Considera\oes varias acerca das crises de mem6ria dos
3. lOue resta, pois? Oue nos resta, pois? Oue resta das mem6rias cada vez mais esquecidas e
apagadas? Oual o destino de todos estes objectos carregados de Hist6ria, perante o qua is nos emocio namos como se tivessem vida, como se fossem se res que compartilham da nossa pr6pria vida, como se fizessem parte de n6s pr6prios? - Porque, afinal, a mem6ria dos objectos nao e mais nem diferente do que a nossa pr6pria mem6ria! Oue nos resta, pois, a quern ainda acredita/acreditamos num outro tipo de mundo, de etica, de cultura e de valores, que nos resta para transmitir/transmitirmos aos nossos filhos, as gerac;:6es vindouras?
Na verdade, temos ainda nas nossas maos certos instrumentos - ou mesmo armas. E, sobretudo, a inteligencia ... Mas para passar a acc;:ao e para que tudo venha a funcionar como desejamos, teremos n6s pr6prios de interiorizar, de compreender pro fundamente, algumas coisas fundamentais que por vezes nos custam a admitir - e de agir entao em conformidade. Trata-se, pura e simplesmente, de estrategia - tao acutilante, definida e eficaz quanto possivel.
(a)Em primeiro lugar, termos a humildade e a lu cidez de reconhecer que este tipo de visao do mun do, que passa - entre tantas outras coisas - pela instituic;:ao-museu, e uma visao do mundo intrin secamente nossa, europeia, e nao um comporta mento "natural" transversal a todas as culturas e civilizac;:6es. Sem contar corn a pioneira Alexandria, que era alias sobretudo helenica, foi na Europa que nasceram e se desenvolveram os museus e as con cepc;:6es culturais que estao por detras deles. A di-
fusiio do museu pelo mundo foi apenas uma directa consequencia dos varios movimentos colonialistas de matriz europeia. E, ap6s decadas de implantac;:ao nesses cenarios ex6ticos, as resultados sao hoje muito diferentes de regiiio para regiao.
Na Africa subsariana nao existe, de um modo ge ral, qualquer identificac;:ao entre as populac;:oes e as museus, e muitos dos quadros intelectuais desses paises, embora academicamente formados quase sempre nas principais cidades europeias, chegam a considerar ofensiva a perspectiva museol6gica vigente, que lhes legamos, contraria pelo seu 6b vio caracter publico e expositivo aos valores cultu rais, tantas vezes de ordem oculta e iniciatica - e frequentemente vinculados aos objectos ora muse alizados - caracteristicos dessas sociedades e das suas pr6prias mem6rias e visoes do mundo, tao diferentes das nossas. No Padfico, e ainda no am bito das comunidades indias da America do Norte, muitas colecc;:oes museol6gicas vieram a ser re centemente transmutadas dos valores ocidentais para as valores dessas mesmas comunidades: dezenas de milhares de objectos rituais e funera rios foram retirados das vitrinas de Arqueologia e de Antropologia onde se mostravam a qualquer vi sitante desde ha varias decadas, par vezes ha mais de um seculo, e re-enterrados em campos sepul crais e noutros locais sag rados; certas pec;:as for am reunidas em salas interditas a mulheres, e outras em salas interditas a homens - conforme o seu pe culiar cariz simb61ico e as ancestrais tabus a elas inerentemente associados; outros conjuntos muse ol6gicos foram desmanchados para que pec;:as ti pologicamente similares mas portadoras de forc;:as contrarias au de "almas" inimigas nao continuas sem impiedosamente a confrontar-se no mesmo es pac;:o e a espalhar influencias nefastas a sua volta ... Apenas nos paises coincidentes corn o nucleo ancestral do mundo lsliimico, do lrao a Marrocos, o fen6meno museol6gico veio a adquirir raizes e sig nificados similares aos do Ocidente. Mas, recorde mos, a Civilizac;:ao lslamica comunga connosco de uma heranc;:a de base helenistica - e aristotelica -, e a biblioteca, instituic;:ao gemea do museu, foi e e uma constante nessa Cultura - de Bagdad a Cordo va, do Cairo a lstambul, de Damasco aTeerao.
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(b) Devemos pois concluir que a ameac;:a que
hoje efectivamente pende sabre as nossos museus, sabre as nossas mem6rias, nao e uma catastrofe universal, embora sendo sim uma catastrofe para n6s proprios e para a Cultura Europeia. Mas esta constatac;:ao nao diminui em nada o problema nem lhe retira importiincia e dramatismo. A universalida de de valores e um mito. Alias, um mito europeu ... 0 que nos sempre defendemos, mesmo quando pensavamos fazer outra coisa, foi constantemente a nossa propria concepc;:ao do mundo - a concep c;:ao Ocidental. Nao ha porem que ter complexos. Nunca nenhuma civilizac;:ao agiu par conta de outra. E desejavel a Tolerancia, e mais ainda a Concordia. Mas a imolac;:ao de uma civilizac;:ao, de uma cultu ra, nos altares de uma pretensa equidade global de valores e de sensibilidades e coisa inusitada e que so passou mesmo pela cabec;:a da intelectualidade europeia - alias entao ainda confortavelmente ins talada e solida nas suas proprias memorias e con
cepc;:oes. Hoje, ve-se que nao e assim.
Porem, se nos encontramos efectivamente em risco e em "crise de mem6ria(s)" na Europa, a ameac;:a nao vem de fora, mas do interior da nos sa propria sociedade. E por isso e tao perigosa e destrutiva. A ameac;:a vem da arrogante ignorancia que pouco a pouco ocupou o poder; e -pese em
bora o que afirmam as estatisticas oficiais ... -das massas par esse mesmo poder mantidas ignaras, senao mesmo em crescente e acelerado processo de embrutecimento. A lucida consciencia da situa
c;:ao de verdadeiro perigo que hoje correm as va lores culturais e eticos em que fomos formados e em que acreditamos - e tambem as museus e as suas colecc;:oes, as bibliotecas e as seus livros de estudo e de investigac;:ao, as arquivos e as seus do cumentos -, essa lucida consciencia e, ela propria, um imprescindivel instrumento para lograrmos, de algum modo, reverter a situac;:ao. Enquanto pen sarmos que se trata apenas de alguns episodios desgarrados e passageiras, de ameac;:as pontuais, de politicas efemeras porque inconsequentes, nao chegaremos a lado nenhum - e, quando acordar mos, fatalmente ja sera tarde. Alias, ja nao e nada cedo ... Porque, na verdade, estamos perante uma crise de fundo, no ambito da qual se opoem duas
concepi;:6es completamente diferentes de encarar a vida, o individuo, o mundo e as sociedades.
(cl Outro instrumento que seria fundamental consciencializar e desenvolver, em todas as suas consequencias, e o do valor intrinseca das colec i;;6es museol6gicas. E o t'.mico valor que hoje conta e o do mercado. Ha pois que o salientar e, tan to quanta possivel, de o acrescentar. Tern de pas sar a haver a nitida percepi;:ao publica de que um museu, como o Nacional de Arqueologia ou o de Arte Antiga (por exemplo), sao em si mesmo auten ticos "cofres-fortes" onde se abrigam reservas que valem como ouro.
lQuanto atingiria um guerreiro galaico, autentico, leiloado em Landres ou em Nova York? Certamente muitos e muitos milhares de euros! Mas, se a mes ma pei;:a for anunciada, de modo cientificamente menos correcto mas comummente mais apelativo, como "Guerreiro Lusitano'; e se dela se exibirem no catalogo estampas litograficas da epoca em que foi publicado pela primeira vez no seculo XIX ou nos alvores do XX - conferindo-lhe assim maior pro fundidade temporal em termos de coleccionismo -, entao o prei;:o do nosso guerreiro decuplicara !
(di E aqui entramos numa outra ordem de consi derai;:6es: a dos conhecimentos - agora nao opos tos mas utilmente complementares - esotericos e exotericos. E eis que voltamos a Platao e a Arist6- teles. Eles compreenderam perfeitamente que a verdade das coisa nao pode ser exposta de iden tica maneira a toda a gente. Ou, dito de outra for ma, nem todos estao capacitados para percorrer o caminho do mesmo modo. E, queiramos ou nao, seja ou nao "politicamente correcto'; tambem nem todos estao preparados para se aproximarem do fim do caminho, ja sendo por vezes muito born que alcancem uma etapa media. Um dos nossos erros foi perpetuar nos museus a "seriedade" discursiva que, segundo acreditavamos, conduziria ao interes se e a automatica instrui;:ao de todos os visitantes.
4. Foi essa a utopia do Museu do Homem, nesse