3. ALIEN AÇÃO OU ESCLARECIMENTO
3.1 O QUE É ESCLARECIMENTO
3.1.1 LIBERDADE E ESCLARECIMENTO
Já faz muito tempo que os homens perceberam serem dotados de razão e que isso poderia lhes fazer libertos de sua natureza. Mesmo assim nunca fomos de fato livres, por preguiça e covardia e outras causas menores os homens sempre se fizeram submissos à outras tutelas, disse Kant.168 Para ele é muito mais cômodo mantermo-nos na menoridade
por toda vida. É bem mais fácil apontarmos um livro de capa preta como guia moral do que nos incumbirmos do pesado trabalho de estudar e ouvir muito para obter um satisfatório nível de esclarecimento, ou para que possamos ter uma consciência moral autônoma frente a nossos atos.
A vida em sociedade nos trouxe muito conforto, tanto conforto que não precisamos mais cuidar de quase nada em nossas vidas. Não sei dizer como era no século XVIII, mas atualmente nem temos mais tempo para isso. Um juiz faz valer a lei, a polícia nos dá segurança, o médico cuida de nossa saúde, o professor ensina nossos filhos, tudo que preciso já está produzido, etc. A vida em sociedade nos coloca numa posição tão estática que tudo que precisamos para “viver bem” não necessita de crítica ou emancipação, basta bater o cartão e cumprir a função. Para que sair da menoridade se tudo que precisamos é chegar vivo ao fim do dia um dia após o outro durante todos os dias de nossa vida?
Aos mais jovens e eufóricos com a possibilidade de se fazerem livres a razão ardilosa sempre arranja seus jeitos de intimidá-los: mostrando os vícios dos revolucionários, a loucura dos filósofos e a morte prematura dos poetas como a sempre viva tragédia anunciada para quem se aventurar pelo caminho do esclarecimento.
Agora, porém, de todos os lados ouço gritar: não raciocines! Diz o oficial: não raciocines, mas faz exercícios! Diz o funcionário de finanças: não raciocines, paga! E o clérigo: não raciocines, acredita! (…) Por toda a parte se depara com a restrição da liberdade.”169
Os homens se acostumam com sua situação de menoridade, existe até uma relação de amor com ela. Sob as tutelas exteriores o homem se amarra à tal network de conceitos e crenças que faz com que qualquer tentativa de desamarração pareça desnecessária, impossível e ridícula. Kant alerta:
Preceitos e fórmulas, instrumentos mecânicos do uso racional, ou antes, do mau uso dos seus dons naturais são os grilhões de uma menoridade perpétua. Mesmo quem deles se soltasse só daria um salto inseguro sobre o mais pequeno
168 Idem.
fosso, porque não está habituado ao movimento livre.170
Isso equivale a dizer que a razão instrumental através das mais variadas ferramentas do sistema nos adestra de tal forma que faz com que mesmo após termos deslumbrado nosso esclarecimento jamais possamos efetivá-los na prática. Mantendo assim toda espécie humana sob a sua tutela, pois nos convence, ainda que por formas undergrounds, de que “a ignorância é uma benção”.
Todo ser humano em perfeita saúde tem a vocação para pensar por si próprio, por isso na ideia kantiana é perfeitamente possível que qualquer um se esclareça.171 O
esclarecimento pode ocorrer independentemente da idade, formação, função social, renda per capita, etc. Isso significa dizer que pode ser que tenhamos um alto executivo de uma empresa que viva completamente na menoridade e tenhamos alguns de seus mais reles subalternos muito bem esclarecidos. Não seria ousadia dizermos que isso é muito comum nos dias de hoje, afinal geralmente as pessoas mais bem sucedidas são justamente aquelas que melhor se submetem e se adaptam às forças manipuladoras de sua sociedade, são justamente os melhores jogadores do sistema. Por isso mesmo não têm e nem querem ter para si o esclarecimento, estão tão amarradas em sua função social que se tornam inimigas públicas da emancipação intelectual.
O filósofo escreve com todas as letras: “Raciocinai tanto quanto quiserdes e sobre o que quiserdes; mas obedecei!”172 A intenção de Kant ao escrever isso era alertar o
mundo de que entre todas as regras que o indivíduo de uma sociedade deve submeter-se, nenhuma lei pode impedi-lo de raciocinar e tornar pública sua opinião, seja ela sobre quem quer que seja.173 Qualquer contrato que um indivíduo ou um povo possa fazer
impedindo alguém de emancipar-se racionalmente seria para Kant completamente nulo. Ninguém, nenhum governo, nenhuma religião, nenhum plebiscito, nada nem ninguém teria tamanha autoridade para impor este absurdo contra si mesmo ou para doutrem.174
Infelizmente muitos pretensiosos homens falsificaram o pronunciado kantiano e dele entenderam a seu bel-prazer que as pessoas podem raciocinar o quanto quiser, desde que permaneçam caladas. Isso certamente colaborou para que muitas ideias iluministas pudessem ser usadas para fundamentação de governos totalitários. Claro que isso vai completamente contra as intenções de Kant que escreveu:
170 KANT, 1783, p.2. 171 KANT, 1783, p.2. 172 KANT, 1783, p.7. 173 KANT, 1783, p.3. 174 KANT, 1783, p.4.
O uso público da própria razão deve sempre ser livre e só ele pode entre os homens, levar a cabo a ilustração (...) Por uso público da própria razão entendo aquele que qualquer um, enquanto erudito, dela faz perante o grande público do mundo letrado. Chamo de uso privado àquele que alguém pode fazer de sua razão num certo cargo público ou função a ele confiado.175
Podemos imaginar o caso onde alguém enquanto professor de filosofia é contratado para lecionar em uma escola. Embora seja uma pessoa esclarecida176, será
contratado para fazer somente o uso privado da razão, terá que respeitar os estatutos da escola e vai ter que ensinar aquilo que for solicitado. Poderá e deverá ensinar de maneira que os alunos possam ser críticos e também possam buscar seu esclarecimento. O que nunca deverá fazer é simplesmente ensinar o que quer, porque quer e do jeito que quer, apresentando sua opinião como a “opinião verdadeira” para os alunos. Poderá fazer o uso público da razão enquanto professor se e somente se verificar no corpo discente que eles podem acompanhar seu raciocínio e que o mesmo será interessante para o desenvolvimento da investigação em sala de aula. Em contrapartida, o mesmo sujeito enquanto pesquisador em filosofia, sendo erudito e dirigindo-se a um público genuíno177,
deverá gozar de sua liberdade fazendo valer o uso público de sua razão.178 Uma vez
elaborado seus artigos e argumentos deverá proclamá-los ao mundo, estando ciente de suas consequências e aberto às críticas, para só assim poder ser de fato livre. Ou seja, dentro da ideia kantiana, para considerar-se esclarecido um indivíduo deve, entre outras coisas, saber fazer muito bem o uso da razão pública e privada de acordo com a situação. Num exemplo mais abrangente Kant diz que:
O cidadão não pode recusar-se a pagar os impostos que lhe são exigidos (...) Mas, apesar disso, não age contra o dever de um cidadão se, como erudito, ele expuseras suas ideias contra a inconveniência ou também a injustiça de tais prescrições.179
175 KANT, 1783, p.3.
176Esclarecido no sentido de buscar sempre, ainda que não obtenha êxito em todos os casos, me submeter
somente à minha razão.
177 Por exemplo: uma comunidade filosófica. 178 KANT, 1783, p.4.