III. FUNÇÃO PATERNA, CONSTITUIÇÃO PSÍQUICA E O DESENVOLVIMENTO
4.6. Liberdade e Autonomia: algumas considerações
A overdose de informações, solicitações e imagens transformou radicalmente o panorama do mundo infantil. O mundo não oferece mais segredos e coisas a serem desveladas com o tempo. Recordamos aqui de um aluno que imaginava em sua infância como seria Porto Alegre, onde trabalhava seu pai... deveria ser imenso, pensava ele. Hoje, seu filho clica no Google e todas as cidades lhe aparecerão num toque de mágica, até as mais recônditas travessas e becos...
Algo que se sobressai entre as razões pelas quais educamos é de que não educamos só pelo bem das crianças, existe algo de uma auto-afirmação narcísica e desejo de imortalidade, muito mais que altruísmo. Para que a sociedade continue “... seja como for, as crianças são recrutas forçados, seja porque as utilizamos como
uma das próteses sociais para nos garantir uma certa imortalidade, seja porque solicitamos seu esforço adestrando-as no cumprimento de empreitadas que preexistem a elas e delas necessitam. Acaso poderia ser de outra maneira? (SAVATER, 2005, p.91).
Este autor comenta que às crianças não são perguntadas sobre o desejo de nascer, se querem parecer conosco ou não. A humanidade lhes é dada tal como a concebemos e padecemos. A vida lhes é imposta. E assim o é em partes a educação. Se implica uma certa tirania, é uma tirania da qual só passando por ela podemos, em alguma medida, nos livrar mais tarde.
Todos os bons professores conhecem sua condição potencial de suicidas: imprescindíveis no começo, seu objetivo é formar indivíduos capazes de prescindir de sua ajuda, de caminhar por si mesmos, de esquecer ou desmentir quem os ensinou. A educação é sempre uma tentativa de resgatar o semelhante da fatalidade zoológica ou da limitação opressiva da mera experiência pessoal. Proporciona à força algumas ferramentas simbólicas que depois permitirão combinações inéditas e derivações ainda inexploradas. É pouco, é alguma coisa, é tudo, é o embarque irremediável na condição humana. (SAVATER, 2005, p.92).
Savater também expõe que a curiosidade infantil precisa ser subsidiada e estimulada pelo adulto educador. E que ele precisa dar importância à ignorância do aluno, valorizando a falta dele e os conhecimentos que ele não tem. Para isso, em maior ou menor medida, é visto que a criança precisará ser por vezes contrariada. O que requer confiança nos adultos que lhe acompanham e obediência à autoridade destes. Mas ao mesmo tempo lembra “... não esqueçamos que o melhor dos professores só pode ensinar, no entanto é a criança que sempre realiza o ato genial de aprender”. (2005, p.98).
Por este caminho, este e outros autores vão apontando que para chegarmos a um patamar de liberdade (objetivo explícito do ensino moderno) passaremos, sem dúvida por restrições, instruções, reconhecimento da autoridade, porque a liberdade não se apresenta como um a priori ontológico da condição humana. Não partimos dela, mas sim, chegamos a ela. Como êxito da nossa integração social. E não como ausência de condicionamentos, ...”mas a conquista de uma autonomia simbólica por meio do aprendizado, que nos aclimata a inovações e escolhas só possíveis dentro da comunidade”. (SAVATER, 2005, p.93).
Já Guillot (2006) pondera acerca da autonomia como a capacidade de pensar e julgar as escolhas e a condução de sua vida por si mesmo, desenvolvida pela escola mas que fala de um ideal regulador, um horizonte, para o qual se tende e que nunca é adquirida de uma vez por todas.
E reforça a autoridade como aliada às possibilidades de liberdade, indicando as proibições e interditos como estruturantes, “desde os interditos fundamentais do incesto ou do assassinato até os interditos de transgressão da Lei republicana e democrática”. (p.186).
Assim, como vimos apontando no transcurso de todo este trabalho, reconhecimento da autoridade não se refere à colocação rígida de um lugar de saber. Ao contrário, como sinaliza ainda Guillot (2006), o âmbito da lei não se trata de um jugo. Mas sim que em uma sociedade dita republicana e democrática é do lado da lei (internalizada) que encontraremos mais espaços de liberdade. “(...) O âmbito da lei não é um jugo: ao contrário, seus interditos estruturam e garantem liberdades públicas e individuais”. (p.64)
Por não ser um jugo, à guisa de ilustração no ambiente educacional, digamos, por exemplo, que se o adulto que ensina se colocar meramente em um lugar de detentor do saber, ele não quererá ser questionado, e até quando pergunta, não pergunta para acessar os esquemas de conhecimentos e respostas do outro, mas sim para mostrar que ele sabe, e o outro não.
Neste sentido Fernandez (2001) assinala sobre a importância de que no ambiente educacional, o educador possa, primeiro, ele sentir permissão para pensar, ousar criar, e delimitar. Porque isso tem a ver com autorização de pensamento e com o brotar e crescer ou não dos processos de envolvimento e motivação nesta tarefa. A autonomia de pensamento do adulto tende a ecoar nas construções da criança neste sentido.
Retomando Lajonquiére (1999) neste ponto, este reforça que a educação deve invocar o espírito das leis. (...) Pôr em pratica a lei é proibir o incesto. No caso em pauta, o incesto consiste em apagar a diferença entre a criança e o adulto... esquecer que embora num estado de direito tudo possa ser dito, nem tudo pode ser
feito como, por exemplo, a criança vir a ocupar o lugar de adulto como representante do espírito das leis. (1999, p.91).
E indica que isso diz de invocar o espírito das leis para si, através de intervenções de um adulto, junto a uma criança, e o qual deve reclamar para si um pouco desta Lei. Por aí, a criança vai aprendendo a diferença, e se sujeita a este império inicial. Se sujeita porque a ordem ou o dever que o adulto instaura junto a ela está atrelado a uma promessa.
Neste ponto, nos faz relembrar Arendt (2003) que apontou essa promessa da educação, sinalizando que a educação promete para o amanhã o usufruto dos direitos; e que enquanto as crianças são objetos de educação, os adultos, que se prezem democráticos, devem intencionar persuadir-se politicamente entre si. É que para esta autora a liberdade fala de uma possibilidade, que ocorre no campo da ação, e que isso se dá em um espaço público, onde ali se configuram encontros e discursos. Ela alia a liberdade com a política e, neste ponto, consoante com a psicanálise, quem medeia tal possibilidade é a linguagem, a palavra.
Para a psicanálise, como vimos anteriormente, o reconhecimento do sujeito do inconsciente, com todas as vicissitudes e possibilidades que a isso diz respeito nos fala de uma imprevisibilidade que vai lhe acompanhar toda a vida e o faz de futuro incerto. Mas é justamente este vir-a-ser que lhe impulsiona a apostas e construções interessantes, que lhe possibilita falar e encontrar espaços de liberdade possíveis, de reconhecimento de sua historicidade, e inclusive de busca pela ultrapassagem dos limites impostos pela sua história e suas contingências. Como humano que é...