2.4 A modernização da indústria da comunicação na era do real
2.4.1 Parque gráficos e novos empreendimentos editoriais
Falar sobre o crescimento do setor, nos remete para o alvorecer do Plano Real, que foi traduzido nas páginas dos jornais dos pivôs empresariais de maneira extremamente positiva. A ANJ apresenta uma análise favorável em relação ao lançamento do Real32, destacando que ele “irá beneficiar diretamente os jornais”, pois as empresas, devido à estabilidade econômica trazida pela nova moeda, tenderão a investir mais em publicidade. E foi o que ocorreu. Todo mundo passou a faturar mais e a investir pesadamente no reaparelhamento gráfico, no lançamento de novos títulos e na realização de parcerias para os mais variados fins: novos lançamentos editoriais na área impressa, a exemplos de jornais e revistas, portais na Internet, associações de distribuição e venda de classificados de forma padronizada e em associação, etc..
A edição do Jornal ANJ, de novembro de 1994, reforça ainda mais essa idéia, reafirmando em manchete que “Plano Real aquece publicidade”33, mostrando que o mercado publicitário reagiu favoravelmente ao Plano Real, destacando que o meio jornal foi diretamente beneficiado com a estabilização da moeda e da economia. Em palestra de
“em entrevista ao ‘Roda Viva’ (TV Cultura)”, José Dirceu “considerou ser ‘assunto de Estado’ o risco de falência de empresas que têm função pública.”
32
Cf. Jornal ANJ, n°. 82, de julho/agosto de 1994. 33
Francisco Mesquita Neto, vice-presidente da ANJ e diretor superintendente do Estado de São Paulo, é apresentado um quadro sintético34 através do qual ele demonstra que a circulação média dos jornais diários brasileiros cresceu quase 70% entre 1990 e 1999, com um quadro positivo no campo publicitário. O faturamento cresceu acima da média: foi de 22,5% para 23,8 % (dados de 1998). Isso, apesar da crise econômica vivida pela Brasil no biênio de 1998/1999, com a crise cambial. O crescimento foi de quase 70% na circulação de jornais, passando de 4,276 milhões de exemplares vendidos para 7,245 milhões.
No período de 1995 a 2000 os principais jornais do país adquiriram e instalaram novos parques gráficos, atingindo uma cifra próxima de U$ 600 milhões em investimentos, sendo que de 1997 a 2000, dezesseis jornais desenvolveram planos de renovação ampla de parques gráficos. (Vários programas ainda estavam em andamento em 2000). Em 1995, por exemplo, o Grupo Frias inaugurou seu novo parque gráfico, em Tamboré (Grande São Paulo), que custou, na ocasião, US$ 120 milhões, investimento pago na época com recursos próprios, com a presença do presidente Fernando Henrique. Trata-se de um parque gráfico, projetado para impressão a cores, e um dos mais modernos da América Latina. A família Frias era acionista majoritária na UOL (Universo Online), maior empresa de Internet na América do Sul e também controlava a Plural Editora e Gráfica, uma das maiores com serviços de rotativa off set para terceiros. Dois anos depois, o Grupo Marinho investia na construção do seu novo parque gráfico, em Duque de Caxias (RJ), numa área de 160 mil metros quadrados, cujo prazo de inauguração estava prevista, inicialmente, para 1997, a um custo de US$ 100 milhões, afim de atingir a uma tiragem do jornal O Globo, aos domingos, de 750 mil exemplares.35 Era um sintoma da ótima fase da economia, espelhada no aumento no faturamento publicitário.
Interessante observar que a ANJ, mesmo ante a iminência de uma desvalorização cambial que viria no final de 1998 e início de 1999, e a crise financeira do Grupo Marinho logo em seguida, puxando o resto das empresas de comunicação endividadas, mostra as fotos de sorridentes executivos dos principais grupos de comunicação do país e um editorial super- otimista, falando “em crescimento sustentado.”36 A ANJ comenta nesta mesma edição que o crescimento no faturamento das empresas foi quase o triplo do crescimento do PIB brasileiro: o crescimento do faturamento do setor de mídia variou de 5 a 15%, em 1996, sendo de 15 %
34
Cf. Jornal ANJ, n°.149, julho de 2000. 35
Cf. Jornal ANJ, nº. 111, de janeiro de 1997. A edição do Jornal ANJ, de março de 1998, traz nova matéria sobre a inauguração do novo parque gráfico dos Marinhos, comentando sobre o adiamento da inauguração, informando que as obras seriam concluídas em agosto daquele ano, trazendo uma foto de Roberto Marinho no canteiro de obras, e informa o novo custo total da obra agora orçada em US$ 120 milhões.
36
no jornal O Globo da família Marinho. O nível de satisfação do setor é assim expressado: “O ano de 1997 será de um crescimento inferior, em termos de faturamento publicitário ao do ano de 1996 e bem modesto do que a verdadeira explosão que se verificou após a implantação do Plano Real, a partir de 1994.” “Baseado em tudo isso, acredito que 1997 será um bom ano para os jornais..., vamos intensificar nosso empenho pela modernização e buscar maior eficiência e competitividade”37, afirmava um satisfeito Paulo Cabral de Araújo, presidente da ANJ.
A trajetória de crescimento do setor e o faturamento com o Plano Real prossegue sem solavancos até o primeiro semestre de 1998. A ANJ destaca no período que o mercado publicitário cresceu 12,38%, atingindo um faturamento de US% 8,648 bilhões, o que representa 1,1% do PIB. Afirma que todos os meios de comunicação aumentaram o faturamento com publicidade (apesar de o faturamento dos jornais ter sido melhor que dos anos anteriores).38 E traz uma reportagem sobre a expansão do parque gráfico do Correio Braziliense (Diários Associados), de Brasília, com uma área total de 7.500 metros quadrados, com a aquisição de uma nova impressora, a custo de U$ 14,200 milhões, com o custo total da obra estimado em U$ 30 milhões.
A edição de abril de 1998 do jornal da ANJ traz matéria sobre o lançamento pela Editora Globo, do Grupo Marinho, da revista semanal Época39, com um custo total de U$ 40 milhões, espelhada no modelo da revista alemã Focus - que havia alcançado, em 1997, 800 mil exemplares, brigando com a liderança da Der Spiegel, com tiragem de 1,2 milhão. Na mesma reportagem, a ANJ comenta que o mercado publicitário para revistas semanais tem crescido acima da média nacional, afirmando que os grandes grupos de comunicação estão tentando se tornar fortes em outros mercados para enfrentar a globalização econômica. A Época viria para disputar o mercado com a revista semanal do Grupo Abril, a Veja, líder nacional com uma tiragem de 1,16 milhão de exemplares.
Importante lembrar que no ano de 1998, afirma a mesma edição do ANJ, o então presidente do BNDES, o economista Luiz Carlos Mendonça de Barros havia autorizado o banco estatal a conceder empréstimos ao setor de comunicação em algumas áreas, o que foi saudado pelo presidente da ANJ na ocasião, Paulo Cabral de Araújo, alegando que isto era “natural, pois a indústria da comunicação estava investindo pesadamente em modernização e competitividade.” (A medida refere-se a alguns investimentos em maquinário e aquisição de
37
Cf. Jornal ANJ, idem. 38
Cf.Jornal ANJ, n°. 123, janeiro /fevereiro de 1998. 39
papel). O Grupo O Estado foi um dos que se utilizou das linhas de créditos oferecidas pelo BNDES na modernização de sua estrutura física. A família Mesquita construiu um novo prédio de 3 mil metros quadrados, com investimentos de R$ 4,5 milhões, parte do financiamento oriundos do BNDES40.