4.4 Desenho Metodológico
4.4.1 Método de Estudo de Caso: Process Tracing
Por isso, o pesquisador escolheu uma aproximação metodológica qualitativa com ênfase no método de investigação de estudo de caso especificamente em sua ênfase histórica, o process
tracing (BENNETT; GEORGE, 2005).
Tal escolha qualitativa pareceu ser mais adequada, pois permitiu uma abordagem mais ín- tima com o objeto e com o contexto de estudo. O interesse foi buscar uma abordagem mais naturalista48 que procurava entender os fenômenos dentro de contextos específicos em que
fosse dado maior ênfase nas relações sociais complexas. Era importante se enquadrar em um tipo de análise que levasse em conta a complexidade plural das esferas da vida e tivesse uma perspectiva teórica mais interpretativa, porém ainda positivista – hipotética – das experiências presentes nas mesmas. Por isso, a necessidade de usar uma metodologia mais indutiva, ou se- ja, que partisse da observação dos dados para entender os fenômenos estudados, buscando uma visão heurística, ou seja, que identificasse os mecanismos causais existentes no processo (FLICK, 2009; GRAY, 2012).
Ademais, outro aspecto importante para o trabalho, e presente na metodologia qualitativa, foi a interatividade entre o pesquisador e o objeto de estudo. Nesse ponto, a aproximação com o que se estudou foi fundamental para se construir uma visão mais profunda que entendesse razoavelmente a arquitetura do único caso estudado – representado pela formação da agenda da PNJ. Isso significa que a abordagem levou em consideração uma arquitetura de Small-N em que N=1, ou seja, a PNJ.
Para o presente trabalho, a metodologia qualitativa representou o ponto de partida para a escolha do método que mais se adequou ao objeto de estudo. Os paradigmas de pesquisa apre- sentados acima formaram a base para a aquisição dos dados do trabalho (PORTA; KEATING, 2008; GRAY, 2012).
4.4.1 Método de Estudo de Caso: Process Tracing
Como colocado acima, os paradigmas que orientaram essa pesquisa indicaram um tipo de metodologia com base em uma pesquisa qualitativa, mas também exigiram um método que
48 A tradição naturalista informa que o pesquisador está preocupado com um desenho metodológico que
demandará uma coleta de dados em vários locais representativos para dar sustentação teórica às conclu- sões. Tais dados são coletados tendo-se inferência mínima do pesquisador assim como relatos literais dos participantes (GRAY, 2012).
levasse em conta os tipos de questionamentos exploratórios e fosse capaz de investigar empi- ricamente um fenômeno contemporâneo em profundidade levando em conta seu contexto.
Conquanto, como seu fenômeno e contexto eram muito semelhantes, foi necessário um método que conseguisse abordar muitas variáveis de interesse que contavam com muitas fon- tes de evidência para entender o surgimento do resultado. Rastrear os mecanismos era, assim, trivial (BENNETT; GEORGE, 2005; YIN, 2010). Por isso, foi pensado o uso do método de estudo de caso, mais especificamente o Process-Tracing.
Bennett e Checkel (2012) afirmam que o Process-Tracing surgiu da psicologia americana da década de 70 e foi apropriado por Alexander George na década de 80 com o objetivo de descrever o uso de evidências para fazer inferências sobre explicações históricas. Para esses autores, o process tracing pode ser considerado como a investigação dos passos no processo para realizar inferências sobre como determinado processo aconteceu e quando e como ele gerou o resultado de interesse.
É um processo que permite entender fenômenos sociais e políticos por meio da identifi- cação das relações e mecanismos causais entre uma variável dependente e o resultado. Além disso, é um método que força o pesquisador a considerar equifinalidade como princípio de pesquisa. Isso significa ter que considerar os possíveis caminhos nos quais o resultado pode ter ocorrido. E, obriga o pesquisador a mapear um ou mais caminhos de causa consistentes com o resultado estudado (BENNETT; GEORGE, 2005)
De acordo com a literatura atual, existe uma crítica à maneira centralizada de como se é pensado o método. Para Beach e Pedersen (2013), os estudos anteriores sobre essa ferramenta metodológica não enxergam muito bem as nuanças exigidas por cada tipo específico de estu- do de caso. Para eles, o process-tracing deve ser visto de três formas diferentes.
A primeira, representada pelo Theory-testing, tem como base de análise uma ou mais teo- rias que norteiam o trabalho (theory-center) . Para essa vertente, a relação entre causa, X, e resultado, Y, não pode ser vista sem a inferência de teorias de base no processo de identifica- ção dos mecanismos causais que ligam os mesmos. A busca por evidências torna-se uma comprovação das teorias utilizadas, saindo das teorias para a coleta de evidências. Nesse sen- tido, os mecanismos já foram teorizados e pretendem provar a relevância da teoria no caso escolhido. O foco é mais comprovatório da generalidade das teorias de base utilizadas por meio da presença ou ausência de evidências que levam aos mecanismos causais gerais (BEACH; PEDERSEN, 2011, 2013).
Já a segunda vertente, identificada pelo Theory-bulding, também tem como premissa uma ou mais teorias de base (theory-center). Contudo, essas teorias servem de parâmetro ou guia
para evidenciar a ligação entre X e Y sem que isso determine uma teorização dos mecanismos causais que ainda serão identificados na coleta de evidências. Isso significa que o Theory-
bulding passa da coleta das evidências para inferir manifestações observáveis que originam
mecanismos causais que podem vir a ser generalizados – oposto do theory-testing. Nesse sen- tido, a vertente extrapola os limites do estudo de caso único, apesar dessa generalização não significar uma perda das características de um estudo de caso. O foco é propor mecanismo generalizáveis dentro do quadro de casos semelhantes49 (BEACH; PEDERSEN, 2011, 2013).
Essa vertente pode ser utilizada em duas situações: (1) quando o pesquisador sabe a cor- relação entre X e Y, mas desconhece os potenciais mecanismos entre eles (Black-box), e (2) quando sabe o resultado (Y), mas não sabe as causas. Nessa segunda situação, a análise sai de (Y) para descobrir (X) (BEACH; PEDERSEN, 2011, 2013).
Por último, existe a vertente do Explaning Outcomes que parte de uma premissa centrada no caso (case-center) e não em teorias. Isso significa que essa última versão não tem teorias guias que ajudam ou determinam o estudo do caso. O foco é um caso específico que muitas vezes pode representar um caso desviante de teorias ou possuir um resultado (Y) ainda com processos causais desconhecidos e confusos. É interessante ressaltar que o objetivo dessa ver- tente é apenas explicar um resultado histórico construindo uma explicação minimamente sufi- ciente para o caso. Ou seja, rastrear os processos que resultaram Y, procurando explicações mínimas – mas não absolutas – que levaram ao resultado por meio de inferência de mecanis- mos e ou conglomerados de causas que constroem um mecanismo composto que explica o caso. Como a construção das evidências se torna muito específica, o Explaning Outcomes não possui características generalizantes, pois considera que o caso de estudo é muito específico e único sem possibilidades de replicação (BEACH; PEDERSEN, 2011, 2013). A Tabela 2 re- sume as vertentes mostradas .
49Para Beach e Pedersen (2013), a variante do theory-buiding não é muito utilizada na literatura e eles desconhecem exemplos que mostrem como ele deve ser seguido.
Tabela 2 - Resumo das principais diferenças entre as três formas de Process-Tracing
Teste de Teoria (Theory-
Testing) Construção de Teo-ria (Theory-Bulding) Explicando um Resulta- do (Explaning Outcomes) Propósito da Análise – situa- ção de pesquisa Situação um
Correlação entre X e Y foi achada, mas existe evidên- cia que mostre o mecanismo causal conectando X e Y?
Situação dois
Construir um meca- nismo causal conec- tando X:Y baseado na evidência no caso.
Situação três
Explicar resultado históri- co confuso construindo explicação minimamente suficiente no estudo de caso. Ambições do estudo Centrado na Teoria Theory-Centric Centrado na Teoria Theory-Centric Centrado no Caso Case-Centtic Entendento os mecanismos causais Sistemático (generalizável dentro do contexto) Sistemático (generalizável dentro do contexto) Mecanismos e conglome- rados de caso específico Sistemáticos, não- sistemáticos (caso especí- fico) O que realmen- te está sendo rastreado? Único, Mecanismo generalizável Único, Mecanismo generali- zável
Caso específico, meca- nismo composto que ex- plica o caso Tipos de infe- rências feitas (1) Partes do mecanismo causal presente/ausente (2) Mecanismo causal é presente/ ausente no caso
Manifestações obser- váveis refletem o me- canismo escondido
Suficiência mínima da explicação
Fonte: Traduzido de Beach e Pedersen (2013).
Tendo em vista as exigências exploratórias da pergunta e do objetivo central da pesquisa, o trabalho optou pelo uso da vertente theory-bulding. Isso porque, a pesquisa parte de uma premissa centrada na teoria (theory-center) que age como base para guiar a busca por padrões sistêmicos no material empírico. Em relação às variáveis X e Y, o presente trabalho parte da noção teórica de que a redemocratização foi o elemento institucional que possibilitou o sur- gimento da PNJ. E, apesar de não se conhecer exatamente os mecanismos que levaram X para Y, a pesquisa aponta que a redemocratização (institucionalização da CRFB/88) foi a principal causa (X) que forneceu condições viáveis para o estabelecimento das políticas sociais no Bra- sil. Contudo, saber quais foram as principais evidências desse caso das políticas transversais e como foi o desenrolar do processo se mostrou algo importante e interessante a ser pesquisado.
Para facilitar a visualização do esquema do método de process-tracing adotado, a Figura 7, abaixo, exemplifica as partes do processo. Em primeiro lugar, a teoria de base é representa- da pelo retângulo cinza que fornece as bases de entendimento do caso. Em segundo observa- se a identificação da causa, X, e o resultado, Y, em que os mecanismos causais (MC) continu- am desconhecidos e representam o objetivo do trabalho. Para identificá-los, parte-se para o passo 1 afim de coletar as evidências e por meio de uma narrativa empírica dos dados inferir a
existência de manifestações observáveis (passo 2) que devem no, passo 3, inferir a existência de um mecanismo causal (MC) (BEACH; PEDERSEN, 2013).
As Entidades e Atividades são, respectivamente, os agentes que geram forças causais e os produtores de mudança. A dinâmica indica que o agente gera a força que a atividade passa para o mecanismo causal e gera as condições para a ocorrência da próxima parte do mecanis- mo causal seguinte. O princípio aqui não é detectar todos os mecanismos causais – o que seria impossível – mas identificar o roteiro pelo qual as partes dos mecanismos parecem estar liga- dos de forma a resultar em Y (BEACH; PEDERSEN, 2013).
Figura 7 - Esquema de Process Tracing versão Theory-Bulding
Fonte: Adaptado e traduzido de Beach e Pedersen (2013)
Para facilitar o desenvolvimento do trabalho, foi utilizado o roteiro (Cheklist) proposto por Beach e Pedersen (2013) que perpassa as fases do processo de pesquisa. Ele possui foco na seleção de caso, da vertente a ser usada e a forma que essa deve ser abordada. O roteiro em questão é apresentado em duas partes: um mostrando a forma de escolha do tipo de process-