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Capítulo VI: Physis e movimento

1. Physis

2.2. Movimento da existência

Como todas as outras coisas, nós próprios participamos neste movimento de nascimento a morte, de emergir e perecer. No entanto, nós somos também um outro movimento, específico e em relação a todos os outros entes: nós estamos em relação de

246 J. Patočka, «Phénoménologie et ontologie du mouvement», PP, p.31 (nota de rodapé) : «La teneur d’essence est chez Aristote immobile; le mouvement ne se déroule qu’au sein de l’étant, non pas dans

ce que le détermine, dans son être.»

247 J. Patočka, "La science philosophique de la nature chez Aristote", em «Patočka et la

Phénoménologie», Ed. E. Tardiviel, Les Études Philosophiques, Septembre 2011/3 (nº 98), P.U.F., p.324 : «Ainsi, la dynamique naïve des éléments se répercute sans nul doute sur sa théorie du couple γένεσις-φϑορά. Mais peut-être y aurait-il la possibilité précisément d’une ontologie critique, capable de s’expliquer même avec l’expérience analysée et contrôlée de notre modernité.»

248 R. Barbaras, Le Désir et La Distance, p. 162 : «Explosion stabilisée car actualisation d’un fond qui la

retient toujours dans sa profondeur et ne peut donc jamais retomber hors de son éclatement sous forme d’étants pleinement positifs, actualisation de ce dont l’infinité exclut tout passage véritable à l’acte, et c’est pourquoi l’éclatement d’être est à jamais.»

249 J. Patočka, «Phénoménologie et ontologie du mouvement», PP, p.40 : «la dynamis est à penser

toujours au moyen de l’energeia – il s’ensuit que la définition du mouvement au moyen de la dynamis est une définition négative : une définition par le non-être qu’est le "pas-encore"».

compreensão connosco próprios e com os entes. O movimento de realização de possibilidades que somos é um movimento de compreensão, de relação de compreensão de nós próprios a partir da compreensão de tudo o resto.

«Como todas as outras coisas, o nosso ente também seria um movimento dirigindo-se do emergir para o desaparecer, de um começo para um fim. A característica do movimento que nos é específico, seria, contudo, a não-indiferença ao ser, o interesse pelo nosso próprio ser, e conjuntamente, pelo ser dos entes em geral, sob o fundamento de uma nova maneira em que o ser condiciona os entes – não simplesmente no seu emergir e desaparição, mas antes enquanto clareza que permite o encontro por dentro, no interior do universo, clareza que desvela o universo em conexão com a vida.»250

A partir ou em relação ao movimento global de individuação, nós somos especificamente um movimento que faz da manifestação uma manifestação “de si própria”. Ao ser a manifestação de “algo” para alguém, a manifestação em si torna-se tema. «O homem não aparece simplesmente como tudo o resto, tendo um lugar e uma duração; há no seu aparecer ainda um outro movimento que faz, ao mesmo tempo, que as coisas aparecentes e ele próprio estejam lá para ele.»251

A partir do interesse pelo ser, nós criamos como que uma esfera “interior” da manifestação: como se, em metáfora visual, houvesse uma explosão de manifestação indiferente de entes “para fora”, e numa via particular de individuação, houvesse um movimento que se cria e que faz do outro, ou mostra o outro no que é, em manifestação “para dentro” – o mundo revelando-se a si mesmo, como efeito de espelho, por via de uma parte dos seus entes. «A vida do eu como vida de uma individualidade inefável é a única capaz, como um espelho, de se tornar uma correspondência do universo, do Um-Todo.»252

Inicialmente, neste movimento de “ser para mim”, o mundo devém, diz-nos Patočka, “mundo circundante”. Há um fundo de mundo “total”, e a partir desse fundo há um movimento de relação a si mesmo que o “limita”, ou dispõe de uma relação de uma face – o mundo - a outra – a existência. O mundo circundante orienta-se a partir de mim própria como centro, ou seja, é como o “mundo da vida”. Mas mundo compreendido no sentido total, que nos engloba e a esta relação, é o mundo como tal, a “totalidade originária”. «O mundo torna- se “mundo circundante”: através do aparecer-a-mim, o mundo recebe um centro, e há muitos

250 J. Patočka, «Méditation sur “Le monde naturel…”», MNMEH, p.100 : «Comme tous les autres choses,

notre étant aussi serait un mouvement se dirigeant de l’émergence vers la disparition, d’un commencement vers un fin. La caractéristique du mouvement qui nous est spécifique serait cependant la non-indifférence à l’être, l’intérêt pour l’être propre et, conjointement, pour l’être de l’étant en général, sur le fondement d’une manière nouvelle dont l’être conditionne l’étant – non plus simplement dans son émergence et sa disparition, mais bien en tant que clarté rendant possible la rencontre en dedans, à l’intérieur de l’univers, clarté qui dévoile l’univers dans sa connexion avec la vie.» [MNMEH, 100]

251 J. Patočka, «Le tout du monde et le monde de l’homme», MNMEH, p. 270 : «L’homme n’apparaît pas

simplement comme tout le reste, ayant lieu et durée ; il y a dans son apparaître encore un autre mouvement qui fait en même temps que les choses apparaissantes, ainsi que lui-même, lui apparaissent, sont là pour lui.»

252 J. Patočka, «Forme-du-monde de l’expérience et expérience du monde», PP, 217 : «La vie du moi

comme vie d’une individualité ineffable est seule capable en tant que miroir, de devenir une correspondance de l’univers, de l’Un-Tout.»

centros semelhantes do mundo um e omni-englobante que em si mesmo não pressupõe nem possui nenhum.»253

Temos por um lado um movimento de individuação a partir do fundo total, no qual participamos como entes individuados, mas a nossa individuação particular realiza um movimento de relação à totalidade – a nossa individuação é ser a relação à totalidade. Esta relação tem a possibilidade de revelar a totalidade como tal.

«A maneira como nós nos colocamos à parte da totalidade é um relacionar-se à