2. PRESSUPOSTOS TEÓRICO-METODOLÓGICOS
2.4 Metodologia
Os dados desta investigação foram obtidos por meio de observações, entrevistas e grupos focais, realizados em duas escolas, uma pública da rede estadual de educação (EP1) e uma particular (EP2). No primeiro semestre de coleta, foram feitas 14 observações, sendo 5 na primeira escola e 9 na segunda. Foram observados espaços escolares em que ocorria música, exceto salas de aula, pois o objetivo da pesquisa era conhecer a presença da música das mídias entre jovens dentro da escola, mas não em contextos formais e escolarização.
Após essa etapa, foram entrevistados, individualmente, 30 jovens de 12 a 17 anos, sendo 16 na escola EP1 e e 14 na escola EP2. As entrevistas foram feitas durante os recreios, nos pátios e corredores das escolas. Eu levava um gravador e abordava os meninos e meninas que, geralmente, estavam em grupo, conversando, ouvindo música – muitas vezes em seus dispositivos eletrônicos – e lanchando. Alguns deles se aproximavam de mim, percebendo que eu estava interessada em conversar com eles, e se ofereciam para falar, motivados pela presença de uma pessoa estranha na escola.
Foram realizados 4 grupos focais, sendo 2 em cada escola. Os grupos tinham entre 7 e 10 membros e eram mistos. Os encontros aconteceram em salas das escolas que foram disponibilizadas para esse fim. O primeiro grupo foi feito com jovens de 15 e 16 anos, do segundo ano do ensino médio. O segundo foi feito com meninos e meninas de 13 e 14 anos, do nono ano do ensino fundamental. Esses dois grupos eram da escola EP2. O terceiro e quarto grupos foram feitos com alunos do sexto ano do ensino fundamental, com idades ente 12 e 13 anos, na escola EP1.
Os colaboradores desta pesquisa foram escolhidos entre jovens de doze a dezessete anos, de duas escolas de ensino básico, na cidade de Belo Horizonte: a pública (EP1), com a música em seu currículo formal, e a particular (EP2), com atividades livres de música em escolinhas e
oficinas. Entretanto, o foco desta investigação não foi a sala de aula de Música ou de qualquer outra disciplina que utilizasse a música como recurso pedagógico, nem apenas eventos escolares formalmente promovidos pelas escolas – embora esses últimos tenham sido, eventualmente, observados.
Foi escolhida, primeiramente, a observação não-estruturada, característica de estudos qualitativos, que vê comportamentos não determinados, visando a descrever e compreender o que está acontecendo numa situação (ALVES-MAZZOTTI; GEWANDSZNAJDER, 1999). Na observação, pode-se estabelecer “uma relação de conhecimento com seu objeto de estudo, que é, por sua vez, um fenômeno concreto da vida social, imbricado em relações sociais e de poder e numa rede de significados socialmente compartilhados” (TURA, 2003, p. 184).
A observação colaborou com esta investigação, por ter um potencial expressivo para entrar em contextos concretos em que conviviam os sujeitos envolvidos com os fenômenos que foram estudados. Tais contextos foram, principalmente, os ambientes escolares de convívio social e recreação, fora da sala de aula: pátio, corredores, festas e outros. Esses ambientes foram observados, preferencialmente, durante eventos formais ou informais, com a presença de música cantada, ouvida, gravada, falada. A ausência dessa, porém, não inviabilizou o olhar para os comportamentos dos sujeitos, uma vez que o consumo extrapola o conteúdo e melodia das músicas, interferindo nos gestos, na moda, na linguagem e no comportamento em geral. Tal procedimento foi o que proveu a pesquisa de maior e mais ricos dados durante as coletas.
Momo (2007), em sua tese de doutorado sobre mídia e consumo na infância, recolheu dados inestimáveis para sua pesquisa, apresentando estratégias metodológicas de cunho etnográfico que também serão indispensáveis ao meu trabalho, por meio da observação nos espaços escolares. Ela encontrou, vendo salas de aula, festas e recreios, uma infinidade de usos e comportamentos infantis ligados ao consumo de artefatos divulgados e “vendidos” pelas diversas mídias em nosso país, de ordem material – tais como jogos, brinquedos, produtos tecnológicos, roupas, calçados, adereços corporais, penteados, etc. – e de ordem simbólica – como desenhos animados, filmes, personalidades famosas das mídias, canções e cantores, danças, dizeres entre os alunos. Suas observações parecem ter sido bastante cuidadosas, indicando modos de interação dos sujeitos envolvidos. Momo buscava verificar as relações
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meu trabalho, bem como a opção pela observação como um procedimento chave na procura de dados para a minha pesquisa.
A entrevista não-estruturada ou semiestruturada, outro instrumento a ser utilizado na pesquisa, é empregada no intuito de conhecer o significado que o sujeito dá ao tema pesquisado, a eventos e a situações, e para ajudar o pesquisador a construir os significados que está buscando. No caso presente, ela foi desenvolvida em combinação com os grupos focais (GF), tendo sido realizada antes desses, para que os discursos produzidos na situação de grupo não determinassem a posição individual dos sujeitos. A entrevista também foi estendida a outros colaboradores não integrantes dos GF, alunos das mesmas escolas, pertencentes à mesma faixa etária daqueles, e que estavam envolvidos em situações observadas anteriormente. As fases não-estruturada e semiestruturada se prestam, respectivamente, a introduzir o tema ao entrevistado e clarear aspectos que serão enfocados, e fazer perguntas específicas sobre o tema (ALVES-MAZZOTTI; GEWANDSZNAJDER, 1999). Os encontros dos GF e as entrevistas foram gravados e, posteriormente, transcritos, para a seleção e análise dos dados recolhidos.
O grupo focal também foi uma estratégia metodológica utilizada como método complementar de coleta de dados qualitativos. Esse método é uma forma de entrevista que busca recriar um determinado contexto ou ambiente social “onde o indivíduo pode interagir com vizinhos, deve às vezes defender suas opiniões, pode contestar as dos outros” (LAVILLE; DIONNE, 1999, p. 194). “O GF foi estruturado, inicialmente, por Robert Merton e colaboradores, na década de quarenta”5. Atualmente, é usado em pesquisas em Antropologia, Comunicação e Educação, e proporciona quantidade e qualidade de dados, sem perder a unidade de análise proposta, buscando obter a compreensão de seus participantes sobre um tema, através de suas próprias palavras e comportamentos.
O grupo focal “permite fazer emergir uma multiplicidade de pontos de vista e processos emocionais, pelo próprio contexto de interação criado, permitindo a captação de significados” (GATTI, 2005, p. 9). Esse procedimento metodológico foi eleito porque possibilitaria a interação entre jovens, procurando imitar o meio no qual ocorrem suas conversas informais – os corredores e pátios da escola – em momentos de recreação. Ele foi utilizado como fonte de
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obtenção de dados qualitativos e realizado após a entrevista individual. Os dois complementaram-se, a fim de evitar a conformidade, que ocorre quando os participantes não fornecem informações no grupo que forneceriam na entrevista individual (GATTI, 2005, p. 4).
Abaixo, encontram-se os roteiros das entrevistas individuais e dos grupos focais:
Questões feitas nas entrevistas individuais:
1. Qual é a sua idade e série que cursa?
2. Você ouve música com frequência? Onde e em que circunstâncias? 3. Que estilos de música você ouve mais? Por quê?
4. Você se liga nas letras das canções ou apenas no ritmo/melodia? 5. O que você faz para conseguir acessar suas músicas preferidas?
6. Quais são seus grupos musicais e cantores preferidos? O que você mais admira neles? 7. Você alguma vez já se inspirou neles para fazer algo ou se influenciou por eles, de
alguma forma? Como?
8. Você frequenta aulas de música na sua escola? Como são?
Questões feitas nos grupos focais:
1. Qual é a experiência de vocês com música?
2. Vocês curtem música mais quando estão sozinhos ou em grupo? Por quê?
3. O que vocês mais fazem quando estão num ambiente com outros jovens quando tem música?
4. Que grupos e cantores são os seus preferidos e o que vocês mais admiram neles? 5. Alguma vez vocês já se inspiraram nesses cantores ou grupos de alguma forma? 6. Onde vocês mais partilham música, em que mídias e lugares?
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