2 MÚSICA, IDENTIDADE E REPRESENTAÇÃO
2.2 MÚSICA E IDENTIDADE NO CONTEXTO BRASILEIRO
Em uma análise sobre o esforço intelectual no sentido de estabelecer o que seria a identidade brasileira, Renato Ortiz (1994) observa a impossibilidade de determinar uma identidade autêntica e unificadora, a não ser por meio de um discurso ideológico. Esse antropólogo trata a questão da identidade a partir de duas dimensões: uma dimensão externa, de contraposição ao estrangeiro, e uma dimensão interna, bem mais complexa, que trata daquilo com o que nos identificamos. A definição do que viria a ser o nacional, na perspectiva do autor, está longe de ser consensual. Está, antes, ligada a um projeto político de tratamento da cultura brasileira. Segundo Ortiz, “a identidade nacional está profundamente ligada a uma reinterpretação do popular pelos grupos sociais e à própria construção do Estado brasileiro” (ORTIZ, 1994, p. 8).
De acordo com Ortiz, toda identidade é uma construção simbólica. Não existiria uma identidade autêntica, ele propõe, mas uma pluralidade de identidades, que são construídas em diferentes momentos da história por diferentes grupos sociais. Uma história da identidade e da cultura brasileira corresponderia aos interesses dos diferentes grupos sociais na sua relação com o Estado.
Nos primeiros escritos sobre qual seria a identidade do brasileiro, de autoria daqueles que seriam os precursores das Ciências Sociais no Brasil – Sílvio Romero, Euclides da Cunha e Nina Rodrigues -, a questão do meio e da raça são postos como parâmetros. A história do país, consoante o que pensavam os autores mencionados, é compreendida como que determinada pelo clima e pela raça. Esses fatores explicariam, na visão de Ortiz (1994, p. 16), “a natureza indolente do brasileiro, as manifestações tíbias e inseguras da elite intelectual, o lirismo quente
dos poetas da terra, o nervosismo e a sexualidade desenfreada do mulato”. Os dois fatores – meio e raça –, completa o autor, traduziriam os dois elementos imprescindíveis para a construção da identidade brasileira: o nacional e o popular.
A questão racial acaba por se sobressair. Sílvio Romero, conforme narra Ortiz, vai considerá-la como mais importante que a questão do meio. Com a abolição da escravatura, o negro passa a fazer parte da dinâmica social e econômica brasileira. Se há disparidade racial, o equilíbrio se dá, portanto, na elaboração de uma identidade nacional através da mestiçagem, que aponta para a formação de uma possível unidade nacional.
Ortiz lembra que até a abolição, o negro não existia como cidadão. Somente por meio da relação entre cultura e Estado é que se explica que a identidade nacional leve em conta o cruzamento com uma raça considerada inferior, sugere o autor. A necessidade de consolidar o desenvolvimento social brasileiro das primeiras três décadas do século XX demanda, entre outras coisas, superar as teorias raciais. A realidade social, afirma o antropólogo, impôs um outro tipo de interpretação do Brasil. Esse é o projeto no qual teriam embarcado nomes como Caio Prado Junior, Sérgio Buarque de Holanda e Gilberto Freyre: pensar a identidade de um Estado que se moderniza. Gylberto Freire, por exemplo, teria transformado a negatividade do mestiço em positividade. Nos termos do próprio Ortiz (1994, p. 41):
A ideologia da mestiçagem, que estava aprisionada nas ambiguidades das teorias racistas, ao ser reelaborada pode difundir-se socialmente e se tornar senso comum, ritualmente celebrado nas relações do cotidiano, ou nos grandes eventos como o carnaval e o futebol. O que era mestiço torna-se nacional.
O homem brasileiro, preguiçoso e indolente, torna-se homem trabalhador a partir da década de 1930. Nessa época, a malandragem passa a ser combatida, em benefício de uma ideologia que vê o trabalho como valor fundamental da sociedade brasileira. A transformação cultural, diz Ortiz, é profunda. As relações raciais vivenciadas no cotidiano são reinterpretadas a partir da difusão do mito das três raças, que não apenas encobre os conflitos raciais como possibilita que todos se reconheçam como nacionais. Evidencia-se, nesse sentido, a ideia de construção de uma essência da brasilidade. Para Ortiz, quando a sociedade se apropria das manifestações de cor, integrando-as ao discurso unívoco nacional, elas perdem a sua especificidade. “A construção de uma identidade nacional mestiça deixa ainda mais difícil o discernimento entre as fronteiras de cor. Ao se promover o samba a título de nacional, o que efetivamente ele é hoje, esvazia-se sua especificidade de origem, que era ser uma música negra” (ORTIZ, 1994, p. 43).
Por outro lado, esse último aspecto da perspectiva de Ortiz contrasta, de certa forma, com o que propôs Negus (1996), isto é, que a música posta em circulação não pode permanecer restrita a um grupo qualquer, interpretada como uma expressão que fala a ou reflete a vida desse grupo exclusivo de pessoas. De acordo com essa visão, o samba, constituído como símbolo nacional, passa a representar – como se isso fosse possível – todo o povo brasileiro.
Ao discutir as transformações pelas quais a cultura brasileira passou na virada do século XIX para o século XX, Ruben Oliven (1986) também propõe que há um movimento de apropriação de manifestações culturais específicas a certos grupos sociais por parte do resto da sociedade e a sua transformação em símbolos nacionais. Isso diz respeito tanto à apropriação, reelaboração e posterior transformação, por parte da chamada classe dominante, de manifestações culturais das camadas populares em símbolos nacionais, quanto ao caminho inverso.
O Estado e os meios de comunicação de massa também agiriam nesse processo de ressignificação, lembra o autor. O rádio, por exemplo, tem um papel central na comercialização do samba, permitindo que o mesmo circule para fora do morro. É uma trajetória bem parecida com a da música country estadunidense, apresentada na primeira seção deste capítulo. Através do rádio, cantores que tinham um alcance muito restrito se tornam cantores nacionais, muitas vezes a serviço do governo, pondo em prática um projeto de consolidação de uma identidade nacional. Oliven (1986, p. 73) conclui:
O que parece caracterizar o Brasil é justamente o fato de ser uma sociedade de imensas diferenças sociais e econômicas, na qual se verifica uma tendência de transformar manifestações culturais em símbolos de coesão social, que são manipulados como formas de identidade nacional.
Para Fry (1982) e Vianna (2007), o samba é uma dessas manifestações culturais que passa da rejeição ao status de símbolo nacional. Na perspectiva de Peter Fry, esse gênero musical era severamente reprimido pela polícia quando produzido e consumido apenas pelos moradores do morro. A crescente importância do carnaval teria transformado a repressão em apoio. “As escolas de samba”, ele afirma, “desceram para as avenidas legitimamente e o samba passou a ser consumido por uma população que ultrapassava de muito as fronteiras do morro, do Rio de Janeiro ou mesmo do Brasil” (FRY, 1982, p. 51).
Existem, afirma o autor, duas possibilidades para que manifestações culturais tidas anteriormente como inferiores tenham ascendido à posição de símbolo nacional. A primeira diz respeito à originalidade do samba e sua capacidade de distinguir o Brasil dos outros países da
América Latina. A segunda, à conveniência política no sentido de assegurar a dominação. A conversão de símbolos étnicos em símbolos nacionais, conclui, não apenas oculta uma situação de dominação racial como torna muito mais difícil a tarefa de denunciá-la. “Quando se convertem símbolos de ‘fronteiras’ étnicas em símbolos que afirmam os limites da nacionalidade, converte-se o que era originalmente perigoso em algo ‘limpo’, ‘seguro’ e ‘domesticado’” (FRY, 1982, p. 53).
Uma análise que corrobora, de certa maneira, com essa ideia de uma identidade nacional construída pelo Estado e pelos intelectuais é fornecida por Hermano Vianna (2007), em sua análise sobre a trajetória do samba até o patamar de símbolo nacional. Para esse antropólogo, há um mistério não desvendado pelos autores que compreendem a ascensão do samba apenas como uma passagem de uma fase em que era alvo de repressão por parte da polícia até uma fase em que se estabelece como gênero musical que representa a cultura brasileira. Nenhum autor tenta explicar como se deu essa passagem, ele denuncia. A mudança de status, observa o autor, não é arbitrária.
De acordo com Vianna (2007, p. 34),
[...] a transformação do samba em música nacional não foi um acontecimento repentino, indo da repressão à louvação em menos de uma década, mas sim o coroamento de uma tradição secular de contatos [...] entre vários grupos sociais na tentativa de inventar a identidade e a cultura popular brasileiras.
A transformação do samba carioca em música nacional deve ser entendida, no final das contas, como um processo de invenção e valorização de uma certa autenticidade fabricada desse gênero musical.
A identidade nacional não é definida, como se sabe, apenas musicalmente. Vianna também menciona a figura do antropólogo Gilberto Freyre como responsável por transformar o mestiço, resultado da combinação de traços africanos, indígenas e portugueses, em um personagem positivo na definição de quem é o brasileiro. A cultura brasileira mestiça se transformou, ele afirma, em algo que precisava ser preservado: era a garantia da especificidade do povo brasileiro e também a garantia do futuro, uma vez que o país se tornaria cada vez mais mestiço. Se o mestiço se tornaria símbolo nacional, era preciso escolher qual era aquela que melhor se enquadrava no projeto de criação de uma identidade nacional. Os mulatos e o urbano se tornaram o centro das atenções, o que também contribuiu para a ascensão do samba. “No campo da música, o samba vira símbolo nacional, ao passo que as ‘canções’ caipiras paulistas
e os ritmos nordestinos começam a ser vistos como fenômenos regionais” (VIANNA, 2007, p. 70).
Resumindo: a mestiçagem e seus produtos, como é o caso do samba, passaram a ser interpretados como um processo cultural positivo em torno do qual os brasileiros poderiam inventar uma nova identidade. Nesse sentido, as emissoras de rádio, as gravadoras recém- chegadas no país e o interesse político são os elementos que cooperam para que o samba carioca se transforme, como já observado, num gênero musical nacionalmente aceito. À guisa de conclusão, Vianna observa que o aparelho governamental esteve envolvido com o progresso da nacionalização do samba. “A vitória do samba era também a vitória de um projeto de nacionalização e modernização da sociedade brasileira” (VIANNA, 2007, p. 127).
Ainda tratando da relação entre música e identidade no contexto brasileiro, Marildo Nercolini (2006) reforça a ideia de que a identidade nacional não é mais vista enquanto atributo natural, mas como algo que é formado e transformado de acordo com as representações que vamos adquirindo e criando. Esse autor observa que transformações na tecnologia, nas telecomunicações e na forma de trocar e produzir bens culturais e econômicos tornaram as identidades fixas instáveis. Quando se acentuam os contatos e as trocas entre culturas, também se acentua o processo de deslocamento das identidades nacionais, colocando em pauta, diz o autor, o hibridismo.
Trata-se de uma perspectiva mais próxima daquela adotada pelos autores que, de alguma maneira, compartilham com uma abordagem mais flexível da questão da identidade e da construção do nacional como parte de um projeto.
No Brasil, os criadores da Música Popular Brasileira teriam desempenhado, de acordo com a perspectiva de Nercolini, um papel fundamental na formação de uma identidade plural e híbrida. A partir dos anos 60, os criadores do movimento musical citado auxiliaram na criação de um novo tipo de relação identitária, contrária a posturas vigentes na época: a do governo militar e a da elite intelectual. Havia, por exemplo, uma proposta de diálogo mais aberto com o estrangeiro. O ideário nacional-popular estava presente nos debates da época, mas esse pensamento já não era dominante. A Tropicália, nesse particular, inovava ao repensar a questão da identidade nacional, indo contra o nacionalismo fechado e ressentido, nas palavras do autor. Já foi mencionado que a exposição das culturas nacionais a influências externas dificulta que as identidades culturais se mantenham intactas. O contato com a cultura estrangeira era visto, assim, como uma possibilidade de o Brasil crescer e se firmar como nação.
É um caminho bastante diferente daquele traçado pelo samba rumo ao status de símbolo musical nacional. Os tropicalistas, para Nercolini, refizeram uma releitura da antropofagia
cultural de Oswald de Andrade e, assim, mostraram-se preocupados com a afirmação da brasilidade que, para eles, não está baseada no consenso.
Uma brasilidade, porém, não baseada no consenso, no ideário de “todos como um”, mas no dissenso de uma nação que são muitas, de um Brasil formado por culturas diversas, não mais querendo forçar uma igualdade utópica construída a partir de padrões que estabeleciam o “bem” a ser seguido e valorizado, demonizando o restante como cópia, lixo cultural, o não-Brasil. Uma brasilidade aberta e construída no diálogo e no embate, não fixa e imutável (NECOLINI, 2006, p. 131).
Neste capítulo, o que se buscou foi compreender os modos como as identidades são construídas, fabricadas. Essa construção, que tem no consumo midiático um dos seus fundamentos, estende-se ao universo da música. A música, como se viu, pode ser consumida tanto individualmente quanto coletivamente e tem o poder de articular em si mesma uma compreensão tanto das relações grupais como da individualidade. A constituição de uma biografia de si e a opção por um determinado estilo de vida passam, inevitavelmente, por escolhas que envolvem modos de consumo, gêneros musicais, artistas e discos.
A construção da identidade é um processo que leva em conta, como se viu, dois aspectos: atribuição e identificação. Esse processo ganha uma nova dimensão a partir do contato entre culturas diversas e são dois os fatores principais que contribuem para isso: a mídia e os deslocamentos de indivíduos. Gêneros musicais também são deslocados e, dessa maneira, entram em uma disputa por legitimidade, perante outros gêneros, nos novos ambientes sociais onde foram realocados. No caso da música, as experiências da música country e do samba, o que também se aplica a outros gêneros musicais, demonstram a articulação entre a produção e o consumo e como essa associação implica a construção das identidades individuais e coletivas.
No próximo capítulo, o que se discute é a noção de gênero musical, implicada tanto pela questão da sonoridade quanto pela performance. O gênero musical é considerado neste trabalho, como se verá, uma estratégia de endereçamento (JANOTTI JUNIOR, 2006), perspectiva que contribui com a tomada da música enquanto processo comunicativo (TROTTA, 2008).