4. Resultados e Discussão
4.1. Espécies com resultados citoquímicos e de dosagens
4.1.2. Licania cf rigida Benth (Chrysobalanaceae)
Árvore de copa ampla, densa e baixa, que pode atingir 15 metros de altura, com tronco curto, grosso e canelado, com 50 a 80 cm de diâmetro, formando uma copa de 15 a 20 m de circunferência. É nativa da caatinga e mata de galeria do nordeste brasileiro. Apresenta folhas simples, inteiras, alternas, com lâmina fortemente coriácea, glabra, opaca, com a face inferior esbranquiçada e com nervação proeminente e com até 16 cm de comprimento e 6 cm de largura (Lorenzi 1992).
A madeira é branca, com fibras entrelaçadas, muito resistente ao esmagamento; O seu valor, no passado, provinha das sementes, ricas em substâncias com utilização na indústria de tintas e vernizes de alto poder secativo. Em média, um indivíduo de Licania
rigida Benth produz 75 kg de frutos secos por safra, mas foram registrados exemplos com
produção de até 1.500 quilogramas.
Tem utilização medicinal, sendo indicada para o tratamento de diabetes (Almeida & Agra 1986). Rica em flavonóides, apresenta quantidades apreciáveis de miricetina, que tem inclusive valor taxonômico para o gênero e, em menor grau, para a Família Chrysobalanaceae (Coradin et al. 1985).
Suas flores são amareladas e estão dispostas em espigas ramosas; O fruto é do tipo drupáceo, fusiforme ou ovalado, com semente envolta em massa amarelada rala, mas fibrosa, de cheiro pouco agradável; A casca do fruto é verde, mesmo quando maduro, mas se torna amarelo-escuro quando seca, apresentando de 3 a 5 cm de comprimento e contendo uma única semente de igual formato. Os frutos e sementes da L. rigida são apresentados na Figura 6A-F.
Os cortes de sementes de L. rigida submetidos às diferentes colorações revelaram uma grande quantidade de tanino, que pode ter um importante papel na defesa contra herbivoria. Muitos trabalhos têm tratado do aspecto antinutricional de cultivares com altos teores de taninos e sua resistência a pragas, principalmente em espécies de interesse econômico (Monteiro et al. 2005).
Os resultados com AT (Fig. 7A-B) mostraram o aspecto característico dos compostos tânicos, que se coram em verde mais escuro do que os fenóis formadores das
ligninas presentes em muitas paredes celulares. Resultados semelhantes foram obtidos em sementes de pitanga por Bordignon (2000).
Além dos compostos fenólicos, as reservas de L. rigida são constituídas de proteínas, evidenciadas pelo Xylidine Ponceau (Fig. 7C-D). Merece destaque a característica dos núcleos das células dos cotilédones, bastante evidentes quando corados por este método (Fig. 7D). O método do PAS para a espécie corou praticamente apenas as paredes celulares, sugerindo uma baixa quantidade de polissacarídeos como fonte de carbono para as suas sementes (Fig. 7E).
O método do floroglucinol ácido para ligninas confirmou que os compostos fenólicos presentes nas sementes não se tratam do emaranhado polímero de fenilpropenóides, que compõe as ligninas, pois não houve resposta positiva ao mesmo (Fig. 8A-B).
Quando tratados pelo Lugol, os cortes exibiram a coloração azul marinho intensa e característica do comportamento dos grãos de amido (Fig. 8C-D). Tal comportamento deve-se à entrada e interação do Iodo com as moléculas em espiral formadas pela amilose e amilopectina, devido às ligações α1-4 entre os seus resíduos de glicose formadores (Tiné et al. 2000). Os resultados obtidos pelo Lugol foram confirmados quando o material foi observado ao microscópio de polarização, com analisador e polarizador cruzados, mostrando a característica forma em cruz de malta, birrefringente, dos grãos de amido. Tais grânulos, em quantidades de uma a duas dezenas por célula, se apresentaram com pequeno tamanho (Fig. 8E).
A não detecção dos grãos de amido pelo método do PAS pode ser decorrente do processamento realizado para o material analisado. Aqueles que foram incluídos em parafina, dada a dureza das sementes, não geraram cortes de boa qualidade. Assim, apenas os cortes obtidos da inclusão em histo-resina foram tratados pelo ácido periódico. Sabe-se que as histo-resinas podem afetar os resultados de alguns métodos citoquímicos, seja pela maior dificuldade de penetração dos reagentes nos tecidos cortados e sem ter tido a remoção da resina, seja por interferência direta desta sobre as reações citoquímicas a serem levadas a cabo. Resultados semelhantes foram obtidos por Begnami (1998) em sementes de café e por este motivo foram realizados os testes com Lugol e microscopia de polarização.
Estas sementes de L. rigida apresentam também quantidades significativas de lipídios, que foram evidenciados pelo Sudan black B (Fig. 8F e 8G). Pode-se notar que os lipídios encontram-se dispersos pelo citoplasma das células cotiledonares e, próximo à epiderme, há uma maior concentração de moléculas hidrofóbicas, possivelmente com funções impermeabilizadoras e proteção à semente (Fig. 8G).
Os resultados das dosagens de proteínas, açúcares e lipídios encontram-se descritos na Tabela 2. Pode-se notar uma maior quantidade de amido em relação às proteínas, também abundantes e aos lipídios presentes nas células das sementes desta espécie.
Destaque-se a presença de grande quantidade de açúcares livres, representando mais de 20% do material de reserva analisado.
B A
C D
E F
Figura 6: Frutos drupa e sementes de Licania rigida. A. Frutos verdes, com cerca de 2,5
cm de comprimento. B. Fruto maduro. C. Fruto cortado mostrando a semente. D. Semente.
E. Diversidade de sementes retiradas de frutos imaturos e maturos. F. Corte de semente.
A
B
C
D
E
*
*
*
*
Figura 7: Cortes de sementes de Licania rígida. A-B. Cortes corados pelo Azul de toluidina a pH 4. Note o material tânico corado em verde (*), em contraposição ao conteúdo mais azul-arroxeado das paredes celulares e núcleos (seta). C-D. Cortes corados pelo Xylidine Ponceau pH 2,5. C. Vista geral mostrando os inúmeros grãos de tanino em cor mais abóbora-avermelhada. D. Detalhe mostrando a presença de núcleos bem evidenciados pelo método (seta) e algum conteúdo protéico no citoplasma. E. Método do PAS. Nota-se a coloração arroxeada das paredes celulares, coradas pelo método. Aumento: A: 40X; C: 100 X; B, D e E: 400 X.
A
B
C
D
E
F
G
Figura 8: Cortes de sementes de Licania rígida. A-B. Material submetido ao floroglucinol ácido. A. Visão geral, mostrando aspecto levemente avermelhado do material fenólico. B. Detalhe mostrando que o método não apresentou a coloração atribuída à lignina.C-D. Material tratado pelo Lugol. Note a reação positiva ao amido, que se cora em azul-marinho a negro. Os taninos apresentam sua coloração natural característica. C. Vista geral. D. Detalhe. E. Corte visualizado em microscópio de polarização, revelando a birrefingência das paredes celulares e o aspecto em cruz de malta dos grãos de amido. F-G. material corado pelo Sudan black B revelando algum conteúdo hidrofóbico no interior das células (F, seta) e na periferia da semente (G, seta). Aumento: A: 100 X; C = 40 X; B e D, E = 400 X; F e G = 1000 X
Tabela 2: Dosagens realizadas para a detecção de aminoácidos, açúcares livres, lipídios, amido e proteínas, em sementes de Licania rigida, em mg/g e em porcentagem com relação à massa de matéria fresca.
Reserva Quantidade (mg/g) % Aminoácidos 17,578 1,8 + 0,60 Açúcares livres 252,128 25,2 + 2,83 Lipídios 78,000 7,8 + 1,50 Amido 50,139 5,0 + 0,57 Proteínas totais 348,432 34,8 + 1,37