Data Título Editora Local
1928 Fragmentos de Cartas João Haupt & Cia. Curitiba
1929 Constituição industrial e teoria da
propriedade Plácido e Silva & Cia. Curitiba
1929 Frederico Virmond e sua obra J. B. Groff Curitiba
1929 Museus João Haupt & Cia. Curitiba
1930 Hipócrates e a locação das cidades J. B. Groff Curitiba
1931 Muzeus J. B. Groff Curitiba
1933 A moeda Ravaro Rio de Janeiro
1934 O Cerca da Lapa e seus heróis Ravaro Rio de Janeiro
1934 Casos e coisas da história nacional Editorial Alba Ltda. Rio de Janeiro
1936 A marcha do ateísmo Graf. Paranaense Curitiba
1937 Ensaio de interpretações morais Athena Rio de Janeiro
1937 Os fuzilamentos de 1894 no Paraná Athena Rio de Janeiro
1938 Biografia do Cel. David Carneiro e cartas
escritas por ele a seus filhos - - - Rio de Janeiro
1938 O dia da pátria Tip. A Cruzada Curitiba
1938 História de Palmeira em seus
antecedentes e tradições Mundial Curitiba
Os dados acima foram compilados de Cordova (2009) e Machado (2012), com algumas supressões e acréscimos. Incluímos, por exemplo, o título Muzeus, de 1931, que se trata de uma reedição ampliada do livro homônimo anteriormente publicado em 1929. O título O problema do mate brasileiro: contribuição para a sua solução – Sugestões apresentadas ao Instituto do Mate, de 1928, que consta no arrolamento bibliográfico feito por ambas as pesquisadoras, foi excluído da nossa listagem porque certamente se trata de obra escrita pelo pai de nosso personagem. Alguns indícios apontam nesse sentido, como o fato de a obra não estar mencionada na contracapa do livro O cerco da Lapa e seus heróis (1934a), que lista uma série de “opusculos e obras de David Carneiro”. Por outro lado, a edição de O problema do mate brasileiro que integra o acervo da biblioteca da Superintendência do Iphan no Paraná, e que fazia parte da coleção particular de David Carneiro, contém uma dedicatória manuscrita, redigida por seu pai: “Ao meu Vicota.
Paesinho. Curitiba, Abril 928” (Carneiro, 1928c). Nessa mesma época, aliás, nosso personagem ainda assinava como “David Carneiro Junior” alguns de seus títulos, caso do Discurso do orador da turma de engenheiros civis de 1927 (Carneiro Junior, 1928).
Além dessa continuada produção bibliográfica, David Carneiro também se dedicou a escrever para jornais e periódicos. Veremos ainda que, embora recém-formado, deixou de 1928 a 1930 uma série de contribuições à Illustração Paranaense. O que certamente lhe rendeu algum prestígio cultural, especialmente em termos locais, ao ter seu nome colocado lado a lado com o de gente renomada, como Romário Martins, já que a revista paranista
“contou com a colaboração de importantes intelectuais locais” (Galigniana, 2016, p. 43).
Quando foi chamado a participar da seleção de um acervo representativo do patrimônio histórico e artístico do país, anos depois, David Carneiro já garantira entrada e um certo renome junto aos circuitos da elite intelectual curitibana. Era muito próximo, já vimos, ao mais conceituado historiador paranaense e articulador do movimento paranista.
O editor responsável pela revista paranista Illustração Paranaense, o fotógrafo e cineasta João Baptista Groff, por sua vez, contribuiu na época para a edição de três de seus livros, conforme podemos checar na Lista I demonstrando as obras de autoria de David Carneiro.
Circulando pelas redes das elites sociais e intelectuais paranaenses, em 1938 David Carneiro se reconhecia, e era identificado em muitos desses circuitos, como uma figura prestigiada em assuntos que diziam respeito ao conhecimento histórico. Ao receber uma proposta para palestrar sobre o dia da pátria aos companheiros do Rotary Club, ele atribuía o convite ao seu renome como historiador: “Bem vejo que ao trato habitual com a muza da historia, á verídica Clio, devo a lembrança com que me honraram” (Carneiro, 1938b, p. 3).
Entretanto, o que ajudou muito na sua consagração como intelectual interessado nas coisas do passado, e em especial na experiência histórica paranaense, foi o fato de ter criado e gerenciado um espaço em homenagem póstuma ao pai, o Museu Coronel David Carneiro, institucionalizado em 1928, ano de falecimento do homenageado. Nesse sentido, uma pesquisadora de sua trajetória já buscou demonstrar que a “atividade de administrador de um ‘lugar de memória’ conferiu destaque à figura de David Carneiro e colaborou para solidificar a sua imagem pública de pesquisador do passado” (Machado, 2012, p. 104).
É interessante observar, quanto às conexões entre seu prestígio intelectual e a visibilidade do museu sob sua gestão, que David Carneiro explorava bastante os ganhos simbólicos e chancelas obtidos pelo museu. Constava no timbrado da sua correspondência oficial, por exemplo, que ele fora “reconhecido de utilidade publica pelo estado do Paraná e pelo governo federal”. Não é de se descartar, aliás, que a solicitação de auxílio por parte da direção do Sphan tenha tido relação com a projeção institucional proporcionada pelo reconhecimento do governo getulista, em 1933, como museu de “utilidade pública”.27
Esses mecanismos de reconhecimento institucional eram explorados de várias maneiras pelo seu diretor. Uma delas, porém, era lançando sombra ao Museu Paranaense, com o qual o espaço dirigido por David Carneiro de certa maneira rivalizava e competia.
No ano de 1929, por exemplo, o responsável pelo museu privado já denunciava os problemas do maior museu público do estado. Ele propunha, então, que “o Paraná devia ter museus particulares, amparados material [e] moralmente pelo poder temporal, que nada dá nem mesmo áquelle que é seu”, já que “o que temos é apenas um arremedo, máo grado os esforços especiais e isolados, de alguns dos seus directores” (Carneiro, 1929a, p. 34).
Ao abster de responsabilidade pela situação do Museu Paranaense “alguns dos seus diretores”, David Carneiro certamente estava fazendo uma deferência ao trabalho realizado por Romário Martins, que, como já tivemos oportunidade de registrar, exerceu uma grande
27 Decreto nº 22.736, de 22 de maio de 1933.
ascendência pessoal e intelectual sobre David Carneiro. Naquela ocasião, Romário Martins recém deixara a chefia da instituição, cargo que exercera por vários anos, de 1902 a 1928.
Essa rivalidade institucional com o Museu Paranaense, aliás, foi temperada por uma dose de ressentimento pessoal, já que o próprio David Carneiro admitiria, anos mais tarde, que um de seus projetos fora dirigir as atividades do grande museu público do estado. Na época da Revolução de 1930, embora já administrando há pelo menos dois anos as rotinas do seu museu particular, ele chegou a solicitar o cargo aos novos portadores do poder:
Eu disse: ‘General [Mário Tourinho], não posso assumir uma responsabilidade que exija de mim tempo, eis que tenho a empresa de meu pai para administrar...
Mas, se o senhor quiser me dar a direção do Museu do Estado – Museu Paranaense – eu aceitarei com muito gosto!’ O General era um homem prudentíssimo, dum equilíbrio estupendo e pediu-me, então, tempo para meditar sobre o assunto. Três dias depois, chamou-me novamente, e disse-me: ‘Vicota, não lhe vou dar a direção do Museu Paranaense. Não, porque você já tem o seu próprio museu que está crescendo nas suas mãos; e, se eu lhe der a direção do Museu Paranaense, não faltará quem diga que você está tirando peças do Museu Paranaense, para colocá-las no seu... (risos). Não faço isso! (Souto Neto, [1985]).
A fala do general Mário Tourinho, interventor do governo revolucionário no estado, toca, de certa maneira, na questão da competição institucional estabelecida entre o Museu Paranaense e o Museu Coronel David Carneiro. Se em 1930, com apenas dois anos de atividades regulares, o museu particular já se colocava à sombra do museu público – então cinquentenário –, imaginemos em 1937, com todo o aporte de possibilidades econômicas e de prestígio (pessoal, intelectual e institucional) de David Carneiro e sua coleção histórica.
As viagens de negócios e turismo do pai, rico ervateiro, proporcionaram que, ainda moço, David Carneiro começasse sua coleção de objetos de valor histórico (e monetário).
Em 1924, por exemplo, o pai escrevia da Europa noticiando ter “‘novas’ cousas ‘velhas’
para o nosso musêo” (Carneiro, 1924b, p. 138). Em outra carta da época, o pai do jovem universitário contava animado sobre outros objetos que para “as tuas collecções consegui”
no velho mundo, entusiasmo que dividia com a preocupação de não saber “onde irás por toda esta carga que vamos preparando para o teu muzeu” (Carneiro, 1924c, p. 136).
Portanto, suas grandes possibilidades financeiras, herdadas da tradição da família no rico negócio do mate, ajudaram no trabalho de constituição e manutenção do museu.
Embora em 1937 o museu ainda não tivesse atingido sua plenitude, em que chegou a contar com mais de 5.000 peças (Machado, 2012, p. 90), já se tratava de um acervo de algum porte, que tivera que ser transferido da “pequena casa” que inicialmente lhe servira de sede: “Em 1931 foi trasladada para o local que hoje ocupa, mais central e mais amplo.
Aí se enriqueceu rapidamente, de forma que em 1934 teve de ser aumentado o edifício, e em 1936 quatro novas salas foram agregadas às primitivas” (Sphan, 1937, p. 169).
Como assinalamos antes, é bastante perceptível em David Carneiro suas intenções de promover o (re)conhecimento da centralidade e protagonismo do Paraná na formação social e histórica do Brasil-nação, consagrando-o como uma parte do todo. Muitos dos títulos de seus livros escancaram essa ambição, que, aliás, não passou despercebida por outros estudiosos de sua obra e de sua carreira. Nessa sua empreitada, nesse seu verdadeiro projeto intelectual, que envolveu a edição de livros e artigos dentro e fora do Paraná e o relacionamento com instituições como o novo órgão federal de preservação do patrimônio, o Cerco da Lapa ganhou contornos de referência, sendo alçado à condição de momento privilegiado de mobilização do espírito regional em favor de um processo histórico que dizia respeito ao país inteiro, qual seja, a proclamação e a consolidação da república.
Nas cartas e documentos remetidos ao Sphan, aliás, seu interlocutor paranaense se dedicava a tentar convencer o diretor da instituição de que a Lapa não só era “legendaria e heroica” desde 1894, quando “salvou a Republica” (Relatório Sphan nº 5), mas que por conta desse seu lugar de destaque e protagonismo no passado recente do Brasil defendia a tese de que a cidade “devia tambem ser contemplada com gloria semelhante” à de Ouro Preto/MG, lugar que “foi declarado monumento Nacional” anos antes (Carta 4), em 1933.
Esse prestígio atribuído ao Cerco da Lapa tinha a ver não só com o fato de estar associado a um evento de contornos nacionais, de enfrentamento do governo central contra as tropas federalistas oriundas do sul do país. Tinha a ver também, e principalmente, com a circunstância de que o evento dizia respeito a um processo histórico que ajudou a construir uma nação que se pretendia moderna e civilizada, porque republicana. Nessa construção interpretativa, nosso personagem do positivismo tomou emprestadas as leituras de país disponíveis desde as gerações anteriores, ou seja, desde os tempos das figuras que estudava ao buscar compreender a República no Brasil, a Revolução Federalista e o Cerco da Lapa:
O debate sobre a identidade nacional no Brasil tem origens muito anteriores, mas alcançou considerável expressão durante a Primeira República, uma vez que muitos intelectuais associaram a essa forma de governo o ideário do progresso e a afirmação do processo civilizatório num país que parecia estar condenado por seu passado colonial e escravista (Lima, 1999, p. 108).
Legítimo representante do movimento paranista, suas diretrizes de atuação intelectual cotidiana estavam solidamente fundadas em concepções e “idéias impregnadas de imagens de progresso, civilização”, que fizeram “com que os paranaenses construam uma identidade regional impregnada de uma forte crença no progresso e no desenvolvimento social”, na medida em que seus principais articuladores “acreditavam que o país estaria se modernizando, e com ele Curitiba e o Paraná” (Pereira, 1998, p. 75, 66).
Um ingrediente fundamental desse “ideal modernizante dos paranistas” (Pereira, 1998, p. 89, grifado no original) era o ambiente republicano experimentado na época. Esse sistema político era tratado e imaginado como uma espécie de redenção, “que dava aos paranaenses uma fé ainda mais inquebrantável no sucesso do novo regime e, em particular, na crença em uma modernidade na selva que era o estado na época” (Pereira, 1998, p. 52).
Nesse sentido, aliás, ganham contornos bem mais nítidos o lugar da resistência republicana ao cerco da cidade da Lapa na imaginação paranista de David Carneiro, ajudando, inclusive, a explicar o destaque dado a esse episódio histórico e a seus vestígios materiais quando listou os bens passíveis de tombamento federal localizados no estado.
Seus textos encaminhados ao Sphan, aliás, apenas reiteravam a construção
“paranista” que vinha fazendo desde algum tempo, por exemplo, nas páginas da Illustração Paranaense. Uma construção em que o Cerco da Lapa não só era valorizado como fato de projeção nacional, por ser a “mais brilhante pagina da revolução federalista”, mas por ter assegurado o alinhamento do país aos rumos adotados pelas nações civilizadas, já que a
“heroica resistencia da Lapa, salvou e consolidou a Republica Brasileira” (Carneiro, 1930).
O relatório que encaminhou ao Sphan, em 1937, sobre a “Cidade da Lapa (Legendaria e heroica)”, por exemplo, tratava basicamente de transcrever esse texto de 1930, publicado nas páginas da revista por excelência do regionalismo paranista, além de alguns outros trechos de seus livros anteriores sobre o assunto (Carneiro, 1934a; 1934b).
Não foram necessários uma adaptação e um alinhamento às demandas da nova instituição nacional, que a princípio deveria agir na contramão dos regionalismos. Parece, aliás, ter ocorrido justamente o contrário, pois os contatos com o “patriotismo” de Doutor Rodrigo e a convicção de estar ajudando a viabilizar uma “nova ordem” política dirigida pelo Estado Novo potencializaram um nacionalismo do qual David Carneiro não duvidava.
Ou seja, um nacionalismo que ambicionava a construção de um país moderno e civilizado.
E se a participação em um dos pilares da formação de uma nação que se imaginava moderna e civilizada estava sendo aceita pela cada vez mais (re)conhecida centralidade do Cerco da Lapa na extinção do regime monárquico no Brasil, em 1950 o pesquisador das coisas do passado paranaense e brasileiro faria um dos seus movimentos mais ousados no sentido de garantir um lugar para o estado como parte do todo moderno e civilizado. Qual?
Atribuir ao “Incidente Cormorant”, de 1850, em que um navio inglês policiando o tráfico de escravos proibido internacionalmente trocou tiros com a “Fortaleza colonial de Paranaguá”, o papel de estopim para que o país subisse mais um dos “degráos da escadaria da evolução” (Carneiro, 1950c, p. V). Qual degrau? O fim da escravidão. Para o paranista,
o atrito diplomático então provocado com a Inglaterra significou o “antecedente concreto e principal” da Lei Eusébio de Queirós, que no mesmo 1850 proibiu a entrada de escravos no país, e que se tratava do “primeiro degráo à escadaria legislativa que nos haveria de levar ao 13 de Maio de 1888” (1950c, p. XII). Considerado esse protagonismo na construção de uma nação cada vez mais “aparentemente civilizada, com relação ao exterior, ás, potências européas, especialmente” (1950c, p. V), o paranista se queixava não só de que é o “caso do Crusador Cormorant, comentado apenas pelos historiadores locais”, mas também que até o seu trabalho ninguém “mostrou a importância extrema do pequeno combate, com relação ás estupendas conquistas abstratas que dele derivaram” (Carneiro, 1950c, p. VII, IX).
Foi uma marca da sua reflexão social o direcionamento simultâneo aos “de casa” e aos de fora, aos mundos regional e nacional. Afinado ao que parece ter sido uma tendência do paranismo positivista, nosso positivista paranista entendia esses “sentimentos” para com a coletividade como perfeitamente conciliáveis. Incoerentes eram somente quando “não se raciocina sôbre a relatividade dos sentimentos que nos ligam aos seres coletivos de que dependemos”, embora a priorização do universo regional fosse compreensível diante do fato “claro [de] que a intensidade dos sentimentos pessoais com relação aos sêres coletivos em que se vive imerso, varia na razão inversa da extensão” (Carneiro, 1950b, p. 5).
Embora não desconsiderasse, portanto, o pertencimento e a solidariedade nacionais, a dedicação ao paranismo e às coisas do seu estado vinha, sempre, em primeiríssimo lugar.