2 A TEORIA DA MÍDIA RADICAL ALTERNATIVA E DA MÍDIA TÁTICA
2.4 Mídia Radical Alternativa e Software Livre
Se o objetivo é construir uma sociedade livre, não é suficiente apenas colocar a liberdade na mão das pessoas. Se elas não a apreciarem, a deixarão cair, e a perderão. Se nós queremos que a liberdade resista, temos que ensinar as pessoas a reconhecer o seu valor para que possam defendê-la. (RICHARD STALLMAN – CO-CRIADOR DO PROJETO GNU⁄ LINUX)
O movimento internacional pelo Software livre, que nasce do projeto GNU, cria a Licença Pública Geral (General Public License – GPL), desenvolvida, sobretudo, pela Free Software Foundation, Inc. uma alternativa encontrada por seus idealizadores para garantir a liberdade de compartilhar e alterar softwares de código-fonte aberto e permitir sua distribuição, duplicação e uso.
Para Free Software Foundation (1991), um software pode ser considerado livre quando os usuários têm acesso a quatro liberdades: a liberdade para executar o programa com qualquer propósito; a liberdade para estudar como o programa funciona e adaptá-lo às suas necessidades, o acesso ao código-fonte é um pré-requisito para isto acontecer; a liberdade para redistribuir cópias do programa; e a liberdade para melhorar o programa e distribuir suas melhorias para o público em geral.
O movimento de software livre é altamente pluralista em relação aos seus objetivos, componentes e processos, Pereira (2004) observa que, simultaneamente, ele é: uma fonte de inovação tecnológica, o qual coloca em evidência a questão do modelo de desenvolvimento e comercialização da tecnologia; um movimento em que parte de seus membros dedica-se, quase que, exclusivamente; um movimento que se autodefine como comunitário e um palco para construção e reprodução de certas identidades coletivas; uma rede comunicacional e social que congrega programadores e usuários de toda parte do mundo; e finalmente um campo de análise fecundo, palco de construções identitárias, e elaboração de valores éticos e ideológicos, mas também estéticos e simbólicos.
Ideologicamente, o movimento de software livre, aponta para alternativas de construção de uma sociedade livre se remetendo a idéia que o conhecimento deve ser acessível às pessoas, contra a racionalidade voltada para obtenção de lucro e status que ameaçam constantemente a liberdade de acesso a esse conhecimento, propondo, como afirma Pereira (2004), um modelo de desenvolvimento tecnológico baseado em três premissas: a partilha, a reconfiguração da dicotomia produtor/consumidor e a noção de progressão tecnológica como patchwork.
Esse modelo de desenvolvimento tecnológico, segundo Pereira (2004), pressupõe que desenvolvimento tecnológico é uma construção permanente e como um trabalho de patchwork, constantemente inacabado.
Se, por um lado, o software livre perverte o modelo organizacional de produção tecnológica, por outro desafia a comercialização do software, e o modelo econômico associado, assumindo, desta forma, um papel na corrente discussão sobre a mais ampla alteração dos modelos de negócio frente à internet (PEREIRA, 2004, p. 4).
Simultâneo a questão acima, a autora aponta que o movimento de software livre dota a tecnologia de significados e sentidos, não a apresentando como neutra, pois ela é desenvolvida a serviço de determinados propósitos e intencionalidades, em condições específicas, interadas com outras esferas da vida social, entre elas, a necessidade de publicização dos setores de contestação ao estabelecido.
Muitos movimentos sociais, ativistas, coletivos de mídia, artistas e indivíduos27 têm se apropriado não só das tecnologias livres, mas de suas bases ideológicas nas suas práticas políticas de construção de alternativas ao livre acesso a informação e ao conhecimento.
O projeto Active Sidney28, autogerido por programadores ligados ao desenvolvimento de softwares livre, desenvolveu uma software para multimídia, que permitia a qualquer usuário da internet fornecer textos,
27Indymedia. www.indymedia.org. Acesso em 4 jan. 2009. Nodo 50. www.nodo50.org.
Acesso em: 4 jan. 2009. Rise Up – www.riseup.net. Acesso em 4 jan. 2009. wu ming - http://www.wumingfoundation.com/. Acesso em: 4 jan. 2009. Overmundo -
http://www.overmundo.com.br/. Acesso em: 4 jan. 2009. Recombo -
http://www.recombo.art.br/. Acesso em: 4 jan. 2009. Critical Art Esemble - http://www.critical-art.net/. Acesso em: 4 jan. 2009. Adbusters - http://www.adbusters.org/home/. Acesso em: 4 jan. 2009.
vídeos e áudio acerca de manifestações e eventos, produzidos por movimentos sociais, grupos de afinidade e indivíduos, sem a mediação de um especialista. A plataforma digital ficou sendo conhecida popularmente como publicação aberta29, fora criada para prover uma cobertura ininterrupta dos protestos do dia de ação global no dia 18 de junho (J18), coordenado pela rede Ação Global dos Povos, contra a reunião do G8 na Alemanha em 1999.
Podemos encontrar, fora do contexto dos coletivos de contra- informação, as práticas da culture jamming, herdeira das práticas situacionistas e atualmente associadas como ações de mídia tática.
O termo culture jamming foi utilizado em sua primeira vez pela banda norte-americana Negativland, para definir sua forma de composição e expressão musical, designando uma série de usos de sabotagem e intervenções midiáticas - arte performática, notícias falsas, grafite, estêncil, vandalismo em outdoors - onde se utiliza da linguagem publicitária presente no cotidiano, subvertendo seu sentido original associado ao consumo e códigos hegemônicos para construir mensagens não previstas por seus criadores.
A revista canadense Adbusters, o grupo Billboard Liberation Front, especialistas em anti- publicidade, plataforma de criação e discussão RTMARK® redesenham a identidade visual de campanhas e logos de mega-corporações mantendo os formatos que as identificam, a Shell se transforma em Hell (inferno), a propaganda da Nike, na campanha Just do It, ganha novas imagens, que mostram uma trabalhadora da Indonésia, com os pés descalços, depois de uma jornada de sessenta horas por semana de trabalho semi-escravo em uma fábrica de calçados contratada pela corporação norte-americana. A bandeira norte-americana perde suas estrelas, que significam os 50 estados do
29Publicação Aberta significa que o processo de criação de notícias é transparente para os leitores. Eles podem contribuir com uma matéria e instantaneamente ver que seu artigo aparece junto com outros que estão disponíveis. Essas matérias são minimamente filtradas para ajudar os leitores a encontrar os artigos que desejam. Os leitores podem ter acesso às decisões editoriais que são feitas por outros. Podem saber como se envolver e ajudar a tomar as decisões editoriais. Se eles acharem que há uma melhor forma do software ajudar as pessoas, eles podem copiá-lo, porque é livre, e começar seu próprio site. Se quiserem redistribuir as notícias, também podem, preferivelmente, num site de publicação aberta.
(Tradução Colaborativa do Texto de Matthew Arnison Sobre publicação aberta). Mathew Armison, membro da Community Activist Technology (CAT) é um dos principais responsáveis pelo desenvolvimento do software de publicação aberta.
país, para ganhar os logotipos da Coca-Cola, IBM, Internet Explorer e outras marcas das mega-corporações30.
Os ativistas e artistas da culture jamming usam como matéria- prima os signos da mídia convencional, conforme Meikle (2002), para chamar a atenção à assuntos e problemas relacionados à própria mídia, em um jogo comunicacional que visa transformar os signos que são familiares em pontos de interrogação31, possibilitando que espaços antes colonizados por mensagens voltadas para o consumo se tornem espaços de questionamento.
Para Mazzeti (2006), se engana quem reduz as intervenções exclusivamente às anti- publicitárias e às anti- corporativas:
Nestas práticas está também em jogo uma questão comunicacional. Os processos de comunicação verticais, em que o receptor é submetido, mesmo que a contragosto, aos desígnios do emissor é subvertida nas práticas de intervenção urbana. À figura do espectador passivo, é contraposto um novo tipo de espectador, que não se resume ao âmbito da recepção, pois busca criar um diálogo com as informações que lhe cercam, de modo cada vez mais evasivo, no dia-a-dia. A cidade, com seus cartazes, placas de trânsito, fachadas de lojas e outdoors, transforma-se e renova-se, então, como lugar de troca simbólica. Troca esta que, por si só, já uma politização do cotidiano, uma vez que o diálogo é aberto “à força”, através de intervenções ilícitas, em atos de desobediência civil (MAZZETI, 2006, p. 5).
A prática dos jammers pode misturar uma série de elementos para realizar seus objetivos, não só o consumo e as obras publicitárias são os alvos de suas ações, mas também os espetáculos promovidos pelos meios de comunicação de massa.
Em 1994, centenas de ativistas e artistas na Europa resolveram adotar a mesma identidade criando o pseudônimo multiuso Luther Blissett, nome inspirado em um jogador de futebol jamaicano,
30Para conhecer um pouco mais sobre as atividades do coletivo Adbusters e, Billboard Liberation Front visite a página http://www.adbusters.org/, http://www.billboardliberation.com, http://www.rtmark.com. Acesso em: jan, 2009.
31Citado por MAZETTI, Henrique Moreira. Intervenção urbana: representação e subjetivação
na cidade. Intercom – Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação. XXIX Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação, UnB, 6 a 9 set. 2006.
considerado o pior jogador que passou pelo Milan da Itália. O objetivo: contar ao mundo uma grande história, criar uma lenda, dar à luz um novo tipo de herói popular32.
Entre 1994 e 1999, o Luther Blissett Project, uma rede organizada em torno da identidade Luther Blissett, promoveu campanhas em prol da defesa de vítimas de censura e repressão, mas sua principal atividade foi enganar a mídia convencional, ridicularizando-a.
Em 1995, é comunicada a produção do programa Chi l'ha visto (Quem o viu), do canal 3, da TV estatal italiana, sobre desaparecimento do artista e intelectual Harry Kipper, na fronteira ítalo-iugoslava enquanto fazia sua viagem de bicicleta pela Europa. A equipe de reportagem se deslocou até a fronteira e procurou o desaparecido; seguindo pistas até Londres, o programa só não foi transmitido porque um comunicado de autoria de Luther Blissett desmentiu a história toda, o artista, e intelectual Harry Kipper, nunca havia existido.
Quantos zés ninguém e Luther Blissett existem espalhados pelo mundo? Se nosso vizinho de casa desaparece, saberemos "tudo" pela televisão, sem nem a necessidade de olhar pela janela. A mídia de massa nos oferece a medida da nossa existência. Muitos vivem para aparecer, mas somente poucos aparecem para viver. Luther Blissett apareceu desaparecendo. Pode desaparecer uma pessoa que não existe? Principalmente se seu nome for apenas o pseudônimo do suposto ilusionista Harry Kipper, misteriosamente desaparecido? Ser e não aparecer, e quem resolve aparecer atrás de um nome coletivo faz isso para desarrumar as regras do jogo. Se na mídia aparece o rosto de Luther Blissett, este é com certeza mais um falso, pois LB possui rostos demais para ser representado somente por um. Mas acima de tudo porque, se está presente na mídia, então desaparece como LB, isto é, prefere-se a aparência à existência. Luther Blissett (WU MING, 2008).33
Em 1996, Luther Blissett é contatado pela editora italiana Mondadori, para organizar um livro com uma coletânea de textos do suposto ativista anticapitalista. Blissett aceita a proposta e envia os textos para publicação. O livro saiu com o nome de Netgener@tion, organizado por Giussep Genna. Depois do lançamento os jornais italianos são bombardeados com uma declaração que desmascarava a farsa. Na verdade os textos eram redações escolares retiradas da internet e organizadas de forma sistemática.
32http://www.wumingfoundation.com/italiano/bio_portugues.htm#01. Acesso em: 22 abr. 2009. 33WU MING. Foundation. O que somos e o que fazemos. Disponível em
Luther Blissett Project, em 1997, lançou sua sabotagem midiática mais sofisticada, através de uma série de comunicados falsos, indícios materiais e testemunhos forjados, durante um ano sustentou a denuncia de que cultos satânicos, caçadores de bruxas e cristão estavam travando uma guerra nos bosques de Viterbo. A mídia e políticos locais engolem a mentira e passam a discutir e noticiar os fatos diariamente nos canais de televisão e rádio. Não demorou muito também para aparecerem sociólogos, teólogos e outros especialistas para dar sua opinião esclarecida sobre o tema.
A “peça de Viterbo”, como os ativistas afirmam, mostrou a falta de profissionalismo de alguns jornalistas e falta de um motivo para pânico moral, mais do que isso, mostra que as mediações no cotidiano e o potencial de distorção da indústria cultural também podem assumir papéis irreais agendando discussões e criando um imaginário remissivo a realidade. Nada foi criado, apenas copiado e ampliado, para deleite dos preconceitos e crenças dos sujeitos.
Como se vê nas considerações de Rubim (2003) e Martín- Barbero (2003) a relação entre mídia e política, não decreta a morte da política, e sim a reconfiguração, onde as disputas se estabelecem, segundo especificidades próprias. Desta forma, cada vez mais se torna imperativo perceber as mediações da mídia como parte integrante do campo da política e não como algo estranho à atividade política.
Em comum, Rubim, Downing e Martín-Barbero redefinem a necessidade dos movimentos de contestação se apropriar das técnicas midiáticas para existir publicamente, frente aos bloqueios gerados pela mídia convencional.
Nesse sentido, acreditamos que o campo da mídia radical e da mídia tática, são os espaços privilegiados para análise das experiências construídas nos movimentos de contestação, não tanto por sua eficácia, mas por estarem sempre à frente na busca de alternativas.
Buscando observar que as experiências da mídia radical alternativa, seus objetivos, suas práticas e formas de se organizar, possuem certa autonomia dos movimentos e sujeitos políticos que contestam o estabelecido, ainda que tente, não conseguem quebrar com todas as formas de opressão que encontramos no tecido social.
O desenvolvimento das tecnologias de comunicação e informação tanto transformou as ações coletivas, como veremos em Castells (1999) e Melucci (1999), como também trouxe pautas e reivindicações, aparentemente adormecidas, como o livre acesso e a produção coletiva do conhecimento e informação e a produção de um novo imaginário utópico.
Parafraseando a pergunta de Mannheim (1982) sobre o que o que aconteceria com uma geração se a geração que antecedesse não deixasse de existir? Podemos indagar sobre o que aconteceria com as mídias radicais alternativas contemporâneas se elas fossem apenas uma reprodução dos modelos de mídia radicais alternativas que as antecederam?
A resposta é que se não estivessem tão imbricadas com as movimentações sociais contemporânea, simplesmente deixariam de existir por conta própria, por desinteresse de seus sujeitos ou por seu isolamento.
A percepção da necessidade de construir outra comunicação midiática atravessa o campo dos movimentos de contestação, inquieta aqueles e aquelas que não se sentem contemplados pelas imagens construídas pela mídia convencional, sejam elas ligadas às determinações de mercado, estatais e religiosas, e mesmo, pelo modelo cartesiano de comunicação, onde a democratização dos meios se finda na troca dos conteúdos das mensagens.
Nossa proposta é compreender a participação política da juventude contemporânea observando suas atividades nas mídias radicais alternativas, não por sua eficácia, mas na busca de compreender as alternativas que são propostas. Parafraseando Boockhin, não importa saber se as rádios livres um dia substituirão as rádios comerciais, se o software livre quebra com o império da Microsoft, o que importa saber é se essas práticas políticas estão proporcionando uma nova consciência, uma sociabilidade livre e igualitária.
No próximo capítulo, o enfoque será na revisão bibliográfica acerca das teorizações sobre a juventude e ações coletivas nas sociedades complexas, logo se perceberá que ao associarmos o termo mídia radical alternativa a categoria juventude, estamos falando de uma juventude de esquerda mergulhadas nas tramas cotidianas das sociedades contemporâneas.
3 AS “JUVENTUDES” CONTEMPORÂNEAS E SUAS