à informação
Os Estados Partes tomarão todas as medidas apropriadas para assegurar que as pessoas com deficiência possam exercer seu direito à liberdade de expressão e opinião, inclusive à liberdade de buscar, receber e compartilhar informações e ideias, em igualdade de oportunidades com as demais pessoas e por intermédio de todas as formas de comunicação de sua escolha, conforme o disposto no Artigo 2 da presente Convenção, entre as quais:
a) Fornecer, prontamente e sem custo adicional, às pessoas com deficiência, todas as informações destinadas ao público em geral, em formatos acessíveis e tecnologias apropriadas aos diferentes tipos de deficiência;
b) Aceitar e facilitar, em trâmites oficiais, o uso de línguas de sinais, Braille, comunicação aumentativa e alternativa, e de todos os demais meios, modos e formatos acessíveis de comunicação, à escolha das pessoas com deficiência; c) Urgir as entidades privadas que oferecem serviços ao público em geral,
inclusive por meio da internet, a fornecer informações e serviços em formatos acessíveis, que possam ser usados por pessoas com deficiência;
d) Incentivar a mídia, inclusive os provedores de informação pela internet, a tornar seus serviços acessíveis a pessoas com deficiência;
e) Reconhecer e promover o uso de línguas de sinais.
Laíssa da Costa Ferreira
P
oucas coisas reúnem a unanimidade de reflexão e pensamento como o po- deroso papel que a comunicação exerce no mundo contemporâneo. É certo que há os que julgam que algumas ferramentas de comunicação têm contri- buído para uma menor interação social, ou os que avaliem como impossível uma vida não conectada, mas todos reconhecem a comunicação como central, seja no seu viés de problema ou no de facilitação da vida e das trocas sociais.Na centralidade deste debate encontramos elementos de poder, de direitos, de mercado, de abrangência e influência. Quem pode se comunicar? A liberdade de expressão pode coadunar com discursos de ódio ou que firam a dignidade dos seres humanos? Qual o direito que vem primeiro? Em que medida a comunicação tem contribuído para uma sociedade em que os estereótipos e preconceitos
sejam cada vez mais alimentados? Quem decide o que pode ser divulgado, quais os padrões estéticos e éticos que são promovidos ou o que deve ser valorado em termos de perspectiva política?
São muitas as questões que circundam o que é a comunicação, essa que abarca a liberdade de expressão e de opinião e o acesso à informação. E, embora existam milhares de correntes dentro desse campo, a principal divergência diz respeito à comunicação enquanto DIREITO e a comunicação enquanto produto ou mercadoria. Quando conseguimos vislumbrar essa disputa que é típica do modelo econômico vigente, torna-se mais claro e fácil compreender o porquê de tão poucos grupos sociais terem espaço para se comunicar ainda nos dias de hoje, o porquê de tantos canais de comunicação repercutirem ideias e opiniões tão semelhantes, o porquê do contraponto e dos direitos humanos serem uma questão tão pouco debatida.
O viés tecnológico, de ferramentas, de alcance, de recursos, de segurança, todos tão importantes, parecem ser os únicos pontos passíveis a serem abordados quando se discute comunicação. O lugar dado ao debate da comunicação na perspectiva dos direitos humanos ainda é um não lugar. Não se trata de um debate vencido, trata-se, sim, de um debate social que ainda não aconteceu como precisaria porque ele não é de interesse dos que detêm os meios de produção e veiculação da notícia.
Na continentalidade do Estado Brasileiro, poucas vozes, poucos sotaques, pouca regionalidade, pouca diversidade podem ser observados nos canais de TV. Os jornais impressos obedecem a esse mesmo paradigma, pois são praticamente os mesmos donos, as mesmas famílias que se comunicam pela TV e que detêm, também, as emissoras de rádio. Qual o espaço que sobra aos movimentos sociais? Qual o espaço que sobre a defesa e a promoção dos direitos humanos? Qual o espaço que sobra ao contraponto? Qual o espaço que sobra à democracia?
O leitor deste artigo pode estar se perguntando quando começarei a discorrer sobre o Artigo 21 da Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência – CDPD. Seria uma indagação compreensível, haja vista esse segmento sofrer com questões tão preliminares e cruciais ao exercício de poder falar e ser ouvido, de poder receber as informações, ainda que restritas a uma comunicação de massa que não é democrática, de poder acessar conteúdos e participar da vida cultural hegemônica e elitista expressa pelos veículos de comunicação, que o debate sobre o direito humano à comunicação é estancado na falta de acessibilidade.
Se a população brasileira está em muito sujeitada a acessar o que interessa aos donos do poder econômico, a parcela da população brasileira com deficiência, especialmente as pessoas com deficiência sensorial, ainda não chegaram nem aí. Os esforços do governo brasileiro em cumprir o que determina a Convenção já galgaram importantes avanços: desde julho de 2014 conquistamos 16h/dia de legenda obrigatória na TV digital aberta; curso para formar profissionais audiodescritores foi instituído em parceria com universidade; as pessoas que desejarem aprender Libras podem fazê-lo de forma gratuita através do Programa Nacional de Acesso
ao Ensino Técnico e Emprego (Pronatec); o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) passou a exigir, a partir das eleições de 2014, a veiculação de legendas ou janelas da Libras nos debates televisionados; a Agência Nacional do Cinema (Ancine) tem tomado medidas para a melhoria da acessibilidade na produção audiovisual. Mas ainda temos inúmeras barreiras que precisam ser superadas.
Quando o Governo Federal, por meio da Secretaria Nacional de Promoção dos Direitos da Pessoa com Deficiência da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República, passou a implantar Centrais de Interpretação da Língua Brasileira de Sinais em parceria com estados e municípios, ficou ainda mais evidente a demanda das pessoas surdas usuárias da Libras por comunicar-se. As centrais implantadas atendem em média 300 pessoas/mês querendo acessar serviços de saúde e de Justiça, comunicar-se com bancos ou simplesmente acessar informações não disponíveis em sua língua.
Longe de essas discussões serem antagônicas ou disputarem espaço, o debate sobre o Direito Humano à comunicação e, por conseguinte, a necessária democratização da mídia dialoga diretamente com a necessidade e o direito à acessibilidade que advoga a CDPD. Esse segmento, igualmente, deve saber que não está sozinho na luta pelo acesso à informação, pelo direito de expressar-se e de compartilhar informações e ideias. Essa é uma luta por democracia. Não há democracia sem liberdade e não há liberdade sem direitos. Liberdade sem direitos é a liberdade do mais forte sobre o mais fraco.
Esta, aliás, é mais uma faceta que faz vítimas no universo das pessoas com deficiência, das mulheres, dos negros, da população LGBT e todos os demais públicos vulneráveis: a liberdade de expressão que fere o direito do outro. Quando os meios de comunicação expõem opiniões que contribuem para exclusão social, para o aumento do estigma e do preconceito. As pessoas com deficiência sofrem diariamente com o reforço à ideia que associa deficiência à tragédia pessoal, a enfermidade, que trata de direitos como se fossem benesses do politicamente correto ou da solidariedade alheia. É preciso que se reflita sobre que liberdade defender.
Paulo Freire diz que não há educação sem liberdade e que não há liberdade sem comunicação dialógica. Assim, uma comunicação que não permite a troca de informações, apenas o recebimento desta numa relação verticalizada, é uma comunicação que não emancipa, que não educa, que não promove os direitos humanos.
Um trecho do Artigo 8 da CDPD conclama a “Incentivar todos os órgãos da mídia a retratar as pessoas com deficiência de maneira compatível com o propósito da presente Convenção”, e isso traz uma relação estreita com o Artigo 21 ora debatido.
Espera-se caminhar para uma sociedade em que a relação das pessoas com deficiência e os meios de comunicação não se dê sob a égide dos estereótipos e da falta de acesso, que esse segmento não seja retratado para comoção do público, com a exacerbação da sua situação de deficiência sobre a sua condição
de pessoa. É preciso retratar as pessoas com deficiência não como seres humanos vitimados ou especiais, mas revelar a deficiência como parte da condição humana.
Se a comunicação é um direito – e não se pode ter dúvidas sobre isso –, é preciso defendê-lo e garanti-lo. Impedimentos de ordem social, técnica, política, econômica não podem justificar o não exercício da liberdade de expressão, de opinião e de acesso à informação pelas pessoas com deficiência ou qualquer outro cidadão brasileiro. É dever do Estado promover a pluralidade e a diversidade e papel de toda sociedade lutar para que a formulação e a implementação das políticas públicas no campo da comunicação obedeçam ao interesse público e não aos interesses comerciais ou do capital.
Vale lembrar que o direito humano à comunicação não alcança apenas os espaços da mídia tradicional. Garantir o acesso direto de todos os cidadãos com ou sem deficiência às Tecnologias de Comunicação e Informação, como a rede mundial de computadores, é outra condição para a efetivação desse direito. Nesse aspecto, o governo brasileiro, por meio do Departamento de Governo Eletrônico da Secretaria de Logística e Tecnologia da Informação do Ministério do Planejamento, Orçamento e Gestão – SLTI/MP, vem construindo parâmetros de acessibilidade em todos os sítios oficiais da administração pública, baseado no eMAG governo eletrônico.
Para as pessoas com deficiência a tecnologia da comunicação e informação possibilita a eliminação de barreiras, uma maior autonomia e equidade no acesso aos conteúdos. O uso de celulares, de sistemas, de softwares democratiza o seu acesso, favorecendo sua plena e efetiva participação e inclusão na sociedade. Mas, é preciso lembrar, as tecnologias e seus avanços, por si só, não definem a participação de todos e todas na comunicação.
Outro aspecto relevante são as legislações que regem a Propriedade Intelectual. Respaldados na CDPD e em diálogo estreito com a sociedade civil, notadamente as entidades representativas do segmento de cegos, o governo brasileiro protagonizou uma longa e difícil negociação no âmbito da Organização Mundial da Propriedade Intelectual (OMPI) para garantir que as regras de proteção à propriedade intelectual não favorecessem a exclusão das pessoas cegas em todo o mundo no seu direito de acesso à informação, ao conhecimento e à cultura.
O que ficou conhecido como Tratado de Marraqueche busca facilitar o acesso a obras publicadas às pessoas cegas, com deficiência visual ou com outras dificuldades para acessar ao texto impresso. O Tratado favorece o intercâmbio de livros acessíveis entre os países. O próximo passo é a sua ratificação.
Discorrer sobre os artigos da CDPD pode ser também um exercício de monitorá-la. No ano de 2008 a pesquisadora e militante dos direitos da pessoa com deficiência, Anahí Guedes de Mello, comentando sobre este mesmo artigo, aponta como desejáveis a criação de um catálogo nacional de ajudas técnicas com produtos comercializados ou produzidos no Brasil, com atualização periódica e divulgação aos interessados; Aponta também a necessidade de que sejam criadas condições que possibilitem às pessoas com deficiência adquiri-las, através da concessão de subsídios e planos de financiamento.
Nesta edição, nascida seis anos após a última, por meio do Plano Nacional dos Direitos da Pessoa com Deficiência – Viver sem Limite, as importantes proposições trazidas pela Anahí Guedes configuram-se realidade. A lista nacional de produtos de Tecnologia Assistiva foi criada e traz informações sobre mais de 1.200 produtos fabricados ou distribuídos no país, está disponível no sitio http://assistiva.mct.gov.br ; o Banco do Brasil, por meio do crédito BB Acessibilidade, já concedeu mais de R$148 milhões em créditos para aquisição de produtos que melhoram a vida das pessoas com deficiência e, agregado a isso, o Centro Nacional de Referencia em Tecnologias Assistiva foi criado e instituiu-se uma Rede Nacional de Pesquisa e Desenvolvimento em Tecnologia Assistiva com mais de 91 núcleos já apoiados pelo Governo Federal.
O que podemos depreender disso é que as políticas de inclusão precisam ser cada vez mais fortalecidas e ampliadas, mas que de forma isolada, sem diálogo com a necessária regulamentação da comunicação no Brasil, estaremos sempre nadando contra a corrente. O aparato legal que cerca as obrigações de acessibilidade nas comunicações esbarra-se na forte resistência das empresas do setor de radiodifusão em se adequar às normas e na fiscalização, que é insuficiente.
É preciso regular a atuação dos meios de comunicação de massa. Isso absolutamente não envolve limites à liberdade de imprensa, mas o estímulo ao pluralismo. A concentração hoje existente através do monopólio impede a circulação de ideias e pontos de vista diferentes. São anos de negação da pluralidade, de imposição de comportamentos, de negação da diversidade do povo brasileiro.
Além disso, a lei que orienta o serviço de comunicação completou 50 anos e não atende ao objetivo de ampliar a liberdade de expressão, muito menos está em sintonia com os desafios atuais da convergência tecnológica.
A Constituição Federal traz diretrizes importantes nesse sentido, mas não diz como alcançá-las, o que deveria ser feito por leis. Infelizmente, até hoje não houve iniciativa para regulamentar a Constituição, e o Congresso Nacional precisa ser instado a isso para que o que está na Carta Magna possa ser garantido como direito. A sociedade não pode mais esperar por isso.
As pessoas com deficiência precisam entrar firmes nessa plataforma de luta, que envolve todos/as a quem a voz foi negada até hoje, todos/as que não têm espaço na mídia para se comunicar com a sociedade transmitindo seus pontos de vista e ideias, todos/as que a mídia tradicional marginaliza, persegue e invisibiliza. É preciso que arranquemos as nossas mordaças!
FREIRE, Paulo. Pedagogia do Oprimido. 17ª. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987. __________ . Extensão ou comunicação? 12ª. ed. São Paulo: Paz e Terra, 2002. __________ . Ação Cultural para a Liberdade e outros escritos. 10ªed. São Paulo:
Nenhuma pessoa com deficiência, qualquer que seja seu local de residência ou tipo de moradia, estará sujeita a interferência arbitrária ou ilegal em sua privacidade, família, lar, correspondência ou outros tipos de comunicação, nem a ataques ilícitos à sua honra e reputação. As pessoas com deficiência têm o direito à proteção da lei contra tais interferências ou ataques.
Os Estados Partes protegerão a privacidade dos dados pessoais e dados relativos à saúde e à reabilitação de pessoas com deficiência, em igualdade de condições com as demais pessoas.