3. Escrituração mercantil
4.7. Lucros ou prejuízos acumulados e Reservas
O que deveria se caracterizar como uma “transição” relativamente
tranquila das regras anteriores às novas, em função das alterações promovidas pela
Lei nº 11.638/07, “oculta” um desafio digno de nota: a permanência ou não da conta
de “lucros ou prejuízos acumulados”.
Preliminarmente, cabe o exame da disposição inicial da Lei nº
6.404/76, art. 178, § 2º, letra “d”, a qual previa que o “patrimônio líquido” deveria ser
“dividido em capital social, reservas de capital, reservas de reavaliação, reservas de
lucros e lucros ou prejuízos acumulados”. (grifo dos autores)
Com a promulgação da Lei nº 11.638/07, a redação foi alterada de
forma a prescrever que o “patrimônio líquido” seja “dividido em capital social,
reservas de capital, ajustes de avaliação patrimonial, reservas de lucros, ações em
tesouraria e prejuízos acumulados”, somente. (grifo dos autores)
Uma “leitura” adstrita ao artigo, fatalmente, levaria à interpretação de
que a supressão do termo “lucros” implicou em mudança na característica da conta,
restringindo-lhe o alcance, ao ponto de limitá-la ao registro de prejuízos, corrente de
pensamento esta que tem advogado o reconhecimento dos lucros apurados em
“reserva de lucros”, tendência
12acompanhada pela Comissão de Valores Mobiliários
(CVM), a qual fica evidenciada na Instrução CVM nº 469/08, resultante do Edital de
Audiência Pública SNC nº 02/2008, prescreve.
Art. 5º No encerramento do exercício social, a conta de lucros e prejuízos acumulados não deverá apresentar saldo positivo.
Parágrafo único. Eventual saldo positivo remanescente na conta de lucros e prejuízos acumulados deverá ser destinado para reserva de lucros, nos termos dos art. 194 a 197 da Lei nº 6.404, de 15 de dezembro de 1976, ou distribuído como dividendo.
Tal raciocínio é, no mínimo, questionável, pois despreza o fato de
que, na interpretação de um texto normativo, o “todo” esclarece a “parte”, ou seja, o
contexto determina o “sentido” do artigo analisado.
Se, de fato, a intenção do Legislador fosse alterar radicalmente a
conta de “lucros ou prejuízos acumulados”, por exemplo, as seções (da Lei nº
6.404/76) que tratam das “Reservas e Retenção de Lucros” (arts. 193-200) e da
“Demonstração de Lucros ou Prejuízos Acumulados” (art. 186) deveriam ter
“acobertado” tal pretensão.
Na realidade, o exame desses artigos da norma revela
13que não
houve, naqueles dispositivos, mudanças que chegassem a justificar a “retirada” dos
“lucros acumulados” da conta geral de “lucros ou prejuízos acumulados”, para incluí-
la em “reserva de lucros”, conforme defendido por alguns doutrinadores, não
passando, assim, a ocorrência de mero equívoco formal.
Essa interpretação parte do pressuposto de que, se a
“Demonstração de Lucros ou Prejuízos Acumulados” permanece inalterada quanto
aos critérios de elaboração, o que implica no relacionamento com as contas das
quais as informações se originam, e se as “Reservas de Lucros” mantêm, em termos
essenciais, o “espírito” preexistente à Lei nº 11.638/07, então, salvo manifestação
“contrária e expressa”
14por parte de órgãos reguladores, respeitadas as
formalidades aplicáveis, a conta de “lucros ou prejuízos acumulados” deve conservar
o tratamento recebido anteriormente.
12 Em perspectiva que privilegiasse o conceito de negócio jurídico, o autor entende que a postura se
justifica diante do fato de que os acionistas investem em determinada companhia com o objetivo de terem o direito à participação nos ganhos por elas gerados, o que induziria estas sociedades a apresentarem os planos de retenções de lucros com antecedência que salvaguardasse aqueles direitos.
13 Exceto pela inclusão do art. 195-A, o qual trata da “Reserva de Incentivos Fiscais”, e pela nova
redação dada ao art. 197, § 1º, inciso II, e ao art. 199, o primeiro, tratando da destinação do “excesso à constituição de reserva de lucros a realizar”, e, o segundo, focando no “Limite do Saldo das Reservas de Lucro”.
14 Esta ocorrência implicaria no desrespeito à primazia da “essência sobre a forma”, imperativo que,
no geral, rege o entendimento da temática, no entanto, como as análises estão sujeitas à falibilidade, inerente ao fator humano, “desvios” não estão descartados, em absoluto. Nos termos da regência dos direitos em geral, havendo desacordo sobre a natureza da obrigação estabelecida, em particular, quando a norma não for suficientemente “clara”, cabe a busca do “amparo” estatal, mediante o acesso ao judiciário.
Deve ser destacado que esta postura é aplicável às entidades não
sujeitas às disposições, por exemplo, da Comissão de Valores Mobiliários (CVM),
como é o caso das sociedades limitadas empresárias e simples, as quais jamais
estiveram obrigadas à constituição das reservas previstas nos arts. de 194 a 197, da
Lei nº 6.404/76, embora pudessem, por deliberação dos sócios, seguirem-na
supletivamente.
50. Os itens 42 a 43 da NBC T 19.18 - Adoção Inicial da Lei nº. 11.638/07 e da Medida Provisória nº. 449/08 e os itens 115 e 116 do Comunicado Técnico nº. 03 (Resolução CFC nº. 1.157/09) tratam dos lucros acumulados, sendo permitida a existência de saldo positivo para todas as entidades, exceto às sociedades por ações. (Resolução CFC n° 1.159/09, Anexo, item 50)
A despeito das divergências que permeiam o tema, a adoção do
critério de destinação integral dos lucros apurados pelas companhias e demais
entidades implicará na observação do limite previsto pela Lei nº 6.404/76 (art. 199),
com redação dada pela Lei nº 11.638/07.
SEÇÃO II
Reservas e Retenção de Lucros Reserva Legal
Art. 193. Do lucro líquido do exercício, 5% (cinco por cento) serão aplicados, antes de qualquer outra destinação, na constituição da reserva legal, que não excederá de 20% (vinte por cento) do capital social.
§ 1º A companhia poderá deixar de constituir a reserva legal no exercício em que o saldo dessa reserva, acrescido do montante das reservas de capital de que trata o § 1º do artigo 182, exceder de 30% (trinta por cento) do capital social.
§ 2º A reserva legal tem por fim assegurar a integridade do capital social e somente poderá ser utilizada para compensar prejuízos ou aumentar o capital.
Reservas Estatutárias
Art. 194. O estatuto poderá criar reservas desde que, para cada uma: I - indique, de modo preciso e completo, a sua finalidade;
II - fixe os critérios para determinar a parcela anual dos lucros líquidos que serão destinados à sua constituição; e
III - estabeleça o limite máximo da reserva.
Reservas para Contingências
Art. 195. A assembléia-geral poderá, por proposta dos órgãos da administração, destinar parte do lucro líquido à formação de reserva com a finalidade de compensar, em exercício futuro, a diminuição do lucro decorrente de perda julgada provável, cujo valor possa ser estimado. § 1º A proposta dos órgãos da administração deverá indicar a causa da perda prevista e justificar, com as razões de prudência que a recomendem, a constituição da reserva.
§ 2º A reserva será revertida no exercício em que deixarem de existir as razões que justificaram a sua constituição ou em que ocorrer a perda.
Reserva de Incentivos Fiscais (Incluído pela Lei nº 11.638/07)
Art. 195-A. A assembléia geral poderá, por proposta dos órgãos de administração, destinar para a reserva de incentivos fiscais a parcela do lucro líquido decorrente de doações ou subvenções governamentais para
investimentos, que poderá ser excluída da base de cálculo do dividendo obrigatório (inciso I do caput do art. 202 desta Lei). (Incluído pela Lei nº 11.638/07)
Retenção de Lucros
Art. 196. A assembléia-geral poderá, por proposta dos órgãos da administração, deliberar reter parcela do lucro líquido do exercício prevista em orçamento de capital por ela previamente aprovado.
§ 1º O orçamento, submetido pelos órgãos da administração com a justificação da retenção de lucros proposta, deverá compreender todas as fontes de recursos e aplicações de capital, fixo ou circulante, e poderá ter a duração de até 5 (cinco) exercícios, salvo no caso de execução, por prazo maior, de projeto de investimento.
§ 2º O orçamento poderá ser aprovado na assembléia-geral ordinária que deliberar sobre o balanço do exercício.
§ 2o O orçamento poderá ser aprovado pela assembléia-geral ordinária que deliberar sobre o balanço do exercício e revisado anualmente, quando tiver duração superior a um exercício social. (Redação dada pela Lei nº 10.303, de 2001)
Reserva de Lucros a Realizar
Art. 197. No exercício em que os lucros a realizar ultrapassarem o total deduzido nos termos dos artigos 193 a 196, a assembléia-geral poderá, por proposta dos órgãos da administração, destinar o excesso à constituição de reserva de lucros a realizar.
Parágrafo único. Para os efeitos deste artigo, são lucros a realizar:
a) o saldo credor da conta de registro das contrapartidas dos ajustes de correção monetária (artigo 185, § 3º);
b) o aumento do valor do investimento em coligadas e controladas (artigo 248, III);
c) o lucro em vendas a prazo realizável após o término do exercício seguinte.
Art. 197. No exercício em que o montante do dividendo obrigatório, calculado nos termos do estatuto ou do art. 202, ultrapassar a parcela realizada do lucro líquido do exercício, a assembléia-geral poderá, por proposta dos órgãos de administração, destinar o excesso à constituição de reserva de lucros a realizar. (Redação dada pela Lei nº 10.303, de 2001) § 1o Para os efeitos deste artigo, considera-se realizada a parcela do lucro líquido do exercício que exceder da soma dos seguintes valores: (Redação dada pela Lei nº 10.303, de 2001)
I - o resultado líquido positivo da equivalência patrimonial (art. 248); e (Incluído pela Lei nº 10.303, de 2001)
II - o lucro, ganho ou rendimento em operações cujo prazo de realização financeira ocorra após o término do exercício social seguinte. (Incluído pela Lei nº 10.303, de 2001)
II – o lucro, rendimento ou ganho líquidos em operações ou contabilização de ativo e passivo pelo valor de mercado, cujo prazo de realização financeira ocorra após o término do exercício social seguinte. (Redação dada pela Lei nº 11.638/07)
§ 2o A reserva de lucros a realizar somente poderá ser utilizada para pagamento do dividendo obrigatório e, para efeito do inciso III do art. 202, serão considerados como integrantes da reserva os lucros a realizar de cada exercício que forem os primeiros a serem realizados em dinheiro. (Incluído pela Lei nº 10.303, de 2001)
Art. 198. A destinação dos lucros para constituição das reservas de que trata o artigo 194 e a retenção nos termos do artigo 196 não poderão ser aprovadas, em cada exercício, em prejuízo da distribuição do dividendo obrigatório (artigo 202).
Limite do Saldo das Reservas de Lucros Limite do Saldo das Reservas de Lucro
(Redação dada pela Lei nº 11.638/07)
Art. 199. O saldo das reservas de lucros, exceto as para contingências e de lucros a realizar, não poderá ultrapassar o capital social; atingido esse limite, a assembléia deliberará sobre a aplicação do excesso na integralização ou no aumento do capital social, ou na distribuição de dividendos.
Art. 199. O saldo das reservas de lucros, exceto as para contingências, de incentivos fiscais e de lucros a realizar, não poderá ultrapassar o capital social. Atingindo esse limite, a assembléia deliberará sobre aplicação do excesso na integralização ou no aumento do capital social ou na distribuição de dividendos. (Redação dada pela Lei nº 11.638/07)
Reserva de Capital
Art. 200. As reservas de capital somente poderão ser utilizadas para: I - absorção de prejuízos que ultrapassarem os lucros acumulados e as reservas de lucros (artigo 189, parágrafo único);
II - resgate, reembolso ou compra de ações; III - resgate de partes beneficiárias;
IV - incorporação ao capital social;
V - pagamento de dividendo a ações preferenciais, quando essa vantagem lhes for assegurada (artigo 17, § 5º).
Parágrafo único. A reserva constituída com o produto da venda de partes beneficiárias poderá ser destinada ao resgate desses títulos.
Extemporaneamente, cabe a menção de que Orientação OCPC nº
02 – recepcionada pelo Ofício-Circular CVM/SNC/SEP nº 01/2009, na esfera da
Comissão de Valores Mobiliários (CVM), e pela Resolução CFC nº 1.157/09, no
âmbito do Conselho Federal de Contabilidade (CFC) – esclarece:
Lucros Acumulados
115. A obrigação de essa conta não conter saldo positivo aplica-se unicamente às sociedades por ações, e não às demais, e para os balanços do exercício social terminado a partir de 31 de dezembro de 2008. Assim, saldos nessa conta precisam ser totalmente destinados por proposta da administração da companhia no pressuposto de sua aprovação pela assembléia geral ordinária.
116. Essa conta continuará nos planos de contas, e seu uso continuará a ser feito para receber o resultado do exercício, as reversões de determinadas reservas, os ajustes de exercícios anteriores, para distribuir os resultados nas suas várias formas e destinar valores para reservas de lucros.