3. A INTERPRETAÇÃO CONSTITUCIONAL EVOLUTIVA COMO
3.4 Métodos de interpretação constitucional
3.4.2 Métodos modernos
Os métodos modernos de interpretação constitucional que serão sinteticamente abordados são o método científico-espiritual, o tópico-problemático, o normativo- estruturante e o hermenêutico-concretizador.
O método científico-espiritual ou integrativo é defendido por Rudolf Smend em seu livro Verfassung und Verfassungsrecht (Constituição e Direito Constitucional) e tem como linha mestra a premissa de que a interpretação constitucional não tem como objetivo extrair o sentido do texto constitucional, mas, sim, compreender o sentido e a realidade da Constituição como um todo.
A Constituição consubstancia todos os momentos de integração, todos os valores primários e superiores do ordenamento estatal (direitos humanos, preâmbulo, território do Estado, forma de Estado), enfim, a totalidade espiritual de que tudo mais deriva, inclusive a sua força integrativa. 29 Portanto, o intérprete deve buscar, pela análise integrativa, o “espírito da Constituição”, ou seja, os mais distintos sentidos, conforme o tempo, a época, as circunstâncias.
A ideia de Constituição não pode se separar de uma ordem de valores, cujo sentido só poderá ser captado levando em conta os conteúdos axiológicos últimos da ordem constitucional.
O método tópico-problemático foi trabalhado por Theodor Viehweg e exposto em seu livro Topik und Jurisprudenz (Tópica e jurisprudência). A tópica é um processo especial de tratamento de problemas que se caracteriza pelo emprego de certos pontos de vista considerados pertinentes (tópicos ou “topoi”). Esses pontos de vista servirão para a ponderação dos prós e dos contras das opiniões, podendo conduzir o aplicador do Direito ao que é verdadeiro30, ou seja, à interpretação mais conveniente para o problema dentro das várias possibilidades derivadas da polissemia de sentido do texto constitucional.
O método tópico se centraliza no problema concreto e não no contexto sistemático, afastando, assim, a aplicação da dedução da norma ao fato, do sistema normativo para o caso concreto. Ademais, pode ser articulado com os outros métodos interpretativos e é aberto à participação dos vários intérpretes da Constituição.
Sem embargo, em virtude do perigo da arbitrariedade das decisões judiciais baseada no casuísmo, Canotilho pondera que
a concretização do texto constitucional a partir do topoi merece sérias reticências. Além de poder conduzir a um casuísmo sem limites, a interpretação não deve partir do problema para a norma, mas desta para os problemas. A interpretação é uma actividade normativamente vinculada, constituindo a “constitutio scripta” um limite ineliminável (Hesse) que não admite o sacrifício da primazia da norma em prol da prioridade do problema.31
29 BONAVIDES, Paulo. Curso de direito constitucional. Op. cit. , p. 478. 30
DANTAS, David Diniz. Op. cit. , p. 241.
O método normativo-estruturante foi desenvolvido principalmente pelo jurista alemão Friedrich Müller em sua obra Juristiche Methodik (Metódica Jurídica), que partiu da distinção entre “norma” e “texto da norma”, visto que a “norma” seria o resultado de um trabalho de construção a partir do texto, ou seja, a norma é o resultado da concretização na medida em que não está contido no texto, nem preexiste ao trabalho do operador do direito.
Canotilho buscou sintetizar os postulados básicos do método científico- estruturante:
(1) a metódica jurídica tem como tarefa investigar as várias funções de realização do direito constitucional (legislação, administração e jurisdição); (2) e captar a transformação das normas a concretizar numa “decisão prática”; (3) a metódica deve preocupar-se com a estrutura da norma e do texto normativo, com o sentido de normatividade e de processo de concretização, com a conexão da concretização normativa e com as funções jurídico-práticas; (4) elemento decisivo para a compreensão da estrutura normativa é uma teoria hermenêutica da norma jurídica que arranca da não-identidade entre norma e texto normativo; (5) o texto de um preceito jurídico positivo é apenas a parte descoberta do iceberg normativo (F. Müller); (6) mas a norma não compreende apenas o texto, antes abrange um “domínio normativo”, isto é, um “pedaço de realidade social” que o programa normativo só parcialmente completa; (7) conseqüentemente, a concretização normativa deve considerar e trabalhar com dois tipos de elementos de concretização: um formado pelos elementos resultantes da interpretação do texto da norma (=elemento literal na doutrina clássica); outro, o elemento de concretização resultante da investigação do referente normativo (domínio ou região normativa).32
Müller desenvolveu uma metodologia jurídica relativa ao processo de interpretação das normas constitucionais a ser adotado pelo aplicador do direito. Inicialmente, o intérprete deve escolher os textos de norma que lhe pareçam apropriados para o caso; depois, deve delimitar o “campo factual”, por meio da soma das hipóteses de textos de normas incidentes sobre os fatos, e do “campo de espécie”, incidentes especificamente sobre o caso concreto; em seguida, far-se-á a interpretação do conjunto de dados lingüísticos, obtendo-se, assim, o “programa normativo”; à continuação, delimitar-se-á, a partir do “campo factual/” e do “programa normativo”, o “âmbito normativo”, ou seja, os fatos co-normativos para a solução do caso concreto ou, em outras palavras, o recorte da realidade social abrangida no âmbito de regulamentação; após, far-se-á o reconhecimento da norma jurídica, abstratamente considerada, por meio da junção entre “programa
normativo” e “âmbito normativo”; e, finalmente, realizar-se-á a individualização da norma jurídica em uma “norma-decisão”.33
O método hermenêutico-concretizador foi desenvolvido por Konrad Hesse, em seu livro Grundzuge des Verfassungsrechts (Elementos de Direito Constitucional). De acordo com o jurista, o operador do Direito cumpre a tarefa da interpretação mediante um procedimento racional que tem por objetivo a tomada de decisões em um problema concreto. Por isso, a interpretação constitucional não é um procedimento de subsunção, mas de concretização.
O procedimento de concretização da norma vincula-se a três elementos: a pré- compreensão do intérprete, o problema concreto a ser resolvido e a norma a ser concretizada. E tem como objetivos descobrir o resultando constitucionalmente correto, por meio de um procedimento racional e controlável, e fundamentar, também de forma racional, esse resultado, dotando-se o método jurídico de certeza e previsibilidade.34
Canotilho sintetiza as principais características do método de Hesse:
O método hermenêutico-concretizador arranca da idéia que a leitura de um texto normativo se inicia pela pré-compreensão do seu sentido através do intérprete. A interpretação da Constituição também não foge a esse processo: é uma compreensão de sentido, um preenchimento de sentido juridicamente criador, em que o intérprete efectua uma actividade prático-administrativa, concretizando a norma para e a partir de uma situação jurídica concreta. No fundo, esse método vem realçar e iluminar vários pressupostos da tarefa interpretativa: (1) os pressupostos subjectivos, dado que o intérprete desempenha um papel criador (pré-compreensão) na tarefa de obtenção do sentido do texto constitucional; (2) os pressupostos objectivos, isto é, o contexto actuando o intérprete como operador de mediações entre o texto e a situação em que se aplica; (3) relação entre o texto e o contexto com a mediação criadora do intérprete, transformando a interpretação em movimento de ir e vir (círculo hermenêutico).35
Analisados os principais métodos de interpretação constitucional, é importante salientar que nenhum deles deve ser absolutizado, pois todos, inclusive os métodos tradicionais, podem contribuir para a tarefa de interpretar e concretizar a Constituição.
Nesse sentido, Canotilho afirma que a interpretação das normas constitucionais é um conjunto de “métodos, desenvolvidos pela doutrina e pela jurisprudência com base em critérios ou premissas (filosóficas, metodológicas, epistemológicas) diferentes, mas, em geral, reciprocamente complementares.”36
33 DANTAS, David Diniz. Op. cit. , p. 253-255. 34 DANTAS, David Diniz. Op. cit. , p. 247. 35
CANOTILHO, J. J. Gomes. Direito constitucional. Op. cit. , p. 1176.