Capítulo I A EXPERIÊNCIA DO MAL EM QUINCAS BORBA
1.3 O MAL REGENDO AS RELAÇÕES EM QUINCAS BORBA
O mal aparece como parte da condição humana; em Machado de Assis, ele é mostrado de forma objetiva e difícil de ser superado, sendo o autor carioca, portanto, rigoroso em relação à condição humana. Esta sucumbe ao mal, o qual é inerente ao ser humano.
O escritor carioca não nos inspira abertamente para abominarmos o mal e privilegiarmos o bem, mas no movimento de seus personagens, temos dois assombros: rejeitamos profundamente o mal e concluímos, a princípio, que o ser humano não tem salvação.
Na obra Quincas Borba, Rubião se perde no fato de que ele é um ser humano: o dinheiro lhe tira o bom senso. Nele, as ideias e a política podem se tornar um trilho em que o mal segue seu rumo.
Machado de Assis não propõe nada que possamos fazer para evitarmos o mal, porque ele via nisso um aspecto da condição humana. Um aspecto em que seus personagens se apresentam como seres destituídos de culpa; portanto, o Bruxo do Cosme Velho nos mostra seres que não são morais, porque o ser moral sente a culpa. Não sendo seres morais, além de não sentirem culpa, não olham para o problema do outro, a menos que essa ação lhes acarrete vantagens. No livro, objeto desta pesquisa, o mal vai agindo como ácido, corroendo lentamente as relações. Por nenhum instante, o autor se perde em conceituações prolixas sobre o mal – ele preferiu mostrá-lo em funcionamento.
Machado de Assis coloca os personagens em relação: familiar, política, educacional, sobretudo. Ele não pensa o bem o e o mal no homem sozinho: o homem é bom ou mau em suas relações. Em Rubião, por exemplo, há uma gama de mal, pois vemos nele vaidade e revanchismo:
Ia assim, descendo e subindo as ruas da cidade, sem guiar para casa, sem plano, com o sangue aos pulos. De repente, surgiu-lhe este grave problema: - se iria viver no Rio de Janeiro ou se ficaria em Barbacena. Sentia cócegas de ficar de brilhar onde escurecia, de quebrar a castanha na boca aos que antes faziam pouco caso dele, e principalmente aos que se riram da amizade do Quincas Borba. Mas logo depois, vinha a imagem do Rio de Janeiro que ele conhecia, com os seus feitiços, movimentos, teatros em toda a parte, moças bonitas, ‘vestidas à francesa’. Resolveu que era melhor, podia subir muitas e muitas vezes à cidade natal. (MACHADO DE ASSIS, 2004, p.86).
Entretanto, seu amor por Sofia não o redime, e a vaidade, o ciúme, o oportunismo, o apego às aparências e ao esbanjamento não se retraem e vão caminhar lado a lado com a paixão e a demência. Segundo Rocha (2008) “(...) o vaidoso não é uma metamorfose, mas um paradoxo ambulante. Afinal, ele possui uma auto-estima (sic) bastante desinibida, mas, ao mesmo tempo, depende da aprovação geral”.
Uma tônica do mal em Machado de Assis é a dissimulação e, para tanto, recorremos a Sepúlveda (2008), na introdução da sexta edição da obra Quincas Borba, que definiu a dissimulação como um sinal de maturidade precoce apresentada como prova de culpa que ajuda a lidar com a sociedade mundana, os jogos de salão e a esperteza.
No livro em discussão, o ser humano vai agindo segundo o que melhor lhe aprouver, pois o mal que ele pratica é compensador, a lei não lhe causa medo, mentir e ludibriar o ajudam a satisfazer suas ambições, e as vantagens, no cômputo geral, o impedem de vislumbrar a mínima possibilidade de seus atos causar mal a terceiros. Por nenhum momento a consciência o aconselha a ser prudente, a evitar certas práticas.
Em Machado de Assis, Rubião e Sofia, por exemplo, sofrem tentações e, se eles “vencem” essa batalha interna, não é porque eles desprezam o mal, mas porque eles o evitam uma vez que temem a desaprovação da sociedade.
Talvez o único personagem que se move dentro da esfera do bem é Da. Fernanda, rica proprietária da classe alta, impositiva, que gosta de exercer seu poder de influência sobre as pessoas. É ela que se preocupa com a saúde mental de Rubião e quer ajudá-lo, junto com Palha e Sofia. Estes últimos mais preocupados com a imagem social do que em auxiliar o amigo.
Vemos, pois, que dentro da condição humana, a literatura e as religiões em geral apontam para o fato de que o ser humano apresenta uma contradição: age com base no bem, mas é mau. Apesar dos apelos incessantes de escritores e religiosos de que devemos acolher o bem e refutar o mal, muitas vezes, e aqui nos voltamos totalmente para as instituições religiosas, estas subordinam Deus a elas porque, dentro da economia divina, é preciso que coloquemos Deus sob nosso controle.
Tachado de indiferente aos problemas sociais, podemos usar o argumento para defendê-lo contra essa crítica impensada também no que se refere à sua postura diante da condição humana: Machado de Assis, por nenhum momento, fez uso, segundo Faraco (2004),
do “emocionalismo” para manifestar suas tendências abolicionistas. E aqui ousamos tomar emprestado o termo para nos referir ao olhar que o escritor lança sobre o mal presente na alma humana. Ao invés de ser apelativo, apaixonado, emotivo, preferiu a análise, a reflexão, deixando o leitor livre para tirar suas conclusões. Afinal, é melhor ser livre do que conduzido.
Ao colocar seus personagens, semelhantes a nós ou semelhantes a alguém que já conhecemos, nós nos aproximamos mais deles e, se tivermos sabedoria e coragem suficientes, concluiremos que nós podemos agir exatamente como eles, e isso facilita e agiliza nossa reflexão sobre o mal. Talvez se Machado de Assis tivesse traçado pessoas “monstruosas” (importa ressaltar que ele pretendia mostrar as pessoas por dentro; não se trata de meras personagens), nós não teríamos feito as reflexões que devemos ter ao lermos o autor. E aqui reside outro brilhantismo do Bruxo do Cosme Velho: ao aprofundarmos nossas reflexões, assumimos nosso lado da sombra e, uma vez entrando em contato com este lado, não agiremos como tal e poderemos nos tornar seres humanos melhores. Afinal, quem não assume, atua, e se assumimos que temos nosso lado malévolo e o rejeitamos, tentamos atuar para o lado da luz e o nosso mal, por menos tempo que seja, deixa de atuar.
A reflexão induzida por Machado de Assis, provavelmente, poderá ensejar uma mudança no mundo, embora não possamos ter tanta certeza disso. Toda essa assertiva não é garantida uma vez que a moral, que se relaciona sempre com a sociedade, com o coletivo, e estabelece qual o bem a ser praticado, é, na verdade, conduzida por uma elite que, dependendo de seus interesses, vai dizer o que é moral ou não, segundo o que ela quer defender e, por essa razão, podemos afirmar que a moral é sempre relativa. Por esse prisma, entretanto, vemos que o que Machado de Assis nos dá para refletirmos se contrapõe à relatividade da moral. Porém, isso não será tratado neste momento.
Machado de Assis não coloca Deus em oposição ao mal dos personagens. Aliás, por nenhum momento, enquanto assistimos Palha, Sofia e outros personagens movendo-se dentro do mal, pensamos na existência ou ausência de Deus.
Machado de Assis via a condição humana e todas as suas falhas com um olhar agudo, irônico, realista (aqui não diríamos pessimista) e fez com que seus leitores, se assim o quisessem, refletissem e buscassem com liberdade. Mais em suas crônicas, o escritor refletiu profundamente sobre os fatos cotidianos, “tocando a essência daquilo que observava” e o fez “com um meio riso de contemplação” (FARACO, 2004, p.7). Contudo, direta ou indiretamente, havia uma advertência:
Há pessoas que não sabem, ou não se lembram de raspar a casca do riso para ver o que há dentro. Daí a acusação que me fazia ultimamente um amigo a
propósito de alguns destes artigos, em que a frase sai assim um pouco mais alegre. Você ri de tudo, dizia-me ele. E eu respondi que sim, que ria de tudo, como o famoso barbeiro da comédia, de peur d’être obligé d’en pleurer. (MACHADO DE ASSIS, 1998, p.209).
Machado de Assis se preocupou – e muito – com a condição humana. Ele nos faz refletir sobre nossa interioridade, pontuou que o mal age de determinada forma, mas não estabeleceu que tipo de homem é mais propenso à prática do mal. Conforme o escritor, todo ser humano é passível de praticar o mal, porque este existe dentro de cada um, que poderá privilegiá-lo ou não.
Machado de Assis nunca se achou um estandarte de qualquer coisa para guiar homens e mulheres rumo a uma existência mais ética e digna. O escritor carioca se debruçou sobre a loucura, a alma feminina, a vaidade, a sedução, o casamento, o adultério. Soube manter um distanciamento entre sua vida e sua obra. Ao escrever, ele se permite observar a tudo de maneira atenta e sutil. Essa atitude de Machado de Assis é muito bem explicitada no poema de Carlos Drummond de Andrade, em que reproduzimos um trecho: “Olhas para a guerra, o murro, a facada; Como uma simples quebra da monotonia universal” (CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE apud FAORO, 2004, p.18).
Ou como Alfredo Pujol, cujas conferências pronunciadas na Sociedade de Cultura Artística de São Paulo se constituíram os primeiros estudos sobre Machado de Assis, assim se referiu ao autor de Quincas Borba:
Machado de Assis, com a extrema originalidade que o caracteriza, não sofreu a ação ambiental da sua época; superior ao seu tempo, viveu a vida interior do pensamento, criando com carinho a obra extraordinária, de rara unidade e de sedutora beleza, que é o monumento mais perfeito e mais sólido das nossas letras. (PUJOL apud VENANCIO FILHO, 2007, p. XII).) O Bruxo do Cosme Velho foi se embrenhando pelos labirintos da alma humana. Neles, ele encontra inspiração para escrever sobre: a morte, a luta entre o bem e o mal (este último sempre vence), a crueldade, a ingratidão, a sensualidade, o adultério, o egoísmo, a vaidade. Descrente da vitória final do bem, pois também não acreditava na transformação do ser humano para melhor, escreveu: “Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa miséria.” (Machado de Assis, in Memórias Póstumas de Brás Cubas).
Machado de Assis nunca quis escrever tratados sobre o mal, porque nunca lhe interessou conceituar nada. Ele tinha absoluta certeza de tudo? Talvez, mas se ele a tinha, não
deixou transparecer – o que é uma sorte para nós, seus leitores, pois já sabemos que quem tem muita certeza do que é, é o mais perdido.
Lendo Quincas Borba, de uma coisa podemos ter certeza: é necessário ter discernimento e, por conseguinte, fazer a diferenciação, pois não dá mais para fingir que não se enxergam os males da modernidade, que apregoa o imediatismo, a autossuficiência, a fragmentação e a utilidade.
Pensar e discernir implicam sofrimento e é aqui que a orientação religiosa sempre nos traz um alento, pois crê num mundo melhor, num mundo ideal, onde os sofrimentos não existirão. Aqui não cabe discorrer sobre a idealização da realidade, que poderá ser objeto de estudo numa pesquisa mais profunda.
Machado de Assis não nos dá essa brilhante perspectiva e, portanto, sofremos, porque vemos um mundo em que dificilmente veremos o paraíso materializado. Será que vemos nos personagens machadianos da obra Quincas Borba praticando o bem sem interesse? Não.
E aí, voltamos à questão mais importante: depois de se perceber mau, o ser humano tem condições de reverter a situação? Para o escritor, pelo fato de o ser humano ser corrompido e corruptor, ele está num beco sem saída uma vez que lhe faltam forças para mudar seu destino.
Quando aceitamos a ideia de que podemos fracassar é que a graça e a bênção têm seu lugar. Quando aceitamos nossos defeitos, é que nos tornamos humanos. E isso é bom, porque é quando entendemos o mal é que entendemos o milagre. Machado de Assis mostrou o mal nas relações, mas não recusou o bem.