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4 A GLOBALIZAÇÃO, SUAS CONSEQÜÊNCIAS E O PODER IMPERIAL

4.3 O Neoliberalismo: Origem e Implantação

O neoliberalismo nasceu das críticas ao keynesianismo do austríaco August Von Hayek51, mas foi somente a partir da década de 1980, sob orientação de intelectuais de peso, como Milton Friedman e seus pupilos na Escola de Chicago, entre outros, que a ideologia que radicaliza a oposição entre Estado e Mercado, se consolidou na maioria dos países do mundo para defender uma absoluta liberdade de mercado.

A proposta principal defendida por Hayek (1977), no seu livro O Caminho da Servidão, era que o controle dos meios de produção e serviços pelo Estado leva apenas a um único caminho: a tirania. Mas

51Hayek fez seu doutoramento na Universidade de Viena, vai ter o pensamento influenciado na

Escola Austríaca de Economia, onde os principais nomes eram Ludwing Von Mises, Eugenio Boehm Bawerk e Friedrich Wieser, apesar de o autor ter, por curto espaço de tempo, nutrido uma simpatia pelo socialismo Fabiano, o autor vai se aproximar de Mises, nos anos 1920. Hayek torna-se discípulo de Mises, com quem acaba trabalhando durante cinco anos em uma oficina do governo, o que o teria aproximado do antigo professor na Universidade de Viena foi o posicionamento anti-socialista, a mudança repentina faz que Hayek passe a analisar o sistema elaborado pelo colega e desenvolva sua própria crítica ao socialismo, permeada de uma originalidade que atrai muitos intelectuais da época. O sucesso da sua obra Teoria Monetária e o Ciclo Comercial (1929), reeditada várias vezes, lhe garantiu um convite para expor suas idéias na Escola de Londres, onde o autor vai polemizar com John Maynard Keynes. Durante toda a década, de 1930 a 1940, os autores vão debater e rebater as críticas entre si, o estopim do debate foi o ensaio de Keynes O Fim do laissez- faire publicado pela primeira vez ainda em 1926, onde o autor emprega um papel importante na intervenção do Estado na economia. A resposta de Hayek veio em forma de críticas aos livros Um Tratado Sobre o Dinheiro (1930), Keynes reage criticando Preços e Produção de Hayek e escrevendo o livro que se converterá no livro mais influente do século XX no que diz respeito a política econômica: A Teoria Geral do Emprego, o interesse, o dinheiro, de 1936.Hayek nesse período refina suas críticas e escreve Teoria Pura do Capital, em 1941 e O Caminho da Servidão, em 1944, este último onde se dedica demonstrar que o socialismo é autoritário por não dispor de preços de mercado e por suprimir a individualidade do homem.

apesar de destacar que o coletivismo do fascismo, do socialismo e do nazismo, para ele, gêmeos univitelinos, o autor direcionava suas críticas também aos que empregavam a fraseologia liberal em defesa de privilégios anti-sociais e ao abandono dos princípios básicos do liberalismo.

Na década de 1950 um dos episódios mais conhecidos da origem do neoliberalismo é a criação por Hayek da Sociedade do Monte Pelerin, uma espécie de clube de economistas, defensores do livre comércio que reunia entre seus membros Karl Popper, Ludwig von Mises e Milton Friedman. Conforme Bresser-Pereira (2009) a criação Sociedade do Monte Pelerin é precursora do neoliberalismo, mas não é o próprio neoliberalismo, estes intelectuais estavam combatendo no meio intelectual uma ideologia e um movimento político que pretendia substituir o capitalismo pelo socialismo, o mercado pelo planejamento, o neoliberalismo vai emergir anos mais tarde como uma ideologia dos ricos, assumida pelos governos a partir da década de 1980, como veremos mais à frente.

A vitória temporária dos liberais intervencionistas sobre os defensores do livre mercado absoluto possui uma série de fatores externos. Entre eles, o fato que a memória recente da crise de 1929 fortaleceu a convicção dos governos e dos proprietários industriais que só o keynesianismo e seu pragmatismo liberal poderia tanto garantir a prosperidade dos países capitalistas, como servir de propaganda contra- ideológica ao comunismo e nazismo.

A prosperidade pelo qual os países ricos passaram após II Guerra Mundial, tanto nos governos liberais como o americano, como nos países sociais democratas, na Europa recém reconstruída, mostrou que a contrapropaganda ao comunismo, via intervenção do Estado, na economia deu certo, pelo menos durante certo tempo.

No entanto, embora o consumo se constitua como uma peça- chave no capitalismo monopolista da adequação dos homens ao sistema de produção via fetichização da vida cotidiana, o acesso das classes subalternas a bens culturais (Educação formal, livros, música) potencializaram, em muitos casos, o alargamento da idéia de cidadania, para além de sua função conciliatória de classes e de subordinação cultural.

O sentido de cidadania como acesso a todos e a todas as decisões políticas e a riqueza social produzida, como exigiam os mais diversos setores da movimentalistas, nos anos 1960, mediados por uma cultura política radical de várias correntes, era algo que colocava em risco os interesses e o poder, tanto para os ricos proprietários liberais, quanto

para os setores mais conservadores da sociedade. Os primeiros por terem que lidar com a redistribuição, ainda parcial, de seus lucros, os segundos viam os privilégios da segregação racial e sexual serem colocados à prova da realidade.

Era de se esperar que os ricos escolhessem o neoliberalismo como filtro ideológico para justificar a manutenção do seu poder político e econômico, tendo que o liberalismo clássico não era mais suficiente para isso. Muitas das suas teses eram usadas contra o status quo da sociedade, seus elementos mantinham uma intrínseca relação com o papel revolucionário da burguesia, no século XVIII, contra o poder autocrático do Estado.

Segundo o economista liberal Bresser-Pereira (2009) o neoliberalismo irá aparecer com toda força nas ciências econômicas nessa época, nos Estados Unidos, se expressará de forma clara em quatro correntes de pensamento: “a teoria econômica neoclássica; o novo institucionalismo baseado nos custos de transação; a teoria da escolha pública; e a teoria da escolha racional reduzindo a política a um mercado” (p. 6).

Essas correntes, explica o autor, irão:

(...) desenhar uma visão reducionista do Estado e da política. A teoria econômica neoclássica demonstrará a desnecessidade da ação regulatória do Estado, o novo institucionalismo transformará o Estado em um segundo melhor (second best) em relação ao mercado, a teoria da escolha pública ou social transformará o Estado em uma organização intrinsecamente corrupta, e as versões mais radicais da escolha racional reduzirão a política aos lucros e às perdas no mercado (BRESSER- PEREIRA, 2009, p. 6).

Para esse mesmo autor os economistas nunca conseguiram separar com clareza sua ciência da ideologia. Por esse motivo, não lhe surpreende os economistas da corrente neoclássica demonstrarem isso da pior forma possível, escondendo o elemento político essencial da economia, mesmo depois da autonomização do campo econômico promovida pelo capitalismo. Para esse autor, por meio de uma imagem “ideal-realista”, criada, por modelos economicistas radicais e esquemas matemáticos concebidos como ciência pura.

As idéias neoliberais ganharam terreno durante a crise do modelo econômico de 1973. Os países do capitalismo avançado entraram em uma profunda recessão, que combinava uma baixa no desenvolvimento

com altas taxas de inflação, a primeira crise depois de décadas de crescimento.

Nesse momento Milton Friedman, da Escola de Chicago e futuro professor do neoliberalismo no mundo, ganha uma maior visibilidade nas esferas do Estado e entre os gestores capitalistas. Conforme Klein (2007) os banqueiros, acionistas e proprietários perceberam que não seria nada simpático se eles mesmos fossem seus interlocutores, certamente seriam acusados de barões ladrões, precisariam então de um intelectual com uma capacidade enorme de eloqüência e argumentos fortes em defesa do mercado livre que o fizesse filtrando os reais interesses das corporações por meio de instituições acadêmicas ou quase acadêmicas para ter legitimidade.

Friedman (1985) recomendava aos países a implantação de políticas econômicas que visavam três objetivos principais: a) a estabilização da economia (corte do déficit público e combate a inflação), em geral, tendo como medida a dolarização da economia e sobrevalorização da moeda nacional; b) reformas estruturais como a diminuição do Estado, através das privatizações, desregulamentação do mercado e liberalização comercial e financeira; c) abertura da economia, para atrair investimentos internacionais e a retomada do crescimento econômico, para gerar assim uma maior prosperidade para todos os indivíduos livres.

Bresser-Pereira (2009), na verdade, explica que se pretendia com isso era:

(...) um Estado fraco que deixasse que as economias nacionais, tanto dos países ricos onde essa ideologia se originou quanto dos países em desenvolvimento, se transformassem no “campo de treinamento” (playing field) das grandes empresas e dos seus altos executivos e agentes financeiros, deixando-os livres para nelas realizar rendas (rents) de todos os tipos em vez de juros moderados, de lucros empresariais e de ordenados profissionais – essas sim formas legítimas de remunerar razoavelmente o capital, o empreendimento e o conhecimento detido pelas elites econômicas (BRESSEE-PEREIRA, 2009).

Em Capitalismo e Liberdade, Friedman (1985) dedica um capítulo inteiro para afirmar que a liberdade econômica e política mantêm uma intimidade intrínseca, afirmando que o livre comércio se desenvolve melhor sob condições democráticas, mas sua visão ideologizada contra o Estado Social tornava a democracia um mero

conceito vazio restrito, meritocrático e elitista, na esfera institucional, sinônimo de democracia representativa, na esfera do cotidiano, uma mera relação contratual entre indivíduos supostamente iguais na possibilidade de ascender socialmente.

Friedman (1985), assim como para Hayke, define que a desigualdades sociais é algo saudável para todos, pois, segundo eles, é a partir das desigualdades que se cria a competitividade e daí o crescimento de toda a sociedade. Nesse sentido, as desigualdades de oportunidades, para o autor, não deveriam ser corrigidas pelo Estado, mas pela iniciativa dos próprios discriminados, percebendo apenas suas capacidades como limites.

A igualdade jurídica para o neoliberalismo implica no mesmo sentido na regulação da garantia de igualdade dos proprietários, o não monopólio e o combate a quaisquer direitos que interfira no direito sagrado estabelecido entre os indivíduos. Para o autor a liberdade deve ser enfatizada na esfera econômica, nas palavras de Friedman: os liberais não são anarquistas, caso a liberdade de investir, lucrar e consumir for ameaçada pelos direitos políticos, podendo ser suspensos, apesar de a democracia ser uma condição ideal para o desenvolvimento do livre mercado.

A intransigência é uma das marcas da implantação do neoliberalismo pelo mundo, como veremos a seguir, sob uma forte onda de catastrofismo de ordem ideológica, muitos países considerados liberais abandonaram a tolerância (NEGRI, 2005), o conflito dentro da ordem democrática (PARGA, 2005), ocultou a relação entre corporações e o governo na defesa do capitalismo sem regras. Na nova ordem global, grandes contingentes humanos são descartados a própria sorte (BAUMAN, 2005), já que não se encaixam na sociedade de consumo, algo que cria um poder soberano ainda mais repressor e a possibilidade de viver do produto de seu trabalho algo inalcançável para a maioria dos trabalhadores.

Apesar de seus defensores não aceitarem que se chame Milton Friedman de conservador, afinal o termo é essencialmente ligado aos autores anti-liberais alinhados a tradição como Burke e De Maistre, culpar a esquerda tal alcunha é quase que uma imbecilidade. Pois tanto Milton Friendman como seus pupilos fizeram tudo isso sozinhos, ao se aliarem a governos extremamente corruptos e ditaduras de direita e esquerda para colocarem suas idéias em prática e ao exaltarem teses

neoconservadoras pós-modernas, que decretavam o fim da história em seus discursos para cantar a vitória com a queda do regime soviético52.

Como explica a jornalista canadense Klein (2007) o termo doutrina de choque para descrever a implantação do neoliberalismo, que tem como referência a terapia de choque aplicada a pacientes da psiquiatria com o fim de remodelar sua personalidade quando esses estivessem desnorteados momentaneamente, consistiu durante as últimas três décadas na estratégia de “esperar uma grave crise e vender parte do Estado quando os cidadãos estavam ainda se recuperando do choque, e depois transformar as reformas em mudanças permanentes” (KLEIN, 2007, p.16).

Agir rápido, de seis a noves meses, e aplicar todas as medidas econômicas de uma só vez, era o conselho dado por Friedman (1985) para garantir a eficácia das ações em prol da liberação do comércio. Podemos dizer que a síndrome de auto-suficiência neoliberal acreditava que o veneno mais amargo para população era o remédio para estabelecer a cura para sua miséria, só que na prática, o veneno só podia ser aplicado se você matasse o paciente antes, como demonstra as ações dos governos que aplicaram o neoliberalismo de forma ortodoxa.

Nos países de capitalismo avançado, o neoliberalismo tem sua história ligada aos governos do presidente Ronald Reagan (1981-1989) e da primeira-ministra da Inglaterra Margareth Thatcher (1979-1990), e à suas ações para acabar com o estado de bem-estar social, com programas tipicamente neoliberais, às constantes guerras contra as nações, consideradas empecilhos aos interesses econômicos estratégicos dos seus países e à ameaças terríveis à democracia e às medidas para conter qualquer forma de contestação ao estabelecido.

No entanto, é na América Latina e nos países de capitalismo atrasado e emergente onde os problemas estruturais, a desigualdade econômica e disparidades na concentração do poder político possuem antecedentes, historicamente, conectados às elites racistas, patrimoniais e oligárquicas, que o neoliberalismo vai deixar o maior rastro de destruição e deserdados.

52Milton Friedman e seus pupilos da Escola de Chicago exerceram funções importantes nos

quadros técnicos dos governos militares ou como conselheiros destes na América latina e Ásia, assim como, na abertura econômica da Polônia, União Soviética, da China e nos eventos causados por catástrofes naturais ou por conflitos bélicos como no caso do Iraque, não só aconselhando quais a medidas que deveriam ser adotadas, mas o momento certo para adotá-las.