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A “missão essencial” da Linguística Aplicada (LA), segundo Tarone (2015, p. 444), é “cruzar fronteiras físicas e disciplinares no processo de entender e resolver problemas, de todos os tipos, relacionados à língua”149. A autora argumenta que pesquisas ou conceitos advindos de muitas disciplinas são necessários para se “entender a maneira como a mente humana adulta internaliza e usa uma segunda língua” (TARONE, 2015, p. 445)150. Por esse motivo, conclui a autora, tanto a LA quanto o Ensino e Aprendizagem

de Línguas Estrangeiras, uma das principais áreas ou subáreas associadas à LA, têm a interdisciplinaridade como elemento fundamental. De modo semelhante, Leffa (2001) considera que “a essência da pesquisa” em LA é a diversidade, na medida em que a língua é estudada “não como uma entidade abstrata na cabeça do indivíduo, mas como um instrumento de uso para a comunicação entre as pessoas em diferentes contextos”, e, por esse motivo, faz-se necessário “beber de várias fontes de conhecimento”, como, por exemplo, a Linguística, a Psicologia e a Antropologia. Visão semelhante é apresentada por Moita Lopes (2006, p. 19), ao sugerir que “para dar conta da complexidade dos fatos envolvidos com a linguagem em sala de aula” é preciso que um “arcabouço teórico interdisciplinar” seja empregado. Para Kleiman (2004, p. 54), o “uso de conceitos, de

149 No original: […] essential mission […] to cross disciplinary and physical borders in the process of understanding and resolving language-related problems of all kinds.

150 No original: Research from many disciplines is required to understand the way the adult human mind internalizes and uses a second(ary) language.

modelos e de instrumentos de outras disciplinas faz parte do processo de busca e de produção de conhecimento numa área”. Para ilustrar esse argumento, a autora cita alguns exemplos em que isso teria ocorrido; dentre eles, o da elaboração de uma das teorias genéticas de envelhecimento, a teoria dos radicais livres, que é um conceito vinculado à Biologia e à Medicina, mas que teve sua origem na Química. Processos semelhantes podem ser verificados, segundo Celani (2007, p. 116), na Linguística Aplicada, quando pesquisadores “se dão conta de que precisam ir buscar explicações para os fenômenos que investigam em outros domínios do saber que não os da linguagem stricto sensu”.

Há autores, no entanto, que apresentam uma postura mais crítica ou pessimista em relação à inclusão de fontes diversas no quadro de disciplinas que informam a LA. Cook (2015, p. 427), por exemplo, argumenta que apesar de tal diversificação parecer, em princípio, uma boa ideia, a sua ocorrência implica, por outro lado, “diferenças que tornam difícil manter qualquer identidade disciplinar significativa”151. O autor avalia que a expansão da área resultou na aproximação de metodologias e abordagens que são incompatíveis epistemologicamente, como, por exemplo, a gramática funcional, a análise de corpus, a etnografia, a pragmática e a análise da conversação, oriundas de áreas como a Linguística, a Antropologia, a Sociologia e a Filosofia. As diferenças resultantes, conclui o autor, não têm a ver apenas com “o tópico, ou mesmo a metodologia, mas com epistemologias subjacentes e crenças fundamentais sobre a natureza da língua, ao ponto em que reivindicações de unidade se tornam inconvincentes” (COOK, 2015, p. 429)152.

De modo semelhante, Kramsch (2015, p. 461) considera que a existência de diferentes áreas de investigação contribui para a “dificuldade em delinear claramente as fronteiras do campo da Linguística Aplicada”. A autora acredita, no entanto, que as áreas que partilham abordagens metodológicas similares podem “enriquecer-se mutuamente”153. Indo um pouco mais além, essa mesma autora, em entrevista concedida

ao pesquisador holandês Kees de Bot, e cujo conteúdo integrou o histórico de LA por ele escrito (2015, p. 31), argumenta que o atributo que melhor define essa área é a sua “abertura a influências de fora”. No histórico citado, foi solicitado a vários pesquisadores vinculados à LA que apresentassem definições envolvendo o escopo de atuação dessa

151 No original: In principle, such diversification seems a good idea […], but in practice, the diversity also entails differences which make it difficult to maintain any meaningful disciplinary identity.

152 No original: The resulting differences are not only to do with topic, or even methodology, but with underpinning epistemologies and fundamental beliefs about the nature of language, to an extent which makes claims for a federal identity unconvincing.

153 No original: All these fields mutually enrich one another […], but they contribute to the difficulty in clearly delineating the boundaries of the field of Applied Linguistics.

área. Segundo o autor, a maioria dos informantes em seu estudo “parecem optar por uma definição abrangente de LA que foca em problemas do mundo real que podem ser resolvidos por meios linguísticos” (DE BOT, 2015, p. 33)154.

Paul Angelis (DE BOT, 2015), por exemplo, avalia que a LA representa uma “constelação” de teorias, pesquisas e práticas que, advindas de uma série de disciplinas que compõem o quadro das chamadas ciências sociais, lidam com a língua em todas as suas manifestações. De modo equivalente, Elizabeth Lanza (DE BOT, 2015, p. 34) considera a sua visão a respeito da área como “bastante abrangente”, já que para ela a LA engloba diversas abordagens práticas e teóricas voltadas ao estudo da língua em uso. Anne Burns (DE BOT, 2015, p. 34) sugere que a atuação de linguistas aplicados está relacionada ao “uso de conhecimento aprofundado e teorias de como a língua funciona para entender e contribuir em uma vasta gama de contextos sociais e culturais e comportamentos”155.

A utilização, em LA, de conceitos e teorias advindos de outras disciplinas, no entanto, vem sendo defendida desde o final dos anos 80, e de maneira mais enfática a partir da década de 1990. Conforme Cavalcanti e Signorini (2004, p. 7), houve, ao longo da última década citada, uma “arrebentação” das “linhas de contorno” da LA, com “consequente expansão das zonas fronteiriças” que a delimitavam. As autoras apontam também que nesse período,

tanto no país quanto no exterior, novos e diversificados focos de interesse e novos e diversificados grupos de pesquisadores trabalhando na área favoreceram a expansão e a consolidação de uma base multidisciplinar na constituição dos procedimentos de investigação próprios do campo aplicado.

Cavalcanti e Signorini (2004, p. 8) sugerem que essa expansão foi motivada “pela natureza dos objetos de interesse na área e pela prática dos que nela trabalham”. Partindo do pressuposto de que a LA é “fundamentalmente empírica por natureza” (DE BOT, 2015, p. 34)156, estamos em consonância com as autoras citadas, pois acreditamos que os

objetos de estudo de cada pesquisa e as práticas nas quais estão inseridos determinarão

154 No original: The majority of the informants in this study […] seem to opt for a broad definition of AL that focuses on real world problems that can be solved with linguistic means.

155 No original: For me it’s to do with using in-depth knowledge and theories of how language works to understand and contribute to a wide range of cultural and social contexts and behaviours.

em que medida será necessário recorrer a outras disciplinas para que a investigação proposta ocorra de maneira mais abrangente e os resultados sejam satisfatórios.

Na presente pesquisa, cujo foco é o interesse de aprendizes por produtos culturais em LI, e as estratégias por eles utilizadas no contato com tais produtos fora da sala de aula, utilizamos – além de arcabouço teórico pertencente à área de ensino e aprendizagem de línguas, tradicionalmente associada à LA – fontes teóricas vinculadas a outras áreas como a Filosofia da Educação (DEWEY, 1913), a Psicologia da Educação (RENNINGER; HIDI, 2016) e a Psicologia Experimental (GIBSON, 2015). A pesquisa caracterizou-se, desse modo, pela procura de “subsídios em várias disciplinas” que pudessem “iluminar teoricamente a questão em jogo”, apresentando, assim, atributos que configuram, de acordo com Moita Lopes (2004, p. 114), estudos de natureza interdisciplinar. Podemos classificar a pesquisa, portanto, como interdisciplinar – e não transdisciplinar, na medida em que não houve interação com pesquisadores de outras áreas, o que, segundo Celani (2007, p. 117), representa “condição essencial para a transdisciplinaridade”. Ainda que a participação de pesquisadores de outras áreas pudesse ter contribuído para a pesquisa, nosso objetivo não era “dar conta da problematização que a abordagem do objeto de estudo proposto provoca em cada área”, o que, conforme a autora, também seria uma das características de pesquisas transdisciplinares.

Então, no que se refere ao caráter interdisciplinar da pesquisa, pode-se afirmar que as fontes teóricas às quais nos referimos foram fundamentais, na medida em que forneceram o respaldo teórico necessário para o entendimento do interesse como fator motivacional que influi no desenvolvimento contínuo da aprendizagem, e também para que pudéssemos trabalhar com a noção de existência de diferentes níveis de interesse por determinado assunto, no nosso caso, produtos culturais em LI, tendo como foco as séries. A partir do reconhecimento de diferentes níveis de interesse por esse produto, mudanças na configuração de tais níveis puderam ser observadas ao longo do semestre em que ocorreu a segunda fase da coleta de dados, sobre a qual falaremos mais adiante.