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2.1) Método e Seus Níveis de Apresentação

A hipótese que trabalhamos é a de que o método utilizado por Kant ao longo de toda a sua reflexão crítica se apresenta necessariamente em dois níveis e se adapta a cada uso específico da

razão. Primeiramente, por método Kant entende o autoexame crítico e sistemático da razão, a fim

de determinar as fontes e o alcance de seus conceitos, e também os limites para o avanço do conhecimento (A 708 / B 736). Defendemos, com isso, haver, primeiro, um nível de apresentação como modo de operação, a saber, o procedimento de análise e síntese (Lógica Transcendental /

Doutrina Transcendental dos Elementos) e, segundo, também um nível de apresentação que diz

respeito à propagação deste primeiro como conjunto de conhecimentos a serem, não apenas transmitidos, mas, sobretudo, ensinados à humanidade, respeitando certos limites (Doutrina

Transcendental do Método).

Não é fortuito que Kant organize as três críticas dentro dessa estrutura. Mostraremos também que grandes comentadores da filosofia kantiana deixaram de lado o segundo capítulo da KrV, tratando-o ou como um acidente ou como uma parte sem tanta importância. O método pode ser exposto de forma satisfatória na primeira crítica, a qual fundamenta todo o percurso metodológico de Kant até seus últimos momentos filosóficos. Com isso, o primeiro nível de apresentação do método mostra, organizadamente, quais as condições de possibilidade de produzir conhecimentos; o segundo, por sua vez, expõe o que fazer com esses conhecimentos, como direcioná-los e aplicá-los segundo os interesses da razão. Isto mostrará que o método crítico de Kant possui como princípio a propagação ao longo de todo o conjunto de sua filosofia (1781-1803); cabe a nós aqui provarmos que isto de fato ocorreu.

2.1.1) Primeiro Nível de Apresentação do Método: Procedimento de Análise e Síntese

O primeiro nível de apresentação do método pode ser entendido como o combinado de análise e síntese, que se constrói, propriamente, na Analítica Transcendental da KrV. Neste primeiro nível de apresentação, o procedimento de análise e síntese se vincula a uma função de articulação, tal como uma ferramenta utilizada para ligar as categorias do pensamento puro aos objetos. É curioso notar, no entanto, que a tarefa da filosofia de saber “como são possíveis os juízos sintéticos a priori” (B 19), a qual expõe o coração do procedimento semântico, teve a sua formulação exposta de forma

cabal apenas na edição B da KrV (1787).

Apesar desta função estar posta, mesmo sem uma clara formulação, na edição A da KrV (1781), na B Kant deixou completamente claro que não há um hiato entre o pensamento e o mundo, o que na primeira edição deixava reticências. Em uma palavra, podemos chamar este primeiro nível de apresentação do método de tarefa semântica. Pensamos que a teoria semântica é uma forma de resolução dos problemas razão (Loparic, 2013)19, mas que não se encerra aqui. Isto significa que

Kant propõe ser a tarefa fundamental da filosofia saber como são possíveis juízos que tratem de objetos a priori de maneira sintética, por conta de a reposta a esta questão deve servir para resolver uma mais fundamental, a saber: “como é possível a metafísica enquanto ciência?”20; ao resolver

aquela tarefa seria possível proceder cientificamente em filosofia. O resultado que queremos colher ao tratar o procedimento de análise e síntese como o primeiro nível do método é que não basta ter um discurso com sentido sobre o mundo, mas mudá-lo para melhor sob bases racionais.

O fundo conceitual deste primeiro nível de apresentação do método é a cunhagem por parte de Kant de uma faculdade transcendental de julgar.Por isso, “essa doutrina trata, pois, na sua analítica, de conceitos, juízos e raciocínios, em conformidade com as funções e a ordem dessas faculdades do espírito, compreendidas sob a denominação lata de entendimento em geral” (A 131-2 / B 169). Contudo, os raciocínios, que correspondem a pensamentos racionais sem base empírica factual, não podem ser tratados como conhecimentos válidos e apodíticos. Os raciocínios, sem um limite determinado que não é posto na faculdade de julgar, expõe seus resultados além do cientificamente determinável. Isto não significa que não se pode referir, semanticamente, a objetos que não são meramente empíricos, contudo esta referência precisa reconhecer-se como limitada e não constitutiva de conhecimentos. A função transcendental desta nova lógica organizada por Kant tem por objetivo, assim, expor as bases da articulação entre o entendimento, em sentido restrito, e a faculdade de julgar:

O entendimento e a faculdade de julgar têm, pois, na lógica transcendental o cânone do seu uso objetivamente válido, do seu uso verdadeiro portanto, e pertencem à parte analítica desta. Porém, a razão, nas suas tentativas para descobrir algo a priori acerca dos objetos e alargar o conhecimento para além das fronteiras

19 “Em Crítica da razão pura (1781), Kant se propõe a explicitar as condições nas quais um problema da razão pura teórica é solúvel. A doutrina da soludibilidade desses problemas exige, entre outras coisas, que se responda a seguinte pergunta, considerada por Kant tarefa fundamental da crítica da razão pura teórica: como são possíveis os juízos sintéticos a priori teóricos? Essa tarefa é solucionada no interior de uma teoria a priori da referência e do sentido dos conceitos teóricos a priori, e da verdade dos juízos sintéticos a priori. Entendo que essa teoria pode e deve ser interpretada como uma semântica a priori ou transcendental. Com o tempo, Kant estendeu o seu programa de crítica da razão teórica aos problemas que a razão pura se coloca em todos os outros domínios abrangidos pelo discurso filosófico. De acordo com isso, a tarefa fundamental da filosofia transcendental passou a ser a seguinte: como são possíveis os juízos sintéticos a priori no geral?” LOPARIC, Z. Os problemas da razão pura e a semântica transcendental. In: FAGGION, A; Beckenkamp, J. Temas semânticos em Kant. São Paulo: DWW, 2013. p. 19. 20 KANT, I. Prolegômenos a toda metafísica futura que queria apresentar-se como ciência (tradução de Artur

da experiência possível, é completamente dialética e as suas afirmações ilusórias não se acomodam, de modo algum, com um cânone tal como a analítica o deve conter. A analítica dos princípios será portanto apenas um cânone para a faculdade

de julgar, que lhe ensina a aplicar aos fenômenos os conceitos do entendimento,

que contêm as condições das regras a priori. Por este motivo, ao tratar do tema dos autênticos princípios do entendimento, servir-me-ei da denominação de doutrina

da faculdade de julgar, designando assim mais rigorosamente esta tarefa (A 131-

2 / B 170-1).

A analítica dos conceitos mostra quais são os conceitos puros do entendimento e de que modo estes podem ser justificados em seu número e em suas funções apresentadas pela forma lógica de todos os juízos possíveis e existentes. Aqui se inicia, em continuidade, o tratamento dos princípios do uso dos juízos, que significa, mais precisamente, que “se é definido o entendimento em geral como a faculdade de regras, a faculdade de julgar será a capacidade de subsumir a regras, isto é, de discernir se algo se encontra subordinado a dada regra ou não (casus datae legis)” (A 133 / B 171). Por isso, a faculdade de julgar é uma função crucial no procedimento metodológico. A filosofia transcendental, desse modo, possui como condição primordial indicar de maneira a priori não somente a condição geral para a aplicação da regra, mas também o caso em que se aplicará. Este total domínio da interpretação dos fatos que se apresenta via faculdade de julgar supõe que tais meandros que fazem a ligação são, de fato, as condições de possibilidade de um discurso com sentido. Para tal, assim,

Esta doutrina transcendental da faculdade de julgar deverá conter dois capítulos:

o primeiro, que trata da condição sensível, a única que permite o uso dos conceitos

do entendimento, isto é, do esquematismo do entendimento puro; o segundo, que trata dos juízos sintéticos que decorrem a priori, sob essas condições, dos conceitos puros do entendimento e que constituem o fundamento de todos os outros conhecimentos a priori, ou seja, dos princípios do entendimento puro (A 136 / B 175).

Primeiro: faz-se mister que uma doutrina do esquematismo puro diga respeito às condições de possibilidade da subsunção de um objeto em um conceito, isto é, “a representação do primeiro tem de ser homogênea à representação do segundo” (A137 / B 1f76). A representação é o ponto central aqui em voga, na medida em que é necessário que algo se torne objeto para ser julgado de forma acurada. Representar um objeto é, ao mesmo tempo, trazê-lo para uma esfera, que ele mesmo não pode se apresentar em sua inteireza física, o que já foi discutido por meio do conceito de intuição.

Ora, esta reflexão tem sua pertinência devido ao fato de que necessita responder a uma questão central para que sua validade seja, completamente, provada, a saber, “como será pois possível a subsunção das intuições nos conceitos, portanto a aplicação da categoria aos fenômenos, se ninguém poderá dizer que esta, por exemplo, a causalidade, possa também ser intuída através dos sentidos e esteja contida nos fenômenos?” (A138 / B 177). Esta pergunta será respondida pela

doutrina transcendental do esquematismo dos conceitos puros do entendimento.

Aqui se apresenta o avanço de Kant em relação ao ceticismo britânico, principalmente, seu debate com Hume; Kant propõe o argumento da mediação entre os conceitos e as intuições. O que explica tal mediação é algo central para que haja experiência, isto é, o esquema transcendental. O que Kant apresenta, assim, é uma espécie de ponte entre os conceitos e as intuições, mas tal ligação pode se dá de duas maneiras, a depender da finalidade a ser alcançada. Isto significa que pode haver uma ligação indireta, por meio de símbolos e diz respeito, mais precisamente, a fins relativos a arte, ou tal ligação pode ser direta e se estabelecer por meio de esquemas, o qual é o caso aqui.

Kant trata a doutrina transcendental do esquematismo do entendimento como uma função central no método de seu primeiro projeto de filosofia. Por conta disso, “daremos o nome de esquema a esta condição formal e pura da sensibilidade a que o conceito do entendimento está restringido no seu uso e o de esquematismo do entendimento puro ao processo pelo qual o entendimento opera com esses esquemas” (A 140 / B 179). Aqui se estabelece a fronteira entre as condições empíricas e as condições formais de possibilidade de um método que dê conta do mundo, pelo menos no sentido cognitivo. Neste sentido, é preciso nesta etapa fazer uma sutil distinção entre o que Kant entende por esquema e por imagem; essa distinção é, extremamente, importante ao modo de operação da função judicativa do entendimento e da apresentação deste primeiro nível metodológico.

O esquema é sempre, em si mesmo, apenas um produto da imaginação; mas, como a síntese da imaginação não tem por objetivo uma intuição singular, mas tão-só a unidade na determinação da sensibilidade, há que distinguir o esquema da imagem. Assim, quando disponho cinco pontos um após o outro ... tenho uma imagem do número cinco. Em contrapartida, quando apenas penso um número em geral, que pode ser cinco ou cem, este pensamento é antes a representação de um método para representar um conjunto, de acordo com certo conceito, por exemplo mil, numa imagem, do que essa própria imagem, que eu, no último caso, dificilmente poderia abranger com a vista e comparar com o conceito. Ora é esta representação de um processo geral da imaginação para dar a um conceito a sua imagem que designo pelo nome de esquema desse conceito. De fato, os nossos conceitos sensíveis puros não assentam sobre imagens dos objetos, mas sobre esquemas (A 140-1 / B 179- 80).

É por meio do esquematismo e dos esquemas, que se pode propor as bases para que os conceitos sejam referências semânticas à sensibilidade, produzindo um efeito de conferência de significado aos objetos sensíveis. Isto posto, o esquema, com isso, é aquilo que torna representável o que contém em cada categoria, funcionando como “determinações a priori do tempo, segundo regras; e essas determinações referem-se, pela ordem das categorias, respectivamente à série do tempo, ao conteúdo do tempo, à ordem do tempo e, por fim, ao conjunto do tempo no que toca a todos os objetos possíveis” (A 145 / B 185).

Isto ocorre por conta de o esquema ser um produto das condições de possibilidade da imaginação, que se refere à determinação do sentido interno em geral, segundo as condições da sua forma (o tempo), tendo em vista todas as representações. Os esquemas, por isso, são produtos da imaginação, mas não tratam apenas de imagens, assim como cada esquema se refere a um grupo específico de categorias, ligando diretamente o conceito ao mundo.21 Os esquemas, com isso, são

responsáveis pelo que se chama de significação, isto é, as condições verdadeiras que conferem aos conceitos uma relação com os objetos. As categorias, as quais Kant se refere como princípios reguladores da experiência e da construção da ligação com os objetos, servem como suportes pautados em conhecimentos e ligadas de modo universal a esta experiência transcendental.22

Portanto, o esquematismo dos conceitos puros do entendimento faz-se crucial na função semântica,23 tanto ao ajudar a responder como são possíveis os juízos sintéticos a priori quanto ao

tornar algo, que em tese parece completamente abstrato, uma função essencial de relação com o mundo. Isto posto, é possível agora explicar por que a faculdade de julgar transcendental possui validade ao ligar conceitos puros do entendimento a juízos sintéticos a priori. Esta base esquemática, então, permite fundamentar o uso categorial expresso por meio de juízos: a tarefa semântica.

Segundo: Kant busca saber de que maneira as categorias podem se referir à experiência possível; por conta disso, “é a relação das categorias à sensibilidade em geral que terá, por isso mesmo, de expor integral e sistematicamente todos os princípios transcendentais do uso do

21 “Por tudo isto se vê o que contém e torna representável o esquema de cada categoria: o da quantidade, a produção (síntese) do próprio tempo na apreensão sucessiva de um objeto; o esquema da qualidade, a síntese da sensação (percepção) com a representação do tempo, ou o preenchimento do tempo; o da relação, a relação das percepções entre si em todo o tempo, (quer dizer, segundo uma regra de determinação do tempo) e, por fim, o esquema da modalidade e suas categorias, o próprio tempo como correlato da determinação de um objeto, se e como o objeto pertence ao tempo” (A 145 / B 184).

22 “Mas salta também aos olhos que, se os esquemas da sensibilidade realizam, em primeiro lugar, as categorias, também igualmente as restringem, isto é, as limitam a condições, que se situam fora do entendimento (isto é, na sensibilidade). Daí que o esquema seja, propriamente, só o fenômeno ou o conceito sensível de um objeto, em concordância com a categoria […] De fato, os conceitos do entendimento, mesmo depois de abstraída qualquer condição sensível, conservam um significado, mas apenas lógico, o da simples unidade das representações, às quais porém não é dado nenhum objeto e, portanto, nenhuma significação que possa proporcionar um conceito do objeto […] Assim, as categorias sem os esquemas são apenas funções do entendimento relativas aos conceitos, mas não representam objeto algum. Esta significação advém-lhes somente da sensibilidade, que realiza o entendimento ao mesmo tempo que o restringe” (A 146-7 / B 186-7).

23 “Creio ser possível mostrar que, em Kant, 1) o método combinado se aplica tanto aos problemas de prova como aos problemas de determinação, 2) o ponto de partida da análise são, no caso de problemas de determinação, construções e exemplos intuitivos e, no caso de problemas de prova, proposições supostas como verdadeiras e exemplificadas na intuição sensível, 3) a análise propriamente dita (transformação) tem tanto o sentido proposicional, como construcional, 4) a proposicional procede tanto por dedução (e nesse caso o método permite o uso da reductio ad absurdum), como hipóteses, 5) os “princípios” buscados pela análise podem ser tanto hipóteses empíricas, como proposições ou mesmo ficções heurísticas a priori, 6) a síntese procede por construções efetivas e provas, 7) a análise é o método de pesquisa e de descoberta, e a síntese, o da elaboração científica do conhecimento assim descoberto, tal valendo inclusive para o sistema kantiano de conhecimentos puros.” LOPARIC, Z. A semântica transcendental de Kant. Campinas: Ed. UNICAMP, 2002. p. 44.

entendimento” (A 148 / B 187-8; grifo nosso). Com isso, faz-se necessário analisar o Sistema de Todos os Princípios do Entendimento Puro a fim de saber de que modo os princípios aqui em vista podem conter os fundamentos para os juízos, em geral. Desse modo, analisaremos como é possível que um princípio se refira a uma categoria de modo a priori.24 Esta é a chave para entendermos o

primeiro nível de apresentação do método transcendental-crítico kantiano.

Para alcançarmos o objetivo acima posto, é necessário explicar qual é a função dos juízos, uma vez que ele é o meio através do qual um princípio possui a possibilidade de se referir a uma categoria e esta, por sua vez, aos fenômenos. Segundo Kant, “o juízo é, pois o conhecimento mediato de um objeto, portanto a representação de uma representação desse objeto […] Podemos reduzir a juízos todas as ações do entendimento, de tal modo que o entendimento em geral pode ser representado como uma faculdade de julgar” (A 69 / B 94). Reduzir os juízos a ações do entendimento é um dos nossos argumentos para mostrar que Kant, de fato, divide o método em dois níveis de apresentação, mesmo sem afirmar isto, explicitamente.

Isto remete ao que dizíamos no princípio deste trabalho, a saber, que Kant possui argumentos implícitos, que precisam ser descortinados para entendermos, de modo mais profundo, seus procedimentos argumentativos. Isto posto, Kant traça desde a KrV a crucial diferença entre os dois principais tipos de juízos, a saber, juízos analíticos e juízos sintéticos. De fato, ele pretende mostrar que o aparelho cognitivo delineado na KrV expressa as condições de possibilidade de se referir a todo e qualquer fenômeno com acurácia objetiva:

Em todos os juízos, nos quais se pensa a relação entre um sujeito e um predicado (apenas considero os juízos afirmativos, porque é fácil depois a aplicação aos negativos), esta relação é possível de dois modos. Ou o predicado B pertence ao sujeito A como algo que está contido (implicitamente) nesse conceito A, ou B está totalmente fora do conceito A, embora em ligação com ele. No primeiro caso chamo analítico ao juízo, no segundo, sintético. Portanto, os juízos (os afirmativos) são analíticos, quando a ligação do sujeito com o predicado é pensada por identidade; aqueles, porém, em que essa ligação é pensada sem identidade, deverão chamar-se juízos sintéticos. Os primeiros poderiam igualmente denominar-se juízos explicativos; os segundos, juízo extensivos; porque naqueles o predicado nada acrescenta ao conceito do sujeito e apenas pela análise o decompõe nos conceitos parciais, que já nele estavam pensados (embora confusamente); ao passo

24 “Esta tentativa alcança o êxito desejado e promete à Metafísica o caminho seguro de uma ciência na sua primeira parte, dado que ela realmente se ocupa com conceitos a priori cujos objetos correspondentes podem ser dados adequadamente na experiência. Após esta mudança na maneira de pensar, pode-se com efeito explicar muito bem a possibilidade de um conhecimento a priori e, mais ainda, dotar de provas satisfatórias as leis que subjazem a priori à natureza enquanto conjunto de objetos da experiência... Entretanto, na primeira parte da Metafísica esta dedução da nossa faculdade de conhecer a priori conduz a um resultado aparentemente muito prejudicial ao fim inteiro da mesma e do qual se ocupa a sua segunda parte, a saber, que com esta faculdade jamais podemos ultrapassar os limites da experiência possível. (...) após ter sido negado à razão especulativa todo o progresso neste campo do suprassensível, agora nos resta ainda ver se no seu conhecimento prático não se encontram dados para determinar aquele conceito transcendente do incondicionado e se, deste modo, de acordo com o desejo da metafísica, conseguimos elevar-nos acima dos limites da experiência possível com o nosso conhecimento possível a priori, mas apenas do ponto de vista prático.” (B XIX)

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