• Nenhum resultado encontrado

3.5 Lula já está no segundo turno

3.5.2 Lula promete adotar programa “light”

Ao comentar sobre o programa do PT ao governo, de corte nitidamente mais liberal, com a promessa de manter privatizações, dialogar com o Fundo Monetário Internacional e sustentar o arrocho fiscal, Luiz Inácio Lula da Silva afirmou que “não temos o compromisso de manter privatizações”, indagando: “Mas quem será eleito num país ou num estado propondo recomprar passivos de empresas antes de resolver os problemas cruciais da sociedade?”.

Defendeu, contudo, a idéia de que algumas privatizações precisariam de uma auditoria, afirmando sempre ter desconfiado da privatização do sistema de telecomunicações, ocorrida em 1998. Os bancos estaduais também. Para Lula, “esses bancos sempre funcionaram como caixa dois dos governadores. Não tem pobre devendo a esses bancos - só tubarões. O governo federal gastou R$ 88 bilhões para sanear as empresas e as vendeu por R$ 98 bilhões. É óbvio que não vou reestatizar nada, até porque o povo tem outras prioridades. Mas o presidente Fernando Henrique, por um dever moral, não pode é fazer privatizações a toque de caixa no último ano de mandato. O que ele não fez até agora, que não faça mais. Se fizer, eu sou obrigado a desconfiar - como desconfio no caso das telecomunicações - que eles querem fazer fundo de campanha. Não é possível."

Lula comentou sobre uma provável vitória, destacando que o seu governo teria como principal marca a negociação permanente, centrada na defesa da ética na política, argumentando que ninguém precisa mais ter medo do “velho Lula”, tido como cheio de idéias fixas e radicais.

- “Eu sempre fui a figura mais palatável do PT. Comecei a minha vida pública fazendo negociação. Ninguém negociou mais no país do que eu - negociei idéias, que fique claro (risos). Negociava com os militares, e muita gente achava isso absurdo. Fui treinado para isso. É por causa dessa história pessoal que falamos de um novo contrato social no programa do PT. Quero governar ouvindo o Congresso, que representa o povo. Ouvindo a sociedade, as entidades civis. Quero que um governo do PT saiba conversar com os aliados e com os adversários. Essa é a regra.”

Criticou Fernando Henrique Cardoso, afirmando que ele teria falhado na negociação com o Congresso, sobretudo utilizando-se do instituto das medidas provisórias para governar. Para o petista, Cardoso desprezou o Congresso, argumentando que nenhum presidente teve mais apoio para fazer o que quisesse como ele teve. E reiterou:

- “Mas ele não soube tirar proveito do momento mais importante do mandato. Isso foi no primeiro governo... em função do fim do imposto inflacionário, quando o povo sentia que a vida estava melhorando, poderia ter feito a reforma tributária. Isso ia distribuir renda. E o que ele fez? Cometeu a promiscuidade da compra de votos pela reeleição no Congresso Nacional. A partir dali, a relação dele com o Congresso nunca mais se acertou. Virou uma relação promíscua, a política do é-dando-que-se-recebe”.

Para o líder petista “isso degrada a sociedade. As famílias estão dilaceradas por esses maus exemplos. Não existe mais respeito pela hierarquia. O brasileiro desempregado, faminto, vê senador roubar, deputado participar de esquemas, presidente da República ser envolvido em denúncias... aí pensa: puxa vida, se todo mundo pode, por que eu não posso também? Esse país tem de ser reconstruído do ponto de vista moral.”, completou.

Indagado se com esse discurso, não podem dizer que está de volta o velho “Lula radical”, respondeu que “um homem não é radical pelo seu discurso. Ele é radical pelo seu comportamento, pela maneira como usa a caneta, pela capacidade de manter compromissos e seguir os programas combinados. Neste país, todo e qualquer político e todo e qualquer partido pode vencer uma eleição e não fazer nada. A ele será dado o direito do perdão. A mim não será dado esse direito. Não posso errar. Não me darão essa oportunidade. Não teremos a condescendência da mídia nem do sistema financeiro internacional. Vou radicalizar no combate à fome, vou radicalizar no combate ao desemprego, vou radicalizar na política de geração de renda e na política educacional”.

E explicou o que o PT não negocia pensando em termos de uma política de alianças e que pretendia por em prática num eventual governo Lula: “Pôr todas as crianças na escola é um compromisso de honra. Dar a todos os brasileiros o direito de fazer as três refeições é um radical compromisso de honra. Fazer a reforma agrária, com acesso a crédito para os pequenos produtores é inegociável. A democratização da elaboração do Orçamento Geral da União também”, destacou Lula.

Embora, ao mesmo tempo, Lula discorde da idéia de que a política agrícola do PT seja a mesma do MST, pois “no campo não existe só o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra. Fazer a reforma agrária deveria ser uma decisão de Estado, por uma questão de justiça social, e ela deveria ser feita sem conflito, sem conflagrações, sem mortes. O MST é minoria no campo.” Para o petista, não é possível fazer política agrícola só olhando para os sem-terra, fazendo questão de repetir que eles não são maioria, apenas mais um movimento rural. “Temos é de dar terra no campo para aumentar a produção de alimentos e gerar renda familiar para milhões de trabalhadores que, assim, não precisariam sair da zona rural para inchar as

grandes cidades”. O que não exclui, na sua visão, os grandes fazendeiros, argumentando que “eles serão contemplados na nossa política agrícola. Esses latifundiários sabem que o PT leva a sério as coisas do campo, porque um país socialmente justo só se constrói a partir de uma política agrária séria.”

Nesta mesma edição do Correio, de agosto de 2001, o cientista político Walder de Góes, do Instituto Brasileiro de Estudos Políticos (Ibep), sintetizou em seu artigo intitulado O PT no Planalto, o clima reinante na época ante a vitória de Lula. Segundo o cientista político, já estava ocorrendo uma debandada do conservadorismo nacional em direção ao PT, argumentando que os setores das elites começavam a se render ao cenário de vitória de Lula nas eleições presidenciais, algo que o país precisava experimentar. Para Góes, “estaremos vendo o início, então, de movimentos orientados por estratégias adaptativas mútuas. De um lado, setores do empresariado se aproximando do PT, sobretudo o PT de Lula; de outro, o PT e Lula caminhando para o centro. É no dorso dessa reflexão, provavelmente, que um líder empresarial paulista disse que já não vê riscos em uma eventual presidência Lula”, ressalta.

Em suma, a elite econômica brasileira estaria perdendo o medo do PT e também, conforme apontavam as pesquisas, as classes médias.”É uma conseqüência de muita coisa, mas, sobretudo, da difusão da idéia de que cresce a ala moderada do PT. Está ocorrendo realmente uma mudança na percepção social do PT e os resultados de pesquisas já documentaram o fenômeno. Os índices de rejeição do candidato têm caído em escala e ritmo impressionantes. Lula concorreu a três eleições presidenciais com taxas de rejeição acima de 50% e nos últimos meses produziu-se um grande movimento descendente desse índice, agora 30%”, reafirmou Góes.