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2 REVISÃO DE LITERATURA

2.2 LITERATURA, GÊNERO E ESCOLA

A literatura carrega em si, como comentado acima, valores relacionados a seu momento histórico de produção. Dessa forma, sua circulação no meio escolar não incute neutralidade. Assim, é necessário compreender os estudos sobre o gênero na atualidade e sua influência no universo infantojuvenil e escolar. Para isso, consultou-se a obra “Falando sobre gênero na escola: potencialidades de uma intervenção com crianças”, de Botton, Strey e Costa (2020).

A segregação comportamental entre masculino e feminino, elucidam os autores, trata-se da reprodução de estereótipos socialmente construídos e, portanto, não se relacionam com o gênero biológico. É durante a infância que as normas ditadas pelo meio social da criança serão incentivadas, fiscalizadas e internalizadas pela grande maioria dos indivíduos, e a literatura infantojuvenil tem grande influência na manutenção e promoção dessas normas. É a literatura que insere de forma sutil na compreensão da criança os conceitos de divisão e segregação dos gêneros. Além disso, a instituição escolar responsável em grande parte pela propagação da literatura no Brasil é um dos principais ambientes para veiculação de estereótipos, e é também o principal meio para o desmonte e o declínio de preconceitos amplamente corroborados ao longo dos anos, pois viabiliza a apresentação de conceitos menos estereotipados e permite a reflexão sobre o que é tratado como “comum” pela sociedade.

Um exemplo prático do poder transformador da escola está descrito no trabalho de Botton, Strey e Costa (2020) que evidenciam, em sua intervenção escolar com crianças de 6 e 7 anos, que o trabalho com a reformulação dos gêneros como unidade social deve ser iniciado ainda na infância e elucidado na mesma.

Dessa forma, é possível eliminar estereótipos e desvalorizações das minorias feminina, negra, LGBTQIA+, dentre outras.

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3 REFERENCIAL TEORICO

Além dos referidos artigos, utilizou-se como base para construção teórica do presente trabalho o livro intitulado A literatura infantil na escola, de Regina Zilberman (2003), que destaca algumas razões para a literatura infantil ser constituída da maneira que é atualmente. Zilberman explica inicialmente o contexto em que a literatura infantil e a noção de infância surgiram; Segundo a estudiosa, no passado, durante e até o final da Idade Média, não havia a concepção de infância. Dessa forma, as crianças eram submetidas ao mesmo tratamento dos adultos, sem qualquer tipo de filtro. Elas trabalhavam, tinham acesso aos mesmos livros produzidos para adultos e, inclusive, suas vestimentas imitavam as destes. É possível observar o processo, a título de conhecimento, na obra As meninas, de Diego Velázquez (1656), abaixo:

Figura 1: As meninas, Diego Velázquez (1656)

Fonte: História das artes.

A compreensão de infância como conhecemos surgiu apenas em meio à Idade Moderna, com a ascensão da burguesia e o declínio da nobreza, a partir de uma nova percepção de família lotada em um núcleo familiar unicelular composto por pai, mãe e filhos, com apreço pela privacidade e pelo afeto entre os membros.

Visando a uma educação de qualidade para seus filhos, surgem os primeiros livros de literatura infantil, não por acaso escritos por pedagogos e professores.

Nesse sentido, os livros são comprometidos com o completo aprendizado da criança, como manuais de comportamentos e atuações exemplares diante da sociedade em que estão inseridos. A perspectiva pedagogizante da literatura infantil gera discriminação e inferiorização das crianças, e sobre isso a autora faz uma analogia:

A literatura infantil, como o Novo Mundo do século XV, está envolvida por uma capa protetora de enganos e preconceitos que, ao mesmo tempo, a diminuem intelectualmente e reprimem uma averiguação que ponha em evidência sua validade estética ou suas fraquezas ideológicas (ZILBERMAN, 2003. p. 11).

Ou seja, ainda que ao longo dos anos alguns autores de literatura infantil tenham trabalhado para modificar sua intenção pedagogizante, ainda que trabalhem a partir da compreensão da perspectiva da criança e da sua realidade, a literatura infantil segue presa a estereótipos de sua época inicial, tipicamente pedagógica.

Contudo, os esforços dos novos autores não devem ser ignorados e desperdiçados, uma vez que a literatura infantil pode e deve ser empregada como agente propiciadora do questionamento e da criticidade de seu leitor diante da sociedade em que circula, considerada ainda geradora da ampliação linguística, emocional e da aquisição do saber infantil. Sobre isso a autora explica:

Como agente de conhecimento porque propicia o questionamento dos valores em circulação na sociedade, seu emprego em aula ou em qualquer outro cenário desencadeia o alargamento dos horizontes cognitivos do leitor, o que justifica e demanda seu consumo escolar (ZILBERMAN, 2003. p. 12).

Dessa forma, a escola se enquadra nesse ponto como principal meio vinculador da literatura, uma vez que trabalha na formação do leitor ao ensinar a decodificação e a compreensão geral do texto, além da apreensão dos temas e em especial a criação e o desenvolvimento de sua criticidade.

Por fim, é possível compreender que a literatura selecionada corrobora com as noções de concepção do gênero feminino na literatura infantojuvenil,

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inicialmente estudadas neste trabalho, e que prontamente discordam da manutenção desses estereótipos. A partir dessas discussões, nosso estudo se direciona nas mesmas diretrizes, porém, com o diferencial pautado na análise inédita da obra A pior princesa do mundo, somando assim às análises da área e possibilitando futuras leituras da referida obra.

4 METODOLOGIA

O presente trabalho constitui-se metodologicamente em uma pesquisa de natureza básica, uma vez que sua produção não estará vinculada a finalidades imediatas e sim à produção de conhecimento somativo para utilização em pesquisas futuras. Quanto à abordagem, caracteriza-se como qualitativa, uma vez que serão utilizados arquivos bibliográficos e uma obra literária para formalizar o processo, suas investigações e implicações sociais. Objetiva-se com essa pesquisa, assim, analisar, compreender e reformular a vinculação errônea e deturpada da imagem feminina na literatura infantojuvenil.

Trata-se ainda de uma pesquisa bibliográfica, uma vez que para a produção da mesma foi necessário primeiro buscar trabalhos na presente área para construir embasamento e, em um segundo momento, o estudo de um livro de literatura infantojuvenil específico. Esse trabalho é ainda de natureza documental, uma vez que é inédito ao promover a análise do livro A pior princesa do mundo, tratado, nesse sentido, como documento, o qual não apresenta produções e estudos específicos registrados em língua portuguesa até então.

A análise do livro será produzida, em primeira instância, a partir da capa e contracapa e seus componentes, observando a relação entre a escolha das cores de determinadas páginas e sua consonância com o enredo, seguidamente à realização de uma verificação detida sobre o enredo completo da obra, sua caracterização e categorização das personagens, com objetivo de elucidar a visão da autora e as diferenças entre essa obra e demais literaturas infantojuvenis.

Analisaremos, por fim, as expressões da personagem Soninha e algumas das ilustrações da obra, buscando captar e assimilar os detalhes e intenções diretamente ou indiretamente aplicadas no livro pelas autoras e as transformações que o mesmo pode gerar no universo do leitor em que circula.

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Dessa forma, objetiva-se a observação do livro como um todo na busca por compreender o conjunto formador da obra e suas escolhas assertivas ou não para a formação do leitor.

5 ANÁLISE

Os primeiros elementos a serem pontuados a respeito da edição brasileira do livro A pior princesa do mundo podem ser observados nas Figuras 2 e 3 listadas abaixo, a respeito da escolha de cores:

Figura 1: Capa

Fonte: Imagem fotografada pela própria pesquisadora.

Figura 2: Contracapa

Fonte: Imagem fotografada pela própria pesquisadora.

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É possível observar que na capa há o predomínio da cor azul, socialmente associada a uma cor masculina, e há ainda, na capa e contracapa, a ilustração de uma princesa com aspecto singelo e calmo, calçando um tênis amarelo que pode representar uma possível oposição ao salto alto, mais especificamente o tão clichê “sapatinho de cristal” difundido mundialmente pela releitura da história intitulada Gata borralheira, dos irmãos Grimm (1812), e que por anos foi sinônimo afinco de feminilidade.

A personagem ainda é ilustrada montada em um dragão que sorri amigavelmente, observando a menina em suas costas; representação curiosa, uma vez que em geral os dragões são monstros temidos e maldosos que afligem a vida das princesas estereotipadas. Corroborando com Ferreira (2015), é sempre possível associar, nesse caso, as ilustrações ao momento histórico em que são produzidas. Dadas as atuais lutas femininas por igualdade, é compreensível o compromisso das autoras, desde a capa, com a inauguração do processo de desvinculação da obra com o considerado padrão comum às obras infantojuvenis com a temática de princesas.

Prosseguindo com a construção da relação das cores, imagens e texto, ressalta-se que nenhum aspecto do livro está inressalta-serido ao acaso, pelo contrário, é sua união que torna a obra extremamente rica, como é possível observar na imagem selecionada a seguir, considerada a mais expressiva e que melhor explica o teor total da obra.

Figura 4: Leitura

Fonte: Imagem fotografada pela própria pesquisadora.

Nesta página, é possível observar o predomínio da cor amarela, popularmente relacionada ao otimismo, à riqueza e à felicidade, contudo, ao contrário do comum, a princesa parece se sentir feliz e rica agora apenas por estar em meio aos livros e na busca pelo conhecimento, e não diante de um enorme guarda-roupas de vestidos, como é possível observar na Figura 7, analisada em sequência às Figuras 5 e 6. Ainda sobre a Figura 4, é interessante ressaltar que a fala da personagem demonstra otimismo, uma vez que permanece aguardando o príncipe, porém, em clara impaciência e possível objeção ao método utilizado por ele (influenciado pela história da Rapunzel, como uma outra releitura dos irmãos Grimm [1812]), uma vez que se utiliza dos longos cabelos dela em formato de tranças para subir na torre e só então resgatá-la. O trecho do enredo que comprova essa oposição diz: “Eu só queria mesmo um namorado,/ poder viajar/ E mudar de penteado” (KEMP e OGILVIE, 2015, p. 4).

Também é possível notar a sutil crítica à clássica Rapunzel na Figura 5 a seguir, que ilustra a chegada do príncipe.

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Figura 5: Chegada

Fonte: Imagem fotografada pela própria pesquisadora.

Em contrapartida ao processo de crescimento do cabelo da princesa, seu príncipe simplesmente se vale de uma escada para alcançar a amada, ignorando a ideia clássica de como subir na torre. Na mesma linha, existe o momento do beijo, em geral aguardado pela princesa submissa, que está desacordada, inerte e sem vida. A atitude nas histórias clássicas é sempre atribuída à identidade masculina, contudo, em evidente oposição a tal mecanismo de dominação, a princesa da história é quem se adianta para beijar o príncipe, conforme a figura abaixo:

Figura 6: O beijo

Fonte: Imagem fotografada pela própria pesquisadora.

Prosseguindo com as contradições relacionadas ao universo difundido das princesas como norma, volta-se a comentar a opção da personagem em questão pelos livros, em detrimento das roupas e objetos preciosos, tal opção é observada comparando a Figura 4, comentada anteriormente, com as Figuras 7 e 8 abaixo:

Figura 3: No castelo

Fonte: Imagem fotografada pela própria pesquisadora.

Figura 4: Guarda-Roupa

Fonte: Imagem fotografada pela própria pesquisadora.

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Observa-se nessas páginas o predomínio da cor rosa, popularmente relacionada ao feminino, a delicadeza e a ternura que reforçam o estereótipo social da mulher como dona de casa, protetora dos filhos, sem ambições próprias e submissa ao homem, aspectos explicados por Silva (2010) em seu artigo. As falas do príncipe reforçam a concepção machista que impedia as mulheres de fazerem determinadas atividades: “Eu uso armadura, você usa vestido. (...) Sorria muito, mantenha a rotina/ Lutar com dragão não é coisa de menina” (KEMP e OGILVIE, 2015, p. 13 e 14, grifo nosso). Chama atenção o fato de um personagem masculino tentar promover o cerceamento da personagem feminina, impondo a ela aquilo que deve ou não fazer. Além disso, na expressão “coisa de menina”

há o registro de ascensão da burguesia, já que no processo histórico foi elaborado um plano social para reforçar o papel da mulher como esposa no novo modelo de núcleo familiar burguês, de acordo com Zilberman, que também explica: “Reforça-se o papel da esposa dentro do núcleo familiar, a fim de fazê-la assumir sua função materna” (2003, p. 38). Essa concepção é difundida ainda atualmente entre as crianças, por meio da opção feita pelos pais conservadores com brinquedos como carrinhos e espadas para meninos, bonecas e joguinhos de panelas para meninas.

Em contrapartida, às objeções do príncipe surge o dragão que, concordando com a princesa e enxergando nela um igual, auxilia a mesma a sair de sua situação de subjugada. Em possível referência à história dos Três porquinhos, também como releitura dos irmãos Grimm (1812), o dragão espirra com força para lançar tudo pelos ares, como mostram as imagens a seguir:

Figura 9: O espirro

Fonte: Imagem fotografada pela própria pesquisadora.

Figura 10: Caos

Fonte: Imagem fotografada pela própria pesquisadora.

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Nota-se que as duas páginas são dominadas pelo vermelho, cor popularmente associada ao conflito, à guerra, em que não há diálogo além da representação de tudo pelos ares. Diante da situação de contraposição de ideias, as da princesa e as do príncipe, as páginas podem representar a rebeldia da personagem e sua afirmação final como independente.

Por fim, a última imagem a ser analisada nessa etapa é justamente a que comprova a independência da personagem em relação ao príncipe e aos estereótipos a ela impostos, uma vez que é possível visualizar a volta do predomínio da cor azul, associada também à segurança e à compreensão. A personagem, juntamente com o Dragão, é representada como livre, e o enredo corrobora isso quando diz: “Daquele dia em diante, Soninha estava pronta,/ Os dois rodaram o mundo de ponta a ponta” (KEMP e OGILVIE, 2015, p.25).

Figura 5: Independência

Fonte: Imagem fotografada pela própria pesquisadora.

As autoras fecham o circuito contra estereótipos com esse quadro, em que a princesa aparece com as tranças cortadas, como um desejo inicialmente expressado na Figura 4, com as roupas destruídas em contradição ao que lhe é

exigido pelo príncipe nas Figuras 7 e 8, e especialmente livre, sobrevoando os céus com seu amigo dragão. É de suma importância constatar que a construção das imagens e do enredo ao longo livro foi propositalmente criada para culminar nessa página, quando todos os desejos da protagonista são finalmente concretizados por ela mesma.

É importante reiterar que o dragão se reconhece de igual para igual junto à princesa, e não como seu salvador, uma vez que o término da história, que em geral seria com um casamento entre ambos e a frase: “E viveram felizes para sempre”, mostra um outro foco: “E viveram felizes os dois”, apontando que não necessariamente para viverem felizes a princesa e o dragão precisariam permanecer juntos enquanto casal.

Por meio da representação de Soninha, cujo nome também é bastante sugestivo:

significa sabedoria em russo, é concebível compreender que a mesma é oposta às habituais princesas, já que sonha em ser independente, viajar e ganhar o mundo. Sua atitude, comentada anteriormente, chama atenção em contrapartida às princesas já citadas, como Rapunzel e Cinderela, que aguardam o beijo do príncipe. Soninha é quem se adianta para beijar seu “Salvador”. Dessa maneira é traçado o perfil feminino na obra. Longe de princesas marginalizadas e ofuscadas pelo arquétipo masculino, Soninha pode ser associada ao novo perfil de princesa e, logo, de mulheres da atualidade, fortes, decididas e independentes, corroborando com o perfil evidenciado por Ferreira (2015) em seu trabalho.

Há ainda no livro duas personagens coadjuvantes, o príncipe e o dragão. O príncipe é caracterizado por meio do sarcasmo que somente pode ser percebido através da união das imagens com o texto. Ele se descreve como um típico príncipe dos contos clássicos, forte, valente, guerreiro e vencedor de batalhas, contudo, as imagens evidenciam um príncipe fraco, magro que somente combate quando o adversário é claramente débil e indefeso. É possível observar essa relação entre o alter ego, ou seja, a versão em que o príncipe se vê, sua melhor versão do “eu”, e sua verdadeira realidade nas Figuras 12 e 13:

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Figura 12: Alter ego x Realidade 1

Fonte: Imagem fotografada pela própria pesquisadora.

Figura 13: Alter ego x Realidade 2

Fonte: Imagem fotografada pela própria pesquisadora.

Há clara incompatibilidade entre o que é dito, como em: “Lutei para valer” (KEMP e OGILVIE, 2015, p. 7), e a imagem ilustrada que o mostra lutando contra um possível príncipe transformado em sapo e completamente desarmado, ou ainda quando diz: “Por toda parte assustei” (KEMP e OGILVIE, 2015, p. 8) e a ilustração evidencia o mesmo apontando sua espada para um coelhinho indefeso.

É possível evidenciar ainda que o príncipe exerce clara função de antagonista diante da princesa, uma vez que diferentemente da mesma impõe ao mundo uma realidade mentirosa, fixada em estereótipos socialmente aceitos, e busca, a todo custo, repreender e impedir a independência dela. Além de se demonstrar atônito com a atitude da princesa ao beijá-lo.

Por fim, temos a personagem do Dragão, que de modo geral é representada como ser maldoso e cruel, responsável, em grande parte dos contos, por manter as princesas prisioneiras em suas torres, mas que em A pior princesa do mundo, mais uma vez, tem seu ideário quebrado. Nesse caso, o Dragão apesar de forte e grande, apresenta-se como um amigo que auxiliará na remoção da princesa de seu cárcere imposto pelo príncipe. A reação de Soninha ao ver o Dragão é bastante atípica também, uma vez que, ao contrário do medo, ela o convida para um chá. Ele, por sua vez, não demonstra agressividade para com ela e não age de forma pretensiosa a ponto de ser considerado um “Salvador”, pelo contrário, ele corresponde aos ideários de Soninha, partilha de suas vontades e, por essa razão, auxilia em sua fuga. Como é justificável na Figura 14 a seguir:

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Figura 14: O encontro

Fonte: Imagem fotografada pela própria pesquisadora.

Ambos em diálogo demonstram insatisfação com as atitudes do príncipe, e é por essa identificação pessoal que acabam por se tornarem amigos, optando por fazer algo contra os desmandos do mesmo. O dragão é ainda retratado com a cor laranja, secundária, popularmente conhecida por excitar a fome e também a criatividade.

O corpo textual do livro tem sua linguagem trabalhada por meio da poesia, sua construção é baseada em rimas simples de dois versos em que a última palavra de cada verso é a rimada. Compõe-se ainda majoritariamente por uma narrativa em primeira pessoa do singular, chamando atenção por trabalhar a história através do olhar de Soninha, personagem principal. Os diálogos, também trabalhados em rimas, são curtos e diretos, e em sua maioria pronunciados pela princesa. Nota-se que diferentemente dos livros do PNBE analisados por Silva (2010), que priorizam a personagem masculina em detrimento da feminina, o livro A pior princesa do mundo trabalha com uma perspectiva claramente antagônica e cria o universo da história voltado para a independência total de Soninha. Dessa forma, a obra regula-se entre as colocações de Rosemberg e Piza (2012), uma vez que Soninha é representada de forma operante, porém, ao

contrário do que as autoras afirmam em sua obra a respeito das características das personagens serem deturpadas, sendo sempre representadas como agressivas e competitivas, Soninha em momento nenhum apresenta expressões de raiva e descontrole, além de ser protagonista em 100% do tempo. Equipara-se também aos estudos de Souza e Amaral (2017) que comprovam o novo perfil feminino das princesas atuais, pautado agora no empoderamento feminino:

Soninha é muito ativa na busca por sua liberdade.

Ainda sobre as expressões de Soninha, é interessante observar que elas diferem mais uma vez do habitual. De modo geral, pode-se afirmar que as princesas da tradição clássica apresentam muito pouco ou nada de expressões faciais, e as poucas que apresentam ainda são apáticas. Soninha, por sua vez, regula suas expressões de acordo com as situações vividas ao longo da obra. Através do olhar e da postura corporal, ela evidencia, por exemplo, nas Figuras 1 e 3 demonstradas a seguir, tédio, monotonia e chateação, pois está com olhos bem abertos em sinal de ansiedade, a boca fechada e com a postura desleixada na sacada de seu castelo e na cadeira. O enredo corrobora quando diz: “(...) meu príncipe virá,/ Mas como ele demora, por onde andará?” e “Já esperei mil anos a fio,/ Meu coração está vazio” (KEMP e OGILVIE, 2015, p. 3).

Figura 15: A espera

Fonte: Imagem fotografada pela própria pesquisadora.

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