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4.3. Técnicas para análise de dados linguageiros

4.3.1. Análise do discurso

4.3.1.2. Discurso e a “Sistemática de posicionamento”

4.3.1.2.2. Modelo de Robert Vion 2001, Rouveyrol, 2005

Robert Vion (2001) trabalha na direção do desenvolvimento de uma teoria global capaz de levar em conta as dinâmicas gerais da produção e da recepção da fala31 em sua total complexidade e heterogeneidade. Em uma abordagem pragmática integrativa, Vion (op.cit.) propõe o que se constitui na base teórica para o modelo desenvolvido posteriormente por sua equipe.

O trabalho de Robert Vion se baseia no princípio da existência de dois níveis de diálogo que são imbricados entre si:

O nível propriamente dialogal, aquele em presença mesmo que virtualmente, onde os co-locutores trocam mensagens; e o nível dialógico, diálogo em ausência, que ao seio mesmo de uma produção monologada (mas entretanto endereçada), faz dialogar opiniões e enunciadores” (Vion, 1995)

Segundo o autor, é essa dupla realidade do diálogo que conduz Bakhtine a dizer que todo episódio dialogal se inscreve numa corrente de comunicação ininterrupta: só podemos dialogar com um parceiro (real, potencial ou imaginário) dialogando ao mesmo tempo com um número indefinido de opiniões.

Enquanto ação comunicativa, a atividade discursiva se organiza segundo dois domínios, que são simultaneamente correlacionados e não dedutíveis um do outro: a relação social e interpessoal de uma parte e a relação interlocutiva de outra. Cada uma dessas duas relações se subdividem em vários “níveis” de atividades caracterizáveis em termos de posições:

− Para a relação social e interpessoal relevamos: os posicionamentos institucionais, definidores do quadro interativo, ou seja, da situação; os

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Em geral, os pesquisadores que tratam do sentido sócio-cultural da linguagem preferem utilizar o termo fala (que possui o significado simbólico da palavra circunscrita sócio, histórica e culturalmente) em vez de “palavra”, preferida pelos estudiosos da linguagem gramaticalmente falando.

posicionamentos modulares, que autorizam os sujeitos a desenvolver localmente outros tipos interativos que aquele sobre o qual se define a situação; os posicionamentos subjetivos pelos quais os sujeitos co-constroem imagens deles mesmos.

− Para o quadro da relação interlocutiva: os posicionamentos discursivos permitindo aos sujeitos realizarem tarefas cognitivo-discursivas, como a gestão dos mal entendidos, a descrição, o relato, a argumentação etc.; os posicionamentos enunciativos que exprimem os modos de presença e de implicação dos sujeitos e suas produções (voz construída nos discurso, atitudes e distâncias com relação aos propósitos construídos).

Os sujeitos, ao se comunicarem, gerenciam simultaneamente todo esse jogo de posições, de forma que a relação constituída entre eles articule os cinco tipos de relações de posições interligados. Sendo todas as posições interligadas, qualquer modificação numa delas terá repercussões sobre o conjunto de outras.

A partir dessas proposições de Vion, seu grupo de pesquisa trabalhou em direção a um modelo, cujo alvo era realizar as análises do discurso construindo uma ponte entre comunicação escrita e oral, monólogo e diálogo. Um modelo capaz de tratar os vários níveis relevantes.

O modelo constituído é denominado “modelo estrela”, cuja pretensão é

Trazer luz à forma na qual níveis tão variados como os processos de posicionamento institucional, modular, subjetivo, discursivo e enunciativo são levados em conta para produzir um análise concernente à pratica social assim como às estratégias micro-lingüísticas. (ROUVEYROUL et al., 2005).

Segundo os autores, o modelo “estrela”, por permitir escrutinar vários níveis de comunicação verbal, torna possível colocar fenômenos heterogêneos dentro de uma perspectiva estruturante. Ressaltam ainda que, apesar de saberem que um grande e complexo número de fatores psicológicos ou sociológicos influenciam os indivíduos, não têm a pretensão de encampá-los neste modelo, visto julgarem fora do escopo da investigação. Esta abordagem contrasta com as tentativas modulares, em que a complexidade da linguagem é dividida em vários componentes, tratados de forma

relativamente autônoma em uma primeira fase e conectado somente em uma segunda fase.

Todos os cinco processos de posicionamento - institucional, modular, subjetivo, discursivo e enunciativo - se influenciam reciprocamente de uma maneira não- hierárquica; em conjunto e interligados, formam o espaço interativo.

Figura 1. O modelo estrela de processo de posicionamento (Rouveyrol et al., 2005)

Deste modelo nos restringiremos ao que diz respeito às relações interpessoais.

− Processo de posicionamento institucional: diz respeito às realidades que são exteriores e anteriores à interação, como, por exemplo, médico-paciente, professor- estudante. Essas posições institucionais se referem a uma tipologia das interações mas não podem ser reduzidas a funções sociais ou a atividades profissionais. As situações de comunicação são determinadas retroativamente pela atividade do discurso realizada pelos sujeitos. As variações são esperadas e podem ao final modificar ou qualificar a estrutura preexistente.

Posicionamento «’Institucional » Posicionamento «Modular» Posicionamento «Subjetivo» RELAÇÕES INTERLOCUTIVAS RELAÇÕES INTERPESSOAL ESOCIAL Posicionamento «Discursivo» Posicionamento «Enunciativo»

− Processo de posicionamento ‘modular’: trata das fases interativas específicas retidas temporariamente pelos locutores, pertencendo a um gênero secundário, subordinado a uma estrutura geral. Estas fases são denominadas módulos. Por exemplo, numa interação do médico-paciente, o médico poderia pedir ao paciente que tivesse conhecimento em informática, um conselho com relação a um determinado programa. O gênero dominante é ainda a consulta médica; os módulos de conversação são gêneros subordinados locais.

− Processo de posicionamento ‘subjetivo’: trata da relação estabelecida entre a troca verbal dinâmica e os objetivos gerais que os locutores atribuem. Nós consideramos aqui imagens construídas pelo indivíduo com relação aos processos de posicionamento hierárquicos construídos no curso da interação e que são conectadas também às situações discursivas. Como exemplo dessas posições conquistadas ou perdidas em relação às imagens construídas pelos co-locutores, pode-se citar: perito/não-perito, honesto/desonesto, rígido/flexível.

CAPÍTULO V - MÉTODO

Este é um estudo exploratório que objetiva compreender, dentro de um ambiente organizacional, qual o papel das relações interpessoais, como elas se estruturam e se desenrolam no decorrer das atividades de trabalho em concepção e desenvolvimento de um produto, em um contexto de relação entre empresas para execução do projeto.