Sede sóbrios e vigiai. Vosso adversário, o demônio, anda ao redor de vós como um leão que ruge, buscando a quem devorar.
(1Pd 5,20)
“O último pedido ao nosso Pai aparece também na oração de Jesus: ‘Não te peço que os tires do mundo, mas que os guardes do Maligno’” (Jo 17,15), diz o nosso Catecismo. E nos ensina: “Neste pedido, o Mal não é uma abstração, mas designa uma pessoa, Satanás, o Maligno, o anjo que se opõe a Deus. O diabo (diabolôs) é aquele que “se atira no meio” do plano de Deus e de sua “obra de salvação” realizada em Cristo” (§2851).
Jesus disse que ele é “homicida desde o princípio, mentiroso e pai da mentira e não permaneceu na verdade, porque a verdade não está nele. Quando diz a mentira fala daquilo que lhe é próprio, porque é mentiroso e pai da mentira” (Jo 8,44). Ele, “Satanás, é sedutor de toda a terra habitada” (Ap 12,9).
Foi por ele que o pecado e a morte entraram no mundo. O livro da Sabedoria explica algo muito importante:
Ora, Deus criou o homem para a imortalidade, e o fez a imagem de sua própria natureza. Foi por inveja do demônio que a morte entrou no mundo, e os que pertencem ao demônio prová-la-ão. Deus não é o autor da morte, a perdição dos vivos não lhe dá alegria alguma” (Sb 1,13;2,23-24).
E é por sua derrota definitiva que a criação toda será “liberta da corrupção do pecado e da morte”.
Nós sabemos que todo aquele que nasceu de Deus não peca; o gerado por Deus se preserva e o Maligno não o pode atingir. Nós sabemos que somos de Deus e que o mundo inteiro está sob o poder do Maligno. Não façamos como Caim, que era do Maligno e matou o seu irmão. E por que o matou? Porque as suas obras eram más, e as do seu irmão, justas (1Jo 3,12;5,18-19).
Não há dúvidas sobre isso, o Demônio existe. A Igreja diz que sim; e esta realidade é atestada pela Bíblia, pela Tradição dos Apóstolos e pelo Magistério sagrado da Igreja. Os santos o confirmam. Não há um só santo que não tenha acreditado no Demônio. Seria preciso destruir a Igreja e o cristianismo, desde as suas raízes, para negar a existência do Demônio.
No entanto, inacreditavelmente, ainda encontramos pessoas na Igreja, mesmo sacerdotes e teólogos, que, em oposição ao que a Igreja ensina, têm a coragem e a desonestidade de ensinar que Satanás não existe. É uma grande e terrível heresia.
São João deixa claro: “Eis que o Filho de Deus se manifestou: para destruir as obras do demônio” (1Jo 3,8). Isso é determinante.
Eis o que ensina o Catecismo da Igreja Católica:
§328. A existência dos seres espirituais, não corporais, que a Sagrada Escritura chama habitualmente anjos, é uma verdade de fé. O testamento da Escritura a respeito é tão claro quanto a unanimidade da Tradição.
§330. Como criaturas puramente espirituais, são dotados de inteligência e de vontade; são criaturas pessoais e imortais. Superam em perfeição todas as criaturas visíveis. Disto dá testemunho o fulgor de sua glória.
§391. Por trás da opção de desobediência de nossos primeiros pais há uma voz sedutora que se opõe a Deus, e que, por inveja, os faz cair na morte. A Escritura e a Tradição da Igreja veem neste ser um anjo destronado, chamado Satanás ou Diabo. A Igreja ensina que ele tinha sido anteriormente um anjo bom, criado por Deus! Com efeito, o Diabo e outros demônios foram por Deus criados bons em (sua) natureza, mas se tornaram maus por sua própria iniciativa.
§392. A Escritura fala de um pecado desses anjos. Esta “queda” consiste na opção livre desses espíritos criados, que rejeitaram radical e irrevogavelmente a Deus e o seu Reino. Temos um reflexo desta rebelião nas palavras do Tentador ditas a nossos primeiros pais: “E vós sereis como deuses” (Gn 3,5). “O Diabo é pecador desde o princípio; pai da mentira” (1Jo 3,8; Jo 8,44).
§393. É o caráter irrevogável da sua opção, e não uma deficiência da infinita misericórdia divina, que faz com que o pecado dos anjos não possa ser perdoado. Não existe arrependimento para eles depois da queda, como não existe arrependimento para os homens após a morte.
§394. A Escritura atesta a influência nefasta daquele que Jesus chama de “o homicida desde o princípio” (Jo 8,44), e que até chegou a tentar desviar Jesus de sua missão recebida do Pai. Para isto é que o filho de Deus se manifestou, para destruir as obras do Diabo” (1Jo 3, 9). A mais grave dessas obras, devido às suas consequências, foi a sedução mentirosa que induziu o homem a desobedecer a Deus.
§395. Contudo, o poder de Satanás não é infinito. Ele não passa de uma criatura, poderosa pelo fato de ser puro espírito, mas sempre criatura; não é capaz de impedir a edificação do Reino de Deus. Embora Satanás atue no mundo por ódio contra Deus e o seu Reino em Jesus Cristo, e embora a sua ação cause graves danos – de natureza espiritual e, indiretamente, até de natureza física – para cada homem e para a sociedade, esta ação é permitida pela Divina Providência, que com vigor e doçura dirige a história do homem e do mundo. A permissão divina da atividade diabólica é um grande mistério, mas “nós sabemos que Deus coopera em tudo para o bem daqueles que o amam” (Rm 8,28).
O Magistério da Igreja ensina que eles são reais, criados bons, dotados de inteligência e vontade, capazes de agir no mundo. Este é um dado de fé. Não podem ser entendidos como personificação mitológica do bem ou do mal no mundo. Os anjos dependem de Deus Criador. Foram criados por Deus; por conseguinte, foram criados bons. Se o Diabo é mau, isto se deve ao fato de que pecou. Afastou-se livremente de Deus condenando-se a estar privado de Deus para sempre, pois os seres espirituais são imortais por sua própria natureza.
Por permissão de Deus, o Diabo atua astuciosamente, tentando levar o homem ao mal, sem poder anular a liberdade humana. O homem, ao pecar, entrega-se à influência
do Maligno.
Cristo Redentor nos resgatou do domínio do Maligno. Dom Estêvão Bettencourt (osb) ensina:
O Magistério da Igreja não se compromete com outras afirmações, como ao tipo de pecado dos anjos maus, ao número e à hierarquia dos anjos bons e maus, às modalidades de sua atuação no mundo. Se alguém deseja ultrapassar os limites dos dados fundamentais propostos pelo Magistério da Igreja, “entra, como diz Paulo VI, num mundo misterioso, marcado por um drama muito infeliz, do qual pouca coisa conhecemos (15 de novembro de 1976).
Quem se entrega a Deus não teme o Demônio. “Se Deus é por nós, quem será contra nós?” (Rm 8,31). Padre Pio disse que “o demônio é como um cão raivoso acorrentado: além dos limites da corrente ele não pode atacar ninguém. Fique, portanto, longe dele. Se você se aproxima, você se deixa agarrar! O demônio só tem uma porta para entrar na nossa alma: a vontade. Não há nenhuma porta secreta”.
A vitória sobre o “príncipe deste mundo” foi alcançada, de uma vez por todas, na Hora em que Jesus se entregou livremente à morte para nos dar sua vida. O príncipe deste mundo é “lançado fora”, “Ele põe- se a perseguir a Mulher”, mas não tem poder sobre ela: a nova Eva, “cheia de graça” por obra do Espírito Santo, é preservada do pecado e da corrupção da morte (Imaculada Conceição e Assunção da Santíssima Mãe de Deus, Maria, sempre virgem). “Enfurecido por causa da Mulher, o Dragão foi então guerrear contra o resto de seus descendentes” (Ap 12,17). Por isso o Espírito e a Igreja rezam: “Vem, Senhor Jesus” (Ap 22,17.20), porque a sua Vinda nos livrará do Maligno (§2853).
A Virgem Maria é Aquela que lhe esmaga a cabeça; por isso, temos de sempre nos consagrar a Ela. Ao pedir que nos livre do Maligno, pedimos igualmente que o Pai nos liberte de todos os males, presentes, passados e futuros, dos quais ele é autor ou instigador.
Neste último pedido, a Igreja traz toda a miséria do mundo diante do Pai. Com a libertação dos males que oprimem a humanidade, ela implora o dom precioso da paz e a graça de esperar perseverantemente o retorno de Cristo. Rezando dessa forma, ela antecipa, na humildade da fé, a recapitulação de todos e de tudo Naquele que “detém as chaves da Morte e do Hades” (Ap 1,18), “o Todo-Poderoso, Aquele que é, Aquele que era, Aquele que vem” (Ap 1,8).
“Livrai-nos de todos os males, ó Pai, e dai-nos hoje a vossa paz. Ajudados por vossa misericórdia, sejamos sempre livres do pecado e protegidos de todos os perigos, enquanto, vivendo a esperança, aguardamos a vinda do Cristo Salvador”, é o que rezamos na santa Missa.
O papa Bento XVI, em 22 de julho de 2012, disse:
Na verdade, o diabo tenta sempre arruinar a obra de Deus, semeando divisões no coração humano, entre corpo e alma, entre o homem e Deus, nas relações interpessoais, sociais, internacionais, e também
entre o homem e a criação. O maligno semeia guerra; Deus cria a paz. Com efeito, como indicou São Paulo, Cristo “é a nossa paz: de dois povos fez um só povo, em sua carne derrubando o muro da inimizade que os separava.1
Os evangelhos apresentam seis histórias de exorcismo, e mais a referência a Maria Madalena, da qual foram expulsos sete demônios. Isto mostra a importância do Rito do Exorcismo aprovado pelo Papa.
– Mc 1,23-28 // Lc 4,33-37: o endemoninhado na sinagoga de Cafarnaum; – Mc 5,1-20: o endemoninhado geraseno;
– Mc 7,24-30 // Mt 15,21-28: a filha da mulher siro-fenícia; – Mc 9,14-29: o menino possuído;
– Mt 12,24 // Lc 11,14-15: o endemoninhado mudo e cego; – Mt 9,32-33: o endemoninhado mudo;
– Lc 8,2: Maria Madalena.
Em 15 de novembro de 1972, em uma Audiência, o papa Paulo VI fez a famosa Alocução Livrai-nos do Mal, na qual falou da existência do Demônio e de sua ação perversa.
O Papa começou perguntando: “Atualmente, quais são as maiores necessidades da Igreja?” E ele mesmo responde: “Não deveis considerar a nossa resposta simplista, ou até supersticiosa e irreal: uma das maiores necessidades é a defesa daquele Mal, a que chamamos Demônio.”
Paulo VI mostra que a realidade do pecado é uma ação perversa deste Mal; “o efeito de uma intervenção, em nós e no nosso mundo, de um agente obscuro e inimigo, o Demônio. O mal já não é apenas uma deficiência, mas uma eficiência, um ser vivo, espiritual, pervertido e perversor. Trata-se de uma realidade terrível, misteriosa e medonha”.
E deixou claro que estão em desacordo com o ensinamento da Igreja quem nega a existência do Demônio:
Sai do âmbito dos ensinamentos bíblicos e eclesiásticos que se recusa a reconhecer a existência desta realidade; ou melhor, quem faz dela um princípio em si mesmo, como se não tivesse, como todas as criaturas, origem em Deus, ou a explica como uma pseudorealidade, como uma personificação conceitual e fantástica das causas desconhecidas das nossas desgraças.
Paulo VI relembra a tríplice tentação que Jesus sofreu no deserto e os muitos episódios evangélicos, nos quais o Demônio se encontra com o Senhor e aparece nos Seus ensinamentos (cf. Mt 1,43).
“E como não haveríamos de recordar que Jesus Cristo, referindo-se três vezes ao Demônio como seu adversário, o qualifica como “príncipe deste mundo” (Jo 12,31;14,30; 16,11)? E a ameaça desta nociva presença é indicada em muitas passagens
do Novo Testamento. São Paulo chama-lhe “deus deste mundo” (2Cor 4,4) e previne- nos contra as lutas ocultas, que nós cristãos devemos travar não só com o Demônio, mas com a sua tremenda pluralidade:
Revesti-vos da armadura de Deus para que possais resistir às ciladas do Demônio. Porque nós não temos de lutar (só) contra a carne e o sangue, mas contra os Principados, contra os Dominadores deste mundo tenebroso, contra os Espíritos malignos espalhados pelos ares (Ef 6,11-12).
Paulo VI afirma que “não se trata de um só Demônio, mas de muitos (cf. Lc 11,21; Mc 5,9), um dos quais é o principal: Satanás, que significa o adversário, o inimigo; e, ao lado dele, estão muitos outros, todos criaturas de Deus, mas decaídas, porque rebeldes e condenadas; constituem um mundo misterioso transformado por um drama muito infeliz, do qual conhecemos pouco (cf. DS 800)”.
O Papa diz que o Demônio é a origem de todo o pecado que entrou no mundo: O Demônio é a origem da primeira desgraça da humanidade; foi o tentador pérfido e fatal do primeiro pecado, o pecado original (cf. Gn 3; Sb 1,24). Com aquela falta de Adão, o Demônio adquiriu um certo poder sobre o homem, do qual só a redenção de Cristo nos pode libertar. Ele é o inimigo número um, o tentador por excelência. Sabemos, portanto, que este ser mesquinho, perturbador, existe realmente e que ainda atua com astúcia traiçoeira; é o inimigo oculto que semeia erros e desgraças na história humana.
Depois de nos lembrar da parábola do joio que o Demônio semeia no bom trigo de Deus (Inimicus homo hoc fecit – Mt 13,2), relembra que ele é o assassino desde o princípio, e “pai da mentira”, como o define Cristo (cf. Jo 8,44-45).
Ele é o pérfido e astuto encantador, que sabe insinuar-se em nós através dos sentidos, da fantasia, da concupiscência, da lógica utópica, ou de desordenados contatos sociais na realização de nossa obra, para introduzir neles desvios, tão nocivos quanto na aparência, conforme às nossas estruturas físicas ou psíquicas, ou às nossas profundas aspirações instintivas.
Este Papa ainda ensina que nem todo pecado é obra direta do Demônio, mas lembra- nos de que “aquele que não vigia com certo rigor moral a si mesmo (cf. Mt 12,45; Ef 6,11), se expõe ao influxo do “mysterium iniquitatis”, ao qual São Paulo se refere (2Ts 2,3-12) e que torna problemática a alternativa da nossa salvação”.