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3.2 Retrato do encarceramento feminino, acentuação da desigualdade de gênero e

3.2.2 Mulheres no tráfico: aumento do encarceramento feminino

Em relação à natureza do crime pelos quais foram ou estavam sendo julgadas, feito o recorte específico de gênero, constatou-se padrões de criminalidade distintos no encarceramento feminino se comparados aos do masculino. De acordo com os dados coletados em junho de 2016 no INFOPEN Atualização, 62,08% das mulheres privadas de liberdade respondiam por crimes relacionados ao tráfico de drogas, associação para o tráfico ou tráfico internacional de drogas, enquanto apenas 26% dos homens respondiam por esses mesmos tipos

247 Apenas para exemplificar, muitos foram os estudos que apontaram para a seletividade racial no SJC, pois aos

negros eram aplicadas penas mais severas do que aos brancos, como analisado por Sam Adamo em 1983, por Boris Fausto em 1984, por Edmundo Campos Coelho em 1987 e por Carlos Antônio Costa Ribeiro em 1995. Ainda, Sérgio Adorno e Roberto Kant de Lima apontaram que a transição democrática no Brasil não teve reflexos na desigualdade racial, principalmente no sistema penal. Pesquisas mais contemporâneas relatam o mesmo problema: o da seletividade em uma sociedade racista, cega ante o mito da democracia racial. Concluiu-se que os negros são sobrerrepresentados nas unidades prisionais e os brancos, sub-representados, bem como os jovens negros estão mais sujeitos a mortes violentas (Idem).

248 BUGLIONE, Samantha. O dividir da execução penal: olhando mulheres, olhando diferenças. In.:

CARVALHO, Salo de (Org.). Crítica à execução penal: doutrina, jurisprudência e projetos legislativos. Rio de Janeiro: Lumen Júris, 2002, p.148-149.

penais249. Isto é, em um universo de 33.861 presas cuja informação foi repassada pelas autoridades gestoras das unidades prisionais250, 21.022 respondiam por crimes previstos nas Leis de Drogas, na Lei nº 6.368/76 e na Lei nº 11.343/06. Por outro lado, os crimes contra o patrimônio, que abrigam mais de 12 tipos penais, seriam os de maior incidência no público masculino, correspondendo a 46,15% ao passo que no mundo feminino corresponderia a 23,72%.

Gráfico 5. Distribuição por gênero dos crimes tentados/consumados entre os registros das pessoas privadas de liberdade, por tipo penal

Fonte: Levantamento Nacional de Informações Penitenciárias – Infopen, Junho/2016.

Importante notar que os dados dos últimos anos demonstram uma intensificação no encarceramento feminino correlato principalmente aos crimes de tráfico. Não cabe nesse estudo analisar as causas desse fenômeno, mas muitas pesquisas apontam que, a partir da década de 1990 com a adoção de políticas neoliberais, o processo de feminização da pobreza acirrou as desigualdades econômicas entre os gêneros e internacional e regionalmente251.

Não há dúvidas que a estrutura econômica na qual essas mulheres estão inseridas deve ser analisada, mas não apenas essa questão é relevante a fim de se evitar a visão estereotipada de mulheres como incapazes de promover seu bem-estar ou como estagnadas em uma situação imutável. Como propugnado por Luciana Chernicharo252, devem ser levados em conta outros

249 BRASIL, op.cit., 2017, p.40-43

250 Como mencionado, há dificuldades na coleta de dados. Nem todas as unidades prisionais dispunham de

informação sobre o tipo penal, motivo pelo qual os dados ficam incompletos.

251 Para Rosa Del Omo, o aumento da participação de mulheres na estrutura do tráfico, seja em sua

comercialização, seja em seu transporte, decorre das mudanças nas relações de trabalho e nas estruturas familiares, que tornaram as mulheres as chefes de família sem, todavia, oportunizar as mesmas condições de emprego comparadas ao do homem (DEL OMO, Rosa. Reclusion de mujeres por delitos de drogas reflexiones iniciales. Reunión del Grupo de Consulta sobre el Impacto del Abuso de Drogas en la Mujer y la Familia. Organización de los Estados Americanos O.E.A. Fundación José Félix Ribas, 1996, p. 15).

fatores como a diversidade das experiências vividas por essas mulheres, associando-as às condições de gênero e ao papel socialmente imposto ao feminino como mãe e como guardiã do lar.

A dificuldade de inserção no mercado de trabalho formal e a percepção de que é possível o exercício dos papeis produtivos e reprodutivos inserindo-se no tráfico devem estar associadas à vulnerabilidade das mulheres pobres, chefes do lar que buscam independência financeira e uma forma alternativa de empoderamento e de ocupação dos espaços públicos, facilitando a seletividade penal em razão da criminalização da pobreza e da condição de gênero. Igualmente, deve ser adicionada à problemática a (in)adequação das mulheres ao estereótipo de “criminosas”, ante sua passividade e sua docilidade, justificando a função periférica que a maioria das mulheres ocupa na estrutura hierárquica do tráfico, motivo pelo qual o espaço de barganha junto às autoridades policiais encontra-se reduzido e explica o crescimento do encarceramento das mulheres em razão do cometimento desse delito253.

Todas as vulnerabilidades expostas articulam-se e conformam um contexto no qual uma atividade, por mais que seja criminalizada, é percebida como um importante meio de sustento ou de complementação de renda para essas mulheres. Outrossim, o fato de passarem pelo sistema criminal e de terem certos estigmas ainda mais acentuados acaba por retroalimentar e reforçar um perfil que se mostrou preferencialmente visado pela polícia e pelo Poder Judiciário. Nesse sentido, demonstra-se como funciona a seletividade no sistema de justiça criminal que serve para controlar e para punir uma parcela da população que não tem acesso a serviços públicos essenciais e que tem até a sua circulação pela cidade restringida, já que vivem em locais mais ermos do centro.

Dessa forma, as políticas de segurança que passaram a reprimir o tráfico com mais intensidade geraram impacto no encarceramento feminino. Ademais,

a contínua conquista de independência da mulher; sua entrada no mercado de trabalho; a fragilidade dela na estrutura do tráfico; o maior rigor da polícia e do judiciário na repressão desses crimes e a maior condenação social do tráfico, por ser sempre associado ao aumento da violência urbana, devem ser elementos levados em consideração na análise conjuntural do incremento do encarceramento feminino254.

253 Para entender melhor, ver em: SOARES, Bárbara Musumeci; ILGENFRITZ, Iara, op. cit., 2002; e

BREITMAN, Miriam Rodrigues. Criminalidade Feminina: outra versão dos papeis da mulher. Sociologias, no 1, pp. 200-223, jan./jun. 1999.

Em suma, por mais que a análise das causas do recrudescimento do encarceramento feminino seja um tema de extrema importância, não cabe na presente investigação um exame mais meticuloso dessa questão complexa. Cabe pontuar que os dados estatísticos demonstram que a maior parte das mulheres presas respondem por crimes relacionados ao tráfico de drogas e, em geral, ocupam uma posição subalterna na rede. O que foi apontado até agora demarca “um padrão de comportamento que corresponde ao estereótipo (de sexo) da mulher como ser secundário, inferior, menos racional” 255 e, por isso, menos violento e menos predisposto aos atos de violência, mas objeto da violência de gênero – seja física por meio da imposição de castigos e a sexual, seja por meio de xingamentos e de ameaças pelo fato de ser mulher, de ser mãe, de ser gestante, de ser idosa, de ser prostituta256.