(Leguminosae: Mimosoideae)
Mariana Faria-Corrêa
Introdução
O gênero Parkia, pertencente à família Leguminosae (sub-família Mimosoideae), é composto por 17 espécies de hábitos arbóreos com distribuição pantropical, apresentando sua maior diversidade na Amazônia (Ribeiro et al., 1999).
Todas as espécies de Parkia caracterizam-se por apresentarem adaptações à zoofilia. Segundo um estudo realizado na Amazônia Central, cinco das sete espécies encontradas na Reserva Ducke são polinizadas por morcegos que visitam as árvores rapidamente, lambendo o néctar produzido pelas flores (Ribeiro et al., 1999). As
outras espécies têm como polinizadores principais mariposas e abelhas noturnas.
Parkia pendula é uma árvore de dossel, com copa larga, aplainada, perenifólia, mesófila ou heliófila, que ocorre em floresta alta de terra firme na região amazônica (Oliveira e Ferraz, 2003) e na mata pluvial Atlântica (Hopkins, 1986).
Esta espécie tem adaptações para a polinização por morcegos e apresenta inflorescências pendulares e ântese noturna (Develely et al., 1997). As inflorescências (capítulos) são separadas dos galhos por um pedúnculo de até 1 m de comprimento, pendurados abaixo da copa, que se abrem e
começam a produzir néctar durante a noite (Hopkins, 1984;
Fisher, 1999). Cada inflorescência possui numerosas flores, sendo que as situadas na parte superior são estéreis e produzem uma grande quantidade de néctar, atraindo polinizadores (Prance, 1985). O pico de produção de néctar ocorre na primeira metade da noite, entre 21h e 23h (Fisher, 1999; Hopkins, 1984).
Na Amazônia Central, o período de maior floração de P.
pendula é de maio a julho (Alencar, 1998). Sua estratégia reprodutiva consiste em abrir um grande número de capítulos a cada noite, com um pico de floração de apenas duas semanas (Hopkins, 1984). Durante esse período, muitas espécies animais, além dos morcegos, são observadas alimentando-se do néctar, entre elas cuícas (Marmosops parvidens e Caluromys lanatus) e mariposas (Develey et al., 1997). Alguns estudos indicam que excluindo os morcegos, os demais visitantes não são polinizadores efetivos de P. pendula. A intensa visitação de agentes não polinizadores deve-se, possivelmente, à grande quantidade de néctar produzido pelas inflorescências (2,5 ml/h), com alta concentração de açúcar (18 a 23%) (Develey et al., 1997). Quanto aos morcegos, oito espécies de filostomídeos são polinizadoras: Ametrida centurio, Artibeus lituratus, Artibeus concolor, Carollia perspicillata, Phyllostomus dis-color, P. elongatus, P. hastatus e Uroderma bilobatum (Rodríguez-H, 1999).
Até o momento, pouco se conhece sobre a interação en-tre P. pendula e macrovisitantes florais, sendo importante realizar estudos enfocando o comportamento desses visitantes. Neste sentido, o objetivo desse estudo foi regis-trar os visitantes florais em um indivíduo de P. pendula, observando a frequência de visitação e seus padrões comportamentais durante as visitas.
Métodos
Realizei este estudo na reserva do Km 41 (02o24’S;
58o52’O), uma área de floresta contínua administrado pelo Projeto Dinâmica Biológica de Fragmentos Florestais (PDBFF), 80km ao norte de Manaus, Amazonas.
Para realizar esse trabalho selecionei um indivíduo em floração de P. pendula com 15 m de altura e área de copa de 120 m2. Observei esse indivíduo por quatro noites entre 18h e 24h. A cada noite, anotei o horário de abertura das inflorescências e às 18:40h contei todas as inflorescências abertas. Para avaliar a frequência de visitação utilizei o método de varredura instantânea (Setz, 1991), observando a cada 20 min quais e quantos animais estavam visitando as inflorescências naquele momento.
Para observar a interação de mamíferos não voadores com as inflorescências, a cada 20 min realizei 5 min de observação focal, registrando o horário, a posição do animal na árvore, o número de inflorescências visitadas, o tempo de permanência em cada inflorescência e a descrição do comportamento durante as visitas.
Os resultados são apresentados em forma de frequência
relativa e distribuição temporal das visitas (horário e ao longo do período de estudo).
Resultados
Durante esse estudo realizei 76 varreduras nas quais pude registrar a visitação de morcegos, mariposas e cuíca (Caluromys philander; Didelphimorphia: Didelphidae). As porcentagens de ocorrência de cada grupo podem ser vistas na Tabela 1.
Tabela 1. Porcentagem de ocorrência de visitantes florais de Parkia pendula (n=76 registros)
Visitantes florais Porcentagem de ocorrência (%)
Morcegos 34,55 Mariposas 30
Caluromys philander 17
Nenhum visitante 20
O horário de maior atividade de visitação de morcegos ocorreu entre 19h e 22h, mariposas entre 18:40h e 22h e C.
philander não apresentou picos de visitação em função do alto tempo de permanência em cada visita, ocorrendo apenas após as 20:40h (Figura 1). Ao longo dos dias de observação houve um decréscimo no número total de visitantes a cada noite (Figura 2).
Figura 1. Registro de atividade dos visitantes florais de Parkia pendula em cada horário.
0
27/7/2003 28/7/2003 29/7/2003 30/7/2003 Data
Númeroderegistros
Morcegos Caluromys Mariposas
Figura 2. Número total de registros de visitantes florais de Parkia pendula por dia de observação.
Com relação ao acompanhamento das visitas de Caluromys philander, realizei 17 observações de 5 min cada uma, totalizando 85 min de animal-focal. Em todas as ocorrências de manipulação das inflorescências, o animal pendurava-se pela cauda prêensil, recolhendo o maior número de inflorescências possível. Após juntá-las, o ani-mal começava a lambê-las por intervalos que variavam de 1s a 24s. Essa seqüência repetia-se uma ou duas vezes, em seguida, o animal iniciava um comportamento de autolimpeza, lambendo principalmente o peito e os membros anteriores e reiniciava as visitas. Durante o período de permanência na árvore (entre 4 a 300 min), o animal alternou períodos de busca ativa por inflorescência e descanso, aumentando o tempo de repouso após as 22h. O número médio de flores visitadas variou de 0 a 27 (média + DP = 8 + 8,17) e o número de galhos utilizados para busca de inflorescências entre 0 e 7 (média + DP = 3,35 + 2,40) por intervalo de observação.
O número de inflorescências abertas a cada noite apresentou variação ao longo do período de estudo (média + DP = 48,5 + 10,40). O horário de abertura das flores ocorreu entre 18:20h e 18:40h e não variou entre os dias. O número total de flores no último dia diminuiu 31,5% em relação ao primeiro dia de amostragem.
Discussão
Entender melhor os processos de polinização é de ex-trema importância já que esse é o processo inicial para a dispersão da maioria das espécies arbóreas. Há muitas formas de polinização e uma série de adaptações florais para permitir a polinização por determinados grupos animais ou outro vetor. No caso de P. pendula, a sua morfologia floral está intimamente relacionada à quiropterofilia, entretanto, outros visitantes aproveitam-se do néctar produzido pelas flores inférteis. Até que ponto esses visitantes também participam do processo de polinização é de difícil estimativa.
O volume de néctar produzido em uma hora, bem como a concentração de açúcar no néctar de P. pendula, não podem ser considerados pequenos. Esse fato poderia estimular a visita de polinizadores, mas também potencializaria a ação de possíveis “pilhadores” de néctar, ou seja, aqueles visitantes que apenas usufruem da recompensa, mas não proporcionam benefícios para a planta. Entretanto, essa perda pode não ser de grande importância para o indivíduo arbóreo pois, segundo Simpson e Neff (1983), o néctar é a mais simples recompensa que as plantas podem oferecer, extremamente fácil de produzir e que comparativamente a outros atrativos, apresenta custos energéticos bastante baixos.
Caluromys philander é um marsupial de médio porte, solitário e de hábitos noturnos que alimenta-se de frutas, néctar e invertebrados (Emmons, 1997; Einsenberg e Redford, 1999). O comportamento de visita C. philander em P. pendula foi semelhante ao observado por Develey et al. (1997) para C. lanatus. Segundo esses autores, C. lanatus alcança a inflorescência descendo pelo pedúnculo, permanecendo virado de cabeça para baixo, enquanto retira
o néctar por meio de lambidas. Durante esse processo, o pescoço e o peito do animal entram em contato com o pólen.
Nesse mesmo estudo, Caluromys lanatus não se mostrou um bom polinizador de P. pendula, apesar de transportar pólen durante as visitas.
Segundo Charles-Dominique (1983), C. philander possui área de vida entre 0,3 e 1 ha. Esse fato, somado à distribuição esparsa de P. pendula (Develey et al., 1997) minimizam a chance que esses animais visitem mais de uma planta na mesma noite, podendo promover apenas auto-polinização.
Se P. pendula é uma espécie autocompatível, é provável que C. philander esteja contribuindo como polinizador dentro desse mesmo indivíduo, já que muitas flores foram visitadas em uma mesma noite. Entretanto, essa contribuição não parece ser muito expressiva pois após as visitas, o animal lambia-se exaustivamente, provavelmente removendo a maior parte do pólen de seu corpo.
Quanto às mariposas, não foi possível chegar a nenhuma conclusão, mas o estudo de Develey et al. (1997) registra que esses animais não entram em contato com o pólen das inflorescências de P. pendula, podendo ser considerados pilhadores do néctar.
As características morfológicas e fenológicas das inflorescências de P. pendula fazem dos morcegos o grupo polinizador potencialmente mais efetivo (Prance, 1985).
Como esperado, a maioria dos visitantes florais foram os morcegos, indicando que P. pendula possui síndrome de polinização quiropterófila.
Agradecimentos
Ao INPA e PDBFF pela maravilhosa oportunidade de realizar esse trabalho. Aos meus amigos Faviany e Fresnel pelo apoio em campo, companheirismo e amizade durante todo o curso; ao Juruna pela força em campo; ao Wilson, Glauco, Jansen, Pinguela e Dadão pelas idéias e apoio; ao Miúdo pelo empréstimo do holofote; a Gabi pelas conversas, revisão do trabalho e empréstimo do binóculo; ao Janael e Cris (norte-americana) pelas imagens, Rosinha pelas dicas e a todos os amigos que conheci nesse mês que se divertiram comigo vendo as estripulias da Mucura e contribuíram com sugestões a esse trabalho.
Referências bibliográficas
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