6.1 APROPRIAÇÃO PÚBLICA E USO INSTITUCIONAL DA ÁREA DOS MANANCIAIS DO UTINGA (1902 – 1976)
Essa fase que marcou o domínio rural e institucional na organização do espaço na área das microbacias dos igarapés Murutucum e Água Preta, formadores dos mananciais do Utinga, caracterizou-se, na apropriação pública e pelo uso voltado à formação e preservação dos mananciais de água que abastecem a população de Belém (açudes Bolonha e Água Preta), bem como no treinamento militar do contingente do exército e para fins de pesquisa, ensino e extensão.
Em 1902, já com 80.000 habitantes, foi dado o grande passo para o abastecimento de água para a cidade foi a desapropriação de parte das terras do referido engenho, para a Diretoria do Serviço de Águas, encarregada de ampliar a captação e bombeamento de água, através da construção de uma represa no encontro dos igarapés Utinga, Catú e Buiussuquara, formando o manancial do Utinga. A cidade que em 1919, já possuía uma população de 200.000 habitantes, não se restringia apenas às áreas altas localizadas próximo ao centro, as terras mais distantes que acompanhavam os trajetos das antigas “Estradas Reais”, onde eram encontradas as “Rocinhas”, também foram ocupadas pela população mais abastadas, configurando uma segregação sócio-espacial. Outras áreas foram planejadas, para que servissem à expansão urbana, como o caso do bairro do Marco da Légua, que era cortado pela Av. Tito Franco e pela estrada de ferro Belém – Bragança.
As principais ações do poder público paraense, voltada ao sistema de abastecimento de água à população de Belém, foram realizadas durante os Governos de Augusto Montenegro e da Intendência de Antônio Lemos, correspondendo à primeira década do século XX. Elas fizeram parte de um conjunto de medidas voltadas para o processo de modernização urbana implementado na cidade de Belém, onde a realização de obras de saneamento, como a implantação de rede de esgotos pluvial e sanitário, drenagem e canalização de igarapés, construção da represa do Utinga e a rede de abastecimento de água encanada, foram financiadas com empréstimos externos obtidos nos bancos europeus.
Mas, o pior sobreveio com a tomada de empréstimos no exterior. Foi o governador do Pará, Augusto Montenegro, quem iniciou a série de vendas de títulos no mercado externo. Pretextando a necessidade de “salvar as finanças do Estado”, comprometidas pela “crise de 1900”, Montenegro contraiu em Londres um empréstimo de 1.450.000 Libras. [...] O exemplo de Montenegro foi inicialmente seguido por seu fiel amigo e padrinho eleitoral senador Antônio Lemos, Intendente da Municipalidade de Belém. O primeiro empréstimo do Município de Belém foi contraído em 1905, no valor de 1.000.000 de Libras, mas logo no ano seguinte a intendência lançou mais 600.000 Libras. [...] (SANTOS, 1980).
Durante a década de 1920, ocorreu uma significativa redução na implementação de obras voltadas para a modernização da cidade, dentre elas as destinadas à manutenção e ampliação do sistema de abastecimento de água. Essa redução foi uma conseqüência direta do grande endividamento externo que o governo do estado e a municipalidade vinham atravessando, em virtude dos altos empréstimos contraídos, bem como da grande crise do comércio internacional da borracha e os efeitos da 1a Guerra Mundial.
Esses fatores contribuíram para o agravamento da crise social, política e econômica que desencadearam violentas manifestações no país, bem como em Belém. Isso fez com que a realização das novas obras destinadas ao sistema de abastecimento de água fossem retomadas nos anos 30 com o “Estado Novo”, durante o primeiro governo do Interventor Magalhães Barata que determinou a realização de estudos geológicos e topográficos na área das microbacias, bem como, a elaboração de um plano e a construção em 1931 do canal do Una, que desviava as águas dos igarapés Catu e Água Preta para o Buiussuquara, indo juntas até a estação de bombeamento do Utinga, onde a água bruta era levada por adutoras subterrâneas até a Estação de Tratamento em São Brás, concluídas em 1936. E durante as três primeiras décadas do século XX, várias obras de engenharia foram realizadas nessas bacias, como a construção dos açudes Bolonha e Água Preta, o canal do Yuna, a estação de captação e bombeamento de água do Utinga, e as tubulações subterrâneas até o reservatório do largo de São Brás.
Nos anos de 1940, foi criada ao longo dos limites da primeira légua patrimonial da cidade de Belém, correspondendo ao seu subúrbio, uma zona em que foram instaladas inúmeras instituições públicas civis e militares, formando um arco que vai da foz do igarapé Tucunduba no Rio Guamá, até a foz do igarapé Val-de-Cães na Baia do Guajará. Dentro deste “Cinturão Institucional”, às margens do Rio Guamá, as terras do antigo engenho Murutucum, foram desapropriadas pela União, que as doou para criação em 1939 do Instituto Agronômico do Norte (IAN), com uma área de 3.000 ha, e outra parte para o Exército, onde já existia o antigo armazém da pólvora, às margens do Rio Aurá. A área correspondente aos açudes Bolonha e Água Preta e as estações de captação e bombeamento de água bruta do Utinga, ficaram sob o controle do Serviço de Água do Estado do Pará. Na outra parte do semicírculo do Cinturão Institucional, que era cortado ao meio pela Av. Almirante Barroso e pela Estrada de Ferro Belém – Bragança, indo até as margens da Baia do Guajará foram instalados o Batalhão de Infantaria e Selva de Belém, do Exército; a Base Aérea de Belém, da Aeronáutica; a Base Naval de Belém, da Marinha; os estaleiros e diques da Empresa de Navegação da Amazônia S/A (ENASA); e a Usina Termoelétrica de Miramar.