas outras possíveis origens para o uso do termo rede, que por não serem relevantes para essa pesquisa, em sua origem histórica, foram omitidas.

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mesmo onipotente, em todas as disciplinas”, o autor contextualiza o uso do termo a partir do século XVI, com foco principal na formação do conceito na filosofia de Saint-Simon, em que “A rede simboliza definitivamente – em ato e em representação – o vínculo selado entre três elementos da religião saint-simoniana, a associação, a comunicação e a comunhão.” (PARENTE. (Org.), 2004, p.27).

Segundo o autor, os discípulos de Sant-Simon corromperam o conceito tornando-o um culttornando-o religitornando-ostornando-o das redes, símbtornando-oltornando-o da asstornando-ociaçãtornando-o universal, em ctornando-oncepçãtornando-o e açãtornando-o (p.28), esse desvio na concepção, posteriormente sistematizado e ampliado pelos trabalhos de Michel Chevalier4 (1806 – 1879), transformou a concepção de rede em objeto simbólico, e essa evolução conceitual resultou na popularização e novas aplicações do conceito.

O autor utiliza três referências para contrapor a ideia de rede, estabelecida a partir do pensamento de Saint-Simon, a saber: Michel Serres, Anne Cauquelin e Henri Atlan. A partir desses referenciais, o autor propõe que a rede é uma estrutura de interconexão instável, composta de elementos de interação, e cuja variabilidade obedece a alguma regra de funcionamento (p.28). Para ele, o termo possui três níveis descritivos:

1. A rede é uma estrutura composta de elementos em interação; esses elementos são os picos e nós da rede, ligados entre si por caminhos ou ligações, sendo o conjunto instável e definido em um espaço de três dimensões. 2. A rede é uma estrutura de interconexão instável no tempo; a gênese de uma rede (de um elemento de uma rede) e sua transição de uma rede simples a outra mais complexa são substanciais a sua definição. A estrutura de rede inclui sua dinâmica. Que se considere o desenvolvimento de um elemento em um todo-rede ou de uma todo-rede em uma todo-rede de todo-redes, trata-se sempre de pensar uma complexificação auto engendrada pela estrutura da rede. 3. Enfim, terceiro elemento da definição da rede, a modificação de sua estrutura obedece a alguma regra de funcionamento. Supõe-se que a variabilidade da estrutura em rede respeita uma norma – eventualmente modalizável – que explica o funcionamento do sistema estruturado em rede. Passa-se da dinâmica da rede ao funcionamento do sistema, como se o primeiro fosse o invisível do segundo, portanto seu fator explicativo. (PARENTE. (Org.), 2004, p.31-32)

4 Diferentemente de Saint-Simon, Chevalier transforma a rede em objeto-símbolo: a rede técnica produz, por ela mesma, mudança social. Michel Chevalier irá até mesmo escrever as frases fundadores da ideologia da comunicação: “Melhorar a comunicação é trabalhar na liberdade real, positiva e prática... é fazer igualdade e democracia. Meios de transporte aperfeiçoados têm como efeito reduzir as distâncias não apenas de um ponto a outro, mas também de uma classe a outra.”

A rede técnica permite a comunicação, a comunhão e a democratização pela circulação igualitária dos homens. A redução geográfica das distâncias físicas, ou mesmo a intercambialidade dos lugares, graças às vias de comunicação, significa redução das distâncias sociais, isto é, democracia.

Quando da passagem da apresentação da doutrina à definição de um culto de rede, os discípulos fizeram o caminho inverso ao do mestre: eles partem do conceito de rede a cujo arremate Saint-Simon chegara. Essa inversão de encaminhamento teve por triplo efeito nomear, fetichizar e estourar o conceito de rede.

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Essa perspectiva pautada no campo da filosofia, permite-nos dialogar com diversas concepções de rede e estabelece clareza em relação à suas possibilidades de organização.

O interessante dos níveis descritivos propostos por Musso (2004) é sua adaptabilidade, em caráter estrutural e global, para qualquer área do conhecimento. Certamente o mais incrível na dinâmica das redes é sua capacidade de articulação e rearticulação ininterrupta.

Essa dinâmica é claramente observável quando discutida, sob a perspectiva das tecnologias da informação e comunicação. Por exemplo, originalmente, o campo da informática apropriou-se do termo para descrever a comunicação entre computadores por meio de ligações cabeadas, que em suas diversas organizações, são identificadas como topologias de rede e definem a comunicação física e lógica entre computadores.

Dentro dessa concepção técnica e informacional, cada computador constitui um “nó” da rede. No entanto, ainda dentro do campo da informática, se pensarmos em rede de dados, em especial, o funcionamento dos pacotes de dados trafegados nas redes físicas, aproximar-nos-emos mais do terceiro nível identificado por Musso em relação a sua mutabilidade e adaptação regida por padrões técnicos.

Dentro do contexto da ciência da computação, sua aproximação será ao campo da matemática, no qual rede é um importante tipo de grafo, em que uma coleção de vértices é denominada nó. Obviamente, os níveis não são excludentes, mas demonstram a proficuidade do conceito e como essas apropriações acontecem de maneira polissêmica. Ainda no campo da informática, aplicado a sua construção física, as definições de Otman (2001), considerando rede como, conjunto de computadores interligados (ainda que por vezes geograficamente dispersos) capazes de trocar informações entre si e de partilhar fontes comuns (p. 26) e a definição de Terceiro (1997) que define rede como interconexão de um ou mais computadores através de hardware e software (p. 28), assim como a conceituação de rede proposta por Castells (1999), de um conjunto de nós interconectados, no qual, nó é o ponto no qual uma curva se entrecorta, em que, concretamente, o que um nó é depende do tipo de redes concretas de que falamos, serão usadas como referência neste trabalho, para definir as redes que compõe as TICs (Tecnologias da Informação e Comunicação), utilizando a perspectiva de Castells predominantemente, por se mostrar mais ampla, mas alinha-se com as definições propostas de Terceiro e Otman.

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A amplitude do trabalho de Manuel Castells, em relação as redes, ocorre por se tratar da sociedade em rede, na sua análise de como elas estão presentes na economia, política, cultura e em praticamente qualquer outro campo que compõe a sociedade da informação. Para o autor,

Redes são estruturas abertas capazes de expandir de forma ilimitada, integrando novos nós desde que consigam comunicar-se dentro da rede, ou seja, desde que compartilhem os mesmos códigos de comunicação (por exemplo, valores ou objetivos de desempenho). Uma estrutura social com base em redes é um sistema aberto altamente dinâmico suscetível de inovação sem ameaças ao seu equilíbrio. Redes são instrumentos apropriados para a economia capitalista baseada na inovação, globalização e concentração descentralizada; para o trabalho, trabalhadores e empresas voltadas para a flexibilidade e adaptabilidade; para uma cultura de desconstrução e reconstrução contínuas; para uma política destinada ao processamento instantâneo de novos valores e humores públicos; e para uma organização social que vise a suplantação do espaço e invalidação do tempo. Mas a morfologia de rede também é uma fonte de drástica reorganização das relações de poder.” (CASTELLS, 1999, p. 498)

Em uma outra obra posterior, esse autor, ao falar especificamente dentro do contexto da internet, estabelece que uma rede é um conjunto de nós interconectados. A formação de redes é uma prática humana muito antiga, mas as redes ganharam vida nova em nosso tempo transformando-se em redes de informação energizadas pela internet (CASTELLS, 2003, p. 7)

Essa análise sociológica mostra que a dinâmica em rede é extremamente necessária para a sociedade em que vivemos, porque praticamente todas as tecnologias, que permitem o funcionamento da sociedade globalizada, estão em rede e energizadas pela internet. Assim, Castells (2003) propõe que essa nova configuração social representa uma “transformação qualitativa da experiência humana”, na qual o polo da existência se modifica, alterando a dominação da natureza, em relação à cultura.

Dentro do campo antropológico, remontando os códigos da vida social às raízes de nossa identidade biológica, a organização social tinha por objetivo sobreviver aos perigos que se apresentavam na natureza; esse modelo foi sobreposto na Era Moderna, com a industrialização e o capitalismo.

No entanto, hoje vivemos em um terceiro modelo de organização social, resultante da convergência da evolução histórica e da transformação tecnológica, que é essencialmente social, em sua organização e interação. Esse modelo é o da sociedade da informação (CASTELLS, 1999, p. 505). Dentro dessa perspectiva, a sociedade da informação é uma sociedade a priori em rede. Falar de redes sociais significa falar de

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rede em sua amplitude de relações e níveis descritivos como abordou Musso; e falar de sociedade, tendo como foco a rede de relações humanas dentro da sociedade da informação, em suas potencialidades de modificação social, como abordou Castells.

Pautada nessas múltiplas e polissêmicas definições e influências, na minha perspectiva, a melhor forma de tentar conceituar rede no contexto digital, no âmbito das relações humanas já que nos interessa abordar seu uso no campo da educação, seria como vínculos mutáveis de natureza imprevisível ou previsível que são operacionalizadas a partir de uma determinada estrutura objetiva ou subjetiva. Uma vez que as apropriações sempre necessitam de referencial de um determinado campo, acredito que essa seja uma conceituação apropriada para pensar no contexto dessa pesquisa5, como aponta Michel Foucault (2017),

Terceira precaução metodológica: não tomar o poder como um fenômeno de dominação maciço e homogêneo de um indivíduo sobre os outros, de um grupo sobre os outros, de uma classe sobre as outras; mas ter bem presente que o poder − desde que não seja considerado de muito longe – não é algo que se possa dividir entre aqueles que o possuem e o detêm exclusivamente e aqueles que não o possuem e lhe são submetidos. O poder deve ser analisado como algo que circula, ou melhor, como algo que só funciona em cadeia. Nunca está localizado aqui ou ali, nunca está nas mãos de alguns, nunca é apropriado como uma riqueza ou um bem. O poder funciona e se exerce em rede. Nas suas malhas os indivíduos não só circula mas estão sempre em posição de exercer este poder e de sofrer sua ação; nunca são o alvo inerte ou consentido do poder, são sempre centros de transmissão. Em outros termos, o poder não se aplica aos indivíduos, passa por eles.

Não se trata de conceber o indivíduo como uma espécie de núcleo elementar, átomo primitivo, matéria múltipla e inerte que o poder golpearia e sobre o qual se aplicaria, submetendo os indivíduos ou estraçalhando−os. Efetivamente, aquilo que faz com que um corpo, gestos, discursos e desejos sejam identificados e constituídos enquanto indivíduos é um dos primeiros efeitos de poder. Ou seja, o indivíduo não é o outro do poder: é um de seus primeiros efeitos. O indivíduo é um efeito do poder e simultaneamente, ou pelo próprio fato de ser um efeito, é seu centro de transmissão. O poder passa através do indivíduo que ele constituiu. (FOUCAULT, 2017, p. 284)

O conceito de rede aplica-se também ao modo em que as relações de poder funcionam e são exercidas. Nesse sentido, as redes sociais estão e são uma rede tanto na perspectiva tecnológica/operacional definida por autores como Castells (1999), Otman (2001) e Terceiro (1997), como no âmbito dos discursos e relações de poder que

5 Foucault (2006) utiliza o termo rede para se referir a forma como o poder opera, para ele “... O poder não pertence nem a alguém nem, aliás, a um grupo; só há poder porque há dispersão, intermediações, redes, apoios recíprocos, diferenças de potencial, defasagens, etc. É nesse sistema de diferenças, que será preciso analisar, que o poder pode se pôr em funcionamento.” (p. 7)

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envolve a rede técnica e permite que as relações de poder adquiram novas formas e sentidos no contexto virtual educacional com o uso das redes sociais digitais.

Vale salientar, que o conceito de rede social, possui uma vasta discussão histórica abordada por diversos autores que foram bem discutidas por diversos autores e em especial na obra a sociedade em rede de Castells publicada em 1999, que abordaremos a seguir.

***

As redes sociais – concepções e apropriações. Buscar sentido na origem histórica de algo nem sempre é esclarecedor ou prudente. Como disse Michel Foucault, o que se encontra no começo histórico das coisas não é a identidade ainda preservada de sua origem - é a discórdia entre as duas, o disparate6 (FOUCAULT, 2015, p. 276) Certamente,

as redes sociais se enquadram bem nessa ideia por serem um termo tão carregado de sentidos disparatados. Assumir uma história das redes sociais embasada em uma determinada área do conhecimento ou analisá-lahistoricamente sob uma determinada perspectiva seria um disparate em uma pesquisa, cuja proposta parte de um mapeamento, das publicações acadêmicas sobre redes sociais e educação. Resta-me, tão somente, expor ao leitor, fragmentos históricos de diversas áreas do saber, na tentativa de compor elementos para um exercício de pensar as redes sociais antes da internet.

Pensar essa relação é uma ciência fronteiriça, porque as influências e discussões raramente se pautam em um único campo do conhecimento, ou se desenvolvem a partir de discursos e práticas epistemologicamente convencionais.

6 O trecho citado é um recorte de um parágrafo do texto de 1971 – Nietzsche, a Genealogia, a História. No intuito de expor o contexto original, a citação completa do parágrafodiz: Por que Nietzsche genealogista recusa, pelo menos em certas ocasiões, a pesquisa da origem (Ursprung)? Porque, primeiramente, trata-se nesse caso de um esforço para nela captar a essência exata da coisa, sua mais pura possibilidade, sua identidade cuidadosamente guardada em si mesma, sua forma imóvel e anterior a tudo o que é externo, acidental e sucessivo. Procurar tal origem é tentar recolher o que era “antes”, o “aquilo mesmo” de uma imagem exatamente adequada a si; é tomar como acidentais todas as peripécias que puderam ocorrer, todas as artimanhas, todos os disfarces; é querer tirar todas as máscaras para finalmente desvelar uma identidade primeira. Ora, se o genealogista tem o cuidado de escutar a história em vez de crer na metafisica, o que ele aprende? Que por trás das coisas há “algo completamente diferente”: não absolutamente seu segredo essencial e sem data, mas o segredo de que elas são sem essência ou que sua essência foi construída peça por peça a partir de figuras que lhes eram estranhas. A razão? Mas ela nasceu, de forma inteiramente “razoável”, do acaso. E o apego à verdade e o rigor dos métodos científicos? Da paixão dos cientistas, de seu ódio recíproco, de seus debates fanáticos e infindáveis, da necessidade de vencer a paixão – armas lentamente forjadas ao longo de lutas pessoais. E seria a liberdade, na raiz do homem, o que o liga ao ser e à verdade? De fato ela não passa de uma “invenção das classes dirigentes”. O que se encontra no começo histórico das coisas não é a identidade ainda preservada de sua origem – é a discórdia entre as coisas, o disparate (FOUCAULT, 2015, pp. 275, 276)

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Segundo Mark Sapwell, a prática da rede social teria origem pré-histórica7, ou seja, estar em uma rede social, enquanto ação é anterior ao cunho do termo, e em consequência define uma prática, que não precisa ser mediada pela tecnologia.

A primeira referência do termo rede social foi empregada por Radcliffe-Brown ao se referir a uma rede de relações sociais efetivamente existentes8, mas foi J. A Barnes que desenvolveu o conceito, ao longo de seu estudo sobre as classes sociais em uma pequena vila na Noruega.

Nesse estudo, ele associou o status social ao estabelecimento de relações sociais; identificou que o tamanho da rede social tende a aumentar sua complexidade e estabeleceu o princípio chave para o conceito de redes sociais, ao se referir a grupos sociais não institucionalizados, mas pautados em relações de afinidade e amizade, por exemplo.

Originalmente utilizada para estudar os problemas relacionados às classes sociais, a perspectiva estabelecida por Barnes, empregada para compreender o vínculo das pessoas em seu cotidiano, estabelece o ponto de partida para a compreensão de sentido das redes sociais online.

Para Martino (2014, p.55), estamos inseridos em diversas redes, uma vez que as redes sociais podem ser entendidas como um tipo de relação entre seres humanos pautadas pela flexibilidade de sua estrutura e pela dinâmica entre os participantes9.

Vamos supor que um estudante universitário faça um estágio e resida em um apartamento com a sua família, que está associada a um grupo religioso e a uma associação de moradores do bairro. Esse jovem supostamente estará inserido em no mínimo cinco grupos sociais. Essa rede é mantida pela convivência desse estudante com esses respectivos grupos; na concepção de Barnes (1954), as redes sociais não são estabelecidas em relações institucionalizadas. As redes sociais partem de relações de natureza afetiva e subjetiva, mesmo que indivíduos compartilhem os mesmos grupos sociais e, provavelmente, partilharão.

7 Disponível em: https://brasilescola.uol.com.br/historiag/redes-sociais-na-pre-historia.htm, Acesso em 01 fev. 2019.

8 O uso original de rede social por Radcliffe-Brown foi publicado em inglês, em RADCLIFFE-BROWN, A. R. Structure and Function in Primitive Society: Essays and Addresses. Londres: Cohen and West, 1952.

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A rede social, na perspectiva de Barnes, foi empregada para descrever quais noções de igualdade de classes eram utilizadas e de que forma indivíduos usavam laços pessoais de parentesco e amizade em Bremnes, uma comunidade na Noruega (FELDMAN-BIANCO, 1987, p. 161). O filósofo, Luís Mauro de Sá Martino, sintetiza bem a ideia do conceito de rede social em Barnes,

Vale lembrar que Barnes, propõe o conceito de “rede social” procurando entender como são estabelecidas as classes sociais na vila de Bremnes. As relações entre os indivíduos são definidas em certa medida pelos vínculos estabelecidos entre pessoas com status social semelhante. No entanto, isso não significa que a rede social seja eliminada por barreiras de classe; na medida que constituem contatos e ligações, elas podem superar algumas fronteiras sociais no estabelecimento de contatos em comum. Aliás, como o próprio autor menciona, seu conceito é uma “ferramenta” para a análise de problemas de classes sociais. (MARTINO, 2014, p. 62)

O princípio de rede social, estabelecido por Barnes, foi construído sob seu olhar de antropólogo-social e dentro da sua pesquisa sobre a relação entre classes sociais, na qual buscava entender o papel da política em um nível não-especializado, em que seu uso de rede social servia como instrumento analítico para seu estudo antropológico.10

Para Barnes, em seu artigo Class and committees in a norwegian island parish, que popularizou o termo redes sociais, o autor salienta,

Eu devo talvez enfatizar que o conceito de uma rede é apenas uma ferramenta para uso na análise do fenômeno da classe social. Com o propósito de “Para os propósitos deste artigo, eu verei a classe social meramente a partir de um ponto de vista: como uma rede de relações entre pares de pessoas de acordo uns com os outros aproximadamente igual estatuto”11 (Barnes, 1954, p. 45, tradução minha)

Em nível de suposição, não fazia sentido para Barnes pensar em relações institucionalizadas como redes sociais, porque elas já existiam nomeadas como grupos sociais. A materialidade desse grupo existia em suas instituições como a igreja ou a escola.

No entanto, a rede social era estabelecida por outro tipo de relação, que estava a parte dos grupos sociais, desenvolvidas espontaneamente a partir de laços subjetivos e 10 Em seu artigo “Redes Sociais e Processo Político” em 1969, Barnes forneceu alguns esclarecimentos em relação ao seu uso do termo redes sociais e destacou seu interesse no processo político daquela comunidade, assim como as referências ao trabalho de Radcliffe-Brown que cunhou o termo e seu principal referencial teórico o livro de Forbes, The Web of Kinship (1949) - (FELDMAN-BIANCO, 1987, pp. 159-189)

11 Texto original: I should perhaps emphasize that the concept o f a network is only one tool for use in the analysis of the phenomenon of social class.”, com o objetivo de “For the purposes of this paper I shall nevertheless look at social class from merely the one point of view: as a network of relations between pairs of persons according each other approximately equal status”.

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afetivos, como a amizade e a família; em seu estudo essas relações predominantemente respeitavam a hierarquia das classes sociais.

Permito-me essa interpretação, não no intuito de estabelecer uma linha de sentido na evolução do termo, mas no intuito de entender o problema que se apresentava a Barnes, que o levou a usar o termo para descrever algo que não estava descrito de maneira formal. Como nomear vínculos sociais estabelecidos fora dos grupos sociais? Como referenciar relações não institucionalizadas? Nasce assim, supostamente, um novo conceito.

No cerne desse deslocamento, a liberdade criativa que me permite em um trabalho supor e apresentar uma interpretação própria de um texto, permite também, e em nível cada vez maior, aos pesquisadores, programadores, filósofos e matemáticos redefinirem e reutilizarem um termo tão abrangente, justificando seu uso em relação a sua aplicação.

Outra apropriação aplicada, em um emprego contemporâneo, tendo como referencial o campo da biologia, advém de Fritjot Capra, define que as

Redes sociais são, antes de tudo, redes de comunicação que envolvem linguagem simbólica, restrições culturais, relações de poder etc. Para entender as estruturas de tais redes, precisamos de subsídios da teoria social, filosofia, ciência cognitiva, antropologia e outras disciplinas. Uma estrutura sistêmica unificada para a compreensão de fenômenos biológicos e sociais emergirá tão somente quando teorias de redes forem combinadas com subsídios desses outros campos de estudo. (apud. DUARTE, QUANT, & SOUZA, 2008, p. 22) Entender a potencialidade do conceito de redes é certamente um exercício multidisciplinar12, como argumentado por Fritjot Capra.

Antes mesmo do surgimento das redes sociais online, não havia uma unanimidade na conceituação de rede e consequentemente de redes sociais. E possivelmente foi essa multiplicidade, que deu ao termo aderência, dentro das mídias digitais, em seu entendimento mais popular como conjunto de relações e intercâmbios entre indivíduos, grupos ou organizações que compartilham interesses, que funcionam em sua maioria através de plataformas da Internet (AURÉLIO,201813).

12 “Grandes descobertas surgem quando grandes mentes são capazes de imaginar soluções fora de seu campo de pesquisa” (WATTS, 2009, p. 37).

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Certamente, está mais ligado a forma como a troca de informações é realizada do que o meio em que essa troca acontece. (KNOENER, 2015). Afinal, atualmente, muitos entendem que a internet é o tecido de nossas vidas14.

A internet é uma invenção recente, começou a se propagar nos anos noventa, e pode ser definida de forma simplista como uma rede de redes. (DUARTE, QUANT, & SOUZA, 2008, p. 191). Isso porque a internet é uma rede de computadores interligados, que permite a comunicação em tempo real de dados, pessoas e instituições.

Por possuir uma estrutura de rede descentralizada, que viabilizou sua rápida expansão, em seus primórdios possibilitou uma vasta gama de possibilidade sociais de interação, nomeadas como comunidades, blogs, fotoblogs e chats, que foram melhorados, especializados ou absorvidos em plataformas como o Facebook e o Twitter. Obviamente, muitas dessas propostas como os blogs continuam ativos, no entanto não são predominantes como fonte de troca de informações e compartilhamento virtual.

Isso porque as plataformas de redes sociais se especializaram, implementaram múltiplos recursos e funcionalidades possibilitados pelas inovações no campo da engenharia de sistemas. Nesse sentido, segundo Recuero (2011), as redes podem ser organizadas em relação aos seus elementos, topologias e dinâmicas.

Para a autora, os principais elementos das redes sociais são atores e conexões. Os atores são representados como nós (ou nodos) da rede, podem ser pessoas ou representações de atores sociais. Essas representações podem ser um perfil ou um blog, desenvolvido por uma ou várias pessoas, que possuem um papel identitário no ciberespaço15.

Já as conexões podem ser entendidas como a ligação social estabelecida entre os atores. Essas conexões respeitam uma dinâmica de: interação, relação e laços sociais.

Ainda para a autora, essa dinâmica de interação será desenvolvida a partir de laços associativos, nos quais a interação é tipificada como reativa; ou constitui laços dialógicos, em que a interação é tipificada como mútua. Para ela, todo laço social é relacional. Os laços sociais podem ser fortes ou fracos.

Laços fortes são aqueles que se caracterizam pela intimidade, pela proximidade e pela intencionalidade em criar e manter uma conexão entre duas pessoas. Os laços fracos, por outro lado, se caracterizam por relações esparsas, que não traduzem proximidade ou intimidade. Laços fortes constituem-se em vias mais 14 O autor defende essa ideia em seu livro, A galáxia da Internet. (CASTELL, 2003)

15 A autora desenvolve essa ideia no seu livro, Redes ou paredes. (SIBILIA P. & RIBEIRO V., 2012, pp. 25-30)

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amplas e concretas para as trocas sociais, enquanto os fracos possuem trocas mais difusas. (RECUERO, 2011, p. 41)

No contexto da internet, os laços estabelecidos pelas redes sociais são altamente complexos, abarcando laços sociais fortes e fracos. A amplitude e complexidade dessas relações aumentam em relação ao número de conexões dos indivíduos o que resulta em maior densidade da rede. Ter mais informação do que qualquer biblioteca do mundo poderia catalogar e mesmo assim estar desinformado.

Dessa forma, as novas relações estabelecidas pelas redes sociais digitais alteram a relação do sujeito consigo mesmo e com o outro, agregam questões econômicas ao convívio social online e engendram novos regimes de verdade como abordarei no capítulo 3.

No intuito de compor uma visão macro dessa problemática, o capítulo 1 apresenta a face nociva e profícua do uso das redes sociais na área da educação; busca identificar os principais pontos positivos e negativos do uso das redes sociais como ferramenta de apoio na educação escolar e lança pistas para problemáticas associadas, que podem ser caixa de ferramentas para outras pesquisas.

No levantamento de dados sobre as revistas analisadas e os artigos, será utilizado o conceito de verdade proposto por Michel Foucault no capítulo 3, como principal referência para a problematização dessa pesquisa.

O capítulo 4 realizará algumas reflexões sobre o corpus construído diante dos diversos aspectos que emergem, e destacaremos alguns elementos pontuais para um processo de problematização a partir da questão de pesquisa aqui proposta.

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1. A ESCOLA E AS REDES SOCIAIS

O que as redes sociais e o modelo de educação escolar possuem em comum? Um ponto partilhado é certamente a vigilância. Essencialmente pensar a dupla, redes sociais e educação, consiste em dois assuntos que separadamente já são extremamente amplos e dotados de muitos paradoxos e ambivalências. Considerando isso, este capítulo busca discutir a face nociva e profícua do uso das redes sociais na área da educação como ferramenta de apoio a educação escolar dentro de uma perspectiva crítica concentrada nos eixos da: vigilância, tempo e neoliberalismo.

O filósofo francês Michel Foucault, em seu livro “Vigiar e Punir”, dedica a terceira parte, mais especificamente no terceiro capítulo desta parte, a discorrer sobre o modelo do panóptico idealizado por Jeremy Bentham, em 1785, que consiste em um modelo arquitetônico polivalente de vigilância, onde um indivíduo vigiado encontra-se em um estado permanente de visibilidade, mesmo que não o seja efetivamente. Esse modelo é sobretudo uma maneira de governo e exercício de poder sobre o indivíduo16.

Na obra anteriormente citada, Foucault ao estudar o modelo social disciplinar usando a prisão como modelo, defende que a disciplina fabrica corpos dóceis17, e que o castigo atua para além do corpo. Neste mesmo sentido, Fernandes (2012) argumenta que o castigo sobre o corpo é aplicado visando a atingir o sujeito e não uma individualidade corpórea. O castigo corporal deve atuar sobre o intelecto, a vontade, as disposições etc. (p. 60). Tal disciplinamento atravessado por uma severa vigilância encontra sua amplificação nas tecnologias digitais, dentre elas as redes sociais que atuam como um panóptico de informação. Nesse sentido, para Peters (2015):

O “panoptismo” de Foucault, baseado no projeto de Bentham para tornar possível a vigilância dentro da prisão, converte-se agora em um princípio e metáfora para a vigilância em “estruturas abertas” da era digital. O mecanismo generalizado de “panoptismo” torna-se ainda mais possível e prevalente na era digital, desenvolvendo um olhar de vigilância do Estado e da sociedade de populações globais que utilizam as novas tecnologias para observar, vigiar, controlar, monitorar e rotular sujeitos enquanto estão trabalhando, em casa ou mesmo em momentos de lazer. O panóptico digitalmente aprimorado cria uma 16 Embora não desenvolvido nesse trabalho, muito autores discorrem sobre o modelo do panóptico e suas possíveis aplicações para a educação. As principais referências utilizadas nessa pesquisa são (FOUCAULT, 1997, pp. 190-219), (FERNANDES C. A., 2012, pp. 47-71), (CASTRO, 2016, pp. 314 - 316) e (CARVALHO & GALLO (Org.), 2015, pp. 359-448).

17 “...Segundo a linguagem de Foucault, encontramos uma microfísica do poder, com uma anatomia política do corpo cuja finalidade é produzir corpos úteis e dóceis ou, se quisermos, úteis na medida da docilidade. Com efeito, o objetivo da disciplina é aumentar a força econômica do corpo e, ao mesmo tempo, reduzir sua força política.” (CASTRO, 2016, pp. 111 - 112)

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consciência de visibilidade permanente e captura de dados como formas de poder, onde confinamento espacial e detenções não são mais necessárias para o controle de mais nada. A nova visibilidade é complementada por meio de formas métricas como bio-indicadores e bibliometria que podem controlar, “ouvir”, monitorar e identificar nossos movimentos, nossas conversas, nossas compras. (CARVALHO & GALLO, 2015, p. 362)

O breve resgate da questão da vigilância nessa pesquisa visa destacar que o modelo de educação escolar no Brasil ainda é pautado num modelo disciplinar18 ao qual as problematizações propostas por Foucault vogam e se potencializam com a absorção das tecnologias digitais. Na época da razão digital, como argumentado por Peters (2015), o advento da internet e da adoção de arquiteturas abertas, plataformas e redes, todos os espaços modernos de confinamento estão abertos às forças globais externas que exibem-se por meio da combinação do mercado e novas tecnologias digitais (p. 361), que aprimoram, deslocam e potencializam os mecanismos de vigilância quanto instrumento de poder que incide sobre os corpos e subjetividades dos sujeitos contemporâneos.

A exposição dos indivíduos nas redes sociais carece de problematizações que permeiem de maneira mais atuante o ambiente escolar, uma vez que tais recursos informacionais modificam cotidianamente a natureza das relações humanas em todos os ambientes. Entre eles, o ambiente escolar tanto em relação à informação e consequentemente à aprendizagem, como ao convívio social e hierárquico que povoam a escola.

***

#tempo - Essa reorganização social/educacional, empuxada pelas tecnologias que produzem alterações das nossas relações com o tempo e espaço, estabelece uma nova relação com as formas de aprendizagem escolar. Para Michel Serres, os nativos digitais, aos quais ele nomeou de Polegarzinho(a), vivem outra história em outro tempo. Ao descrever a relação jovens, mídia e educação, ele afirma que esses polegarzinhos(as),

São formados pela mídia, propagada por adultos que meticulosamente destruíram a falta de atenção deles, reduzindo a duração das imagens a 7 segundos e o tempo de resposta as perguntas a 15 – são números oficiais.... Nós, adultos, transformamos nossa sociedade do espetáculo em sociedade pedagógica, cuja concorrência esmagadora, orgulhosamente inculta, ofusca a escola e a universidade. Pelo tempo de exposição que dispõe, pelo poder de sedução e pela importância que tem, a mídia a muito tempo assumiu a função 18 Embora não desenvolvido nesse trabalho, muitos autores utilizam o trabalho de Foucault, dentro do contexto de disciplinarização dos corpos e saberes na escola. As principais referências utilizadas nessa pesquisa são (BRITO & GALLO (Org.), 2016) e (VEIGA-NETO, 2000)

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de ensino. (...) Criticados, menosprezados, vilipendiados, já que pobres e discretos, apesar de concentrarem o recorde mundial dos Prêmios Nobel e das medalhas Fields, tendo em vista o número da população, nossos professores se tornaram os menos ouvidos dentro desse sistema instituidor dominante, rico e ruidoso. (SERRES, 2013, p.18 e 19)

Em um questionamento que mais parece uma provocação de viajantes de outro tempo, o autor lança três perguntas: A quem transmitir? O que transmitir? Como transmitir? Uma vez que, para ele,

Na extremidade dessa fenda, temos jovens aos quais pretendemos ensinar, em estruturas que datam de uma época que eles não reconhecem mais: prédios, pátios de recreio, salas de aula, auditórios universitários, campus, bibliotecas, laboratórios, os próprios saberes... Estruturas que datam, dizia eu, de uma época e adaptadas a um tempo em que os seres humanos e o mundo era algo que não são mais. (SERRES, 2013, p. 24)

Essa fenda, descrita por Serres, é aberta em grande parte pelas mídias digitais, em especial as redes sociais. Uma vez que para muitos nativos digitais, esses espaços e estruturas descritos pelo autor, perderam o sentido, e se pensarmos na prática da leitura, as rupturas decorrentes das TICs são evidentes.

Umberto Eco (2014), ao referir-se evolução histórica da dupla suporte-mensagem em seus apontamentos introdutórios, analisa as modificações ocasionadas pela evolução de rolos para pergaminhos, e posteriormente para livros de papel19. O autor demostra como o livro criou um público (novas necessidades ao sujeito), produzindo novas subjetividades e estabelecendo uma nova demanda social em relação a alfabetização. Para ele,

Depois, Gutenberg inventa os tipos móveis, e nasce o livro. Um objeto de série, que deve conformar a sua própria linguagem às possibilidades receptivas de um público alfabetizado, agora (graças ao livro, cada vez mais) mais vasto que o do manuscrito. E não só isso: o livro, criando um público, produz leitores, que por sua vez, o condicionarão (ECO, 2015, p. 12)

Nesse trecho, o autor fala a respeito da produção de leitores. Certamente, a propagação dos livros impressos gerou um novo mercado, que por sua vez, criou a necessidade de sujeitos alfabetizados. Nesse sentido,

... difundindo entre o povo os termos de uma moralidade oficial, esses livros desempenhavam tarefa de pacificação e controle; favorecendo a exploração de humores bizarros, forneciam material de evasão. Mas, no fim das contas, proviam a existência de uma categoria popular de “literatos”, e contribuíam para a alfabetização de seu público. (ECO, 2015, p. 13)

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Em nosso tempo, em relação a prática da leitura, deparamo-nos com um movimento similar, a troca da leitura de livros de papel pela leitura digital e mais frequentemente pela informação mediada por outros meios, que evitam a tarefa introspectiva de ler qualquer texto que possua mais de 280 caracteres20.

A escola desde sua invenção teve um lugar cativo para a prática da leitura. No entanto, antes do aperfeiçoamento das tecnologias digitais, a ação de ler passou a ter na escola seu caráter objetivo21 na lógica de ler, escrever e explicar. Basta olhar os livros didáticos, nos quais se observa a estrutura geral: leia o texto, responda as perguntas e justifique. Talvez essa lógica, tenha se mostrado prática no modelo educacional tradicional, todavia ao surgirem sites de busca e sites especializados em trabalhos acadêmicos, essa rotina presenciou uma ruptura rápida e avassaladora aos adeptos desse processo pedagógico. Para Sibilia (2012),

... a leitura e a escrita se transformaram na era da informação, mudando de estatuto ao se desviarem do ambicioso salvacionismo civilizador, de tom universalista, para focarem na instrumentalidade utilitária mais pontual do tipo empresarial. Esse princípio de explicação poderia atenuar a perplexidade provocada pelo fato de que, hoje, nem os alunos nem os docentes costumam ser propriamente leitores – muitos deles jamais pisaram numa biblioteca, por exemplo -, enquanto as habilidades de escrita se deterioram de um modo estrepitoso. (SIBILIA P. , 2012, pp. 70, 71)

Se o objetivo da leitura, no contexto da prática escolar, era encontrar respostas objetivas, as tecnologias trazem a resposta sem a necessidade da leitura. Como exercitar a capacidade de reflexão e pensamento crítico sem a prática da leitura? Quais as consequências? O americano Nicholas Carr, em seu livro The Shallows: What the Internet Is Doing to Our Brains, descreve como a internet tem modificado a forma como o nosso cérebro funciona. Relatando sua própria experiência no decorrer dos anos com a tecnologia, e se apoiando em outras pesquisas como a de Michel Merzenick, o autor salienta que perdemos nossa capacidade reflexiva de leitura. Uma informação interessante levantada pelo autor é em relação ao escritor Nietzsche, que ao adotar a máquina de escrever mudou seu estilo de escrita. Para a maioria de nós é impensável escrever um texto sem o auxílio de um computador, e isso certamente estabelece uma

20 Em uma referência ao limite de caracteres de uma postagem no Twitter.

21 Objetivo nesse contexto é usado para falar do uso da leitura de maneira prática, como por exemplo ler um problema. A escola tem focado na prática da leitura, como tarefa não ato contemplativo ou reflexivo. Porque mesmo quando se pede reflita, essa é a única coisa que não precisa ser provada. Logo, não precisa ser feita, o importante é a resposta técnica, verdadeira e objetiva.

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nova dinâmica de escrita e a maneira que nosso cérebro responde a esses estímulos. Para o autor,

A notícia é mais perturbadora do que eu suspeitava. Dezenas de estudos realizados por psicólogos, neurobiólogos, educadores e web designers para a mesma conclusão: quando se conecta à rede, entramos num ambiente que promove a leitura superficial, um pensamento apressado e distraído, pensamento superficial... Uma coisa é clara: se, sabendo o que sabemos hoje sobre a plasticidade do cérebro, tivemos de inventar uma forma de reconfigurar nossos circuitos mentais como forma rápida e abrangente quanto possível, provavelmente acabaria a projetar algo como Internet. Não é só porque tendemos a usar a rede habitualmente, até obsessivamente. É também que a Internet oferece exatamente o tipo de estímulos sensoriais e cognitivas - repetitivos, intensivos, interativos, viciante - que têm capacidade comprovada e cerebrais funções circuitos. (CARR, 2018, n.p, tradução minha22)

Nesse sentido, parece que nosso corpo está se adaptando ao nosso modo de vida conectado, trocando velhas habilidades por outras. Essa é a mesma tecnologia que me permite usar a velha habilidade de leitura, agora em um dispositivo digital, e consultar um texto não traduzido para o português para dialogar com um pensamento, que possivelmente não comporia as reflexões deste trabalho, caso essas ferramentas comunicacionais da nossa época não existissem. Talvez a escrita elaborada nessas páginas fosse mais consistente e pensada, se não mediada pelas teclas de um computador, tal qual como aconteceu com Nietzsche.

Em outra perspectiva, Pierre Levy argumenta que o ato de comunicação é definido nas situações que dão sentido as mensagens trocadas e que não seria a transmissão da informação a primeira função da comunicação. Para ele, os atores estabelecem e produzem os sentidos e significações aos quais ele denominou como hipertexto. Dessa forma, ao separar as mensagens de seu contexto de existência, emergiram a ambição teórica e pretensões de universalidade dos saberes. Para ele,

22 Texto traduzido da versão em espanhol: Las noticias son más inquietantes de lo que yo sospechaba. Docenas de estudios a cargo de psicólogos, neurobiólogos, educadores y diseñadores web apuntan a la misma conclusión: cuando nos conectamos a la Red, entramos en un entorno que fomenta una lectura somera, un pensamiento apresurado y distraído, un pensamiento superficial. Es posible pensar profundaente mientras se nevega por la Red, como es posible pensar someramente mientras se lee un libro, pero no es éste tipo de pensamiento que la tecnología promueve y recompensa.

Una cosa está clara: si, sabiendo lo que sabemos hoy sobre la plasticidad del cerebro, tuviéramos que inventar un medio de reconfigurar nuestros circuitos mentales de la manera más rápida y exhaustiva posible, probablement acabaríamos diseñando algo parecido a Internet. No es sólo que tendamos a usar la Red habitualmente, incluso de forma obsesiva. Es también que la Red ofrece exactamente el tipo de estímulos sensoriales e cognoscitivos - repetitivos, intensivos, interactivos, adictivos - que han demostrado capacidad de los circuitos y las funciones cerebrales.

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