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4.1 Bárbara: excluída e esquecida, contudo uma flor furou o asfalto

4.1.3 Louca e perigosa: o isolamento no cárcere

Bárbara era considerada louca, diagnosticada anteriormente ao ingresso na penitenciária como esquizofrênica, e dependente química, etiquetas que marcaram violentamente sua história. Excluída em um “cubículo” de isolamento dentro da unidade prisional pela imposição de uma medida disciplinar, já que seu comportamento foi considerado “errático” pela Administração Penitenciária, silenciaram-na e esqueceram de sua condição especial de grávida. Como consequência, deu à luz sozinha, desprezada e perdida, já que considerada uma vida

399 Ibidem, p. 42 400 Ibidem, 43. 401 Ibidem, p. 42-43 402 Ibidem, p. 43.

indigna. Todavia, se os lírios não nascem da lei (ou será que podem nascer?), uma flor nasceu da rua e “furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio”403. No meio desse ambiente medieval, nasceu Crisma Oliveira de Sousa, filha de Bárbara, sobrevivente de sua primeira batalha.

Durante a visita do MEPCT/RJ à unidade prisional, os membros da comissão se depararam com denúncias sobre uma presa gestante que estava em uma solitária, ao arrepio da regra 22 das Regras de Bangkok404. Narraram que a subdiretora do estabelecimento e a equipe de segurança tentaram impedir a entrada na galeria onde se localizavam as solitárias. Lá, encontraram Bárbara em condições precárias, fisicamente suja, sem cuidados especiais e aparentando ser portadora de sofrimento psíquico, sem saber ao certo se realmente estava grávida405.

Interessante notar que, no relatório, a equipe do MEPCT/RJ frisou que Bárbara “não [conseguia] manter uma conexão cognitiva durante a conversa”406 ao tentar explicar/negar seu estado de gravidez. Essa observação acentua o fato de que, dentre as pessoas criminalizadas, as consideradas loucas têm maiores dificuldades para reivindicar suas demandas, ficando sem voz nesse espaço opressor, seja pela má vontade do interlocutor – o que não creio que fosse o caso com os membros do mecanismo de combate à tortura –, seja pela dificuldade de o interlocutor entender uma racionalidade diferente da sua407. Suas falas são desconsideradas por faltarem sentido e organização, ou melhor, por faltarem sentido para o interlocutor, o que não dá no mesmo.

As etiquetas e os rótulos que foram jogados em seu corpo como cabides, serviram apenas para potencializar as vulnerabilidades

de [ser considerada habitante] de um universo paralelo, o da loucura. Isso faz com que as possibilidades de resistência se tornem ainda mais nefastas, seja porque é efetivamente mais difícil para essas pessoas [loucas e infratoras] organizar o raciocínio a fim de protestar contra as condições em que se encontram, seja porque, embora consigam reivindicar qualquer coisa, isso será tomado como algo sem valor, invisível, produto da loucura. 408

403 Carlos Drummond de Andrade, no poema “A flor e a náusea” e “Nosso tempo”.

404 Regras de Bangkok, Regra 22 Não se aplicarão sanções de isolamento ou segregação disciplinar a mulheres

gestantes, nem a mulheres com filhos/as ou em período de amamentação.

405 Ainda, relatam que Bárbara “tentou esconder a gravidez e [...] verbalizou não estar grávida” (Ibidem, p. 44). 406 Idem.

407 WEIGERT, op. cit., 2015, p. 119 408 Ibidem, 120

De acordo com a direção, tiveram que segregá-la pois causou alguns “problemas disciplinares”, não podendo estar no convívio das demais gestantes. Informaram que o seu isolamento ocorreu pelas crises de abstinência, que não tinham informações quanto a seus familiares e que haviam a encaminhado ao Hospital Penal Psiquiátrico Roberto de Medeiros por duas vezes, mas que a equipe técnica – o médico psiquiatra – não havia encontrado indícios de “transtorno mental” nela. Após a visita, em 29 de setembro de 2015, os membros do MEPCT/RJ pediram para que ela fosse retirada da cela de isolamento e que fosse novamente encaminhado ao HCTP, a fim de realizarem uma nova avaliação409.

Contudo, como se sabe, ela foi colocada novamente em isolamento e, em outubro, fez o parto sozinha, mesmo após reivindicações da equipe de combate a maus tratos e a torturas. As presas que estavam próximas informaram que tiveram que chamar os agentes de segurança durante horas, até que Bárbara fosse encaminhada ao Hospital Albert Schweitzer, com Crisma nos braços ligada pelo cordão umbilical ao útero da mãe410. Dessa forma, se constata que Bárbara não recebeu atendimento qualificado e especializado em saúde mental, que dificilmente se daria dentro de uma prisão ou de um manicômio judiciário, nem em ginecologia obstétrica, características denunciadas no capítulo anterior quando realizado o retrato do sistema penitenciário feminino no Brasil.

Difícil aceitar, por um viés humanista, quais foram as causas para um tratamento tão degradante como o concedido à Bárbara, considerada infratora, louca e dependente química. Mais do que tudo, estamos narrando a história de uma pessoa de carne e osso, real, que caiu na malha do sistema de justiça criminal que retroalimentou todos os padrões de vulnerabilidade existentes em nossa sociedade: selecionada por suas características, foi etiquetada ao entrar na prisão e, ainda por cima, rotulada ao ser colocada em uma solitária. Ou seja, Bárbara não foi estigmatizada apenas por ser louca ou por ser infratora, mas por reunir em uma mesma pessoa ambas as estigmatizações: “sem racionalidade, [possui] um ‘defeito ainda mais grave’: praticou um delito”411.

Logo, os rótulos de criminosa e de louca marcaram-na, excluíram-na, para silenciarem- na em um ambiente que tende a prestigiar os homens em detrimento das mulheres, em um

409 RIO DE JANEIRO, op. cit., 2015, p. 45. 410 Idem.

ambiente masculinamente dominante que reproduz os preconceitos – machismo, racismo, homofobia, etc. – da sociedade que se encontra fora dos muros das prisões e dos manicômios judiciários. E as mulheres em conflito com a norma penal portadoras de sofrimento psíquico são as “invisíveis dentre as invisíveis” no sistema penitenciário, visto que “encontram especiais dificuldades para exercer, com plenitude, perante o sistema de justiça os direitos reconhecidos pelo ordenamento jurídico e estão no epicentro de convergência de fatores diversos de vulnerabilidade”412.

Como se depreende, realmente,

a união entre direito e psiquiatria [...] [gera] violências legitimadas por um status de periculosidade que produz uma racionalidade que acredita, por exemplo, que loucas não têm condições de exercer a maternidade, manicômios [e prisões] não são lugares de produção de vida e a violação dessas máximas trará sempre desestabilização, ruptura, exatamente como a flor que, sem que ninguém esperasse, acaba por nascer no asfalto.413

Se a mulher criminosa é um ser monstruoso e patologizado, o desvio do padrão de normalidade imposto por discursos científicos racionais percebê-la-ia como uma não mãe, como alguém com predisposições para ser uma péssima mãe, como já exposto no capítulo anterior. Retiraram-lhe o direito de ser mãe de Crisma, de ter vontades ou de sentir, negaram-lhe autonomia; pois, como “louca”, a doença mental a aliena e domina seu corpo, não sendo mais ela senhora de suas ações, que são determinadas pelo transtorno.

Assim, os saberes da psiquiatria e jurídicos produzem um terceiro discurso ainda mais violento e cruel, que não se limita às fronteiras impostas por cada área do saber separadamente, mas que é capaz de produzir (legitimamente) mais dor e sofrimento quando essa racionalidade é voltada para os “anormais” – no caso, para as loucas infratoras. Conclui-se que, “no campo da loucura misturada ao crime exsurge um terceiro discurso, que acaba originando essa lógica voltada ao anormal, este sujeito que não é nem doente, nem criminoso, mas louco-infrator- perigoso”414.

412 MAGNO, Patrícia Fonseca Carlos. Loucura, crime e gênero no encarceramento feminino: o papel das

defensorias públicas. Seminário Internacional Fazendo Gênero 11 e 13th Women’s Work Congress (Anais eletrônicos). Transformações, conexões, deslocamentos. Florianópolis, 2017, p. 8.

413 WEIGERT, op. cit., 2015, p. 113 414 Ibidem, p. 119.

Bárbara é uma história emblemática que ilustra a confusão entre ambos os discursos: na condição de presa provisória, estava custodiada em uma unidade prisional “comum”, onde não tinha formalmente uma especificidade sua reconhecida – o sofrimento psíquico –; contudo, mesmo que estivesse em um HCTP, a necessidade de assistência médica não seria atendida. Em outras palavras, encontrava-se Bárbara no entre-lugar do sistema penitenciário, nem tão sã, nem tão louca, mas sempre criminosa. Etiquetas que serviram apenas para estigmatizá-la e para demonstrar que é o “resto”, a Outra em um espaço que não foi pensado para a mulher, nem para a louca. Bárbara é o símbolo das violências e das dores em um ambiente de aniquilamento do sujeito415.

No Brasil, o crime apaga a loucura, motivo pelo qual não lhe é oferecida uma alternativa de tratamento terapêutico pensado a partir da Lei da Reforma Psiquiátrica. Isto é, não lhe foi oportunizada uma resposta penal, além da tradicional exclusão e segregação atrás dos muros das prisões (ou dos manicômios)416. E, do encontro do crime com o gênero, a loucura, a raça- etnia, a classe social, dentre outros, os fatores de vulnerabilidade e a exclusão social são aprofundados, reafirmando os estereótipos de gênero, a opressão da mulher e silenciando-a.

4.2 Caminhos para um sistema penal alternativo (ou para uma alternativa ao sistema