• Nenhum resultado encontrado

Levantamento de dados e análise quantitativa

No documento Download/Open (páginas 67-71)

Esta pesquisa consiste em um estudo de caso, que utiliza como técnica a análise de conteúdo. De acordo com Yin (2001), os estudos de caso são ferramentas de pesquisa que auxiliam na compreensão de perguntas explanatórias, aquelas que são do tipo “como” e “por que”, o que se liga ao nosso problema de pesquisa, que se debruça em responder como no ano de 2016 a revista Veja representou o Islam e os muçulmanos de maneira geral.

O ano de 2016 foi escolhido pela proximidade do início do processo de mestrado e com a relevância da temática naquele período, já que o assunto estava em voga por conta da realização dos Jogos Olímpicos na cidade do Rio de Janeiro, e diversas ações foram realizadas no intuito de se impedir qualquer tipo de ataque terrorista durante o evento esportivo.

Ainda de acordo com Yin, estamos realizando um estudo de caso único, em que se justifica a aplicação “quando ele representa o caso decisivo ao testar uma teoria bem-formulada” (YIN, 2001, p. 62). Retomando nossa hipótese inicial, acreditamos que a representação dos muçulmanos e do Islam na Veja possui uma caracterização majoritariamente negativa, ligando a religião e seus fiéis à prática de atos de violência e terrorismo, portanto, responder como essa abordagem foi realizada acaba por auxiliar na comprovação ou refutação da hipótese inicial.

Para isso, compomos uma amostra por acessibilidade, não probabilística, por meio de palavras-chave. Foram utilizadas seis expressões: Islã, Islam, Islamismo, Terrorismo, Estado Islâmico e Muçulmano, a fim de serem levantados os conteúdos jornalísticos que, durante 2016, se referiram de alguma maneira à cultura islâmica e aos atos de violência após o advento do 11 de setembro.

A busca foi realizada no acervo digital da revista Veja durante o ano de 2017 e foram encontradas 146 menções, sendo que a palavra-chave que mais trouxe resultados foi “Terrorismo”, com 44 aparições, seguido pela expressão Muçulmano, 34 menções, “Estado Islâmico”, com 32 citações e “Islã” presente em 25 matérias.

Tabela 1 - Quantidade de resultados por palavra-chave

Fonte: Elaboração próprio autor (2019)

Após leitura flutuante (BARDIN, 1997, p. 96), foram identificadas repetições de conteúdo dentro dos resultados encontrados, com isso, um total de 43 menções foram excluídas, fazendo com que nosso corpus (BARDIN,1997, p.96) seja composto por 103 conteúdos jornalísticos.

Em respostas às necessidades colocadas por Bardin, sobre exaustividade, representatividade, homogeneidade e pertinência (BARDIN, 1997, p. 98), apresentamos no corpus todos os conteúdos jornalísticos produzidos pela revista Veja em 2016, relacionados à religião islâmica representando o universo a ser abordado em análise qualitativa; majoritariamente composto por reportagens (80%), em sua

Palavra-chave Menções Percentual

Terrorismo 44 30% Muçulmano 32 22,5% Estado Islâmico 34 22% Islã 25 17% Islamismo 9 7% Islam 2 1,5%

totalidade retirados do acervo da própria publicação, oferecendo assim, por fim, o caráter de pertinência.

Para Bardin, a codificação é um dos processos essenciais para a realização da análise de conteúdo, já que de acordo com a autora é por meio dela que se obtêm uma representação do conteúdo disposto:

A codificação corresponde a uma transformação - efetuada segundo regras precisas dos dados brutos do texto, transformação esta que, por recorte, agregação e enumeração, permite atingir uma representação do conteúdo, ou da sua expressão, susceptível de esclarecer o analista acerca das características do texto, que podem servir de índices [...] (BARDIN, 1997, p. 103).

Pelo fato de a nossa amostragem ser por acessibilidade, mantivemos como elemento de codificação os termos aos quais tivemos acesso aos conteúdos jornalísticos, excluindo-se as repetições, oferecendo a seguinte distribuição entre eles:

Tabela 2 - Quantidade de resultados sem repetições

Fonte: Elaboração próprio autor (2019)

Ainda de acordo com Bardin, a categorização é o processo pelo qual os elementos, após a codificação, são separados por suas distinções e reagrupados conforme critérios previamente definidos:

A categorização é uma operação de classificação de elementos constitutivos de um conjunto, por diferenciação e, seguidamente, por reagrupamento segundo o gênero (analogia), com os critérios previamente definidos. As categorias, são rubricas ou classes, as quais reúnem um grupo de elementos (unidades de registo, no caso da análise de conteúdo) sob um título genérico, agrupamento esse efetuado em razão dos caracteres comuns destes elementos. O critério de categorização pode ser semântico (categorias temáticas: por exemplo, todos os temas que significam a

Palavra-chave Menções Porcentagem

Terrorismo 44 43% Muçulmano 17 17% Estado Islâmico 24 24% Islã 14 12% Islamismo 3 3% Islam 1 1%

ansiedade, ficam agrupados na categoria «ansiedade», enquanto que os que significam a descontração, ficam agrupados sob o título conceptual descontração), sintático (os verbos, os adjetivos), léxico (classificação das palavras segundo o seu sentido, com emparelhamento dos sinônimos e dos sentidos próximos) e expressivo (por exemplo, categorias que classificam as diversas perturbações da linguagem) (BARDIN, 1997, p. 118).

A categorização deteve-se ao critério semântico, e, portanto, temático. Foram estabelecidas três categorias: abordagem não violenta, abordagem violenta e

abordagem não religiosa, sempre buscando compreender o possível imbricamento da

religião islâmica e da figura dos muçulmanos com o terrorismo e a violência, conforme descrevemos a seguir:

- Abordagem não violenta: foram atrelados a essa categoria conteúdos que apresentaram o muçulmano e a religião islâmica sem relações com atos de violência ou terrorismo; quando os hábitos religiosos e culturas locais foram contextualizados e apresentados corretamente; quando líderes eram apresentados sem ligações diretas a organizações terroristas ou exercendo cargos diplomáticos.

- Abordagem violenta: foram atrelados a essa categoria conteúdos que

apresentam o Islam e o muçulmano intrinsecamente ligados a atos de violência e terrorismo; quando hábitos religiosos e culturas locais foram descontextualizadas e também apresentadas de maneira genérica tendo o foco na violência; quando líderes eram automaticamente associados a atos de violência e terrorismo.

- Abordagem não religiosa: quando o conteúdo, apesar das palavras-chaves, não condizia com o objetivo da pesquisa; referências genéricas de violência e terrorismo, quando o conteúdo não fazia nenhuma referência ao Islam, ou aos muçulmanos de maneira direta ou indireta, ou a qualquer outra religião; quando se tratavam de chamadas no sumário da publicação.

Para a classificação dos conteúdos jornalísticos foi realizada a leitura prévia do contexto ao qual as palavras-chaves estavam relacionadas, assim como a leitura dos títulos, linhas finas e parágrafos iniciais das matérias. Em caso de dubiedade, ou falta de contextualização, foi realizada a leitura integral dos conteúdos.

Tabela 3 - Dados quantitativos por categoria

Fonte: Elaboração próprio autor (2019)

Essa proporção nos mostra como a abordagem negativa se sobressai à positiva, tendo uma diferenciação de 24% a favor das abordagens negativas. Se retiradas as abordagens neutras, ou seja, aquelas que não possuem caráter religioso, essa proporção aumenta, 75% dos conteúdos ligam o Islam e os muçulmanos à violência, contra apenas 25% de abordagens não violentas, confirmando nossa hipótese inicial de que a revista Veja atrela o terrorismo ao Islam e aos muçulmanos de maneira geral.

Passamos agora a descrever alguns destaques, analisando os contextos em que estão inseridos e os possíveis desdobramentos dessas representações para a comunidade islâmica, assim como a imagem do muçulmano.

No documento Download/Open (páginas 67-71)

Documentos relacionados