Instituto de Filosofia e Ciências Humanas
JOSÉ HENRIQUE ALEXANDRE DE AZEVEDO
A ANTROPOLOGIA COMO FINALIDADE DA FILOSOFIA EM KANT
CAMPINAS 2019
A ANTROPOLOGIA COMO FINALIDADE DA FILOSOFIA EM KANT
Tese apresentada ao Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Estadual de Campinas como parte dos requisitos exigidos para a obtenção do título de Doutor(a) em Filosofia.
Supervisor/Orientador: Daniel Omar Perez
ESTE TRABALHO CORRESPONDE À
VERSÃO FINAL DA
DISSERTAÇÃO/TESE DEFENDIDA PELO ALUNO JOSÉ HENRIQUE ALEXANDRE DE AZEVEDO, E ORIENTADA PELO PROF. DR. DANIEL OMAR PEREZ.
Campinas 2019
Universidade Estadual de Campinas
Biblioteca do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas Cecília Maria Jorge Nicolau - CRB 8/3387
Azevedo, Henrique,
1986-Az25a
A antropologia como finalidade da filosofia em Kant / José Henrique Alexandre de Azevedo. – Campinas, SP : [s.n.], 2019.
Orientador: Daniel Omar Perez.
Aze Tese (doutorado) – Universidade Estadual de Campinas, Instituto de Filosofia e Ciências Humanas. Ae1. Kant, Immanuel, 1724-1804. 2. Antropologia. 3. Racismo. 4. Misoginia. 5. Sexismo. I. Perez, Daniel Omar, 1968-. II. Universidade Estadual de Campinas. Instituto de Filosofia e Ciências Humanas. III. Título.
Informações para Biblioteca Digital
Título em outro idioma: Anthropology as the aim of philosophy by Kant Palavras-chave em inglês: Anthropology Racism Misogyny Sexism Área de concentração: Filosofia Titulação: Doutor em Filosofia Banca examinadora:
Daniel Omar Perez [Orientador] Suze de Oliveira Piza Ruy de Carvalho Rodrigues Júnior Rafael Rodrigues Garcia
Érico Andrade Marques de Oliveira Data de defesa: 24-09-2019
Programa de Pós-Graduação: Filosofia
Identificação e informações acadêmicas do(a) aluno(a) - ORCID do autor: https://orcid.org/0000-0001-9600-7183
INSTITUTO DE FILOSOFIA E CIÊNCIAS HUMANAS
A Comissão Julgadora dos trabalhos de Defesa de Tese de Doutorado composta pelos Professores Doutores a seguir descritos, em sessão pública realizada em 24/09/2019, considerou o candidato José Henrique Alexandre de Azevedo aprovado.
Prof(a) Dr. Daniel Omar Perez. Profa. Dra. Suze de Oliveira Piza.
Prof. Dr. Ruy de Carvalho Rodrigues Júnior. Prof. Dr. Rafael Rodrigues Garcia.
Prof. Dr. Érico Andrade Marques de Oliveira.
A Ata de Defesa com as respectivas assinaturas dos membros encontra-se no SIGA/Sistema de Fluxo de Teses e na Secretaria do Programa de Pós-Graduação em Filosofia do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas.
Primeiramente, agradeço às minhas mães, Fatinha e Antônia, por ter me incentivado aos estudos apesar de elas mesmas não terem podido estudar, devido à pobreza. Também agradeço por não me deixarem trabalhar até os 23 anos, apesar da penúria das condições materiais de vida.
Agradeço também à minha irmã Aurinha por sempre ter segurado às pontas quando eu mesmo não podia.
Agradeço as minhas tias Elza (in memoriam) e Oza, por sempre terem me apoiado nas minhas atividades e dado uma força quando a gente precisou em casa.
Agradeço ao meu amor, Érica, por ter me amado, apoiado, confiado e, algumas vezes, se sacrificado para eu poder terminar tranquilo esta tese de doutorado. Agradeço aos ensinamentos que todo dia aprendo contigo, tanto intelectuais quanto práticos. Agradeço também pelas aventuras que tivemos pelo mundo e pela chama que deixa acesa dentro de mim, que me faz viver pra ela. Você me fez e me faz uma pessoa melhor.
Agradeço às minhas e aos primos: Claudênia, Clédina, Cláudia, Clóvis, Clécio, Berg, Nogueirinha, Alexandre por nos momentos mais difíceis da minha família ter nos dado aquela força material.
Agradeço ao meu amigo Hélio Parente, papai boêmio, pelas cachaças, filosofias e amizade ao longo de mais de 10 anos.
Agradeço ao meu amigo Leivison, pala man, por mais de 20 anos de amizade e pelos incentivos aos meus estudos.
Agradeço ao David pelas trocas intelectuais e loucuras do pensamento que a gente coloca no papel.
Agradeço ao Ruy por mostrar a mim e a tantos outros que a filosofia jamais tem de ser sisuda, pelo contrário, há de rir da filosofia. Agradeço também por todo o incentivo intelectual e por acreditar em mim. Você é meu mestre e a mente mais brilhante que já conheci nesse mundo afora.
Agradeço ao Daniel, enquanto amigo e ex-cachaceiro, pelos ensinamentos do que fazer e do que não fazer, por ter me apoiado na ideia louca de ir pra China, mesmo em meio uma das fases mais difíceis de sua vida. Sou grato também pela disponibilidade que sempre teve para escutar os
Agradeço às amigas que fiz em Campinas, que me acolheram em sua casa e em seus corações: Lila Doidera, Mari Muitoloca e Ianca Almeida; também conhecidas como Butequeiras
Hard. Muito obrigado pela amizade sincera, pelos puxões de orelha e pelas noites de cachaça por Barão Geraldo.
À Ianca tenho um agradecimento especial por me ensinar a fazer pesquisa quantitativa, por gentilmente ter feito as tabelas desta e por ter me ajudado materialmente quando eu mais precisei.
Agradeço ao meu chapa Fabien pela amizade e troca intelectual, pelos projetos futuros e presentes. Ainda vamos fazer muita coisa nessa vida e movimentar a roda do saber.
Agradeço à galera do Apoena (Gustavo Costa, Gustavo Pagode, William, Thiago Mota, Luanna, Leoneol, Paulo Marcelo, Rogério). Agradeço em especial aos brothers David Barroso e Átila Almeida; Átila por ter salvado minha pele no ato de assumir um cargo público na UECE, se não fosse você iria me lascar todim, meu fi do metal.
Agradeço à Universidade Estadual do Ceará por ter me ensinado a ser gente e a pensar por meus próprios meios. Agradeço à Universidade Federal do Ceará por ter me acolhido em sua estrutura. Agradeço à Universidade Estadual de Campinas por ter me aberto os olhos em relação a entender o que deve ser, minimamente, uma universidade.
Agradeço à Mônica por sempre ter salvado à pátria quando precisamos; também à minha sogra Bernadete por sempre me receber muito bem em sua casa.
Agradeço a todos os funcionários da UNICAMP, mas especialmente à Maria Rita, ao Santos cachaceiro, à Bel, ao Benetti palmeirense doente, e especialmente à Daniela, que salvou-me da fome por várias vezes ajudando com a burocracia de bolsas.
Agradeço a todos os professores que fizeram parte da minha formação: Eduardo Braga, Ilana, Emiliano, Sylvia Leão, Ruy, Bosquinho, Eliana, Fernando, Luiz Felipe, Konrad Utz.
Agradeço à Faculdade Católica de Fortaleza, nas pessoas do Pe. Almir e do Pe. Evaristo, por ter me concedido, por indicação do Ruy ao qual também agradeço, um fantástico emprego no seu cursos de filosofia e pela extensão de seu programa de ressocialização de detentas. Agradeço às mulheres que foram minhas alunas dentro da casa de detenção e dignamente aprenderam o valor do pensamento e quem são os inimigos. Ao ver o sucesso de vocês eu ficou muito orgulhoso.
ser um grande intelectual não é necessário ser arrogante ou pedante.
Agradeço ao prof. Daniel Omar Perez pela orientação e por ter me dado a oportunidade de estudar na UNICAMP e ser reconhecido em muitos lugares do Brasil.
O presente trabalho foi realizado com apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior - Brasil (CAPES) - Código de Financiamento 001. Foram-me concedidas uma bolsa de doutorado e uma outra de doutorado sanduíche, permitindo-me viver uma aventura humana e intelectual na China.
Eduardo Orquídea Negra Nobre Braga
“O mundo é diferente da ponte pra cá!”
A Fórmula Mágica da Paz
A tese defendida aqui é a de que apesar de Kant ter iniciado sua reflexão crítica com um projeto de análise da metafísica sob os paradigmas da ciência, ele flexionou seu pensamento, após 1793, em favor de uma antropologia. Por antropologia Kant entendia o conhecimento pragmático das condições de possibilidade de ação humana no mundo, a fim de progredir, constantemente, para o melhor. No entanto, Kant não finalizou, completamente, sua antropologia por conta de o objeto desta ciência apresentar um deficit em relação aos princípios que a fundamentam; assim, principalmente, negros, indígenas e mulheres não possuem clara capacidade cosmopolita para ajudar a humanidade a progredir ao melhor. Esta é, fundamentalmente, uma tese sobre o movimento de pensamento de Kant. Com isso, este trabalho pretende inventariar e levar, completamente, a sério o que Kant quis dizer quando afirmou ser a antropologia o principal interesse da razão.
Our thesis says that although Kant had begun his critical reflection by means of a project for the reorganization of metaphysics under science paradigms, he flexed his thought, after 1793, in favor of an anthropology. By anthropology Kant understood the pragmatical knowledge for the conditions of the possibilities of human action upon the world, in view of progressing, constantly, to the best. However, he did not finish this anthropology fully because the object of this science does not settle up in the grounds which bases it; in this way, mainly, black peoples, indigenous and women does not show a clear cosmopolitan capacity to assist mankind to progress toward the best. Thus, this writing intends to inventory and takes seriously what Kant meant when he said that it has to be the anthropology the main interest of reason. This is, fundamentally, a dissertation on Kant’s movement of thought.
AA Akademie Ausgabe
Anth Anthropologie in pragmatischer Hinsicht (AA 07)
BDG Der einzig mögliche Beweisgrund zu einer Demonstration des Daseins Gottes (AA 02) Br Briefe (AA 10-13)
DfS Die falsche Spitzfindigkeit der vier syllogistischen Figuren erwiesen (AA 02) Di Meditationum quarundam de igne succincta delineatio (AA 01)
EAD Das Ende aller Dinge (AA 08)
EACG Entwurf und Ankündigung eines Collegii der physischen Geographie (AA 02) EEKU Erste Einleitung in die Kritik der Urteilskraft (AA 20)
FM Welches sind die wirklichen Fortschritte, die die Metaphysik seit Leibnitzens und Wolf's Zeiten in Deutschland gemacht hat? (AA 20)
FM/Beylagen FM: Beylagen (AA 20)
GMS Grundlegung zur Metaphysik der Sitten (AA 04)
GSE Beobachtungen über das Gefühl des Schönen und Erhabenen (AA 02) GSK Gedanken von der wahren Schätzung der lebendigen Kräfte (AA 01) Idee Idee zu einer allgemeinen Geschichte in weltbürgerlicher Absicht (AA 08) KpV Kritik der praktischen Vernunft (AA 05)
KrV Kritik der reinen Vernunft (zu zitieren nach Originalpaginierung A/B) KU Kritik der Urteilskraft (AA 05)
Log Logik (AA 09)
MAM Muthmaßlicher Anfang der Menschengeschichte (AA 08)
MAN Metaphysische Anfangsgründe der Naturwissenschaften (AA 04)
MonPh Metaphysicae cum geometria iunctae usus in philosophia naturali, cuius specimen I. continet monadologiam physicam (AA 01)
MS Die Metaphysik der Sitten (AA 06)
RL Metaphysische Anfangsgründe der Rechtslehre (AA 06)
MSI De mundi sensibilis atque intelligibilis forma et principiis (AA 02)
NEV Nachricht von der Einrichtung seiner Vorlesungen in dem Winterhalbenjahre von 1765-1766 (AA 02)
NG Versuch, den Begriff der negativen Größen in die Weltweisheit einzuführen (AA 02) NTH Allgemeine Naturgeschichte und Theorie des Himmels (AA 01)
OP Opus Postumum (AA 21 u. 22) Päd Pädagogik (AA 09)
PhG Physische Geographie (AA 09)
PhilEnz Philosophische Enzyklopädie (AA 29)
PND Principiorum primorum cognitionis metaphysicae nova dilucidatio (AA 01) Prol Prolegomena zu einer jeden künftigen Metaphysik (AA 04)
Refl Reflexion (AA 14-19)
RezHerder Recensionen von J. G. Herders Ideen zur Philosophie der Geschichte der Menscheit (AA 08)
RezSchulz Recension von Schulz's Versuch einer Anleitung zur Sittenlehre für alle Menschen (AA 08)
RezUlrich Kraus' Recension von Ulrich's Eleutheriologie (AA 08) Rel Die Religion innerhalb der Grenzen der bloßen Vernunft (AA 06) SF Der Streit der Fakultäten (AA 07)
TG Träume eines Geistersehers, erläutert durch die Träume der Metaphysik (AA 02)
TP Über den Gemeinspruch: Das mag in der Theorie richtig sein, taugt aber nicht für die Praxis (AA 08)
(AA 02)
ÜE Über eine Entdeckung, nach der alle neue Kritik der reinen Vernunft durch eine ältere entbehrlich gemacht werden soll (AA 08)
ÜGTP Über den Gebrauch teleologischer Principien in der Philosophie (AA 08)
UFE Untersuchung der Frage, ob die Erde in ihrer Umdrehung um die Achse, wodurch sie die Abwechselung des Tages und der Nacht hervorbringt, einige Veränderung seit den ersten Zeiten ihres Ursprungs erlitten habe (AA 01)
VAZeF Vorarbeiten zu Zum ewigen Frieden (AA 23)
VNAEF Verkündigung des nahen Abschlusses eines Tractats zum ewigen Frieden in der Philosophie (AA 08)
Vorl Vorlesungen (AA 24 ff.)
V-Anth/Busolt Vorlesungen Wintersemester 1788/1789 Busolt (AA 25) V-Anth/Collins Vorlesungen Wintersemester 1772/1773 Collins (AA 25) V-Anth/Fried Vorlesungen Wintersemester 1775/1776 Friedländer (AA 25)
V-Anth/Mensch Vorlesungen Wintersemester 1781/1782 Menschenkunde, Petersburg (AA 25) V-Anth/Mron Vorlesungen Wintersemester 1784/1785 Mrongovius (AA 25)
V-Anth/Parow Vorlesungen Wintersemester 1772/1773 Parow (AA 25) V-Anth/Pillau Vorlesungen Wintersemester 1777/1778 Pillau (AA 25) V-Lo/Herder Logik Herder (AA 24)
V-Lo/Pölitz Logik Pölitz (AA 24)
V-Mo/Collins Moralphilosophie Collins (AA 27)
V-Mo/Kaehler(Stark) Immanuel Kant: Vorlesung zur Moralphilosophie (Hrsg. von Werner Stark. Berlin/New York 2004)
V-Met/Dohna Kant Metaphysik Dohna (AA 28) V-Met/Herder Metaphysik Herder (AA 28)
V-Met-N/Herder Nachträge Metaphysik Herder (AA 28) V-PG Vorlesungen über Physische Geographie (AA 26)
VRML Über ein vermeintes Recht, aus Menschenliebe zu lügen (AA 08)
VT Von einem neuerdings erhobenen vornehmen Ton in der Philosophie (AA 08) VvRM Von den verschiedenen Racen der Menschen (AA 02)
WA Beantwortung der Frage: Was ist Aufklärung? (AA 08) WDO Was heißt sich im Denken orientiren? (AA 08) ZeF Zum ewigen Frieden (AA 08)
Introdução…...………...…..……...….……..……..……….…………..18
1) O Primeiro Projeto: Filosofia Transcendental…...….…..…….…...………...…..…………26
2) Método e Sistema ……..…..…...………....…...….…...…...………....44
2.1) Método e seus Níveis de Apresentação………..….…………..…….…....…..…..……….44
2.1.1) Primeiro Nível de Apresentação do Método: O Procedimento de Análise e Síntese…...…...44
2.1.2) Segundo nível de Apresentação do Método:…...….…....…….…..…………...53
2.2) O Sistema de Filosofia de Kant…..…………....……....…..………..……..…...……....70
2.2.1) O Conceito de Filosofia Cosmopolita ao Longo da Reflexão em sua Sistemática...…..…...78
3) O Pensamento Flexivo de Kant……...…...…...…...…....…...…...…..96
3.1) Flexões e Atualizações...…...…...…...…....….…....…...………….97
3.1.1) As Constantes Atualizações do Pensamento de Kant: três exemplos…….…….…....………98
3.2) A Flexão Antropológica...….…....….……...…….….…..…....…....…...…………...112
4) Os Diferentes Estatutos das Obras de Kant: Das Críticas à Pragmática.……….………...127
4.1) O Estatuto das Obras do Primeiro Projeto...…...…...…....…...…..…..….…….…129
4.2) O Estatuto das Obras do Segundo Projeto…....…….…....….…….…….…...….….…....…136
5) Genealogia da Antropologia...…....…...……...…...….…....…...………...148
6) A Antropologia Kantiana e os Paradoxos da Natureza Humana….…….…...…….….…...161
6.1) Kant e a Construção da Antropologia: Uma Ciência Incompleta…...….……...…...…….164
6.1.1) Antropologia da Sala de Aula...…….…...………...…..…....…..…….….……….164
6.2) Antropologia Pragmática e a Ideia de Ciência...….…...…...……….170
7) As Inconsistências da Natureza Humana em Kant.….…...….…....…...…...…...180
7.1) O Caráter da Pessoa e da Espécie na Anth...….…….……....….…….…...……..180
7.2) É a Mulher Capaz de Ser Positivamente Cosmopolita?.….…...….…...….…....….….183
8.1) O Debate Racial em Kant...…...…..…....…...…....…...…...….…...…...…....……201
8.2) Sistema, Raça e Tronco Comum da Humanidade...….…...….…….….….…….…….209
8.3) Colonialismo e Racismo no Coração da Antropologia da Década de 1790 em diante……….228
9) Antropologia do Opus Postumum..…...….…….…...…...…...………...……..238
9.1) Modo de Organização e uma Pequena História da Obra...…..…....…..….…….………….242
9.2) A Passagem da Filosofia Transcendental à Física: Metafísica da Natureza…...……….245
9.3) A Finalidade Antropológica da Filosofia no OP...…..…....……..…..…...…...…...……...251
9.4) Dos Escritos Após 1793 como Provas à Antropologia do OP………....……..260
CONSIDERAÇÕES FINAIS…...….…...………….…...……..…...…….….………....267
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS….…...……..……...…….…...…...….…….…...272
APÊNDICE: Os Kantianos Ignoraram a Antropologia de Kant…...……….…..…...……….283
INTRODUÇÃO: Por Que Escrever Mais Uma Obra Sobre Kant?
1É comum vermos várias perspectivas que contam ser Kant um pensador moderno, por excelência, ou seja, aquele que propriamente inaugura as condições de possibilidade de universalidade política, moral e epistemológica. Isto quer dizer que esta universalidade tem de voltar-se para a construção de um mundo novo, no qual a humanidade é o grande objeto. Todas as áreas que compõem tal universalidade devem desembocar no princípio racional de que o homem é um fim em si mesmo e nunca pode ser tratado como meio. Esta perspectiva deriva do movimento intelectual mais exitoso da história europeia: o iluminismo. Este último pode ser definido como uma contraposição aos regimes de estado absolutistas, de maneira a propor um outro sistema de domínio da vida para colocar no lugar daquele, novas maneiras de organizar o tecido social, moral e político. A crítica, com isso, é o ponto central da fundamentação iluminista de mundo, isto é, nada pode ser posto como válido sem antes passar pelo crivo da razão. Esta pista é fundamental para entendermos o pensamento de Kant em todos os seus movimentos. Kant é um pensador em constante atualização dos conteúdos que a razão deve gerir, de maneira que pensar significa criticar, colocar em perspectiva e ativar as regras da razão para se referir ao mundo. Eis o iluminismo como base do pensamento de Kant; este epistemologizou, de fato, as condições de possibilidade da universalidade. Disto tudo decorrem tanto a questão fundamental que guia a nossa tese quanto a sua subsidiaria: é o universalismo kantiano de fato universal? A crítica é usada por Kant para, verdadeiramente, entender como a humanidade pode atingir toda a sua potencialidade ou tal potencialidade visa apenas um grupo humano?
Nesta esteira, é fundamental entendermos que Kant não apenas seguiu o movimento comum do iluminismo (ISRAEL, 2017), mas sobretudo entrou em seus meandros mais profundos e sustentou em suas teses as duas grandes novidades iluministas gestadas no seio do século XVII e aperfeiçoadas no século XVIII, a saber, a antropologia e a filosofia da história. Ambas são irmãs siamesas e nascem no seio mesmo da assim chamada revolução burguesa. A antropologia é a ciência que tem de dar conta do homem em sua separação fundamental que o constitui, a saber, entre natureza e cultura; já a filosofia da história foi fundada para fornecer os conceitos que a burguesia necessitava para derrubar o velho poder absolutista, isto é, refundar e manejar o tempo de maneira a estabelecer o que deve ser superado (passado) e o que deve vir à tona (futuro). O futuro deve ser racionalmente pensado e colocado em prática.
Com isso, nossa tese não pode ser vista como algo estranho no pensamento kantiano. Mais precisamente, pensamos que apesar de Kant ter iniciado sua reflexão crítica com um projeto de
reorganização da metafísica sob os paradigmas da ciência, ele flexionou seu pensamento em favor de uma antropologia. Procuramos destrinchar o seu projeto último de filosofia. Kant, segundo Foucault, é o pai das ciências humanas, na medida em que cria uma disciplina que deve dar conta da humanidade, a fim de mostrar como é possível que a crítica se aplique ao homem empírico (Foucault, 2000). Esta tese propõe ler Kant em seu desenvolvimento de pensamento sob a ótica da antropologia como finalidade do seu pensamento filosófico.
A antropologia que Kant propõe como finalidade do sistema aparece em 17932; mais
precisamente, ela não foi moldada, inicialmente, para tal, tendo sido introduzida como disciplina acadêmica em 1772, tratando, neste início, de aspectos psicológicos, em geral. Na própria década de 1770, tal disciplina se distancia da psicologia e vai ganhando aspectos pragmáticos, que versam sobre os destinos e a diversidade humana na terra, tendo como paralelo o curso de Geografia Física. Na década de 1780, a antropologia é vista por Kant como algo de importância menor, tendo como principal tarefa a aplicação da moral.
No entanto, da década de 1790 em diante, Kant reestrutura de maneira decisiva a sua filosofia, de modo que, em 04/05/1793 manda uma carta a Frederick Stäudlin, na qual aponta que as três perguntas de maior interesse à razão que aparecem na KrV3 devem recair numa quarta, a saber, “o
que é o homem?”4, a qual deve ser respondida por antropologia como ciência correspondente. Com
isso, Kant deixa claro que a pergunta antropológica congrega em si a importância de todas as outras.5 Tal carta não deveria, em um primeiro momento, chamar atenção; contudo há um conjunto
de fatores que a elevaram a um documento de crucial importância para a exegese dos estudos kantianos como primeiro esboço do projeto antropológico. Primeiro, Kant, recorrentemente, propunha o plano de seus projetos em cartas endereçadas a interlocutores tal como, por exemplo, a carta enviada a Markus Herz em 21/02/1772, na qual afirma a pretensão de publicar uma obra sobre os limites da sensibilidade e da razão em duas partes:
Pensei nisso em duas partes, uma teórica e outra prática. A primeira conteria duas seções I) Fenomenologia geral. II) Metafísica, mas somente no que diz respeito à sua natureza e método. A segunda parte, igualmente, em duas seções I) Princípios Gerais do Sentimento, do Gosto e do Desejo Sensível. II) Os Primeiros Princípios da Moralidade […] Eu estou na posição de apresentar uma crítica da razão pura,
2 Carta a Stäudlin de 04/05/1793 pode ser considerada a primeira prova. Todas as passagens em Alemão sobre Kant serão citadas a partir da edição a Akademie Ausgabe, as quais podem ser encontradas até o Volume XXIII em: https : //korpora.zim.uni-duisburg-essen.de/kant/verzeichnisse-gesamt.html
3 “O que posso saber? O que devo fazer? O que me permitido esperar?” (A 805 / B 833).
4 “Was ist der Mensch? (Anthropologie; über die ich schon seit mehr als 20 Iahren jährlich ein Collegium gelesen habe).” KANT, I. AA XI, s. 429.
5 “Das Feld der Philosophie in dieser weltbürgerlichen Bedeutung läßt sich auf folgende Fragen bringen: 1) Was kann ich wissen? 2) Was soll ich thun? 3) Was darf ich hoffen? 4) Was ist der Mensch? Die erste Frage beantwortet die Metaphysik, die zweite die Moral, die dritte die Religion und die vierte die Anthropologie. Im Grunde könnte man aber alles dieses zur Anthropologie rechnen, weil sich die drei ersten Fragen auf die letzte beziehen.” KANT, I. AA IX, s. 25.
que contém a natureza do conhecimento tanto teórico quanto prático, na medida em que a última é meramente intelectual, e da qual eu tenho a primeira parte, que contém as fontes, o método e os limites da metafísica. Após isso, elaborarei os princípios puros da moralidade. Publicarei a primeira parte dentro de 3 meses.6
Ora, o esboço do projeto não saiu como esperado, uma vez que apesar de Kant afirmar que traria, de modo completo, à tona uma KrV, ele a dividiu de modo que apenas a parte teórica apareceu primeiro, tendo a KpV e a KU sido publicadas muitos anos depois. Isso significa que, para Kant, apesar de ter a ideia para a estrutura do seu primeiro projeto, os conteúdos que preencheram-na foram erigidos ao longo dos anos de reflexão. A carta a Stäudlin tem um significado parecido, preencheram-na medida em que lá Kant traça seu plano de tornar tal disciplina, ensinada ao longo de vinte anos, um saber no qual todos os outros recaem. Com isso, mostraremos que Kant tenta construir nos últimos dez anos de reflexão uma antropologia que dê conta de responder à pergunta sobre o homem.
Nossa tese, assim, tem por escopo acompanhar o movimento de pensamento de Kant. Por conta disso, duas coisas se fazem importantes em nosso posicionamento, a saber: primeiro, é necessário atentarmos ao método. Kant faz uso da “via crítica”, a qual “é a única ainda aberta. Se o leitor teve a amabilidade e a paciência de a percorrer em minha companhia, pode agora julgar, no caso de lhe agradar contribuir para fazer deste atalho uma estrada real […] ou seja, conduzir a razão humana até a plena satisfação numa matéria que sempre ocupou, até hoje, embora inutilmente, a sua curiosidade.” (A 856 / B 884) Por crítica Kant entende um tribunal da razão que julga de que modo é possível dar sentido ao mundo, separando os elementos em observação, a fim de melhor compreendemos e, com isso, intervirmos nele de maneira que a humanidade progrida. Seguiremos Kant e aplicaremos seu método que se apresentará como passos argumentativos para chegar a finalidades postas pela razão, uma vez que ele nunca abandona a crítica como maneira de pensar.
Segundo, a principal finalidade da razão é a efetivação da liberdade; isto posto, nossa tese pretende entender de que modo Kant procura satisfazer tal demanda. Aqui se apresenta o que chamamos de movimento de pensamento do autor, na medida em que a satisfação da liberdade apresentará obstáculos, os quais devemos destrinchar. Assim uma das questões deste trabalho diz respeito a se perguntar se: é possível compreender a filosofia kantiana no seu final, tendo este ressignificado o seu começo? Desdobrando tal problemática, podemos nos questionar se teria Kant
6 “Ich dachte mir darinn zwey Theile, einen theoretischen und pracktischen. Der erste enthielt in zwey Abschnitten 1. Die phaenomologie überhaupt. 2. Die Metaphysik, und zwar nur nach ihrer Natur u. Methode. Der zweyte ebenfals in zwey Abschnitten 1. Allgemeine Principien des Gefühls des Geschmacks und der sinnlichen Begierde. 2. Die erste Gründe der Sittlichkeit […] ich itzo im Stande bin eine Critick der reinen Vernunft, welche die Natur der theoretischen so wohl als practischen Erkentnis, so fern sie blos intellectual ist, enthält vorzulegen wovon ich den ersten Theil, der die Qvellen der Metaphysic, ihre Methode u. Grentzen enthält, zuerst und darauf die reinen principien der Sittlichkeit ausarbeiten. Und was den erstern betrift binnen etwa 3 Monathen herausgeben werde.” Cf. KANT, I. AA X, s 129-132. Tradução nossa.
flexionado a finalidade de seu sistema (de uma filosofia transcendental que deve mostrar as condições de possibilidade de tratar de objetos teóricos, prático e teleológicos) em favor de uma antropologia, que se fundamenta na ideia de que o objeto a que todos os outros trabalhos anteriores devem se direcionar é o homem pragmático?
Esta tese, com isso, está dividida em nove capítulos e um apêndice. Isto posto, começamos, no primeiro capítulo, por mostrar a construção de uma ciência modernamente concebida, aqui identificada por filosofia transcendental como base para o primeiro projeto de filosofia. Iniciamos uma apreciação da KrV, uma vez que nesta estão contidas as condições de possibilidade para tratar da filosofia kantiana, que pesem as atualizações e as nuances posteriores. A revolução copernicana criou uma nova maneira de tratar objetos a fim de responder se é possível a metafísica como ciência.
Uma vez colocadas as bases da filosofia transcendental nos propomos saber, no segundo capítulo, o que são e como funcionam o método e o sistema, uma vez que pensamos haver um sistema. Como afirmamos acima, o método é o crítico, que se apresenta em passos argumentativos, que também podem ser identificados como níveis de apresentação, um caminho à resolução de problemas. Notamos haver dois níveis de apresentação do método, ambos fundamentados e já expressos na KrV. O primeiro revela o funcionamento das entranhas da filosofia kantiana, isto é, aquilo que permite tratar do mundo com sentido e referência: o procedimento de análise e síntese. Não é de forma fortuita que Kant diz em boa letra que a pergunta fundamental da filosofia ali na KrV é saber “como são possíveis os juízos sintéticos a priori?” (B 19), pois disso depende a resposta central que permitiria finalmente a filosofia/metafísica ser uma ciência.
No entanto, o autor também mostra um nível doutrinal do método, em um segundo nível de apresentação, tendo como escopo a sua extensão (da KrV em diante) a toda e qualquer parte da sua filosofia, tal qual um plano. A fase doutrinal diz respeito a um conjunto de ideias e saberes a serem transmitidos e ensinados à humanidade, de maneira tal que esta aprenda como proceder cientificamente sem ultrapassar os limites tanto no que concerne ao conhecimento sensível quanto no que diz respeito à ação moral. Assim, necessita-se de uma disciplina, de um cânone, de uma arquitetônica e de saber a sua história; todas trabalhando em vista de um padrão para a resolução de problemas. Não podemos fazer confusão; apesar de haver dois níveis de apresentação há somente um método: o crítico.
Ainda no segundo capítulo pretendemos compreender se é possível de alguma forma haver um sistema, que seja logicamente coerente com as demandas da crítica e com a ideia de atividade incessante do trabalho filosófico. Pensamos, junto a Kant, que “o sistema de todo o conhecimento filosófico é então a filosofia” (A 838 / B 866), isto é, Kant entende por filosofia uma ideia que
congrega todos os conhecimentos filosóficos. Ora, em contiguidade a isto, ele entende a filosofia como um conceito cósmico, ou cosmopolita, de maneira que “a filosofia é a ciência da relação de todo o conhecimento aos fins essenciais da razão humana” (A 839 / B 867).
Ao dialogarmos com uma solução dada por Stephen Palmquist,7 adaptamos a ideia de que a
ciência proposta por Kant pode funcionar sistematicamente desde que siga modelos e metáforas que forneçam um ponto de coerência lógica para driblar as inconsistências, tal qual ocorre com a teologia. Pensamos que o conceito de filosofia cosmopolita, que se apresenta de maneira constante ao longo de toda a obra crítica de Kant, pode funcionar como modelo sistemático simbolizado por uma metáfora: a da flecha (atratora que está sempre em direção ao futuro). Ou seja, tal como um objeto que está em atividade incessante, progredindo em direção ao melhor, por meio da razão, de modo a resolver os problemas humanos. Metaforicamente, a flecha (filosofia como doutrina que busca a sabedoria), por uma força gravitacional de atração, puxaria todo e qualquer conhecimento para sua órbita, fazendo-a seguir em busca dos fins últimos que interessam ao homem. Com este tipo de interpretação, tanto do método quanto do sistema, pretendemos colher como resultado a consecução de um sistema aberto, no qual uma antropologia pôde ser, eventualmente, posta como finalidade após uma atualização, em 1793, da direção sistemática.
Pretendemos provar, desse modo, que há dois projetos de filosofia: no primeiro, o método fornece conteúdos cognitivos, morais e teleológicos como padrões para a resolução de problemas da razão; no segundo, Kant percebe que tais conteúdos não dão conta da resolução da efetivação da liberdade, trazendo, para tal, a antropologia pragmática, amalgamada na pergunta antropológica. Ele flexiona seu pensamento e identifica a antropologia como principal conteúdo do sistema em 1793, ano da supracitada carta a Stäudlin. Por flexão entendemos uma mudança na direção do sistema, a fim de perseverar de forma mais acurada em busca das finalidades da razão. Com isso, mostraremos que houve a flexão de um projeto de filosofia transcendental estrita em favor de uma ciência antropológica como finalidade do sistema.
Pontuaremos que este movimento do pensamento de Kant muda os rumos do projeto sem perder os ganhos da filosofia transcendental. Mais precisamente, esta passa a trabalhar em favor da antropologia, de maneira que a filosofia já estabelecida como ciência procura sua satisfação na resposta da pergunta antropológica. Para provar que uma mudança de paradigma (flexão) não é estranha à filosofia kantiana, mostramos que o autor atualiza vários pontos de suas teorias (edição revisada da KrV em 1787; a noção de faktum da razão na KpV em relação à fraca noção de respeito a lei em GMS e etc.) com o intuito de esclarecer o que se pretende e como conseguir chegar a termo.
7 PALMQUIST, S. Kant's System of Perspectives: an architectonic interpretation of the critical philosophy. Lanham / New York / London: University Press of America, 1993.
Há, precisamente, duas flexões: a primeira de uma forma dogmática de fazer filosofia, em prol de uma metafísica científica em 1781, e, posteriormente em 1793, em favor de uma antropologia. A economia em flexões deve-se ao fato de que estas são mais abruptas que as atualizações, visto mudar o conteúdo de sua filosofia, não podendo, assim, acontecerem a esmo. A antropologia é a ciência pragmática do que o homem pode e deve fazer de si. Kant estava construindo um projeto que desse conta de responder à pergunta antropológica, o que acarretaria um melhor caminho para a efetivação da liberdade. A antropologia passa a ser a ciência mais importante da filosofia em 1793.
Assim, nos outros seis capítulos exporemos propriamente a construção de sua antropologia; respectivamente: os diferentes estatutos das obras de Kant, isto é, o primeiro projeto fundamenta o segundo; a diferença de estatuto das obras não diminui a importância de ambos os projetos, principalmente, do projeto antropológico. Também tivemos a preocupação de nos perguntarmos, a saber, uma vez que a antropologia não nasceu com a importância que posteriormente tomou, quais seriam as suas origens? Com isso, há um debate na filosofia kantiana em saber de onde surgiu a antropologia: da psicologia empírica ou da geografia? Este debate nos permite-nos entender o que Kant pensava ao propor em 1793 a flexão antropológica.
Mostraremos também que ele erige uma ciência antropológica com um método de observação adaptado a ela, mas com um deficit em relação ao seu objeto de estudo. O ponto paradoxal de dificuldade, para Kant, além da ideia de efetivação da liberdade, que deve ser confrontada com culturas de agentes livres, é a inconsistência entre o que ele pensa que deva ser o humano, um ser livre que constrói o seu próprio destino em vista da satisfação da humanidade como um todo, e o que ele pensa sobre alguns grupos humanos, a saber, mulheres, negros e índios, os quais, seriam incapazes de se adequar a um sistema de propósitos cosmopolitas nos moldes do que exige a sua antropologia.
Mais precisamente, a antropologia não consegue expor uma teoria da natureza humana que abarque a universalidade dos seres humanos diversos em sua situação pragmática. A discussão, assim, concerne à história natural e a inserção de Kant nesta disciplina. O debate de sua época girava em torno de saber se as alegadas raças humanas (brancos, calmucos, negros e indígenas. Divisão cara aos naturalistas do século XVIII) teriam um tronco comum, monogênese, ou não, havendo diferentes origens para cada raça, poligênese. Kant pensava que todos os seres humanos descendiam de um tronco comum, mas por conta de sua diáspora, e do efeito dos diferentes climas sobre as populações, houve uma diferenciação humana em quatro raças. Mostraremos que o grande problema foi que, além da divisão fenotípica, Kant entendia haver uma divisão cultural na qual índios e negros são incapazes de civilizar-se e, por conseguinte, de atingir propósitos cosmopolitas
para a efetivação da liberdade.8
Apesar de não ter conseguido uma resposta satisfatória para resolver a incongruência, ele tentou encontrá-la até os últimos momentos de reflexão. Mais precisamente, ele começou a escrever uma obra que faria, em um primeiro momento, a passagem da filosofia transcendental para a física, a prometida metafísica da natureza, mas, com o passar dos anos e de sua escrita, teria resolvido fazer uma obra sistemática que mostrasse, finalmente, o seu projeto derradeiro, de maneira a incluir a metafísica da natureza e a metafísica dos costumes em uma finalidade antropológica; por conta de não a ter concluído, esta obra ficou conhecida como Opus Postumum (OP).
Ora, esta foi interpretada por seus comentadores, mormente, como uma passagem da filosofia transcendental à física, por conta de Kant tê-la escrito quando ainda gozava de boa saúde. Ele demorou alguns anos para concluir a tal passagem e não conseguiu escrever, claramente, a parte sobre a antropologia, que seria o ápice de um sistema, no qual a moral (deus) e o mundo (natureza) seriam sustentados pelo homem (antropologia). Entretanto, devido ao fato de esta ser uma obra inconclusa, não podemos determinar o argumento final endogenamente, mas é possível, no entanto, prová-la como antropológica desde que se analisem os conteúdos das obras dos últimos dez anos de reflexão e vida de Kant; assim, podemos notar uma direção antropológica que deveria ter sido satisfeita no OP.
Por último, mostraremos de modo cirúrgico, em um apêndice à tese, que o século XX ignorou a antropologia do autor. Isto pode ser cabalmente provado por meio da análise das publicações na história da Kant Studien, inventariada por nós desde 1896, ano de sua estreia, até 2010, categorizando as temáticas e analisando-as, estatisticamente. A maioria absoluta das interpretações dos especialistas sobre Kant até os dias atuais negligenciou o seu projeto antropológico; este viés de interpretativo ficou à sombra pelos especialistas da obra de Kant.
Além disso, para provar nossa tese, foi necessário usar ideias de Kant que não foram publicadas sob seus cuidados editoriais, tais como cartas e lições; em nossa perspectiva, as obras publicadas, obviamente, não possuem o mesmo estatuto das não publicadas. No entanto, o projeto antropológico apenas fica claro se a pesquisa também focar na preparação de Kant para colocar em voga tal projeto e, uma vez que os esboços desta preparação constam naqueles documentos, foi necessário o seu uso. O cuidado que tivemos foi o de usar tais documentos como cruciais desde que, em seus conteúdos, houvesse correspondência com os publicados. Assim, pudemos resolver, pelo menos em parte, o problema das obras não publicadas, apesar de não termos podido solucioná-las
8 Coisa parecida ocorre com as mulheres, as quais são consideradas por Kant, juridicamente, como objeto, sendo, pois, incapazes legalmente de serem cidadãs plenas, uma vez que devem ser legalmente submissas aos homens. O que aqui está em jogo são as condições de possibilidade de desempenho de papel social; haveria em Kant um racismo cultural e, consequentemente, uma contradição entre seus pontos de vista universalistas da moral e sua consecução pragmática? Em nossa perspectiva a resposta é positiva.
de maneira completa. Portanto, esta tese procura fundamentar uma outra maneira de ler Kant. Este percebeu que não bastava ao humano saber-se detentor da capacidade de julgar, mas, sobretudo, era necessário saber como melhorar as condições de vida da humanidade. Mais precisamente, era necessário progredir, constantemente, trazendo, desse modo, para o bojo da reflexão a pergunta sobre o estatuto da humanidade contida na disciplina mais importante ao saber filosófico: a antropologia.
1) O Primeiro Original: A Filosofia Transcendental
Aqui pretendemos mostrar o início do primeiro projeto de filosofia de Kant, a saber, uma filosofia transcendental que pretende dar conta das condições de possibilidade de resolução de problemas da razão. Este projeto, assim, possui dois níveis diferentes de argumentação, os quais, basicamente, podem ser divididos em: um nível explícito e outro implícito. O caráter explícito diz respeito à divisão segundo os usos da razão, isto é, em teórico e prático; contudo, esta divisão guarda um caráter implícito de argumentação: as condições de possibilidade de tratar da objetividade de objetos em geral.
Isto posto, tanto o caráter explícito quanto o implícito se imbricam quando Kant declina as três perguntas que interessam à razão: “o que posso saber? O que devo fazer? O que me é permitido esperar?” (A 805/ B 833). Isto ocorre uma vez que em tais perguntas encontram-se o mote ao projeto de filosofia original: uma crítica que dê conta de mostrar em quais bases é possível tratar dos três principais problemas que interessam à razão. Esta crítica é formulada sob o paradigma de uma filosofia transcendental com acurácia científica, sem ultrapassar os limites da experiência possível, ou, mais propriamente:
Como, porém, até agora todas as tentativas para dar resposta a essas interrogações naturais, como seja, por exemplo, se o mundo tem um começo ou existe desde a eternidade, etc., sempre depararam com contradições inevitáveis, não podemos dar-nos por satisfeitos com a simples disposição natural da razão pura para a metafísica, isto é, com a faculdade pura da razão, da qual, aliás, sempre nasce uma metafísica (seja ela qual for); pelo contrário, tem que ser possível, no que se lhe
refere, atingir uma certeza: a do conhecimento ou ignorância dos objetos, isto é,
uma decisão quanto aos objetos das suas interrogações ou quanto à capacidade ou incapacidade da razão para formular juízos que se lhes reportem; consequentemente, para estender com confiança a nossa razão pura ou para pôr limites seguros e determinados. Esta última questão que decorre do problema geral acima apresentado, poderia justamente formular-se assim: como é possível a
metafísica enquanto ciência? (B 22). (Grifos nossos).
Ora, perguntar-se como é possível a metafísica como ciência equivalia na segunda metade do século XVIII a se questionar qual era a serventia da filosofia para a humanidade, uma vez que a teologia já era um saber sem segurança científica que tratava de aspectos conjecturais sobre a Verdade, o Bem, o Ser e etc. Daí que um tal projeto necessita de, inevitavelmente, mostrar, antes de qualquer coisa, “que a metafísica sirva, como mera especulação, mais para prevenir erros do que ampliar o conhecimento, não prejudica em nada o seu valor” (A 851 / B 879). Esta reformulação da metafísica tem por meta transformá-la em uma ciência com formulações verificáveis; tal reformulação passa pela consideração do estatuto da KrV no projeto kantiano de filosofia.
os elementos factuais que compõem o pensamento para melhor explicá-los. Mais precisamente, é necessário mostrar como trabalham e quais os limites das faculdades da mente, a fim de estabelecer o lugar da filosofia transcendental. Por conta disso, a KrV analisa os estatutos de três faculdades, a saber, a da sensibilidade, a do entendimento, e a da razão; além disso, propõe um método e um sistema que cimentam-nas como parte de um projeto de resolução de problemas.
Ora, para Kant, ressignificar o procedimento da metafísica equivalia a confrontar as velhas ciências que atravancavam uma mais clara abordagem teórica sobre os conteúdos que preocupam à razão, tal qual, por exemplo, a ontologia, um saber cunhado por Wolff para dar conta da multiplicidade do mundo, por meio do método da matemática. Em contrapartida, na filosofia transcendental de Kant, “as suas proposições fundamentais são apenas princípios da exposição dos fenômenos e o orgulhoso nome de ontologia, que se arroga a pretensão de oferecer, em doutrina sistemática, conhecimentos sintéticos a priori das coisas em si (por ex. o princípio da causalidade) tem de ser substituído pela mais modesta denominação de simples analítica do entendimento puro” (A 247 / B 303).
Com isso, na Analítica dos princípios, mais precisamente em Do princípio de distinção de todos os objetos em geral em fenômenos e númenos, Kant rejeita a ontologia, de modo que ela deve ser substituída por uma mera analítica do entendimento puro, que não se preocupa com essências últimas que constituem o objeto. O que preocupa o autor neste primeiro momento é saber as condições de possibilidade para a referência objetiva, e não onde, suprassensivelmente, pode um objeto levar. Isto posto, não faz sentido a ontologia clássica se arrogar da pretensão de conhecer as essências últimas dos objetos. Todas as funções cognitivas devem poder ter corroboração na sensibilidade. Tratar da metafísica como ciência também não faz sentido, uma vez que esta foi o veículo de todos os dogmas da tradição. Kant não retira a ontologia do sistema de metafísica em geral, pois “o sistema inteiro da metafísica consta de quatro partes fundamentais: 1. A ontologia. 2. A fisiologia racional. 3. A cosmologia racional. 4. A teologia racional” (A 846 / B 874), mas a relativiza na KrV. A metafísica proposta por Kant perde o seu sentido de ciência primeira e ganha o estatuto de filosofia transcendental dentro da virada copernicana.
Com isso, esses quatro pontos que constituem, na visão de Kant, os temas que se dedicava a metafísica tradicional devem servir de ponto de partida, contudo sob um viés crítico, isto é, faz-se necessário estabelecer os limites do discurso verificável. Ao relativizar o alcance destas quatro partes fundamentais foi possível a Kant avançar com a filosofia transcendental em vista da resolução dos problemas da razão. A metafísica aparece como problema para Kant desde a década de 1750 e continua como tal ao longo de seu primeiro projeto de filosofia. Entretanto, na primeira edição da KrV, Kant coloca a pedra fundamental para mostrar como seria possível reformular o
conhecimento filosófico. A KrV deve ser lida, desse modo, como uma obra de filosofia transcendental. Esta última é o ajuntamento de toda reflexão que exponha as condições de possibilidade da apreciação de objetos. Assim,
A filosofia da razão pura ou é uma propedêutica (exercício preliminar) que investiga a faculdade da razão no tocante a todo o conhecimento puro a priori, e denomina-se crítica, ou constitui, em segundo lugar, o sistema da razão pura (ciência), todo o conhecimento filosófico (tanto o verdadeiro como o aparente) a partir da razão pura apresentado em sua interconexão sistemática chama-se Metafísica. Este último nome, contudo, também pode ser dado a toda a filosofia pura incluindo a crítica, a fim de abarcar tanto a investigação de tudo aquilo que pode ser conhecido a priori quanto também a exposição daquilo que perfaz um sistema de conhecimentos filosóficos puros desta espécie, porém distinto de todo uso empírico e de todo o uso matemático da razão (A 841 / B 869).
No entanto, apesar de paradoxal, esta metafísica apenas concerne a um aspecto muito restrito que Kant tenta dar a sua obra, uma vez que, ao estender sua reflexão a objetos cuja referência dá-se por meio de postulados, tais como a liberdade e a esperança em uma vida futura (referência às três perguntas fundamentais que interessam à razão), ele esbarra em um limite cognitivo. Assim, a filosofia da razão pura fundamenta um tipo específico de conhecimento a priori neste momento da reflexão.
O uso empírico e o matemático concernem às posições de autores imediatamente anteriores a Kant, a saber, Baumgarten, no que diz respeito à psicologia empírica (primeiro ponto de sua metafísica) e Wolff, que, como dito anteriormente, propunha ser o método filosófico análogo ao matemático. Em contrapartida, a filosofia kantiana posiciona um uso diferente e mais efetivo do conceito de objeto, que deve aparecer por meio da assim chamada reflexão sistemática. Para colocar bases sólidas neste tipo de asserção, Kant discorre sobre a diferença entre reflexão lógica e transcendental.
Poder-se-ia dizer que a reflexão lógica é uma simples comparação, pois nela se abstrai totalmente da faculdade de conhecimento a que pertencem as representações dadas, sendo portanto tratadas como homogêneas no que diz respeito ao seu lugar no espírito; mas a reflexão transcendental (que se dirige aos próprios objetos) contém o princípio da possibilidade da comparação objetiva das representações entre si, porque a faculdade de conhecimento a que pertencem não é a mesma. Esta reflexão transcendental é um dever a que ninguém, que pretenda a priori formular qualquer juízo sobre as coisas, se pode eximir. (A 262-3 / B 318-9). A reflexão transcendental constitui um pilar do pensamento kantiano, no que concerne ao seu primeiro projeto de filosofia. O fundamento disso, como visto na passagem acima, diz respeito a uma apreciação das condições de possibilidade do pensamento em geral se referir a objetos com sentido e de modo rigoroso, além de ser possível a comparação entre representações. Isto posto, “chamo transcendental a todo o conhecimento que em geral se ocupa menos dos objetos, que do
nosso modo de os conhecer, na medida em que este deve ser possível a priori” (B 25). A filosofia transcendental, neste sentido, pretende a efetivação da filosofia como ciência. Ora, há de se levar em consideração que Kant lecionou a disciplina de metafísica por longos anos, o que significa que ele sabia exatamente de quais bases estava tratando. É interessante também notar que o diálogo de Kant com a escolástica alemã de sua época foi um dos motores para a assunção do conceito de transcendental como ponto de fundação da virada copernicana.
Kant se vincula à tradição wolffiana e leibniziana de fazer filosofia, cujo seguimento foi dado por Baumgarten. Por conta disso, não é fortuita a semelhança entre a filosofia transcendental kantiana e a scientia transcendentalis ou ontologia de Wolff, o qual, em alguma medida, trouxe a filosofia de Francisco Suárez para o contexto da metafísica alemã da época.9 Kant, entretanto,
conhecia o termo transcendental desde, pelo menos, 1756, ano de sua Monodalogia Física (MonPh).10 A concepção de filosofia transcendental desta obra, obviamente, não autoriza a
associá-la, diretamente, com o conteúdo da KrV, devido sua distância temporal. A reflexão transcendental leva em conta primeiramente as condições de possibilidade de referência a objetos. No entanto, isto não chancela o reconhecimento na pura ontologia wolffiana do mesmo modelo de metafísica que se apresentaria como ciência nos moldes de Newton. Era necessário seguir um modelo de reflexão que pudesse justificar o uso e a validade dos seus conceitos puros. Por isso:
Há ainda, porém, na filosofia transcendental dos antigos, um capítulo que contém conceitos puros do entendimento, os quais, embora não sendo contados entre as categorias, no consenso dos antigos deviam valer, segundo aqueles antigos, como conceitos a priori dos objetos, aumentando nesse caso o número das categorias, o que não pode ser. São eles enunciados na celebre proposição dos escolásticos:
Quodlibet ens est unum, verum, bonum. Embora o uso desse princípio em relação
às consequências (que eram puras proposições tautológicas) proporcionasse resultados deploráveis, pelo que, hoje em dia, se menciona na metafísica quase só por deferência, todavia um pensamento, que tanto perdurou, por vazio que pareça, merece sempre que se indague a sua origem, e justifica a suposição de que tenha fundamento em qualquer regra do entendimento que, como muitas vezes acontece, apenas tivesse sido falsamente interpretada. Esses supostos predicados transcendentais das coisas não são mais do que exigências lógicas e critérios de todo o conhecimento das coisas em geral […] Portanto, com os conceitos de unidade, verdade e perfeição não se completa a tábua transcendental das categorias, como se porventura fosse deficiente; apenas, pondo de parte qualquer relação desses conceitos com os objetos, o uso que se faz deles entra nas regras lógicas universais da concordância do conhecimento consigo próprio. (B 113-6)
9 WOLFF, C. Philosophia prima sive ontologia / Erste Philosophie oder Ontologie [1729] §§ 1-78. (Trans. and ed. D. Effertz). Hamburg: Felix Meiner Verlag, 2005.
10 “Metaphysics, therefore, which many say may be properly absent from physics, is, in fact, its only support it alone provides illumination. For bodies consist of parts it is certainly of no little importance that it be clearly established of which parts, and in what way they are combined together. [...] But how, in this business, can metaphysics be married to geometry, when it seems easier to mate griffins with horses than to unite transcendental philosophy with geometry?” (AA I, PM, s 475). Apud: DE BOER, K. Transformations of Transcendental Philosophy: Wolff, Kant e Hegel. Bulletin of the Hegel Society of Great Britain, V. 63 (2011), 54.
A filosofia transcendental é, com isso, uma novidade que promulga no seio da reflexão metafísica um modelo de ciência, de maneira a permitir certeza objetiva sobre as asserções. Para que se possa mostrar, a partir de todo esse esboço teórico, que o caráter implícito da metafísica proposta por Kant possui validade como filosofia transcendental, faz-se necessário expor a estrutura da KrV, principalmente no que concerne à sua Lógica Transcendental. Com isso, aqui encontra-se, de modo direto, a base da filosofia transcendental como projeto de filosofia crítica.
Por meio da KrV é possível traçar a ordem da exposição do sistema da filosofia transcendental, na medida em que os passos argumentativos de Kant têm por meta articular os fundamentos da experiência teórica, partindo do espaço e do tempo, passando pela lógica que coloca regras para conhecer objetos, também pelo revelar dos limites de toda e qualquer cognição, e do sistema e do método que fundamentam e acimentam toda a construção reflexiva. Analisar brevemente o objetivo geral destes passos específicos auxiliar-nos-á a provar a hipótese de que o primeiro projeto kantiano tem por fundamento a reformulação total da metafísica como filosofia transcendental.
A KrV está dividida em dois capítulos, além da Introdução e dos Prefácios. O primeiro se intitula Doutrina Transcendental dos Elementos e o segundo Doutrina Transcendental do Método (analisaremos este último no próximo capítulo). Para a apreciação, desse modo, da filosofia transcendental é suficiente, em nossa hipótese, um olhar estrutural sobre o primeiro capítulo. A Doutrina Transcendental dos Elementos se divide em Estética Transcendental e Lógica Transcendental, que, por sua vez se subdivide em Analítica Transcendental e Dialética Transcendental. A Analítica também possui uma divisão central, a saber, em Analítica dos Conceitos e Analítica dos Princípios, cada uma contendo uma função específica no edifício crítico. Assim,
É sabido que a Crítica da razão pura apresenta uma estrutura argumentativa bastante peculiar. O que nem sempre se leva em consideração, todavia, é que essa estrutura define a maneira como Kant coloca seu problema filosófico central e sua proposta de solução. Nesse sentido, cada uma de suas partes deve ser compreendida como um passo da argumentação geral que justifica sistematicamente a proposta da Filosofia Transcendental como a melhor solução disponível para o problema do conhecimento metafísico exposto por uma crítica da razão.11
Kant inicia sua reflexão transcendental perguntando-se: qual é a verdadeira base que sustenta toda e qualquer reflexão acerca do mundo empírico, mas que não seja ela mesma empírica? A resposta para tal questionamento reside na Estética Transcendental, a qual Kant define como
11 BONACCINI, J. Sobre o Projeto Kantiano de uma Filosofia Transcendental. Educação e Filosofia. Uberlândia, v. 27, n. especial, 2013. p. 213.
“ciência de todos os princípios da sensibilidade a priori” (A 21 / B 35). É bastante sobre este ponto destacar cinco conceitos que compõem a base desta estética especial, de maneira a isolar a sensibilidade, a fim de que se trabalhe com elementos empíricos e suas possibilidades; são eles: sensibilidade, intuição, fenômeno, matéria e forma. Por meio destes é possível alcançar os conceitos de espaço e tempo como resultados.
A sensibilidade (referente à Estética Transcendental) é a primeira das três faculdades amplamente tratadas na KrV (as duas outras são o entendimento, Analítica Transcendental, e a razão, Dialética Transcendental), de modo que a estética é algo que parte da sensibilidade e chega a ela outra vez, ou seja, ao fim da reflexão tem-se a fundamentação transcendental em um novo sentido desta, diferentemente da simples tautologia. A sensibilidade, desse modo, é a “capacidade de receber representações (receptividade), graças à maneira como somos afetados pelos objetos” (A 20 / B 33).
A sensibilidade é definida como a faculdade da receptividade e, como tal, mostra o pensamento de Kant sob a espontaneidade humana para receber representações. No entanto, a escolástica alemã confundia esta característica sensível com uma capacidade intelectual de asseveração que ultrapassava o âmbito aqui em questão. A importância da sensibilidade se releva na função de fundamentação de todo e qualquer conhecimento que se queira válido, uma vez que esta recebe objetos por meio de intuições, isto é, esta última é um processo basilar do processo cognitivo moldado por Kant.
O conceito de intuição é importantíssimo, pois é por meio deste que o entendimento capta as representações para pensar os objetos e aplicar seus conceitos puros. Ora, “sejam quais forem o modo e os meios pelos quais um conhecimento se possa referir a objetos, é pela intuição que se relaciona imediatamente com estes e ela é o fim para o qual tende, como meio, todo o pensamento” (A 20 / B 34). A intuição projeta objetos e dá azo para o entendimento pensar tais objetos, através de representações. A sensibilidade, para Kant, fornece as intuições usadas posteriormente pelo entendimento. A sensação, por sua vez, é o efeito do objeto sobre a capacidade representativa e, como tal, é o meio necessário para o entendimento se dar conta de que trabalha com um tipo específico de intuição: a empírica. O resultado deste processo no seio da sensibilidade é o fenômeno.
Desse modo, o fenômeno é “o objeto indeterminado de uma intuição empírica” (A 20 / B 34). Ele é o dado bruto da intuição, pois enquanto esta última é o ato de levar este objeto indeterminado ao entendimento, aquele primeiro é o conteúdo que ainda não foi definido, uma vez que este não é o trabalho da recepção sensível. Entra aqui a faculdade do entendimento como responsável pelo juízo do fenômeno. No entanto, antes disso, na medida em que o fenômeno “corresponde à sensação” (A
20 / B 34), Kant o conceitua como uma matéria. A matéria é um conceito, o qual é dotado de vários significados diferentes, de modo que não é prudente entrar em uma reflexão mais apurada, restando, contudo, analisá-lo sob o ponto de vista de seu contraponto clássico usado pelo autor, ou seja, a forma.
Para Kant, a forma é aquilo que “possibilita que o diverso do fenômeno possa ser ordenado segundo determinadas relações” (A 20 / B 34). Este estilo de reflexão revela que o entrocamento entre matéria e forma necessita de uma base que dê sustentação a toda e qualquer reflexão metafísica que se queira crível em um sentido moderno e, de fato, para que isso seja possível, faz-se necessário dispor de um conceito de forma pura das intuições sensíveis em geral. Ora, a matéria nos é fornecida de modo a posteriori, no entanto a forma precisa ser algo a priori para que o conteúdo da reflexão seja moldado de forma válida ao discurso.
Aqui reside o primeiro passo para que uma metafísica possa ser transmutada em uma filosofia transcendental e apresentar-se ao público como ciência rigorosa, baseada em regras: podemos chamar esta etapa da descoberta de intuições puras, sem as quais seria impossível qualquer reflexão com sentido, ou seja, “há duas formas puras da intuição sensível, como princípios do conhecimento a priori, a saber, o espaço e o tempo” (A 22 / B 36). Com isso, aqueles cinco conceitos articulados entre si mostram como resultados: o espaço e o tempo. Ambos precisaram ser retomados da física e da matemática, a fim de mostrar que a filosofia transcendental se se quiser ciência rigorosa precisa de uma base transcendental voltada à empiria.
Tempo e espaço, desse modo, são os dois elementos fundamentais e necessários da estética transcendental. Ambos não são empíricos, mas intuições puras que permitem a identificação do fenômeno na faculdade da sensibilidade. Também é possível afirmar que limitam justamente a investigação transcendental ao âmbito empírico, uma vez que o espaço não muda de lugar, mas o sujeito percebe a mudança no espaço, assim também o tempo não muda, mas sim algo muda no tempo. Ambos são receptáculos a priori que sustentam o fundamento da ciência filosófica em sua faceta teórica sob as mesmas bases da ciência newtoniana. O resultado da Estética transcendental, assim, é que:
Eis-nos de posse de um dos dados exigidos para resolver o problema geral da filosofia transcendental: como são possíveis proposições sintéticas a priori? Referimo-nos a intuições puras a priori, o espaço e o tempo. Nestas intuições, quando num juízo a priori queremos sair do conceito dado, encontramos aquilo que pode ser descoberto a priori, não no conceito, mas certamente na intuição correspondente, e pode estar ligado sinteticamente a esse conceito; mas tais juízos, por esta razão, nunca podem ultrapassar os objetos dos sentidos e apenas têm valor para objetos da experiência possível (A 49 / B 73).
qualquer reflexão ocorra, partindo da análise de objetos, espaçotemporalmente. Compreender isto significa vedar qualquer fundamentação de objetos suprassensíveis, uma vez que estes não devem e não podem existir no espaço e no tempo. A forma de intuição do objeto, para Kant, não deve ser procurada nele mesmo, mas sim de maneira a priori; aqui reside a novidade do kantismo em relação à escolástica alemã.
Continuando a reflexão acerca da estrutura e do estatuto da KrV, vê-se que para um projeto de filosofia transcendental poder ser possível faz-se necessário romper com algumas velhas amarras que produziam resultados incoerentes em relação a uma época pautada pela empiria científica verificável já estabelecidas por Galileu e Newton. Kant procurou resolver este problema por meio de uma outra Lógica. Essa tarefa de estruturação da filosofia transcendental reflete a organização interna da própria Lógica Transcendental, na medida em que esta se divide internamente em Analítica e Dialética ambas concernindo ao conhecimento puro a priori.
A Analítica tem como tarefa principal fornecer as bases pelas quais os objetos podem ser, transcendentalmente, analisados por meio de conceitos puros com acurácia referencial. A Dialética, por sua vez, mostra que ao tentar conhecer objetos sem referência empírica, cai-se em paralogismos, antinomias ou em um ideal da razão pura. Com isso, foi necessário indicar a diferença entre a lógica geral (cânones que regulam todo e qualquer pensamento com sentido) e a nova Lógica Transcendental:
A geral abstrai, como indicamos, de todo o conteúdo do conhecimento, ou seja, de toda relação deste ao objeto e considera apenas a forma lógica na relação dos conhecimentos entre si, isto é, a forma do pensamento em geral […] Uma tal ciência, que determinaria a origem, o âmbito e o valor objetivo desses conhecimentos, deveria chamar-se lógica transcendental, porque trata das leis do entendimento e da razão, mas só na medida em que se refere a objetos a priori e não, como a lógica vulgar, indistintamente aos conhecimentos de razão, quer empíricos quer puros. (A 55 / B 79 – A 57 / B 81-2)
Kant mostra que não é possível haver um critério universal da verdade que seja válido para todos os conhecimentos, sem distinção dos seus objetos, como postulou e tentou a antiga metafísica, isto significa que, segundo Bonaccini, “Kant não entende conhecimento racional (isto é, puro), como um conhecimento de objetos puros, mas antes como um conhecimento puro de objetos […] Esse conhecimento, também chamado transcendental, não seria um conhecimento a priori por ser conhecimento de objetos a priori, mas antes por ser um conhecimento a priori da forma lógica dos objetos empíricos, impuros por definição.”12
Neste sentido, a busca pela verdade, tão cara à história da filosofia, ganha uma nova
12 BONACCINI, J. Sobre o Projeto Kantiano de uma Filosofia Transcendental. Educação e Filosofia. Uberlândia, v. 27, n. especial, 2013. p. 214.
roupagem, pois “a velha e famosa pergunta pela qual se supunha levar à parede os lógicos, tentando forçá-los a enredar-se em lamentável dialelo ou a reconhecer a sua ignorância e, por conseguinte, a vaidade de toda a sua arte, é esta: que é a verdade? A definição nominal do que seja a verdade que consiste na concordância do conhecimento com seu objeto, admitimo-la e pressupomo-la aqui” (A 57-8 / B 82). A lógica transcendental tem como função, desse modo, reorganizar o modelo metafísico de tratar objetos, por meio de um procedimento seguro que forneça uma base sólida para fundamentar juízos possíveis. Assim, é possível “saber qual seja o critério geral e seguro da verdade de todo o conhecimento” (Idem).
A função mais importante dessa reflexão na Lógica Transcendental não se vincula, simplesmente, ao seu modo de definir a verdade, mas, sobretudo, em saber qual o critério geral para tratar objetos. É, justamente, na Analítica transcendental que está baseada a fundamentação kantiana em vista de seu primeiro projeto. Aqui se fornece o critério geral para adequar o objeto à sua verdade específica, “no que respeita, porém, ao conhecimento, considerado simplesmente segundo a mera forma (pondo de parte todo o conteúdo), é igualmente claro que uma lógica, na medida em que expõe as regras gerais e necessárias do entendimento, deverá nessas mesmas regras expor critérios da verdade” (A 59 / B 84).
Desse modo, expor critérios à verdade não significa atribuir um sentido último aos objetos. A verdade, em sentido transcendental, consiste em uma função analítica de separação dos dados, a fim de organizá-los melhor e tratá-los com acurácia, de maneira que o conceito corresponda ao objeto. Este é o projeto da fundamentação da metafísica como ciência. Desse modo, apenas se pode tratar da verdade, de modo cognitivamente seguro, por meio do entendimento, estando suas bases gerais contidas na Analítica Transcendental.
Esta analítica é a decomposição de todo o nosso conhecimento a priori nos elementos do conhecimento puro do entendimento. Deverá nela atender-se ao
seguinte: 1. Que os conceitos sejam puros e não empíricos. 2. Que não pertençam à intuição nem à sensibilidade, mas ao pensamento e ao entendimento. 3. Que sejam conceitos elementares e sejam bem distintos dos derivados ou dos compostos de conceitos elementares. 4. Que a sua tábua seja completa e abranja totalmente o campo do entendimento puro. Ora, esta integral perfeição de uma
ciência não pode ser aceite com confiança se assentar apenas sobre o cálculo aproximativo de um agregado, obtido por simples tentativas; daí que seja somente possível mediante uma ideia da totalidade do conhecimento a priori do entendimento e [pela] divisão, determinada a partir dessa ideia, dos conceitos que o constituem, por conseguinte pela sua interconexão num sistema. O entendimento puro distingue-se totalmente não só de todo o elemento empírico, mas também de toda a sensibilidade. É, pois, uma unidade subsistente por si mesma e em si mesma suficiente, que nenhum acréscimo do exterior pode aumentar. Daí que o conjunto do seu conhecimento constitua um sistema, a abranger e determinar por uma ideia, sistema cuja perfeição e articulação possa oferecer, ao mesmo tempo, uma pedra de toque da exatidão e genuinidade de todos os conhecimentos que nele se incluam (A 64-5 / B 89-90).