“Bastaram quatro gerações de freqüentadores de cinema, para que a linguagem ficasse gravada em nossa memória cultural, em nossos reflexos, talvez até em nossos genes”.
Carrière (1995)
Neste amplo cenário cinematográfico destaca-se a Indústria Americana; quase que exclusivamente representada por Hollywood e rotulada como um produto da visão econômica e administrativa do “empreendimento”, do “negócio” chamado cinema (PARAIRE, 1994), com fortíssimo sistema de produção e distribuição mundial,
diferentemente do cinema europeu – considerado arte (CARRIÈRE, 1995). Pode-se dizer que o número de produções e o sistema de distribuição foram os diferenciais determinantes para a chamada indústria do cinema norte-americano marcar a história do cinema em todo o mundo.
O elevado número de produções gera discussões acerca das temáticas e roteiros padronizados e dos documentários produzidos sob o olhar americano da história. Neste contexto, proliferaram-se as teorias do cinema e da comunicação, cujo objeto de estudo é analisado sob as diversas áreas do conhecimento, interdiciplinarmente. Além das questões políticas e econômicas que sempre permeiam tais análises, inclusive, as representações sociais e suas várias influências, até mesmo psico-sociais, a linguagem sempre tem um forte foco de atenção dos pesquisadores, seja por sua representação textual ou contextual,
além dos aspectos fílmicos que envolvem as técnicas sobre criação, produção, edição, e também as teorias sobre os efeitos do cinema na recepção da mensagem.
Para Carrièrre, 1995, o cinema inovou na linguage m:
Não surgiu uma linguagem autenticamente nova até que os cineastas começassem a cortar o filme em cenas, até o nascimento da montagem, da edição. Foi aí, na relação invisível de uma cena com a outra, que o cinema realmente gerou uma nova linguagem. No ardor de sua implementação, essa técnica aparentemente simples criou um vocabulário e uma gramática de incrível variedade. Nenhuma outra mídia ostenta uma processo como este. (p. 14)
Não se pode negar que o cinema como meio de comunicação teve avanços
fantásticos ao longo de um século, sendo alvo de análises, também pela sua estreita relação com os outros meios de comunicação e outras formas de arte. O cinema é o único dos meio de comunicação, arte e entretenimento que faz uso de tudo que veio antes de sua
existência.
O homem sempre teve necessidade de registrar sua forma de ver o mundo através de um olhar artístico. A fotografia como imagem estática, os afrescos, a pintura, a escultura e a literatura foram maneiras encontradas de transmitir certa realidade para um número maior de pessoas e registrar fatos e fábulas para a posteridade. Cada uma das artes tinha sua própria forma, conteúdo e linguagem. Porém o desafio de dar idéia de movimento aos registros, até então estáticos e/ou textuais impressos, fe z do cinema um meio
revolucionário na maneira de comunicar. Para Costa, 1987, “o cinema é uma linguagem com suas regras e suas convenções. É uma linguagem que tem parentesco com a literatura, possuindo em comum o uso da palavra dos personagens e a finalidade de contar
histórias”(p.27).
Em contrapartida, o desafio do movimento gera a necessidade de algumas adaptações na maneira de pensar e transmitir por meio do cinema. Não entendê- lo apenas como uma técnica, mas também, como arte. Ou ainda, como afirma Costa (1987) sobre o cinema “...é técnica, indústria, arte, espetáculo, divertimento, cultura”. Para os teóricos do cinema é importante não só a matéria-prima, fonte de inspiração para o processo cinemático (real ou
fantasiosa), mas também, adequar métodos e técnicas, como processo criativo que dá forma à matéria-prima. Mas isso não é tudo. O cinema é muito mais complexo e por isso
formas e modelos são fundamentais para definir o tipo de filme e o gênero, e, por
conseguinte, sua linguagem.
Assim como a literatura tem sua própria linguagem, utilizando palavras, frases e
períodos, portanto, expressando-se por meio da sintaxe, no cinema, esta é representada na relação dos planos, seqüências de imagem que criam uma narrativa, que por sua vez, explicita a história, fábula e o enredo do filme. Os elementos básicos da linguagem cinematográfica são: planificação (os diversos planos – geral, de conjunto, americano, médio, close’up, entre outros); os movimentos de câmera (travelling, panorâmica, na mão, entre outros) e a angulação; e por fim a montagem que traz uma infinidade de recursos e elementos componentes também importantes para o filme.
Para linguagem cinematográfica é importante o movimento e com ele a composição de cenário, a caracterização adequada dos personagens de modo a garantir o reconhecimento e integração do espectador com a situação retratada. Como o cenário que compõe a
representação de uma época, situação ou localidade específica onde se desenrola a trama. Quanto à imagem estática ou estratificada, alguns aspectos são fundamentais como o plano de imagens e sua relação com os diversos tipos de enquadramento ou escalas de planos.
Nos filmes de ficção observados, as escalas de planos são percebidas em situações muito peculiares à Ficção Científica. Quanto maior e mais afastado é o enquadramento (plano geral), maior é a compreensão do universo do cientista no filme tal como a
composição de seu ambiente de trabalho; também possível com o plano de conjunto. Já a sua relação com os colegas de trabalho e objeto de estudo, ainda numa compreensão superficial do perfil e personalidade dos personagens é possível com o plano de meio conjunto. Na medida em que o enquadramento começa a diminuir e se aproximar dos personagens é permitido ao espectador acompanhar as representações afetivas e de personalidade dos personagens, como o plano americano (metade do corpo); plano
explora as fisionomias dos personagens diante de situações de estrema exposição de sentimentos. Ou ainda com o grande plano ampliado cuja câmera isola parte do corpo do personagem ou objeto que se queira focar como uma lágrima caindo, um anel com veneno etc.
Além dos planos, outros elementos fílmicos compõem a linguagem cinematográfica, a
composição de cenas para o enredo e ritmo do filme; a atenção em aspectos que devem
prender o espectador;o simbolismo entre o cenário e a composição de personagem numa integração de discurso e imagem; a estética representando aspectos de reconhecimento artísticos como fotografia, trilha sonora, iluminação e figurino adotados para a composição fílmica, além das questões de direção e expressão dos atores e figurantes.
Apresenta-se a seguir exemplos dessa linguagem cinematográfica num dos filmes de Ficção Científica observados, considerado clássico do gênero na década de 70 – A Ilha do Dr. Moreau:
plano geral da ilha na qual se passa a história relatada
plano de conjunto em que se insere o primeiro personagem na
trama
plano de meio conjunto onde se apresentam as relações sociais
dos personagens
plano americano em que denota a relação de trabalho do cientista
plano aproximado em que denota a relação submissa do objeto de pesquisa em relação ao
cientista
grande plano que explora o sentimento de superioridade do
cientista
Não seria exagero afirmar que a linguagem do cinema não se restringe ao movimento, ou ao método, técnica, ou ainda à matéria-prima, mas ao conjunto de informações que compõem o objetivo de valor do filme, isto é, o que ele representa para a linha de criação adotada; o que representa para o homem criador ou espectador. Sua forma, linguagem, ritmo, objetivo e conteúdo estabelecem uma relação sócio-cultural e porque não, moral com a sociedade.
Sobre isso Claudeª, 1982, destaca algumas considerações:
- - A identificação engendra, por si, a imitação, a imitação repetida, um comportamento e uma atitude moral permanente.
- - O cinema destila uma filosofia da vida por meio do seu clima e da incessante repetição.
- - Um mesmo filme pode ser nocivo ou benéfico, segundo o sentido em que se dá a identificação [...]
- - Quanto mais o espectador se sente “próximo dos personagens e comprometido na ação, mais se identifica com os protagonistas; “distante” o mesmo efeito se relaxa. Esta distância pode existir no tempo [...]no espaço[...] no pensamento[...]
- - A influência moral de um filme depende muito da disposição do espectador: idade, cultura, educação, meio[...]
Neste sentido, se pensarmos nos filmes produzidos nas décadas de 70 a 90 do gênero Ficção Científica, objetos desta pesquisa, percebe-se esta clara relação do objetivo de valor em relação à produção do clássico A ilha do Dr. Moreau, produzido na década de 70 e que discute questões éticas do uso da atividade científica, quando o termo ética ainda não era discutido com o grande público.
Por isso, ANDREW, 1989, afirma que “se o conteúdo é proeminente no cinema, então uma análise dos conteúdos cinemáticos deveria ser capaz de estabelecer a essência do veículo”. Em outras palavras, a essência do cinema não pode ser percebida, apreendida por meio de uma obra, técnica ou gênero. O sentido do cinema está em sua complexidade de significados gerados não só em um único filme, mas todos os significados gerados por todos os filmes juntos, num sistema maior que abrange subsistemas como gêneros, estilos, escolas, tipos de filmes entre outros aspectos.
Seguindo a idéia de valores resultantes do conjunto de filmes, a capacidade cinemática das últimas três décadas voltou-se para utilização de imagens estereotipadas do cientista, retratando-o como obcecado, ambicioso, inconseqüente entre outros conceitos pejorativos.
Compreender o cinema, segundo Costa,1987, é compreender a sua relação com a história; a história do e no cinema; e ainda o cinema na história, isto é, o cinema como objeto de estudo; a história retratada nos filmes; o cinema como canal de difusão de ideologias e suas relações com o contexto sócio-político.
Pensando neste sistema como uma complexa forma de comunicar, seja qual for sua finalidade: entreter, refletir, discutir, motivar etc; como um canal pelo qual uma série de valores e informações são despejadas sob o espectador, estamos falando da relação intrínseca e quase unívoca entre o propósito social do cinema e sua própria linguagem.
Esta linguagem é a do silêncio do cinema mudo; é a do som do cinema falado,
sincronizado; é a do visível e não-real da escola formalista; é a das relações entre o visível e o real da escola realista; do visível e enunciável das escolas semiológicas; entre outros aspectos fílmicos como a escolha de ângulos para designar emoções; tomadas para gerar contemplações e trazer informação; técnicas de edição para criar situações; enfim, a linguagem do cinema não é produto dissociável dele em si, mas é intrínseco à sua própria essência.
Parafraseando, Costa, 1987 :
o cinema é aquilo que se decide que ele seja numa sociedade, num determinado período histórico, num certo estágio de seu desenvolvimento, numa
determinada conjuntura político-cultural ou num determinado grupo social (p.29)
Isto porque o cinema é feito pelo homem, totalmente impregnado pelos valores, problemas e necessidades que seu grupo social vivencia. Sobre isto Turner, 1997, diz que o sistema de linguagem de uma cultura, traz consigo um sistema de prioridades e valores específicos do seu mundo social. É assim no cinema. Muitos pesquisadores utilizam o cinema como objeto de estudo e o separam dessa dimensão real histórico-social de onde ele nasce e para a qual retorna através de seus filmes. Não obstante, o que o cinema faz é construir e não rotular a realidade, pois ela está sempre baseada em dados culturais já existentes e/ou análogos à realidade ficcional.
Por isso não seria impróprio afirmar que o cinema faz uso de valores já estabelecidos pela sociedade, seja através da mitologia, dos arquétipos ou mesmo de estereótipos mais
recentes ou em mutação, todos formados pela experiência sócio-cultural dos indivíduos. Para Claudeª, 1982, “cada autor (cineasta) se serve, à sua maneira da linguagem
cinematográfica para animar e comunicar seu pensamento e a visão do mundo que lhe é própria”. E ainda, "independente de qualquer perspectiva estética, o ator constitui uma realidade sociológica”. Por isso apreciar ou mesmo analisar um filme através de sua linguagem cinematográfica, é o mesmo que apreciar a importância humana e social da obra, pois o espectador e o próprio cineasta são capazes de reconhecer e associar o perfil arrogante, obsessivo e superior do personagem à uma referência social viva e marcante na história de seu país ou civilização.
Não obstante a relação social do cinema com sua própria linguagem, existe também sua relação com a cultura. Há, segundo Turner, 1997, duas amplas categorias de abordagem da relação entre cinema e a cultura:- “textual e contextual”. A segunda que interessa a esta pesquisa, analisa os determinantes culturais e sociais da indústria cine matográfica, estabelecendo valores sociais e gerando e/ou fixando estereótipos.
Mas como perceber as relações de linguagem e matéria-prima (inspiração dos filmes)? “É na conotação que encontramos a dimensão social da linguagem” (TURNER, 1997), pois é interpretado de acordo com a experiência cultural do usuário, no caso do cinema, o espectador. Neste momento, o domínio da técnica é fundamental. As contribuições do
mise-en-scène22[22] trazem ao filme a sensação do real que tanto se busca no cinema. Para
22[22]
Termo utilizado para descrever a teoria sobre a gramática do cinema, um estilo de filmagem e produção e até mesmo para designar tudo que está num determinado quadro cênico, numa tomada, atrelado a outros aspectos da
Tudor, 1973, “a intensidade de som e imagem, o conforto do espectador e um realçado senso de oportunidade tornam o espectador mais suscetível ao poder da mensagem” (p.111).
Partindo das relações entre linguagem e conteúdo no cinema, torna-se praticamente impossível separar o papel social do cinema e suas relações com linguagem. O universo fílmico traz à tona um mundo insólito, segundo Claudeb(1982) no qual o espectador cria um encantamento pela situação gerada na tela do cinema. Neste momento a linguagem é percebida na agilidade da tela, nos quadros e ângulos, nas fusões de imagens e até mesmo no silêncio e pausas. São estes recursos de linguagem que geram o que Jean Claude Carrière (1995) chama de gênero de memória. Isto é, no filme o espectador reconhece, através da linguagem do cinema, todo o tipo de expressão por ele já vivenciada e exposta no filme. Isso pode acontecer com mais intensidade para alguns do que para outros. “o cinema nos é tão familiar pela facilidade e naturalidade com que se desenvolve a visão fílmica” (COSTA, 1987).
O principal produto do cinema é o filme e este pode ser entendido e analisado sob diversas formas – dentre elas a da linguagem em seus diversos aspectos: discursivo; da significação; dos elementos fílmicos. Sob o olhar amplo da linguagem, o filme é dotado de uma capacidade significante e de um caráter fotoreprodutor poético que permite ao seu criador reproduzir dada realidade sob um olhar individualizado e ao mesmo tempo inserido em um contexto imaginário coletivo.
Este contexto pode ser percebido pelo que, na teoria do cinema se denomina visibilidade total, Bazin, defende que o espectador capta exposto muito além do que o cineasta quis passar. A ampla visão retrata fragmentos da realidade reconstruídos de forma poética e interpretados pelo olhar do espectador. Estes aspectos da linguagem foram melhor discutidos na apresentação das teorias do cinema no item anterior.
Desta forma, o espectador passa a ser peça fundamental dessa engrenagem denominada linguagem do cinema. Sobre isto, Costa, 1987, ressalta que:
O cinema pode ser visto como um dispositivo de representações, com seus mecanismos e sua organização dos espaços e dos papéis [...] mas também com suas características peculiares devidas à dinâmica de produção da imagem [...] e no sentido de determinar papéis.
Os papéis a que se refere Costa não podem ser considerados apenas os dos personagens, mas do imaginário coletivo que se constrói e se representa a cada filme, seja pela duração, ou pela capacidade de penetração e complexidade de relações com os outros setores da produção de imaginário.
Em contrapartida, Andrew Tudor(1975), sociólogo inglês , da Universidade de Nova York, defende a idéia de que os estudos sociológicos sobre o cinema surgiram do fato de o meio não ser considerado forma de arte, por isso não poderia fazer o bem à sociedade. Porém, ressalta que a função do cinema como arte cinematográfica deveria ser comunicar o dinamismo de seu mundo sem ter que carregar a incumbência de provar sua capacidade artística. Por outro lado, ao mostrar seu mundo o cinema passa a ser observado também por sua função e efeitos sociais. Tudo não acredita na possibilidade de tal análise à medida que infinitas variáveis sociais interferem neste olhar.
Ele acrescenta ainda, que o meio de comunicação é um pêndulo que oscila entre o conteúdo exposto pelo comunicador e conteúdo percebido pelo receptor. A oscilação se dá
imagem: a montagem do cenário, o figurino, o arranjo e o movimento das personagens, as relações espaciais e a colocação de objetos que se tornam imp ortantes na narrativa.
por variáveis inerentes ao comunicador e ao receptor, tendo a linguagem do meio, um papel fundamental na compreensão da mensagem. Esta por sua vez não pode ser desvinculada do conteúdo. Para Tudor, uma visão social do cinema não escapa à relação existente entre cultura e estrutura, social e cinematográfica, identificando o que é permitido e possível fazer no cinema.
A linguagem cinematográfica possui recursos que efetivam a relação entre filmes e imaginário social. Pode-se ainda, ressaltar a existência de uma cumplicidade entre elementos dos filmes – categorias, conceitos, valores, expectativas, comportamentos – e os do imaginário coletivo. Isto é, o cinema, segundo Claudeª, 1982, constitui uma verdadeira escola em que , semanalmente, é destilada uma concepção filosófica da vida, uma visão do mundo. E sobre isso Claude completa sobre a “presença fílmica” que compõe uma mescla de passividade e atividade diante de uma nova realidade a fantasiosa.