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CAPÍTULO 4. O TRABALHO NA COOPERATIVA

4.2. Liberdade, mobilidade e controle no trabalho

Na fábrica a gente sabe que existem algumas máquinas que são gargalo, que concentram um maior número de ferramentas para ser feitas (...), então isso faz com que outras fiquem um pouco mais aliviadas (...). Então, quando acontece isso, de dar uma desafogada, a gente acaba vendo e sentindo isso, que na empresa anterior não tinha, (...) aquele movimento, aquela vontade, “ah, vou lá pegar um serviço, lá do colega, para dar uma força”. Raramente acontecia isso. Na cooperativa você acaba vendo esse comprometimento do pessoal, de algumas pessoas irem lá atrás, nem sempre é na maquina do companheiro, tem vezes que vai até lá na boca do forno, “ô, tem peça para sair? Vai sair peça? Tem lote para sair?” Então você vê que (...) a maior parte tem esse comprometimento de querer vestir realmente a camisa. (Aziel)

Ir atrás do trabalho é mais que uma idéia-força da cooperativa ou uma atitude esperada de um sócio-trabalhador, que depende da rentabilidade coletiva da fábrica para ter sua remuneração mensal. É, como nos diz Paulo (cooperado da Ferramentaria), o que caracteriza o trabalho na cooperativa: “aqui na usinagem eu

estou só ajudando, o trabalho na cooperativa é assim, se o seu não têm, arruma outro para fazer, é cooperativa”.

Esta concepção é hegemônica na fábrica e compartilhada inclusive pelos coordenadores, na expectativa de que o cooperado tome a atitude e vá atrás de do trabalho, coordenando autonomamente suas atividades. José Carlos, ao ser perguntado sobre as diferenças entre ser trabalhador empregado e cooperado, considera esta uma das características positivas do trabalho em uma cooperativa:

Tem muita diferença entre empregado e cooperado, é uma distância enorme. Hoje estou aqui nesta máquina, uma retífica, mas eu sou lá da expedição, na cooperativa eu tenho a chance de vir para cá, eu trabalho até as 10 horas no expediente, embalo tudo e sai o carro [para fazer as

entregas], aí eu venho para cá, depois a tarde fico lá até às 16 horas, e aí

venho para cá de novo. Se fosse empregado não podia. “Se você é auxiliar de almoxarifado, não foi contratado para isso? Então faça o seu trabalho!” E ainda tem um encarregado em cima para vigiar.

A mobilidade é importante também para a aprendizagem de novas atividades. Na fala de José Carlos abaixo, ele aparece simultaneamente agradecido à possibilidade que a cooperativa lhe deu e preocupado com a substituição dos bons profissionais:

Vem aqui, está vendo aquelas peças ali? Fiquei um mês trabalhando lá naquele torno fazendo estas peças, me deram oportunidade, viram que eu tinha habilidade para isto. A gente não pode perder tempo, se amanhã aposenta um profissional experiente, um bom de torno, de perfil, de fresa, de eletro-erosão, tem que ter outro pronto.

Tal preocupação, que demonstra a responsabilidade dos cooperados com o trabalho, é justificada na fala de Almir:

As máquinas estão sucateadas, as peças só saem por causa da manha do operador. Tem operador aí que trabalha nestas máquinas há 20 anos, sabe que tem que por um calço ali, um apoio aqui. Um profissional bom ia levar pelo menos um ano e meio para conseguir tirar uma peça boa nestas máquinas. Se sai um profissional destes, a cooperativa perde uma perna.

A idéia central do processo de responsabilidade sobre o trabalho, na UNIWIDIA é a de “procurar trabalho”, quando o trabalho de um cooperado termina, espera-se que ele saia em busca de outro trabalho e perceba o que tem para ser feito, evitando assim que o coordenador tenha que orientá-lo. Jonas, ao ser abordado em uma retífica plana, por exemplo, diz que esta não é sua colocação, mas como já não tinha o que fazer, saiu “procurando trabalho”.

A principal justificativa desta atitude tão presente é a do acúmulo de trabalho em algumas máquinas, como disse Aziel no início deste tópico, que termina por liberar as demais. As máquinas sobrecarregadas são o “gargalo”, ao qual os demais precisam se dirigir para equacionar novamente a demanda com a oferta de trabalho. Alexandre explica detalhadamente:

As pessoas trabalham aqui há um certo tempo, no mínimo 5 anos, então

as pessoas conhecem um pouquinho da outra área, eles podem colaborar, se o serviço deles está meio fraco, ou não tem, ele pode ir para o setor do lado, para a máquina do lado, para ajudar uma outra pessoa. Ou mesmo que tenha serviço, mas se o gargalo... tem mais serviço em outro tipo de máquina, muitas pessoas que são capazes saem do seu lugar de origem e vão para aquela área para adiantar aquele serviço que tem mais naquele certo tempo.

Neste processo os cooperados aproveitam para aprender ou se aperfeiçoar em outras atividades, para tornarem-se, assim, “profissionais mais completos”. Com este aprendizado eles podem concorrer a uma mudança de setor, geralmente para uma

função melhor remunerada, que é a principal forma de promoção na UNIWIDIA. Daniel explica como e porque a cooperativa dá mais oportunidade para o trabalhador se desenvolver:

A cooperativa te dá mais oportunidade de aprender, de exercer sua função com mais capacidade. Você acaba exercendo várias funções. Na CERVIN, se fazia perfil, não ia fazer fresa, não ia fazer ajustagem, não ia fazer na plaina. Em termos de capacitação, a cooperativa te dá mais oportunidade. (...) [Isso] acontece por que é pouca mão-de-obra e você tem que circular onde você pode para ajudar a cooperativa. (...) Foi a necessidade da cooperativa, logo que nós começamos, a CERVIN tinha, naquela época, 150 funcionários, hoje nós caímos para 36 cooperados. Então tem hora que você tem que se fazer em 10, (...) tem que começar desde a usinagem do grosso até o acabamento. Eu já fiquei um ano só na retífica plana, do lado do Chiquinho, trabalhei um ano na retífica plana por causa da necessidade. Então a cooperativa, por necessidade, te dá mais oportunidade para você apreender.

Resultado da necessidade de ajudar a cooperativa, a liberdade para circular pela fábrica em busca de trabalho representa uma grande mobilidade para os cooperados. Entretanto, além de proporcionar aprimoramento profissional para os cooperados, também cria flexibilidade e acúmulo de responsabilidades. Nas palavras de Almir:

“Tem um acúmulo de funções na cooperativa, um coordenador não fica só distribuindo o trabalho e olhando o trabalho dos outros, assume uma máquina também”.

Esta flexibilidade, advinda da necessidade da cooperativa e da pouca formalidade dos cargos e funções, contudo, ao responsabilizar o trabalhador pelo seu trabalho, também o responsabiliza por definir seu papel na cooperativa. Fábio compreende bem este processo:

Na CERVIN os cargos eram melhor definidos, tinha alguém que orientava, agora tem muita indefinição de cargos e funções. Cabe a cada um perceber o que tem para fazer. Qualquer pessoa pode fazer o que quiser aqui dentro, cada um tem que compreender o que tem para fazer, sem um orientador.

A flexibilidade cria também uma área de entendimento difuso acerca das atribuições de cada função e de cada trabalhador. É isto que permite, de um lado, que cada um defina seu papel na cooperativa, por outro lado, impõe ao trabalhador que

intermedeie negociações sobre concepções diversas, e por vezes contrárias, que os demais cooperados possuem acerca de seu trabalho. Eucélia nos conta como é mais difícil na cooperativa atender às concepções distintas de seus vários “chefes”, os conselheiros:

Antigamente eu tinha um chefe, agora eu tenho dez. Antigamente o meu chefe direcionava o meu trabalho e eu trabalhava de acordo com o que o meu chefe direcionava, hoje não, eu tenho dez pessoas que querem direcionar o meu trabalho. Um quer que eu pare para ligar para o cliente, outro quer que eu pare para visitar outro cliente. Um acha que eu não tenho que ficar aqui internamente, que eu tenho que sair mais, só que, no trabalho, eu não tenho condições de sair. Então, assim, você tem várias cabeças que pensam de um jeito diferente, e você tem que satisfazer todos, para ter uma harmonia com todo mundo. Mas você não consegue agradar todo mundo porque cada um tem um pensamento diferente. Cada um tem um pouco de influência sobre o seu trabalho

Esta influência dos demais cooperados sobre o trabalho não ocorre apenas com Eucélia, que ocupa uma posição (vendas) para a qual convergem muitos interesses, e que está diretamente vinculada às atividades dos conselheiros. De uma forma diferente, ocorre também com cooperados na fábrica, que mantêm vigilância e controle recíprocos, uns sobre o trabalho dos outros.

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