mesma circunstância – e na medida em que esta referência traduz o sentimento de formar um todo (Weber, 1973:142, in Peruzzo).
A vida em comunidade, além de permitir a todos os indivíduos o compartilhamento de conhecimentos, problemas, alegrias e medos, é também o primeiro passo para a inclusão do ser humano em sociedade.
Através deste contato, surgem os valores cruciais para um convívio harmônico e saudável, como forma de se estabelecer relações de troca, necessárias para o ser humano se empoderar, conviver na diversidade humana e respeitar às diferenças individuais. Entenda-se por empoderamento, o uso do poder pessoal para – com independência – fazer escolhas, tomar decisões e assumir o controle da situação
( ).
Empoderar nada mais é do que permitir que as pessoas com deficiência tenham controle de seus próprios assuntos (individuais ou coletivos), sobre as decisões que acarretem ou não, consequências em sua vida, conforme destacado no caput, do artigo 19, da Convenção dos Direitos das Pessoas com Deficiência:
Os Estados Partes desta Convenção reconhecem o igual direito de todas as pessoas com deficiência de viver na comunidade, com a mesma liberdade de escolha que as demais pessoas, e tomarão medidas efetivas e apropriadas para facilitar às pessoas com defici- ência o pleno gozo desse direito e sua plena inclusão e participação na comunidade. (grifado)
Oportuno enfatizar que a ação de empoderamento deve ocorrer de maneira que a sociedade permita a Pessoa com deficiência que desenvolva suas habilidades e competências para produzir, criar e gerir sua vida.
O dispositivo da Convenção reitera o princípio constitucional da isonomia, ao reconhecer o igual direito de todas as pessoas com deficiência de viver na comunidade. Assim, esse direito fundamental de vida em comunidade não pode ser compreendido como fruto das estruturas do Estado, mas do desejo de todos.
Some-se a isso o fato de que para que a inserção ocorra de modo eficaz, é necessário que a pessoa com deficiência seja tratada com dignidade, conforme muito bem elencado na Constituição brasileira, no art. 1º, III, que trata do princípio da dignidade da pessoa humana.
Tal inclusão significa que a sociedade precisa adequar-se às ca- racterísticas individuais de cada pessoa com deficiência (e não às características gerais deste segmento populacional enquanto grupo equivocadamente tomado como homogêneo) (
O jurista Ingo Wolfgang Sarlet (2001, p. 60) destrincha de forma ímpar o que se entende por dignidade da pessoa humana:
Temos por dignidade da pessoa humana a qualidade intrínseca e distintiva de cada ser humano que o faz merecedor do mesmo res- peito e consideração por parte do Estado e da comunidade, implican- do, neste sentido, um complexo de direitos e deveres fundamentais que assegurem a pessoa tanto contra todo e qualquer ato de cunho degradante e desumano, como venham a lhe garantir as condições existenciais mínimas para uma vida saudável, além de propiciar e promover sua participação ativa corresponsável nos destinos da pró- pria existência e da vida em comunhão dos demais seres humanos.
Seguindo esta linha de raciocínio, é dever o Estado garantir que a pessoa com deficiência possa usufruir dos bens e serviços sociais em igualdade de condições com as demais pessoas, conforme destacado no Art. 19, ‘a’ e ‘b’ da Convenção dos Direitos das Pessoas com Deficiência.
b) As pessoas com deficiência tenham acesso a uma variedade de
serviços de apoio em domicílio ou em instituições residenciais ou a outros serviços comunitários de apoio, inclusive os serviços de atendentes pessoais que forem necessários como apoio para que vivam e sejam incluídas na comunidade e para evitar que fiquem isoladas ou segregadas da comunidade;
c) Os serviços e instalações da comunidade para a população em
geral estejam disponíveis às pessoas com deficiência, em igual- dade de oportunidades, e atendam às suas necessidades.
Vida Independente. A fim de melhor compreender o termo vida independente, é importante conceber o escorço histórico acerca do tema.
O movimento brasileiro de vida independente começou a organizar-se no final da década de 1980 e hoje é uma realidade irreversível, consolidada e influente tanto no nível federal como em um crescente número de Estados e Municípios
( ).
Para esclarecer o termo vida independente, a Convenção, de forma proposital, reafirma o princípio constitucional da igualdade como forma de não-discriminação para estabelecer o direito fundamental da autonomia e vida independente.
Assim, vida independente significa que:
a pessoa com deficiência é capaz, como qualquer outra, de adminis- trar sua própria vida, tomar decisões, fazer escolhas e assumir seus desejos; tem, portanto, o poder para fazer-se representar e ter voz
própria nas questões que lhe dizem respeito, ou que se relacionem aos interesses e demandas do segmento;
a independência da pessoa, mesmo que possua uma deficiência severa, está muito mais representada em sua capacidade de gerir sua vida, assumir responsabilidades, tomar decisões e guiar-se por seus desejos, do que propriamente em sua capacidade de realizar atividades por conta própria;
a pessoa com deficiência possui desejos, necessidades e interesses variados que não a identificam como um grupo específico e unifica- do em torno de características físicas, sensoriais ou intelectuais em comum; portanto, deve ser compreendida e tratada em sua singula- ridade, distinguindo-se das demais pessoas, e até mesmo daquelas que possuam o mesmo tipo de deficiência, requerendo ações e res- postas diversificadas, para atender a uma demanda diferenciada
( ).
O conceito de vida independente implica a plena inserção da pessoa com deficiência na comunidade e a assegurar os meios para tanto, sendo consideradas como “instrumentos ou mesmo pessoas que possam apoiar-lhes de forma a viabilizar o exercício pleno dessa participação. Visa-se, com isso, romper os muros de isolamento institucional” (
).
Estado como agente empoderador da autonomia e da vida independente. A compreensão do tema embasa-se nas orientações descritas no Preâmbulo do texto da Convenção, segundo o qual é preciso reconhecer a importância da acessibilidade aos meios físico, social, econômico e cultural, à saúde, à educação e à informação e comunicação, para possibilitar às pessoas com deficiência o pleno gozo de todos os direitos humanos e liberdades fundamentais.
Some-se a este entendimento o fato de que, conforme minudenciado no próprio exórdio do documento a necessidade de um olhar mais afetuoso acerca da pobreza e suas consequências na deficiência:
t) Salientando o fato de que a maioria das pessoas com deficiência
vive em condições de pobreza e, nesse sentido, reconhecendo a necessidade crítica de lidar com o impacto negativo da pobreza sobre pessoas com deficiência.
É evidente o poder-dever do Estado na contratação de bens e na prestação de serviços públicos efetivamente preocupados com a dignidade da pessoa com deficiência, sua autonomia e inclusão no seio social.
Não é outro entendimento senão o elencado no caput, do Artigo 4, da Convenção, indicando que os Estados Partes se comprometem a assegurar e a promover o pleno exercício de todos os direitos humanos e liberdades fundamentais por todas as pessoas com deficiência, sem qualquer tipo de discriminação por causa de sua deficiência.
Assim, caberá a administração pública a efetivação dos direitos pactuados, asse- gurando-se o cumprimento do disposto no inciso ‘c’, do Artigo 19, da Convenção:
c) Os serviços e instalações da comunidade para a população em geral estejam disponíveis às pessoas com deficiência, em igual- dade de oportunidades, e atendam às suas necessidades.
Oportuno destacar que o bem estar social é dever do Estado e, nos casos de descumprimento ou falhas na prestação destes serviços, caberá ao administrador público a indenização pelos danos morais e materiais sofridos.
Conclusão. É clara a importância do Estado como agente empoderador da vida independente da pessoa com deficiência e sua inclusão na sociedade.
É assegurado a todas as pessoas, com deficiência ou não, a prestação de serviços adequados para a sua participação plena na sociedade.
SARLET, Ingo Wolfgang. Dignidade da pessoa humana e direitos fundamentais. Porto Alegre: Livraria do Advogado, 2001.
SASSAKI, Romeu Kazumi. Artigo 19 – Vida Independente e Inclusão na Comunidade. Disponível em: . Acesso em 15 de setembro de 2013. COSTA, R. Por um novo conceito de comunidade: redes sociais, comunidade
pessoais, inteligência coletiva. Interface, Comunic., saúde, educ., v.9, n 17, março/agosto. 2005.
LEMOS, Carolina Teles. A (re)construção do conceito de comunidade como um desafio à sociologia da religião. Estudos de Religião, v. 23, n. 36, 201-216, jan./jun. 2009.
PERUZZO, Cicilia M. Krohling e Marcelo de Oliveira Volpato. Conceitos de comunidade, local e região. Líbero – São Paulo – v. 12, n. 24, p. 139-152, dez. de 2009.
DANTAS, Thiago. Comunidade e sociedade. Disponível em:
Os Estados Partes tomarão medidas efetivas para assegurar às pessoas com deficiência sua mobilidade pessoal com a máxima independência possível:
a) Facilitando a mobilidade pessoal das pessoas com deficiência, na forma e no momento em que elas quiserem, e a custo acessível;
b) Facilitando às pessoas com deficiência o acesso a tecnologias assistivas, dispositivos e ajudas técnicas de qualidade, e formas de assistência humana ou animal e de mediadores, inclusive tornando-os disponíveis a custo acessível;
c) Propiciando às pessoas com deficiência e ao pessoal especializado uma capacitação em técnicas de mobilidade;
d) Incentivando entidades que produzem ajudas técnicas de mobilidade, dispositivos e tecnologias assistivas a levarem em conta todos os aspectos relativos à mobilidade de pessoas com deficiência.