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Capítulo VII: Liberdade e Physis – o terceiro movimento da existência

1. Liberdade

A questão de pensar o mundo como um devir primordial levanta uma questão acerca da liberdade humana. Se o movimento e o mundo são pensados cosmologicamente, de que maneira podemos ainda pensar a existência humana como movimento, como realização de si mesma? A abertura das possibilidades a partir do mundo põe em risco a nossa liberdade, colocando-nos como forças ao serviço de uma outra abertura anterior. Ao mesmo tempo, o subjectivismo, quer na forma de uma consciência transcendental, quer na de um projecto existencial, punha em risco o mundo pensado de forma ontológica. Patočka reconhece que estamos aqui entre duas opções de pensar a liberdade.

«A perspectiva subjectivista requereria um aprofundamento que faria do movimento da existência no mundo o movimento pelo qual o mundo tinha sido criado primeiro – mas o mundo, como vimos, é, nos nossos contextos significativos, sempre pressuposto. No segundo caso, o movimento não teria nenhum fechamento humano, nenhum valor prático. Seria um simples diálogo entre o mais-alto e a terra pelo intermediário do homem – mas o que o homem é e pode ser para o homem permaneceria totalmente à parte desse processo.» 263

Creio que há uma terceira alternativa proposta na obra de Patočka que permite a possibilidade de pensar a liberdade do homem como sendo, ao mesmo tempo, uma liberdade autenticamente humana e “do mundo”. Esta possibilidade é manifesta no terceiro movimento da existência.

Que é, então, a liberdade humana? Patočka reflecte sobre a particularidade da liberdade humana escrevendo:

«Como pensar essa liberdade singular? “Singular” porque é uma liberdade no mundo, no meio dos entes. Como pensar a relação da liberdade ao ente pré-dado? Não se pode tratar da causalidade comum das ciências da natureza, mas é antes preciso pressupor uma forma de acção operante associada desde logo à luz, à clareza.»264

263J. Patočka, «Le monde naturel et la phénoménologie», MNMEH, p.49 : «L’optique subjectiviste

requerrait un approfondissement qui ferait du mouvement de l’existence au monde le mouvement par lequel le monde aurait d’abord été crée – mais le monde, comme nous l’avons vu, est dans nos contextes signifiants toujours déjà préalable. Dans le second cas, ce mouvement n’aurait aucune fermeture humaine, aucune valeur pratique, il serait un simple dialogue entre le plus-haut et la terre par l’intermédiaire de l’homme – mais ce que l’homme est et peut être pour l’homme resterait totalement à l’écart de ce processus.»

264 J. Patočka, «Phénoménologie et métaphysique du mouvement», PP, p.21 : «Comment se représenter

cette liberté singulière ? «Singulière» car elle est une liberté dans le monde, au sein de l’étant. Comment penser le rapport de la liberté à l’étant pré-donne ? Il ne peut pas s’agir de la causalité

Segundo esta passagem, a acção humana é particular porque está relacionada, desde o seu fundamento, com um tipo de compreensão particular. Os nossos actos no meio dos entes já estão fundados numa acção, compreendida de um modo mais originário, como sendo um modo de “clareza”. Ou seja, que tem nela algo como a “compreensão”. Mas não poderíamos trocar os termos? Ou seja, dizer que é porque a compreensão humana é livre que ela é um tipo de compreensão/acção particular. E de que modo?

1.1. Epoché

A epoché foi apresentada como um «acto de liberdade negativa» e especificamente humana; temos a possibilidade de nos abster das nossas próprias convicções, das crenças que estão implícitas no nosso lidar com o mundo. Compreendida de modo universal - e não como uma recondução para uma outra esfera, a da consciência transcendental -, a epoché liberta- se do laço que nos prende aos entes ônticos, e nela operamos uma suspensão do nosso modo habitual de nos relacionarmos com o mundo dominados pelas exigências das coisas. É uma viragem dos entes para o que não-é no sentido ôntico, mas que é a condição de possibilidade dos entes, que determina o que as coisas são.

A nossa liberdade específica está assim em relação directa com a diferença entre ente e Ser:

«[…][A] liberdade é algo de negativo, mostrar a positividade dessa quantidade negativa. Só se o homem é capaz de entrever isso, e não apenas olhá-lo, mas realizá- lo até ao fim, que pode se tornar manifesto que existe no mundo e na vida qualquer coisa como a diferença. A diferença absoluta que nós tentamos captar entre os entes e o que não é um ente e domina os entes.»265

A “diferença” mostrou-nos que há algo a partir do qual as coisas nos aparecem como sendo de determinada maneira. O nosso acesso ao Ser é o acesso ao fundamento de compreensão de qualquer ente singular. A compreensão disto ou daquilo como determinado ente funda-se numa possibilidade de compreensão como possibilidade de compreensão, ou de sentido. A epoché como ligação a este fundamento, através de uma abstenção ou suspensão de convicções e atitudes, revela a tal diferença entre entes e ser. Ou seja, temos a possibilidade de nos relacionarmos explicitamente com a “compreensão” compreendida como a origem ontológica de qualquer compreensão e aparecer particular. De compreender que há

ordinaire des sciences de la nature, mais il faut bien présupposer une manière d’action opérante associé d’emblée à la lumière, à la clarté.»

265 J. Patočka, «Séminaire sur l’ère technique», LS, p.314-315: «[L]a liberté est quelque chose de

négatif, montrer la positivité de cette quantité négative. C’est seulement si l’homme est à même d’entrevoir cela, et non seulement d’y porter le regard, mais de le réaliser jusqu’au bout, qu’il pourra devenir patent qu’il existe dans le monde et dans la vie quelque chose comme la différence. La différence absolue que nous nous efforçons de saisir entre les étants et ce qui n’est pas un étant et qui domine les étants.»

a “compreensão” fundamental na qual estamos já sempre a participar, e com a qual temos a possibilidade de nos relacionar.

Assim, temos o Ser como “compreensão”; ou seja a base sobre a qual podemos compreender algo como algo. O “mundo” como temos vindo a explicitar até aqui é precisamente esta “totalidade” que é “abertura” a partir da qual os entes particulares são o que são: «Esse mundo é a “abertura” que permite desvelar as singularidades.»266 O Ser, que determinámos como a totalidade originária que permite que cada coisa seja o que é, é esta “possibilidade de sentido”: «O fundamento de todo o sentido é idêntico ao fundamento de toda a compreensão do que quer que seja, a saber, o ser que nos permite abordar os entes […].»267

O “mundo” não é algo de actual, de já presente, mas de possível; é o que pode ser realizado. O complexo de possibilidades do que pode aparecer, e como aparece, é também a possibilidade de compreensão que temos das coisas. Para nós, pensar o mundo é pensar a ordem que organiza e determina o que as coisas são. O “mundo” como “totalidade” foi precisamente elaborado, a partir do desenvolvimento da questão do mundo, como este “possível”, este complexo de possibilidades que abre como as coisas são, e com qual nós temos uma relação de compreensão.

Enquanto que a nossa liberdade é nesta diferença entre ente e ser, ela é a relação à totalidade. No final de contas, somos humanos livres porque temos a possibilidade de nos relacionarmos à totalidade ao colocá-la em questão . Aliás, nós já estamos sempre em relação com a totalidade, ainda que muitas vezes apenas de modo implícito e velado. Mas temos a possibilidade de realizar uma relação explícita, e nela trazer a totalidade à manifestação e, de certo modo, alterar a abertura, isto é, operar uma viragem na compreensão. O que seria manifestar a totalidade enquanto tal, e o que é operar uma viragem na “compreensão”?