4.2.1. A linguagem é uma construção social
De acordo com a abordagem sócio-histórica à qual são filiados Vigotsky (1993), Luria (1994a, 1994b), Bakhtin (1981a, b), Simão (2002), Clot (1999), Holquist (1990a, b), Ratner (1995) e à qual este trabalho se filia, o homem é constituído socialmente. Segundo essa abordagem, o homem é determinado pelas relações materiais a que está sujeito, nas quais está inserido e das quais faz parte, ao mesmo tempo em que as determina. Nesse processo de constituição, o indivíduo, ao se apropriar da atividade, apropria-se das significações social e historicamente produzidas, constituindo-se como homem.
Partindo do princípio de que o homem se constrói singularmente, significando e configurando em sua subjetividade cada experiência de forma particular por meio de suas experiências, a linguagem tem um papel fundamental tanto na constituição do próprio sujeito quanto na instrumentalidade das relações entre pessoas: ela é ao mesmo tempo o instrumento psicológico que o homem utiliza nas relações que estabelece com os outros homens, em que assume o papel de mediadora, e o agente transformador da subjetividade dos homens em relação (FOPPA, 1995; RATNER, 1995; BRONCKART, 2004).
No que diz respeito à sua instrumentalidade, para Vigotsky (apud LURIA, op.cit.), a linguagem materializa e constitui as significações construídas no processo social e histórico. Assim, ao apropriar-se dela, o homem tem acesso às significações
historicamente produzidas e irá ressignificá-las por meio de suas experiências vividas. A significação é construída na esfera social, de maneira que sua internalização dependerá da mediação externa, da relação com o outro.
4.2.1.1. A questão da alteridade
É a presença do outro que, em última análise, nos faz ser quem, como e por que somos. E esse processo constitutivo do sujeito e de seu ambiente se dá por meio da linguagem, por meio do envolvimento no discurso (CAHOUR, 2001). Ou, como diz Marková (1990), o indivíduo torna-se consciente de si mesmo no processo de tornar- se consciente dos outros. Este “outro” é entendido como um outro indivíduo físico distinto do sujeito, ou os outros dos quais ele se apropriou no decorrer de sua vivência no mundo; o outro pode ser ainda o outro social, que se constitui das outras relações estabelecidas ao redor do sujeito e que em um determinado momento se interceptam ou a constituição recursiva das relações anteriores, presentes e aquelas que virão a ser (RASERA et al., 2004; SIMÃO, 2004).
A noção de alteridade aparece explicitamente em algumas abordagens e em outras se encontra implícita nas idéias de relação ou de interação, como em Anthony Giddens, François Flahault, Ernest Boesch e Bruno Maggi, uma vez que consideram que a ação é dirigida a alguém ou em relação a alguém.
Esta idéia de outro é adotada da perspectiva dialógica Bakhtiniana (1981), para quem em um enunciado, mesmo no momento em que é produzido por alguém, já se pode ouvir pelo menos duas vozes simultaneamente, porque todo texto é um encontro dialógico com as vozes de outros.
4.2.1.2. A linguagem enquanto ação relacional
Ao defender a idéia do dizer como resultado das relações entre o sujeito, ele mesmo em sua subjetividade e o mundo, resta a questão de saber, diz Clot (2004), como estas “bolhas subjetivas” – os sujeitos constituídos isoladamente, podem se comunicar. As “bolhas” estão cada uma no seu mundo e gravitam sobre sua órbita lingüística. Para Clot (op.cit.), é a partir da idéia de intersubjetividade, de que existe um real, que existem linguagens e que a intersubjetividade é a co-elaboração de um discurso que se alimenta simultaneamente da relação da língua com o real e da palavra de um com a palavra do outro.
Bronckart (1996,1997/1999) aponta para o fato de que, na concepção habermasiana, a negociação e cooperação interindividuais são necessárias não apenas para a consecução de objetivos individuais, mas também e principalmente para a constituição dos próprios mundos que serão o contexto específico da atividade do sujeito. Isso porque os mundos a que se refere Habermas são mundos representados26, que se estruturam para o sujeito segundo configurações de conhecimentos que veiculam representações coletivas do meio.
O sujeito, portanto, ao mesmo tempo em que contribui para a construção dessas representações coletivas, interpreta suas ações individuais no quadro destas (LAVILLE; ZANARELLIM 2000). As representações coletivas acumuladas e pertinentes sobre o mundo físico constituirão o mundo objetivo; as representações coletivas acumuladas e pertinentes sobre as modalidades de consenso de cooperação no grupo constituirão o mundo social; e aquelas referentes a características individuais dos sujeitos engajados na atividade constituirão o mundo subjetivo. Assim, a ação comunicativa é mediadora da transformação do “mundo em si” (limite nunca atingido) em mundo representado, contextual para a atividade do sujeito (cf. BRONCKART, 1996, p.101 e 1999, pp.33-34). Bronckart coloca, assim, a ação comunicativa como dialeticamente geradora das e gerada pelas
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Este termo, na obra de Habermas como na de psicólogos sócio-históricos, não é sinônimo das representações mentais da psicologia cognitiva, onde se compreendem representações como algo “dentro da cabeça” do indivíduo.
representações do mundo (objetiva, social e subjetiva), enfatizando a dimensão constitutiva supra-individual buscada pelos atores na ação comunicativa.
Para Boesch (1996), a ação comunicativa visa, via de regra, induzir imagens no ouvinte, influenciar a imaginação do outro, o que é necessário para a coordenação das ações interindividuais. Ou seja, para que o sujeito e outro cooperem entre si, coordenem suas ações, é necessário que ambos tenham imagens e objetivos também coordenados entre si. Iso não implica que ambos tenham o mesmo objetivo, mas que um forme objetivos que incluam cooperar com o outro. Entretanto, para evocar no outro as mensagens apropriadas, o sujeito precisa levar em conta a situação, as tendências de ação e os valores do outro, bem como a atitude do outro para com ele.
Dito de outra forma, as atividades linguageiras dos sujeitos, para além da constituição progressiva de sua imagem identitária (e, portanto, de sua identidade), contribuem tanto a transmitir um saber cultural quanto a modificá-la, tanto a reproduzir uma ordem social quanto a transformá-la.