das Kengas, que desce pelas ruas do Centro, em direção ao bairro da Ribeira, até o Largo da
Rua Chile, onde ocorre a grande celebração do carnaval das kengas.
As kengas estão em cena e cintilam seus sapatos sobre o piso fosco da passarela. No desfile, usam um leque de papelão, que em uma de suas faces traz a publicidade de uma marca de cerveja e, na outra, sobre um fundo escuro, um número branco que define o lugar de cada uma delas na ordem das candidatas.
Os figurinos, os adereços, as perucas, tudo, nas kengas, conduz a uma alegria colorida, uma felicidade brincante, um espírito extrovertido de festa que tenta esconder, na maioria dos casos, a pobreza com que estas criaturas se produzem. A “criatividade”, estratégia fácil de conviver com a miséria e transformá-la em cena, é total. Todas as candidatas se produzem por sua própria conta, com materiais e técnicas que conseguem e inventam, enunciando, nas temáticas de sua preferência, as falhas de composição, de desenvolvimento de suas fantasias. Em suas performances no palco, no entanto, acreditam ser eficazes na direção da alegria e da alegoria do feminino, acreditam estar “lindas”, “espetaculares”.
Aos poucos, logo que o desfile começa, a platéia vai esquecendo a demora para o seu início e vai obedecendo à tradição, caindo na folia, divertindo-se com cada candidata e com as brincadeiras das apresentadoras. Nas ruas que formam a encruzilhada onde ocorre o desfile, pode-se sentir uma atmosfera de liberdade, de tolerância e diversão, tão bem conduzida no comportamento irreverente das apresentadoras.
O corpo de jurados deve ser formado, como sempre, por figuras públicas ligadas à cultura ou às artes. Especialmente em 2004, na comemoração dos 21 anos das kengas, os jurados foram amigos que as acompanham em seus carnavais: Geraldo Pinheiro, jornalista e escritor; José Dantas, presidente do Grupo Habeas Corpus Potiguar, entidade de representação de gays, lésbicas e travestis do Rio Grande do Norte; Gera Cyber, performer punk-transformista recifense; Rony Fischer, ator e diretor de teatro potiguar; Maria Dália
Fonseca, Assessora Especial para Assuntos Internacionais do Gabinete Civil do Governo do
Estado do Rio Grande do Norte; Maria Nóbrega, médica geriatra; Nestor Madêncio, artista plástico; Verônica Pinheiro, psicóloga; e Maria D’Aguia, uma comerciante, também
fundadora do bloco e que, em 1990 foi a primeira e única mulher a vencer o concurso das kengas. 42
Depois da formação do corpo de jurados é que o desfile acontece. A marcação do movimento cênico das candidatas na passarela e os procedimentos de participação no desfile são simples: primeiro, o nome da kenga é enunciado pelas apresentadoras; depois, a candidata entra e desfila na passarela; enquanto caminha e se oferece ao prazer espetacular (seu e do público), as apresentadoras comentam, como nos desfiles de moda, suas roupas, seus adereços, sua maquiagem e sua performance, dando dicas verossímeis e inverossímeis de sua origem, de sua carreira, de sua existência (“matando” 43, mesmo, as “bichas”); então, os jurados observam, atentos, a candidata e a resposta que ela recebe do público e, ainda, deixam-se levar pelos comentários das apresentadoras. Assim, fazem suas anotações.
Ao final de sua participação, a candidata sai, na maioria das vezes, agradecendo ao público. Outra candidata é anunciada e o desfile segue. Algumas vezes, as apresentadoras convidam uma ou outra kenga a repetir sua performance; para isso não há critérios, apenas o próprio prazer que sente a apresentadora em ver a kenga de novo na passarela, ou algo que a reação do público ressalta da espetacularidade da candidata. Em outros momentos, o desfile é interrompido para que as apresentadoras anunciem os patrocinadores do evento.
Nos últimos anos, o desfile também é interrompido para que o locutor oficial da Prefeitura Municipal de Natal anuncie a presença das autoridades ao evento. Em 2004, o prefeito Carlos Eduardo assistiu ao desfile das kengas de um palanque, acompanhado pela primeira dama, alguns secretários municipais, vereadores, assessores, amigos e pelos seguranças. Houve um tempo em que o desfile das kengas era realizado nas escadarias do
42 O fato de uma mulher ter ganhado o concurso da rainha das kengas merece destaque, nesta pesquisa, por sua relevante significação na compreensão da questão de gênero que emoldura a problemática investigada na cena espetacular das kengas. Mas, por uma obediência ao delineamento do objeto de estudo dessa pesquisa de mestrado, este fato não foi abordado com profundidade, o que não deve configurar-se como um impedimento para futuras abordagens das kengas.
Centro de Turismo, no bairro de Petrópolis, quando ainda não tinha o status que tem hoje, e nenhuma autoridade ali aparecia, a não ser a polícia, assim se sentindo, pondo ordem na “viadagem das bichas”. O interesse pode se caracterizar como político-eleitoreiro, mas, nas entrelinhas, devo reconhecer que as kengas são fortes na atração dos poderosos.
Desconfio que a presença dos governantes na festa dos transformistas é a ampliação da área de influência das kengas, é ampliação de seu prestígio, é ganho de status social, desejado e perseguido, mas, é também irrisão, isto é, uma maneira que se cristaliza no carnaval deste governante transgredir sem correr risco, onde o Poder pode “assistir” ao “circo dos horrores” da “viadagem”, e se comprazer com a caricatura dos homossexuais, heranças simbólicas do preconceito arraigado culturalmente, sem a preocupação de estar sendo politicamente incorreto.
Os nomes das candidatas anunciados pelas apresentadoras são um show à parte, que faz rir aos espectadores, a exemplo dos nomes das próprias apresentadoras Joe Maravilha (a negação corporal absoluta da beleza) e Shakira Kiloshana (uma deusa pagã, “fabricada” no Morro de Mãe Luiza). Entre eles, destaco: