6. EXPERIÊNCIAS MUSICAIS DOS JOVENS E SUBJETIVIDADES
6.1 Experiência musical: marcas de subjetividade
6.1.1 Música como marca de vida pessoal e subjetividade
Segundo Woodward (2004),
[...] o conceito de subjetividade permite uma exploração dos sentimentos que estão envolvidos no processo de produção de identidade e do investimento pessoal que fazemos em posições específicas de identidade. Ele nos permite explicar as razões pelas quais nós nos apegamos a identidades particulares (p. 55-56).
É isso que percebemos revelar-se nos depoimentos abaixo, nos quais jovens contam sobre sua relação com a música que fazem ou que sonham em fazer. Eles são músicos ou desejam fortemente poder ser identificados como tal, e o entusiasmo com que deram seus depoimentos flagrava esse desejo ou a intensidade de saber-se músico.
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Das observações, recolhi os seguintes dados que indicam a presença da música como marca de vida pessoal e subjetividade dos jovens colaboradores da pesquisa:
G. fala, pela primeira vez, que querem “focar no som”, e que o visual é bom deixar de lado, que ele faz parte da música, mas o mais importante é tocar bem e não vestir- se bem, pois o importante é a música. J. V. diz que o povo olha neles a tranquilidade que têm, a experiência que têm, porque essa não é a sua primeira apresentação, estão formados como grupo desde o ano passado e já tocaram em público várias vezes. [...] Fico surpresa quando diz que ele e o C. estudam música há um bom tempo, ele no projeto do SESC, tocando violino na Orquestra Filarmônica Mirim e na Orquestra de Câmara do SESC, e C. já estudou na escola de música Allegro Moderato, onde fez violão clássico por um ano e meio e dois anos de guitarra. Diz que o que aprendeu com seu professor faz com que “pegue as coisas” com mais facilidade, como partituras musicais. [....] Agora, J. V. vai apresentar com sua banda as canções que citou, a convite do diretor. Fala umas palavras e apresenta seus colegas e os instrumentos que tocam ao estilo do que fazem os músicos de bandas, em geral. Muitos aplausos dos pais, professores e funcionários. Entre as duas músicas, J. V. cita o site da banda e convida as pessoas a visitá-lo (O PII1).
Ainda segundo Woodward (2004), “vivemos nossa subjetividade em um contexto social no qual a linguagem e a cultura dão significado à experiência que temos de nós mesmos e no qual nós adotamos uma identidade” (p. 55). Para essa autora dos Estudos Culturais, os significados construídos pelos discursos devem nos recrutar como sujeitos para que sejam realmente eficazes. Os depoimentos desses jovens deixam claro que a experiência com música, sua linguagem e a cultura ou as culturas que ela expressa tem parte importante nas suas identidades, no que são ou no que pretendem vir a ser, e que essa trajetória passa pela música e por suas práticas. Isso significa que a música como prática cultural os recruta como sujeitos.
Nas entrevistas individuais, eles responderam às perguntas abaixo, revelando o papel da música como marca de vida pessoal e subjetividade:
Pesquisadora – Quais são seus grupos musicais e cantores preferidos? O que você mais admira neles?
E PII7 (menina, 15 anos) – Eu gosto de música pop, MPB e evangélica. Olha, eu gosto da banda Hill Song, gosto de Catedral, muito legal também. É do primo do Renato Russo, dentre outros. Essas músicas me trazem paz, porque o dia-a-dia é muito agitado, então, às vezes, é muito bom ouvir.
E PII15 (12 anos, menino) – Eu gosto da Avril Lavine e Evanecense. As letras das músicas têm muito a ver comigo. Por exemplo, igual a da Avril. Tem muita letra de música que tem muito a ver comigo. Por exemplo, um momento que cê tá vivendo. Você escuta essa música e parece que está na música tudo isso que você tá vivendo
“Quando selecionamos os bens e nos apropriamos deles, definimos o que consideramos publicamente valioso, bem como os modos de nos integrarmos e nos distinguirmos na sociedade, de combinarmos o pragmático e o aprazível” (Canclini, 2008, p. 35). Pode-se notar, nas falas acima, que os jovens escolhem músicas, cantores e grupos musicais por encontrarem neles motivos de identificação consigo mesmos, dentre eles papeis em suas vidas, como os de trazer calma, descrever sentimentos e ideias seus, além do prazer de ouvir, simplesmente. Para reforçar isto, encontro em Seren (2011) a seguinte interpretação sobre o critério para escolha de repertório pelo jovem, atualmente:
A escolha do repertório não é feita pelo deleite, pela fruição e contemplação da arte, mas pelo estímulo dos efeitos adjacentes que a música é capaz de causar. Logo, a cultura midiática intenciona evocar pretextos extramusicais como os estados afetivos e os efeitos comportamentais (SEREN, 2011, p. 122).
Para a pergunta “Você alguma vez já se inspirou neles para fazer algo ou se influenciou por eles, de alguma forma? Como?”, foram obtidas as seguintes respostas:
E PII5 (16 anos, menino) – O estilo de vida desses cantores que falei é basicamente o skate. Eu ando de skate há um ano, mais ou menos, e sempre levei esse estilo comigo, sempre carreguei. E basicamente eu fui influenciado a escutar isso, porque a gente vive naquele mundo dos skatistas, curte aquilo. Daqui a pouco a gente vai e acaba escutando, gostando.
E SM2 (15 anos, menino) – Já, eu acredito que já porque acho que o meu estilo de ser parece com o deles, o jeito que eu ajo, as minhas atitudes, e a minha parte da área que eu toco a música, também parece. Por exemplo, o jeito de eu me vestir, principalmente. Eu sou diferente, não sei, o jeito que eu ajo, eu acho, assim meio roqueiro, o pessoal fala... Não por gostar, mas por atitudes mesmo.
E PII8 (16 anos, menino) – O Nocivo de rap, e fGnk o MC Rodson. Ah, eu curto a letra da música mesmo, o jeito que eles fazem a música.
É riquíssima a variedade de respostas que os jovens deram a essa pergunta acima, demonstrando o quanto a relação com um ídolo pode modificar suas experiências não somente musicais, mas cotidianas de modo geral. Para Seren, as relações dos jovens com o mundo, “antes preestabelecidas e definidas pelos laços culturais tradicionais, agora se transformam numa relação sujeito-mundo, capazes de manter ou transformar radicalmente os comportamentos, pensamentos e sentimentos humanos” (SEREN, 2011, p. 75). Nesse conjunto, podem-se incluir aquelas que têm com seus cantores e músicos preferidos, e que abrangem não somente o repertório trazido por estes, mas também modos de vida,
170 Pesquisadora – Você ouve música com frequência? Onde e em que circunstâncias? E PII11 (12 anos, menino) – Ouço muita música porque meu pai é músico, ele toca ali no Palácio das Artes, ele toca... ele é percussionista. Ele toca nas aulas de balé do Palácio das Artes e numa companhia ali em cima, chamada Corpo. Eu ouço várias vezes muitas músicas em casa, o meu pai também. Aí, todo mundo da família escuta muita música.
Pesquisadora – Seu pai é que leva essas músicas?
E PII11 – É, algumas vezes, umas sim, outras não. Tem algumas que eu escolho. Pesquisadora – Que estilos de música você ouve mais? Por quê?
E PII15 (12 anos, menina) – Rock, não sei, porque mais me identifico. Quando eu era pequena eu escutava muita música por causa da minha mãe e do meu pai, assim... rock. Aí eu fui crescendo, fui entendendo.
Acima, percebe-se a clara influência da família nas escolhas musicais dos jovens, encontrando no pensamento de Boudieu a fundamentação adequada para esse fenômeno. Aqui, o capital cultural que, segundo esse estudioso, explica as desigualdades de desempenho escolar em crianças oriundas de diferentes classes sociais, encontra-se em estado incorporado: aquele que se refere à herança familiar a qual atua no desenvolvimento escolar pelo fornecimento de modelos e referências culturais à criança e ao jovem (NOGUEIRA; NOGUEIRA, 2009; SEREN, 2011).
Ao analisar os grupos focais, encontrei os seguintes depoimentos sobre música como marca de vida pessoal e subjetividade:
G., GF SM1 (15-16 anos, menino) – A visão que você tem da situação, de acordo com a letra da música, o que ela te passa, muda bastante. Mesmo que a situação se repita, duas músicas diferentes podem te dar duas saídas distintas para aquela situação.
O incrível depoimento acima, muito comum em músicos profissionais, ligados à música de maneira fundamentalmente diferente da que é vista aqui na fala desse jovem, mas que guarda com ela a semelhança da profundidade com que a música pode definir estados de espírito, de ânimo.
S., GF SM1 (15-16 anos, menina) – Foi muito diferente, o caminho assim da montanha russa foi muito diferente. Se coloca uma música calma, você se sente mais calma, se coloca uma música mais assim GaG você só vai sentindo assim, é muito bom.
O depoimento da jovem S. possui muita afinidade com a descrição a seguir, encontrada no livro ConsGmidores e cidadãos, de Canclini (2008).
Mal alcanço o Periférico, o trânsito parece ajustar-se ao concerto de Telemann, que me acompanha nas cordas; os Dodges e Chevrolets que mudam de pista para me ultrapassar são a irrupção dos metais; o Mercedes, que agora desliza à frente de todos, entra como um oboé, suave, quase imperceptível. Justo quando começa o segundo movimento, sempre adágio ou andante nos barrocos, o trânsito se faz mais lento, porque nos aproximamos do trecho onde se reúnem os que chegam do viaduto. É um movimento de muitas passagens, da terceira para a segunda, das cordas ao cravo, às cordas, enquanto os carros vão se detendo e o trânsito sonolento impede que cheguemos juntos ao alegro final (CANCLINI, 2008, p. 123).
O caminho da montanha russa de S. foi afetado pela música que ouvia durante a experiência, assim como no relato acima o trajeto do autor enfrentando um trânsito caótico também foi modificado e, pode-se dizer, moldado pelo concerto barroco que ouvia. O autor sente os timbres musicais acompanharem o movimento dos carros, o fluxo que acontece pelas ruas quando passa, como se houvesse um desenho programado para acontecer, como se fosse um balé que coincidisse com o momento fugaz de sua rotina de cidadão. A maneira como S. descreve seu passeio na montanha russa me impressionou muito, pois revelou grande sensibilidade da jovem ao narrar uma experiência que pareceria banal, talvez, se não houvesse sido acompanhada de música.
Pesquisadora – Qual é a experiência de vocês com música?
G.S., GF SM2 (13-14 anos, menino) – Eu acho que tem algumas frases em algumas músicas que ajudam a pessoa a decidir o caminho certo, ou se tá com alguma dificuldade. Algumas frases da música caem certinho na situação que você está passando.
Pesquisadora – Vocês curtem música mais quando estão sozinhos ou em grupo? Por quê?
S., GF SM2 (13-14 anos, menina) – Depende, porque, por exemplo, quando você tá sozinho, aí aquele tipo de música onde você pode se identificar, ou uma situação em que você tá passando ou tá pensando.
Segundo Seren (2011), “a música, tal como outras práticas culturais, atende a uma demanda simbólica que reforça e vigora diferentes visões de mundo e de significações que dele emergem” (p. 60), como se pode ver nos dois depoimentos acima. Em ambos, os jovens mencionam suas experiências ímpares com a música, comentando sobre seu poder de definir caminhos ou simplesmente acompanhar situações de vida que estão passando.
Pesquisadora – O que vocês mais fazem quando estão num ambiente com outros jovens quando tem música?
S., GF SM2 (13-14 anos, menina) – Quando eu tô com as minhas amigas eu sou mais aberta. Eu faço... eu canto, eu pulo, eu grito, a gente interage mesmo. Mas num grupo mais assim, por exemplo, quando tem pessoas que você não tem aquela
172 Pesquisadora – Que grupos e cantores são os seus preferidos e o que vocês mais admiram neles?
S., GF SM2 (13-14 anos, menina) – [...] Ela tem vários temas de música, ela não se concentra em um só, então ela passa por várias situações que acontecem. Eu gosto muito de Simple Plan e Bon Jovi porque as duas falam de... ah, não sei, eu consigo relacionar com algumas situações, eu gosto muito das músicas pelas letras mesmo [...] É, porque como eu disse, a Demi, ela me inspira, mas não me inspira em uma situação individual, não me inspira em alguma coisa que aconteceu comigo e eu pensei ‘olha ela’. Mas eu me inspiro muito também nas letras, em frases de músicas com situações. É uma coisa mais distinta
R., GF PII1 (12-13 anos - menino) – E uma coisa muito interessante é que, conforme o tempo vai passando, a pessoa vai definindo mais os ritmos musicais que ela gosta. Tipo assim, por enquanto eu gosto de quase todos os ritmos. Mas quando eu estiver na época da faculdade... Na faculdade eles sabem bem o estilo de música que eles gostam. Eles passam a ter um estilo de vida deles mesmos. Aí eu acho que à medida que a gente vai crescendo, a gente vai aprimorando os nossos gostos musicais.
A afirmação feita por esse jovem é muito rica, pois demonstra captar a experiência de pessoas que estão numa outra fase da vida pela qual ele ainda não passou, e denota ser capaz de antecipar um momento que ainda não viveu, relacionando o gosto musical e a seletividade mais apurada à música com a idade e a vivência universitária, tudo isso ligado ao estilo de vida. Parece que ele expressa seu momento possível de indefinição, sabendo que algo vai ser burilado com o tempo. Aliás, as falas de alguns jovens, de muitos deles, me impressionaram bastante por sua maturidade, especialmente de meninos e meninas de 12 e 13 anos, bem novos ainda.
Pesquisadora – Onde vocês mais partilham música, em que mídias e lugares? A.L., GF SM2 (13-14 anos, menina) – Geralmente, eu vou com os integrantes da minha banda lá pro centro da cidade, Praça da Liberdade, Praça Sete, aí a gente faz umas rodinhas lá e fica tocando violão e cantando, essas coisas.
Aqui também se vê o estilo de vida já assumido por esta jovem, uma menina de cabelos azuis, piercings pelo corpo e alguma maquiagem no rosto. Ela indicava seriedade ao falar de sua escolha por essa atividade, que é muito mais do que isso, um comportamento que configura seu estilo de vida.
Pesquisadora – Alguma vez vocês já se inspiraram nesses cantores ou grupos de alguma forma?
J.V., GF PII2 (12-13 anos, menino) – Eu já me inspirei nos Racionais. Porque eles têm uma filosofia de vida muito boa. Eles eram bandidos e saíram, e rap salvou a vida deles. Quando eu vou fazer alguma coisa que eu não consigo, eu me inspiro numa música deles. A letra fala que você tem que acreditar em você, que você tem que ser o melhor, e que tem que acreditar em você e que ninguém pode tirar o mérito que você tem. Aí, quando eu tô meio que pra baixo eu ouço essa música e lembro que eu posso ser o melhor e posso conseguir.
R., GF PII1 (12-13 anos, menino) – Eu não posso dizer assim que os artistas são uma inspiração pra minha vida, assim. São mais inspiração para o momento que eu tô vivendo. Tipo assim, quando eu invento que eu quero seguir algum artista, fazer o que eles fazem eu faço, tipo alguns artistas de rock que chega um tempo que eles resolvem ser rebeldes, se rebelar contra o mundo, aí eu vou e me rebelo contra o mundo também (risos). Mais especificamente com a minha família. Mas depois de um tempo eu vou e paro. Só faltou raspar o cabelo por causa da Miley Cyrus. Pesquisadora – Onde vocês mais compartilham música, em que mídias e lugares? R., GF PII1 (12-13 anos, menino) – Do jeito que a G. falou, eu procuro estar dentro do grupo, mesmo que não seja oficial, mas eu sempre procuro estar nos grupos que publiquem qualquer coisa que fale sobre os artistas ou a banda que eu estou gostando no momento.
Para Seren (2011), a música de consumo – aquela desprovida de intenção de arte e que utiliza fórmulas de efeito como refrãos insistentes – apresenta ao ouvinte, junto com a própria música, “um intérprete na forma de ídolo, uma divindade performática” (p. 122). Segundo esse autor, o sucesso de uma composição musical depende da exploração de outras expressões diferentes da música, expressões estas carregadas pela figura do ídolo, e os principais motivos para se gostar dele (SEREN, 2011). É exatamente isso que se percebe quando se leem os depoimentos dos jovens nesta investigação, sobre seus pontos de vista e suas relações com seus ídolos. Ouvi declarações apaixonadas, especialmente de meninas, sobre seus cantores e cantoras, e grupos musicais preferidos. Suas falas eram carregadas de admiração, alegria, e até mesmo chegavam perto do delírio, às vezes, não escondendo o prazer enorme em discursar sobre seus eles. Digno de nota é o fato de alguns jovens terem contado que imitam seus músicos prediletos em comportamentos diversos, não somente em seu modo de vestir ou pentear-se, ou seja, em aspectos físicos e materiais de suas personalidades. Seren (2011) comenta que a cultura midiática tem a intenção de “evocar pretextos extramusicais como os estados afetivos e os efeitos comportamentais.” (p. 122). Esse papel das músicas das mídias descrito pelo autor era facilmente observável durante as entrevistas e grupos focais, quando a pergunta era sobre os músicos preferidos dos jovens sujeitos.