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2.5 Luz Arquitetural e Luz Tarefa

2.5.3 Luz artificial complementar

A percepção do espaço durante o dia e sua luz não devem ser descaracterizados pela iluminação artificial, que poderá pensar em “corrigir” e trabalhar uma iluminação ambiental. Pensamos que a iluminação natural durante o dia, no ambiente, revela a verdadeira essência da arquitetura e que a iluminação artificial, durante o mesmo período, deverá ser pensada como complemento para alguma tarefa, como reforço e objetivo definido. E esta diferenciação precisa ser perceptível como linguagem, não interferindo na

Figura 52: Luz direcional divina e espiritual vinda do alto no panteão romano.

Fonte: FUTAGAWA, Yukio. Light and space-modern architecture-vol. 1 Japan, AD.A. edita Tokyo co. ltda, 1994.

leitura do espaço. Em algumas situações, a luz artificial poderá trabalhar como um complemento expressivo da linguagem da arquitetura, especialmente em edifícios contemporâneos, já pensados com estas alternativas tecnológicas. Edifícios históricos, construídos antes do advento da iluminação elétrica deverão se beneficiar desta, é evidente, especialmente no período noturno, mas a essência do espaço, se luz difusa, claro/escuro, cor deverão ser mantidas. Durante a noite, aí sim, a luz artificial também irá assumir o papel da luz ambiental, tendo ainda sua iluminação complementar para destaques ou reforços em tarefas ou objetos dentro do espaço. Percebemos então claramente este entendimento entre iluminação artificial - durante o dia e a noite - como momentos distintos da luz.

A Necessidade ou preferência por acionar o sistema de iluminação artificial pode ser um indicativo destas situações: a luz natural não consegue atingir níveis mínimos que promovam visibilidade fácil, ou existe muita luz externamente e para reduzir ofuscamentos e reduzir os contrastes. Em outra situação muito frequente, a existência de radiação direta e a necessidade de luz controlada, leva ao fechamento de cortinas e consequente acionamento total da iluminação artificial, e não apenas com função complementar. É muito frequente que, mesmo a iluminação natural estando confortável e com qualidade, muitas vezes a iluminação artificial está acionada, sem muita contribuição, pois acender ou apagar depende do usuário. Outros mecanismos podem efetivamente contribuir como sensores distribuídos e agrupados em função da distribuição da luz natural.

O estudo da distribuição natural em períodos significativos, ao longo do ano, pode ser usado para sugerir a forma e os sistemas de controle elétrico da iluminação artificial. A separação em circuitos independentes com acionamento manual, em função da proximidade

Figuras 53 e 54: Luminárias pendentes com luz direta localizada para leitura e geral indireta para revelar arquitetura, valorizando suas proporções e diminuindo contrastes muito fortes se houvesse apenas luz direta nesta altura. A proporção do espaço durante a noite estaria cortada na altura da instalação.

Fonte: MILLET, Marietta S. Light revealing architecture. NY, Van Nostrand Reinhold, 1996.

e afastamento das aberturas de luz natural, ou mesmo sensores de luz e dimmers, que ajustam o nível de iluminação para o planejado, são formas de integração da luz natural e artificial. A racionalização energética e consequente economia de energia, com a redução de acionamento de luz artificial só ocorrerão quando aspectos da qualidade da luz, a partir do entendimento da percepção e exigências humanas de luz, forem mais bem compreendidos pelos projetistas.

A maneira como as superfícies parecem iluminadas - contrastes e hierarquias - definirão a noção de limites na percepção do espaço. Identificamos um espaço pelos seus limites, planos, pisos, paredes e tetos. O foco determina para onde olhar, se vertical ou horizontal. Um plano muito mais escuro que os demais, possivelmente induzirá as pessoas a acionarem a iluminação artificial naquele local. Alguns autores mencionam que a luz artificial deveria se diferenciar da luz do sol, no período noturno, nos seguintes aspectos:

• Pouca intensidade a fim de permitir a visualização do ambiente noturno distinto do diurno;

• permitir contrastes de claros e escuros numa mesma área iluminada para reconhecimento da plasticidade do espaço iluminado;

• a distribuição da luz artificial não deverá ocasionar fortes recortes de uma mesma superfície iluminada, a fim de garantir o reconhecimento da totalidade da área trabalhada;

• a tonalidade da luz artificial (temperatura de cor da lâmpada) deveria ser o mais próxima possível da cor do sol na entrada da noite, ou cair da tarde;

• a luz do sol deverá ser oculta ou minimizada o mais que possível a visualização da fonte luminosa para evitar ofuscamentos do observador e permitir o reconhecimento da área iluminada;

• a qualidade da luz do sol só é igual à da luz incandescente (mesma composição espectral), sendo que esta temperatura de cor igual à da luz do sol no final de tarde (3000K). Considerando que o cair da tarde é o período do dia que antecede a noite, o mais natural seria entrar nela empregando lâmpadas que tivessem a mesma tonalidade da luz do final da tarde. A tonalidade branca das Lâmpadas age de forma oposta à ideia de que a noite é um intervalo no ritmo de vida do homem e tenta transpor para o momento deste intervalo, o ambiente do dia na sua etapa de mais intensa produção;

• para iluminação geral, luz branca neutra e luz dia são mais recomendadas no período da luz do dia, pois se integram em aparências, sendo mais harmoniosas.

A necessidade humana de iluminação vai muito além da necessidade visual para desenvolver uma tarefa específica. A arquitetura nos envolve com seus espaços, planos, cores, texturas e nos permite uma vivência sensorial que não podemos vivenciar de outra forma se não estando contido dentro do ambiente.

Devemos pensar que a luz total planejada não tem que ser necessariamente uniforme. As variações de iluminâncias são muito bem-vindas, conforme as características e funções dos espaços. Para se pensar em luz integrada devemos entender a intenção do projeto para o ambiente. Para ser verdadeiramente arquitetura, tem que ter poesia, que segundo Louis Khan seria obtida por meio da luz. Se o vazio nada significa, é preciso

enfeitiçar os planos e superfícies que recebem a luz incidente e refletem em nossos olhos as

cores e texturas das formas, realçadas pelas sombras. A sombra faz parte da luz, na medida em que a sombra permite que o objeto iluminado se destaque e seja atrativo ao nosso olhar. Tudo o que vemos é luz refletida. Nos trabalhos delicados, nem uma luz totalmente difusa, nem uma luz com fortes sombras é conveniente.

Toda nossa memória visual está ligada aos efeitos da luz do sol. Nossa memória de luz apresenta relação com a natureza gerando conotações visuais, cromáticas e dinâmicas que funcionam como arquétipos visuais: o espaço branco e frio das geleiras, os raios de luz que penetram entre as árvores de uma floresta, a luz da superfície de um lago na visão submersa, o ouro sem fim da tarde, em matizes dramáticos que desaparecem anunciando o escuro da noite... Todas estas imagens estão associadas a sentimentos diversos e alimentam aspectos arquitetônicos da luz do dia e da iluminação artificial.

Figura 55: Iluminação geral natural através da clarabóia e luz localizada artificial complementar nas prateleiras e mesa de trabalho. Fonte: MILLET, Marietta S. Light revealing architecture. NY, Van Nostrand Reinhold, 1996.

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