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Quando conheci Melissa, notei que ela se aproximava muito rapidamente de todos que encontrava na instituição, falando de maneira rápida sobre diversos assuntos, situações que parecia ter vivido ou sobre pessoas do seu círculo familiar. Faltavam alguns elementos de ligação entre as palavras e não havia a preparação de um contexto para o interlocutor. Parecia como se o outro “já soubesse” sobre o assunto que ela iria falar.

Em muitos momentos era difícil entender sobre o que ela estava falando e até mesmo compreender as palavras, que emergiam em uma ordem muito diferente do habitual e sem intervalos. Seu discurso soava confuso e desorganizado. Um excesso se apresentava tanto no modo como falava, com tanta rapidez, quanto no modo de se aproximar das pessoas, parecia demandar incessantemente o olhar do outro. Mais tarde, esse excesso também apareceu no momento de escolher os brinquedos na brinquedoteca para levar para a sala de atendimento ― como se não houvesse fim, queria todos.

Com o seu modo singular de aproximar-se das pessoas ― que em um primeiro momento parecia causar um estranhamento ― foi possível notar um interesse de Melissa pelo laço com o outro e isso muitas vezes se dava pela via do humor. Ela se fazia engraçada, e muitas vezes eu me percebia rindo com ela. Observei que o riso era produzido nas outras pessoas com quem ela se enlaçava na sala de espera, no corredor ou na brinquedoteca.

Além da sala de atendimento, toda a instituição passou a ser um espaço em que circulávamos durante as sessões. Isso se dava devido ao fato de a criança apresentar-se de modo agitado, seu corpo parecia não conseguir se aquietar. Se por um lado era um “excesso” o que levava Melissa a circular pelo espaço institucional, por outro lado as suas andanças também propiciavam enlaçamentos com os profissionais e outras crianças que encontrava. A brinquedista, que trabalhava na brinquedoteca, foi alguém com quem estabeleceu uma relação de muito interesse e proximidade, sendo que era a primeira pessoa que a criança cumprimentava quando chegava.

Também se mostrou muito interessada por um jovem surdo que tinha atendimento de fonoaudiologia no mesmo horário que o seu. Encontravam-se quando ele estava com a fonoaudióloga na brinquedoteca. Melissa falava com ele como falava com as outras pessoas, e a fonoaudióloga lhe dizia que ele se comunicava por meio de Libras. Eu também não sabia a Língua Brasileira de Sinais (Libras), então foi preciso que aprendêssemos alguns sinais para nos comunicar com o jovem.

Tanto Melissa quanto o jovem pediram para ser atendidos juntos, pois queriam jogar alguns jogos e demonstravam interesses em comum. Aqui evidencia-se uma particularidade do acompanhamento realizado no âmbito institucional que comporta uma equipe interdisciplinar.

Além do encontro entre Melissa e o jovem, existia a possibilidade de interlocução com a fonoaudióloga que o atendia. Por meio de discussão de caso com ela, foi possível abrir questões sobre uma possível aposta em relação ao enlace entre os dois sujeitos. Por meio do desejo de saber mais sobre o que poderia se construir a partir dos seus pedidos, decidiu-se realizar os atendimentos em conjunto.

Pensei que esse enlace com um outro semelhante, que não ocupava uma posição de terapeuta ou analista, poderia favorecer uma intervenção por meio de um laço diferente do Discurso do Mestre, visto que ambos estavam posicionados enquanto jovens que eram atendidos na instituição. Além disso, a transferência com outros profissionais parecia uma direção importante pois evidenciava a possibilidade de Melissa construir laços e, por meio deles, dizer-se. Nesses encontros, os impasses na comunicação se colocaram, bem como a posição de não saber, de Outro barrado, na medida em que a palavra circulava entre o português e Libras e entre pessoas que não tinham fluência em ambas as línguas.

Em discussões com a fonoaudióloga construímos algumas leituras sobre os efeitos desses atendimentos para Melissa. Consideramos ser possível à criança regular algo em relação ao seu excesso, seu gozo, com o qual se aproximava das pessoas, sem dialetização. Isso se apresentava, por exemplo, a partir da ausência de uma questão em relação ao que poderia produzir no outro quando aproximava-se muito rapidamente e falava sobre muitos temas sem a apresentação de um contexto. Ao falar com o adolescente, Melissa não tinha uma resposta da parte dele, devido ao fato de ele não a escutar. Com isso, era preciso um reposicionamento da sua parte para encontrar modos viáveis de troca com ele, o que era possível com a intervenção das profissionais. Os encontros seguiram nessa configuração por um período, até que as sessões individuais foram retomadas.

Um dado importante a ser considerado refere-se à resposta de Melissa ao momento de encerrar as sessões. Quando isso acontecia, devido ao limite de tempo da sessão, a criança se desorganizava, mostrando-se muito agitada e nervosa. Gritava e a sua fala ficava mais difícil de ser apreendida. No decorrer das sessões, percebi que era possível à criança se acalmar-se à medida em que o tempo das sessões era apresentado para ela no relógio, aos poucos, ao longo dos 50 minutos disponíveis, o que parecia ter um efeito apaziguador.

Em um determinado momento, após um tempo de trabalho, algo de grande relevância para o seu processo analítico se deu. Melissa contou que na escola outras crianças falavam para ela sobre a “loira do banheiro”14 e, com isso, demonstrou-se muito angustiada. Esse passou a ser um tema recorrente, que trazia uma certa desorganização e Melissa demonstrava sentir-se ameaçada. Tal desorganização se evidenciava na medida em que realidade e fantasia misturavam-se e sua fala soava confusa. A loira do banheiro parecia encarnar um Outro total, amedrontador. Ao mesmo tempo, tratava-se de um significante que dizia algo sobre Melissa enquanto sujeito e apontava para uma possibilidade de leitura sobre a sua estrutura.

Nesse sentido, após algum tempo de trabalho com a criança, realizei a hipótese de uma estrutura psicótica, mais especificamente uma paranoia. Lembremos que o diagnóstico em psicanálise, como foi discutido no subcapítulo 2.2, está intimamente relacionado ao seu posicionamento ético e tem a função, apenas, de orientar a direção de tratamento pautada na emergência do sujeito de desejo. Além disso, o diagnóstico estrutural tem como fundamentação a dimensão clínica e, portanto, a escuta do sujeito em sua singularidade.

Em termos de fenômenos elementares, pude pensar na hipótese da loira do banheiro como uma construção delirante, na medida em que representava uma ameaça que não era possível, até o momento, questionar. A fala das outras crianças da sua escola sobre a loira do banheiro parecia não passar por um desvio pelo Outro, posicionado no lugar simbólico, de interlocutor. Nesse sentido, não havia um juízo crítico sobre a fala do outro e seus próprios pensamentos. A loira do banheiro aparecia como uma figura terrorífica e absoluta.

Como visto no subcapítulo 2.3, nessa estrutura o Outro da lei simbólica fica excluído, posto que o significante Nome-do-Pai está foracluído. Isso não significa que o simbólico não esteja presente, porém, ao não haver reconhecimento do Outro enquanto simbólico, o sujeito lida com os outros imaginários e o Outro irrompe no seu semelhante, como especular. Temos um Outro consistente ao qual o sujeito está submetido como objeto de gozo.

Segundo Abramovitch (2002), a teoria lacaniana sobre a psicose enquanto estrutura permite pensar a paranoia na infância:

É com Lacan e o desvelamento precoce da estrutura psicótica, todavia, que se torna possível trabalhar a possibilidade de uma criança ser paranoica. O paranoico, mesmo de pouca idade, é aquele que passou por uma primeira simbolização, o desejo materno

14 A história da loira do banheiro é uma lenda urbana difundida no Brasil e que há muitos anos circula pelas escolas do País, sendo contada por crianças e adolescentes. Refere-se ao pretenso espírito de uma jovem loira de vestes brancas que surge no banheiro através de uma determinada “invocação”.

(DM), sem que a metáfora paterna lhe tenha advindo. Em razão da ausência desse significante, o sujeito não simboliza a falta materna e, assim, sua passagem pelo

“estádio do espelho”, apesar de operar a constituição de um sujeito alienado no Outro, revela problemas no que diz respeito à separação. O paranoico permanece fixado em sua imagem especular: ele e o Outro, o Outro e ele. (ABRAMOVITCH, 2002, p.178).

Assim, na paranoia o gozo está posicionado no Outro que, desse modo, é tido como terrorífico. A ideia delirante aparece como uma construção do sujeito que visa circunscrever o gozo impossível de suportar.

Podemos relacionar o significante da loira do banheiro com o significante “lobo” de Robert, caso conhecido de paranoia na infância apresentado por Rosine Lefort e comentado por Lacan (1953-54/1983). Ambos, loira do banheiro e lobo evidenciam esse Outro perseguidor.

Tais construções delirantes ― surgidas em transferência ― foi o que possibilitou o diagnóstico estrutural de paranoia em ambos os casos.

Esse significante, que poderia representar um furo no Outro, surge como um furo no real e designa um Outro como perseguidor, permitindo o diagnóstico de paranoia. O lobo passa então a designar para Robert o devoramento, a ferocidade do Outro sem barra. (ROCHA et al., 2002, p.129).

Nos primeiros encontros, quando eu dizia a Melissa que a sessão precisaria ser encerrada, isso lhe produzia uma desorganização, pois talvez nesse momento eu fosse posicionada como Outro absoluto que dita regras e ao qual o sujeito precisaria se submeter.

Quando me reposicionei, colocando a lei no relógio ― dessa forma ambas estávamos submetidas a ele ―, isso teve o efeito de apaziguamento para a criança, que não ficou mais no lugar do objeto de gozo do Outro.

Além disso, no que se refere ao posicionamento da criança frente à linguagem, era possível notar uma fala predominantemente metonímica, que deslizava de um significante a outro de maneira rápida, com poucos pontos de amarração entre eles. Isso ficava evidente no excesso que se apresentava em sua fala, sendo que passava de um assunto para o seguinte sem uma contextualização que considerasse o outro como interlocutor. É possível realizar tal afirmação a partir de uma escuta clínica, atenta a tais elementos, que não necessariamente se evidenciam nos significantes em si, mas no modo como estes se articulam. Sobre isso, Faria (2014) afirma:

Uma outra evidência clínica bastante comum da foraclusão são os distúrbios graves de linguagem presentes ― principalmente em crianças ― que, muitas vezes, revelam

a dificuldade da mobilidade no interior da ordem simbólica, com a qual o sujeito psicótico parece ter dificuldade de operar (como consequência da ausência da significação fálica, produto da metáfora paterna). Assim, observa-se, frequentemente, nos casos de psicose infantil, demoras na aquisição da fala, e mesmo usos bastante incomuns da linguagem [...]. (FARIA, 2014, p.122-123).

Lacan (1972/2003) toma a psicose como “fora-do-discurso”, o que revela seu posicionamento diante da linguagem. Nessa estrutura, não existe um matema que escreva o sujeito correlacionado ao gozo, o que não significa que ele esteja fora da linguagem. (QUINET, 2021b).

O fora-do-discurso da psicose aponta para uma impossibilidade lógica, estrutural, portanto, real, de fazer o psicótico entrar completamente na dança dos discursos, ou seja, de circular pelos laços sociais, participar alternadamente de um ou de outro, dialetizar suas relações, cortar com uns e reatar com outros os laços sociais e com isso dar conta da metabolização do gozo. (QUINET, 2006, p.52).

Isso pode ser afirmado, pois, no laço social formado no Discurso do Mestre ― e que corresponde à estrutura do inconsciente ― encontramos como célula base a própria definição do sujeito enquanto um significante para outro significante, sendo que o sujeito barrado se encontra justamente no intervalo entre S1 e S2. Para a formulação do Discurso do Mestre acrescenta-se o objeto a, mais de gozar, posicionado como produção, como mostra a figura abaixo. “Esta é uma armadura significante mínima do sujeito: o sujeito dentro da linguagem, habitando a linguagem, como o neurótico está dentro do discurso definido como laço social.”

(QUINET, 2021b, p.136).

Figura 16 ― Relação entre Estrutura do Inconsciente e Discurso do Mestre

Fonte: Elaboração própria.

Como vimos, o significante Nome-do-Pai possibilita a entrada do sujeito no discurso e, desse modo, a sua não inscrição tem como efeito um modo particular de se posicionar diante dele, dado que há uma separação radical entre significante e significado. (QUINET, 2021b).

Desse modo, o psicótico é fora e mestre dos discursos, na medida em que é o seu avesso. O psicótico subverte a ordem fálica e evidencia a impossibilidade presente nos laços, denunciando o semblante social. “Nesse sentido ele é livre: livre dos discursos estabelecidos e seus avessos. Isso significa que há uma impossibilidade real relativa a seu gozo, real a ponto de fazê-lo entrar na circulação dos laços sociais.” (QUINET, 2006, p.52). Assim, seu modo de circular entre os laços se dá por meio de excursões, fazendo circuito entre eles, sem os adentrar.

(QUINET, 2006).

Para refletir sobre como a cadeia significante se organiza na psicose, Lacan (1964/2008) apresenta a holófrase como um fenômeno de linguagem presente nessa estrutura. Nela, há uma solidificação entre S1 e S2, posto que não há intervalo entre ambos. Com isso, a cadeia significante é apreendida em massa, como um bloco, por não haver a queda do objeto a.

Chegaria até a formular que, quando não há intervalo entre S1 e S2, quando a primeira dupla de significantes se solidifica, se holofraseia, temos o modelo de toda uma série de casos [...]. É certamente algo da mesma ordem do que se trata na psicose. Essa solidez, esse apanhar a cadeia significante primitiva em massa, é o que proíbe a abertura dialética que se manifesta no fenômeno da crença. (LACAN, 1964/2008, p.231).

Na psicose, então, o princípio mínimo da estrutura significante da linguagem não existe, na medida em que a holófrase impede que o sujeito dividido advenha por meio do significante.

A holófrase “[...] mostra a causa ― solidificação, ausência de intervalo ― e ao mesmo tempo anuncia o efeito, o caráter não dialetizável do significante [...]” (CAMPANÁRIO; PINTO, 2006, p.52). Com isso, temos um discurso predominantemente metonímico, uma vez que a solidificação entre S1 e S2 impede a substituição por outros significantes e a metáfora diz respeito justamente à substituição de um significante por outro.

No caso da psicose, há S1 e S2, há sujeito, mas não há recalque originário e, por conseguinte, S1 e S2 permanecem solidificados, constituindo a holófrase. Daí não haver queda do objeto a como produto da operação do recalque. (QUINET, 2021b, p.136).

No caso de Melissa, a falta de intervalos e a dificuldade de mobilidade entre os significantes revelava-se também nos seus gestos, por meio da relação com o próprio corpo,

que estava sempre em movimento, o que poderia ser nomeado como uma “agitação”.

Lembremos que para Lacan (1957-58/1999) os gestos também são significantes:

Não basta dizer que para além da linguagem articulada, do discurso, todos os atos do sujeito teriam a espécie de equivalência com a linguagem que há no que chamamos de gesto, porque um gesto (un geste) não é simplesmente um movimento bem definido, mas sim um significante. (LACAN, 1957-58/1999, p.487).

Há por parte do sujeito psicótico uma submissão a um gozo sem barreiras, o que o posiciona como objeto de gozo do Outro. Isso se dá por não haver nessa estrutura a operação edípica em que a simbolização da mãe pela metáfora paterna inclua a falta, a castração do Outro.

Essa operação, mais especificamente na neurose, tem como efeito a extração do objeto a que condensa o gozo fora do corpo. Nessa direção, o falo enquanto significante do gozo faz uma barreira, modera esse gozo.

Na paranoia, mais especificamente, como foi dito, o sujeito se identifica com o gozo no lugar do Outro, tratando-se de um Outro que não é barrado pelo significante da castração. Além disso, há uma atribuição subjetiva a esse Outro que jamais falta.

O enunciado resultante da transformação significante é o postulado fundamental do delírio, conferindo sentido à existência do indivíduo como sujeito, na medida em que lhe dá alojamento significante. A paranoia, por ser um delírio, é uma tentativa de cura da falha aberta na relação do sujeito com a realidade, permitindo ao sujeito a recomposição de sua realidade e uma atenuação do gozo que o invade, pois se encontra localizado no Outro. (QUINET, 2021b, p.139).

Nesse sentido, a construção delirante tem uma via dupla, pois ao mesmo tempo em que evidencia a relação do sujeito com um Outro absoluto, indica uma tentativa de cura, dado que procura circunscrever esse gozo aterrorizante.

A fim de realizar um diagnóstico diferencial, pode-se afirmar que a paranoia se distingue da esquizofrenia ― ambos tipos clínicos da psicose ―, pois nesta última existe algo logicamente mais regressivo. Enquanto na paranoia há o significante do Desejo Materno (DM), apesar de não articulado pelo significante Nome-do-Pai, na esquizofrenia não se inscrevem os significantes Desejo Materno e Nome-do-Pai. (SOLER, 2002).

Assim, apesar de em ambas não haver uma barreira ao gozo do Outro, na esquizofrenia o sujeito tende a se desestruturar por meio de experiências de despedaçamento, na medida em que, em um primeiro momento, não possui uma fixação na imagem especular, nem a construção delirante paranoica, que de alguma forma estabiliza o sujeito. Além disso, nesse caso, o Outro

não é subjetivado. Geralmente o que temos nesses casos como fenômenos elementares são vivências de corpos despedaçados enquanto um avatar do estádio do espelho. (QUINET, 2021b).

No paranoico o gozo está incluído no Outro como alteridade, sua posição é a de ser o objeto desse Outro que ele próprio designa. No esquizofrênico há um despedaçamento dessa estrutura do Outro subjetivado, que não está, portanto, presente, e o gozo faz retorno sobre o próprio corpo do sujeito. Nesse sentido, podemos dizer que a paranoia está do lado do estádio do espelho e a esquizofrenia do lado do corpo despedaçado.

(QUINET, 2021b, p.145).

Ao fazer tal leitura diagnóstica sobre Melissa, foi possível resgatar o que Freud oferece como direção: o escutar o delírio como uma tentativa de cura do sujeito. Nesse sentido, o que mais Melissa tinha a dizer sobre o loira do banheiro e como essa construção poderia ganhar um caráter menos ameaçador para ela?

Chamava-me a atenção que o tema, apesar de amedrontador, enlaçava Melissa a mim e aos demais, por tratar-se de uma história conhecida. Quem não teve medo ou provocou medo com a história da loira do banheiro na infância? Essa história está presente no imaginário cultural brasileiro, e por isso tinha o efeito de produzir laços, mesmo que ainda frouxos.

A intervenção nesse momento ia na direção de secretariar a criança em relação ao seu delírio. Tal indicação é apresentada por Lacan (1955-56/1988) e, por meio dela, o analista escuta e sustenta os significantes que o sujeito apresenta em transferência, não impondo compreensões sobre as mesmas. Trata-se de testemunhar a relação do sujeito com o Outro.

Metodologicamente, estamos, portanto, no direito de aceitar o testemunho do alienado em sua posição em relação à linguagem, e devemos tê-lo em conta na análise de conjunto das relações do sujeito com a linguagem. É o interesse maior e permanente do legado que Schreber nos fez de suas memórias, coisa efetivamente memorável digna de ser meditada. (LACAN, 1955-56/1988, p. 244).

Durante as sessões, quando Melissa perguntava sobre a loira do banheiro, eu genuinamente demonstrava que não sabia tudo sobre o tema. A partir disso surgiu a possibilidade de buscar em um outro lugar o saber sobre o assunto. Por que não o Google? ―

“A loira do banheiro existe?”. Foram encontradas diversas histórias e vídeos sobre o assunto, sendo que sempre havia algo de novo, de diferente em cada versão. A partir de então, durante as sessões, a mesma pergunta se repetia. E a criança seguia com a sua investigação sobre essa

história de terror que a amedrontava. Assim, na Internet, lugar de múltiplas falas e vozes, Melissa pôde encontrar inúmeras versões e, a partir delas, construir a sua.

Quinet (2021b) retoma a manobra da transferência realizada pelo analista como uma estratégia presente na direção clínica da psicose. Trata-se de dirigir a transferência, por meio de um ato, com o objetivo de barrar o gozo do Outro que invade o sujeito. Lembremos que não há uma distância muito grande, por parte do analista, entre a posição de testemunha e a de perseguidor, de Outro absoluto. Se, por um lado, é uma consequência lógica que o analista ocupe inicialmente o lugar de Outro absoluto para o psicótico ― o que evidencia a transferência

―, o desafio é não permanecer nessa posição e ainda assim sustentar o laço analítico. A direção de tratamento diz respeito ao manejo em que o analista passa do lugar do Outro não barrado ao de um Outro barrado. “Isso significa promover o esvaziamento do Outro, provocar a falta no Outro, criando condições para fazer advir o significante e barrar o gozo proibido àquele que fala.” (QUINET, 2021b, p.160).

A loira do banheiro, significante trazido pela criança, possibilitou algum furo no Outro por meio de duas vias. Primeiramente, a loira do banheiro evidenciou um furo em mim, ao me posicionar como um sujeito barrado ― que não sabia detalhes sobre a história ― e não como mestre ou detentora do saber. Com isso, foi possível deslocar a construção de um saber para o lado de Melissa. Além disso, a loira do banheiro enquanto Outro perseguidor aos poucos também pareceu ganhar um outro estatuto, conforme passou a representar uma figura menos ameaçadora. Isso pôde acontecer pois nas pesquisas realizadas na Internet descobrimos que para que a loira aparecesse nesse local circunscrito que era o banheiro eram necessários alguns gestos: falar “loira do banheiro” três vezes em frente ao espelho, bater três vezes a porta, puxar três vezes a descarga. A cada versão essas regras sofriam algumas mudanças, mas a loira do banheiro não mais poderia aparecer repentinamente, visto que estava submetida a algumas regras a serem realizadas por quem a quisesse convidar. Algo parece se regular sobre esse Outro.

Paralelamente às pesquisas sobre a loira do banheiro, as idas à brinquedoteca continuavam. A direção de trabalho implicava em regular o seu transbordamento, que aparecia na quantidade de brinquedos que a criança gostaria de pegar. O limite era imposto quando não ficava inviável carregar todos os objetos até a sala. Usávamos um carrinho de bonecas para ajudar, mas ainda assim as coisas caíam pelo caminho. Além disso, ficávamos muito tempo na brinquedoteca pegando os brinquedos e o tempo que restava não parecia suficiente para o que Melissa desejava fazer.