Capítulo III – Machado de Assis: O ECLESIASTES, A LIBERDADE E O MAL
3.4 LIBERDADE DO MAL
Em Quincas Borba, vemos os personagens tendo total liberdade de se moverem dentro do mal – escrevemos liberdade, pois eles também poderiam ter optado pelo bem.
Mas a que liberdade estamos nos referindo? Para embasarmos nossas ponderações, recorremos à obra Crítica e profecia: a filosofia da religião em Dostoiévski (2013), de Luiz Felipe Pondé. Não que pretendamos tecer comparações entre o autor de Os Demônios e o de
Quincas Borba. Contudo, Pondé escreve sobre dois tipos de liberdade que achamos que nos
ajudariam a esmiuçar em que tipo(s) de liberdade Palha, Sofia, Carlos Maria, Major Siqueira, Dona Fernanda, entre outros, se moveram. Conforme já mencionamos, o mal se dá dentro da liberdade.
Consoante Pondé, para Dostoiévski havia dois posicionamentos referentemente à liberdade: a autonomia e a heteronomia. Na heteronomia, a pessoa tem sua capacidade de discernimento alienada e deixa sua capacidade de decisão ao outro. Sofia, em determinadas situações, deixa para Palha decidir o que deve fazer. Um exemplo disso é quando ela conta ao marido a declaração de amor que Rubião lhe fizera:
Era uma concessão; Palha aceitou-a; mas imediatamente ficou sombrio, soltou a mão da mulher, com um gesto de desespero. Depois, agarrando-a pela cintura, disse em voz mais alta do que até então: - Mas, meu amor, eu devo-lhe muito dinheiro.
Sofia tapou-lhe a boca e olhou assustada para o corredor.
– Está bom, disse, acabemos com isto. Verei como ele se comporta, e tratarei de ser mais fria... Nesse caso, tu é que não deves mudar, para que não pareça que sabes o que se deu. Verei o que posso fazer.
– Você sabe, apertos do negócio, algumas faltas... é preciso tapar um buraco daqui, outro dali... o diabo! É por isso que... Mas riamos, meu bem; não vale nada. Sabe que confio em ti. (MACHADO DE ASSIS, 2004, p.65).
Já a autonomia emprega a liberdade centrada nela mesma. Para Pondé, essas duas posições intensificam o mal. Ao ler Quincas Borba, o leitor não adentra o campo da religião e, consequentemente não coloca os personagens diante de uma possível confrontação com os mandamentos divinos, o que já mostramos no Capítulo II. No caleidoscópio narrativo, Machado de Assis, profundo entendedor da natureza humana, nos mostra personagens que geralmente atuam mais autonomamente do que de forma heterônoma. É muito claro ver seus personagens mergulhados no mal, mas não pensamos em Satanás ou que eles estão à mercê das forças demoníacas, que os manipulam ao seu bel-prazer. Não cientes de se moverem dentro do mal e, por conseguinte, sem enfrentar o mal na condição de seres humanos livres, eles não sofrem, não se assumem como tais, não sofrem crise de consciência. E, por
conseguinte, não é possível vislumbrar a redenção dos personagens e quiçá podemos pensar num convívio social mais ético e transparente.
Do mesmo modo que foram levados a cometer o mal – contexto histórico, social e econômico – poderiam ter sido conduzidos ao bem, mas o bem para os personagens não leva a nenhum lugar. Ao contrário: privilegia a mesmice, a estagnação social, a falta de perspectivas. Por nenhum momento, eles duvidam se devem pender para o bem ou para o mal. A autonomia em Quincas Borba nos lembra o self-made man, que empreende sua inteligência, perspicácia, relacionamento, tino comercial, para ocupar um lugar ao sol nessa sociedade brasileira que pensava, no século XIX, estar à altura de uma Inglaterra ou de uma França. Ou pelo menos nutria expectativas a respeito. Forjava-se, pois, uma sociedade brasileira – pelo menos carioca – que possuía uma fé em si mesma. É o que ocorre com Carlos Maria, Palha, Camacho, Sofia. Dentro do rol dos personagens de Quincas Borba, nem todos possuem fé em si próprios (auto-
pistis). Tonica e Benedita, por exemplo, precisam de alguém dizendo o que e como devem
fazer. No caso da primeira, o pai, e da segunda, Sofia. Se todos os personagens assumissem o próprio mal e enveredassem por um caminho de autoconhecimento, em que desconstruíssem internamente, haveria um movimento rumo ao caminho do bem. Por outro lado, seria igualmente necessário que todos saíssem de si próprios a fim de sair da senda do mal. E a única maneira, consoante Pondé, é amando. Só que em Quincas Borba ninguém se ama. Apenas Benedita é movida pelo amor a Carlos Maria, que desconhece o que é amor. Sair de si, amar o próximo, ser inspirado pela compaixão e pela caridade são movimentos que os personagens desconhecem. Em termos de compaixão, há Dona Fernanda, que se compadece do sofrimento de Rubião. Entrementes, é necessário mencionar que há autores que não veem a senhora como um modelo isento de dedicação ao próximo, já que pontuam que ela também age por interesse. De qualquer maneira, apontam para o fato de que ela não age para prejudicar os outros. E é aqui que ela se distancia dos demais personagens.
Retomando o tema do amor, para Pondé aquele que ama é que realmente realiza o bem. Não vemos isso na obra objeto de nosso estudo. Embora a teologia/religião possam acenar com a graça, em outras palavras, apontem que, quando amamos, podemos alcançá-la, Machado de Assis por nenhum momento sugere, propõe ou aponta a transformação do mundo seja pela graça, pelo amor, pelo conhecimento de si mesmo. Ninguém na trama de Quincas
Borba se redime, se regenera ou se transforma por causa do amor. Aqui, poderemos dizer que
quase todos os personagens – com exceção de Dona Fernanda – vão sobrevivendo num mundo em que a razão humana não dá conta da experiência humana, em que ninguém esgota
todas as possibilidades de se conhecer e de mudar. Eles não se enxergam e, por conseguinte, não se conhecem. Uma vez que não se conhecem, não mudam e não melhoram o mundo.
3.5 A LITERATURA COMO FACILITADORA DA REFLEXÃO TEOLÓGICA E