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Foi essa a utopia do Museu do Homem, nesse aspecto paradigmatico entre todos os outros Mas

Considera\oes varias acerca das crises de mem6ria dos

4. Foi essa a utopia do Museu do Homem, nesse aspecto paradigmatico entre todos os outros Mas

o Museu do Homem acabou. As suas coleci;:6es fo­ ram encaixotadas, juntamente corn as do Museu das Artes de Africa e da Oceania. Hoje, toda essa

infindavel multidao de objectos encontra-se nas re­ servas de uma nova instituii;:ao, o Musee du Quai Branly, sobre o Sena, mostrando-se uma pequena pa rte - considerada mais vistosa -na respectiva ex­ posii;:ao permanente.

0 Quai Branly e um museu de iniciativa presi­ dencial. Foi Jacques Chirac que determinou, contra ventos e mares, o encerramento do Museu do Ho­ mem e do Museu das Artes de Africa e da Oceania. Foi Jacques Chirac que determinou as principais linhas conceptuais do novo museu. Foi Jacques Chirac que determinou os fundamentais ingredien­ tes a utilizar neste espantoso cozinhado museol6gi­ co: um arquitecto celebre (no caso, Jean Nouvel); um edificio marcante e de referencia na hist6ria da arquitectura contemporanea; uma exposii;:ao de "pei;:as-vedeta'; baseada em valores predominante­ mente esteticos e cenograficos.

Quando visitei o Quai Branly senti uma opres­ siva e muito emocionada saudade do Museu do Homem, corn o qual me identificava - e, comigo, tantos da minha gerai;:ao. 0 Museu do Homem fazia parte intrinseca das nossas pr6prias mem6rias cul­ turais - fazia ja pa rte intrfnseca da mem6ria cultural europeia. No Quai Branly nao existe um discurso expositivo racionalmente coerente, as grandes are­ as geograficas misturam-se, a iluminai;:ao e corn frequencia insuficiente, a cenografia "naff" e a con­ fusao imensa: multid6es cruzam-se e embatem-se, meias perdidas por entre as pei;:as muito apelativas mas das quais dificilmente se apreende o contexto, se percebe a origem e a funi;:ao, expostas quase s6 como simples componentes de uma enorme "insta­ lai;:ao': Os materiais informativos existem, porem, e em grande quantidade e diversidade: textos, filmes, bandas sonoras ... ; mas o seu acesso nao e sempre imediato nem intuitivo, nem eles formam parte in­ tegrante da pr6pria exposii;:ao; sao apenas comple­ mentares e paralelos; a maioria do publico nao os utiliza. E, no entanto, o Quai Branly e um verdadeiro triunfo, um duradouro exito de bilheteira, atraindo inumeros visitantes e catapultando Paris, de novo, para o centro da museologia internacional. Quanta ao Museu do Homem, nos ultimos anos os passos dos pequenos grupos escolares, dos raros especia­ listas e de uns poucos turistas nostalgicos, ecoa-

vam nas salas pejadas de per;;as Lmicas e dispostas metodica e didacticamente, mas vazias de gentes ... Passadas as primeiras impressoes, tendo lido e me­ ditado bastante sabre esta (para mim) inesperada realidade - e tentando discernir entre preferencias emotivas e imperativos racionais - , conclui o se­ guinte:

(a) A exposir;;ao permanente do Quai Branly

e

assumidamente uma mostra exoterica, que quase so procura criar emor;;oes esteticas junta do gran­ de publico, sem lhe explicar grande coisa; mas a maior parte desse mesmo grande publico sente-se deslumbrado e satisfeito e nao exige nem procura mais nada. Alias, tern pressa - e a percepr;;ao emo­ tiva

e

mais rapida do que a percepr;;ao intelectual. E da menos trabalho. A dose esta, pois, perfeitamente adequada ao paciente ...

(b) Para uma fracr;;ao ja nao massiva de publico existem as exposir;;oes temporarias, sempre tema­ ticas e corn fio-condutor nitidamente estabelecido, bem explicadas, claramente perceptfveis e susten­ tadas em optimos catalogos. Aqui deseja-se atingir e satisfazer um publico ja instruido, aquele que gas­ ta de ler - livros e objectos -, de contemplar e de pensar, que tern memoria(s); sem que no entanto seja necessariamente um especialista.

(c)Para este - e para todos os mais exigentes em geral -, o Ouai Branly disponibiliza gratuitamente "on line" o catalogo integral (embora ainda corn al­ gumas compreensiveis lacunas) das suas colecr;;oes de objectos, quer os expostos quer os das reservas; bem coma as importantes e vastissimas colecr;;oes de fotografias, fichas de trabalho de campo e de gabinete, e de documentos de varia ordem, prin­ cipalmente oriundos do Museu do Homem. Este acesso franco e pormenorizado a todos os espolios ali conservados - que muito dificilmente poderia ter sido praticado num museu antigo e corn meios insuficientes - e, quanta a nos, uma das mais con­ seguidas e inovadoras conquistas do Ouai Branly ... embora secundarizada ou mesmo desconhecida pela maioria dos visitantes que se atravancam no meio das vitrinas. 0 catalogo "on line" e a face eso­ terica da nova museu.

(d) Par outro lado, a evidencia - por vezes

mesmo o exagero - do pendor estetico-artfstico das

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per;;as expostas conferiu-lhes nao so uma outra leitura - uma nova memoria a juntar a todas as anteriores -, coma aumentou exponencialmente o respectivo valor de mercado. 0 comercio internacional e o coleccionismo das "Artes Primeiras" disparou apos a inaugurar;;ao do Quai Branly, e as per;;as deste museu servem agora coma que de privilegiada "medida-padrao" para aferir o proprio valor daquele mercado. Hoje, sob este aspecto, as colecr;;oes conservadas no Ouai Branly valem incomensuravelmente mais do que quando jaziam nas vitrinas e reservas do Museu do Homem e do Museu das Artes de Africa e da Oceania. E, ano apos ano, valerao cada vez mais! 0 Ouai Branly, alem de ter apagado a incomoda memoria museologica do colonialismo trances - nem todas as memorias sao sempre consideradas convenientes de conservar e de dar a conhecer ... -, transformou-se ainda num verdadeiro tesouro, ja nao sob um ponto de vista meramente cultural e simbolico, mas de uma simples perspectiva pragmatica e economicista: funciona coma uma efectiva "reserva aurea'; em constante valorizar;;ao. Garantia primeira e absoluta de que nas decadas mais proximas nenhum poder, culto ou ignorante, se lembrara de desmanchar o nova museu, de tocar nas suas colecr;;oes, ou de subverter as suas intrfnsecas memorias ...

(e)Em Portugal nao e atendfvel que algum Presi­ dente da Republica, e ainda menos que algum Pri­ meiro-Ministro, ten ha o rasgo - e simultaneamente o maquiavelismo - de Jacques Chirac. Assim caber­ -nos-a a nos, remotissimos herdeiros de Aristoteles na crenr;;a da bondade da busca do Conhecimento, despirmo-nos de antigos habitos e preconceitos, e - tentando compreender corn lucidez e objectivida­ de o mundo, a epoca, a sociedade e a conjuntura em que hoje vivemos, especialmente no microcos­ mo portugues, bem coma a extrema urgencia do momenta - substituir-nos de alguma forma a au­ sencia de um poder inteligente e culto, procuran­ do corn imaginar;;ao, arrojo e coragem as melhores solur;;oes e estrategias que permitam assegurar a perpetuar;;ao das nossas rafzes e dos nossos funda­ mentais valores eticos e culturais.

Em concreto no que a crise de memoria dos nossos governantes diz respeito, em finais desta primeira

decada do seculo XXI, e no que concerne ao Museu Nacional de Arqueologia - que, para alem de um "simples" museu, e o vero e insubstituivel arquivo dos principais testemunhos hist6ricos das nossas mais preteritas raizes e ainda um fervilhante centro de estudos e pesquisas de consolidada projecc;ao internacional -, defendemos como t'.mica soluc;ao digna, eficaz e de futuro a criteriosa, inteligente e inovadora concepc;ao de um adequado edificio de raiz, a construir corn urgencia, porventura no ambito da Cidade Universitaria. E, porque estamos em Lisboa e nao em Paris, vindo preferencialmente a trocar-se desde logo a respectiva tutela do Ministerio da Cultura pela do Ministerio da Ciencia, Tecnologia e Ensino Superior·.

Algumas Leituras

Sohre a evolu,;iio do pensamento de Arist6teles:

Jaeger, W. (1997): Aristote. Fondements pour une Histoire de son Evolution, trad. francesa, Paris [1.• ed., alemii, 1923].

Chroust, A.-H. (1973): Aristotle. New Light on his Life and on some of his Lost Works, Indiana.

Mesquita, A. P. (2005): Arist6teles - Obras Completas. lntrodu­ r;:ao Geral, Lisboa.

Sohre o Museum e a Bib/iotheca de Alexandria:

Parsons, E. A. (1952): The Alexandrian Library, AmsterdamlLon­ donlNewYork.

Cantara, L. (1988): La Veritable Histoire de la Bibliotheque d'Alexandrie, trad. francesa, Paris 11.• ed., italiana, 1986].

El-Abadi, M. (19972): Vie et Destin de l'Ancienne Bib/iothi!que d'Alexandrie, Paris.

Sohre o Museu do Homem versus Museu do Quai Branly e questoes afins:

Dupaigne, B. (2006): Le Scandale des Arts Premiers. La Verita­ ble Histoire du Quai Branly, Paris.

Latour, B., dir. (2007): Le Dialogue des Cultures. Actes des Ren­ contres Inaugurates du Musee du Quai Branly, Aries.

VV.AA. (2007): Le Moment du Ouai Branly (=Le Debat, n°. 147, Nov.-Dec.). Paris.

Candela, G. ; Biordi, M., coords. (2007): L'Arte Etnica tra Cu/tura e Mercato, Milano.

• Este texto foi pela primeira vez apresentado no Museu Nacional de Arqueologia, em 20 de Abril de 2010, no ambito do ciclo «Patrim6nio Cultural - Mem6ria Comum», concretamente na sessiio subordinada ao tema «Museus Nacionais -Arquivos da Mem6ria11.

Sohre Jose Leite de Vasconcellos, o Museu Nacional de Arque­ ologia e o poder politico:

Leite de Vasconcellos, J. (1913): Defensao do Museu Etno/6gico Portugui!s contra as Argiiir;:oes que um Sr. Deputado the fez no Parlamento, Lisboa.

Cardim Ribeiro, J. (2008): «Da consciencia politica de Jose Leite de Vasconcellos. Achegas para a compreensiio do seu pensamento e do seu exemplo», 0 Arque6/ogo Portugui!s, ser. IV, vol. 26, pp. 145-160.

Sohre os (nossos) museus, os (nossos) tempos e a (nossa) terra:

Cardim Ribeiro, J. (2005): «lTorres de marfim, baluartes ou es­ colas? 0 papel dos museus em tempo e terra de barbarie», in 0 Elogio da Cultura. Actas do VI Curso de Verao da Ericeira, Ericeira, pp. 73-85.

A arqueologia no Museu