Tempo
Foi num sobressalto que ele pulou na maca. Demorou alguns segundos para se orientar. Ainda estava no hospital e seu plantão na emergência estava longe de acabar. Piscando seguidas vezes saiu para o corredor e assim que cruzou com a primeira enfermeira recebeu um dos prontuários.
— Homem adulto, dor no peito, leito 7. Ei, já escolheu o presente da Mia?
O médico respirou fundo, apanhou o celular e conversou com sua assistente pessoal: “Cortana, selecione brinquedos para menina. Idade 5 anos, lojas perto do Hospital Regional. Obrigado!” Indo em direção ao leito 7, uma mulher segura-lhe o braço.
— Doutor, estou há horas aqui e tudo que preciso é validar minha receita. Por favor, tenho outros compromissos, não posso esperar o dia todo!
— Senhora – diz o médico já tentando escapar – lhe darei outra receita assim que souber sobre o que se trata, infelizmente no momento tenho outro paciente aguardando. Converse com aquela enfermeira, ela irá lhe orientar.
O médico escapa e a senhora que ficou para trás continua a resmungar enquanto com a mão erguida balança a receita, ele segue, mas percebe a correria na troca de plantão das enfermeiras, por pouco não recebe um segundo prontuário e quando chega ao leito 7, puxa a cortina já se apresentando.
— Senhor Silva, sou o doutor Ruco. João Ruco. – termina a fala e só então ergue os olhos do prontuário. O senhor Silva está ali, mas com os olhos pregados no celular, digitando algo. – Senhor, preciso que... – a fala do médico fica perdida quando o paciente, deitado na cama, ergue o dedo como quem pede tempo, segundos depois sorri para o celular e olha na direção do médico.
— Lamento tomar seu tempo doutor, foi apenas um mal-estar... minha mulher – diz apontando a senhora elegante que anda de um lado para o outro no corredor – ela só é cuidadosa demais. Oi querida... – um aceninho e fica evidente a irritação da jovem senhora. – Viu? Preciso ir agora.
O médico volta a olhar a mulher elegante que parece estar mais irritada com a rapidez que o paciente pretende ir do que o fato de ele estar prestes a ser examinado.
— Acho que esta apressado demais Sr. Silva, ter alguém que se importa com a gente demonstra carinho. Deixe-me...
Antes mesmo de encostar no paciente o médico mais uma vez foi interrompido.
— Realmente não precisa doutor... como disse antes já passou, estou pronto para outra.
—Imagino que sim, mas as anotações da triagem dizem que... – o médico com olhos no prontuário confirma sua suspeita. – Bem...
— Doutor, que bobagem... ainda não são 7h da manhã e o dia promete ser bem atarefado, não preciso estar aqui e o senhor pode seguir cuidando de outra pessoa. Minha esposa... bem, ela é assim mesmo.
O médico o escuta atentamente, mas não parece convencido. Repousa o prontuário sobre a cama, quase sobre as pernas do paciente e o encara.
— Tenho certeza que é autoridade nos negócios e na vida também sr. Silva – termina apontando na direção do corredor para a jovem senhora preocupada -, mas preciso lhe dizer que tenho motivos para crer que...
O paciente sorri e até estica sua mão em direção ao médico que próximo é alcançado. – Entendo o que está tentando me dizer, preciso mesmo diminuir o ritmo, mas nesse momento coisas importantes estão acontecendo, negócios que vão refletir financeiramente quando a aposentadoria chegar, acho que pode me entender doutor... fique tranquilo que eu me responsabilizo.
O paciente mais uma vez fixa os olhos no celular, usa o apoio no braço do médico e sem constrangimento vai se levantando e retirando alguns fios de monitoramento. Ainda sorri, abotoando a camisa, mas antes de apertar a gravata, encosta-se na cama e volta digitar.
O celular do médico também dá sinal e automaticamente ele o apanha, na tela aparece o nome de três lojas com brinquedos para meninas de 5 anos, todas nas ruas próximas. Desliza a tela vendo as opções e tentando lembrar qual era a fantasia de super herói que ela vem falando tanto, “seria a de mulher maravilha?”.
— Vocês tem wi-fi aqui, doutor? – a fala do paciente o desvia da atenção da imagem - A internet do meu celular, apesar de ser de ultravelocidade, está péssima hoje. Preciso muito mandar esse documento – diz apontando o aparelho.
Dr. Ruco, que o olha fixamente percebe o suor na testa, seu celular retorna para o bolso com a mesma agilidade que havia saído.
— Sr. Silva, o médico aqui sou eu e digo que...
A frase não foi concluída, porque o paciente apoiar-se na cama enquanto seu celular escapa da mão e seus olhos parecem mais arregalados que deveriam.
Imediatamente a campainha de emergência foi acionada, enfermeiros chegaram, um deles arrastava um carrinho com o desfibrilador, apressadamente todos seguiram as orientações do Dr. Ruco, que em minutos cumpriu o protocolo e também teve atitudes fora dele, porém foi tarde demais. Quatro minutos e oito
segundos depois, não havia mais vida, a única movimentação era do celular do paciente que seguia recebendo mensagens.
O médico e toda equipe passaram aos procedimentos seguintes. Dr. Ruco, seguiu para o corredor procurando à jovem senhora que vira há pouco. Assim que o viu a mulher apertando as mãos se aproximou.
— Meu marido doutor... eu o trouxe mais cedo – diz num sorriso de quem não sabe aonde quer chegar. – provavelmente ele está bravo – ela se abana e revira os olhos. – Ele tinha uma reunião hoje cedo, mas não tem passado muito bem, por isso insisti... onde ele está? Posso vê-lo?
Adiantada a mulher chega a dar alguns passos seguindo pelo caminho que o médico veio, mas para quando percebe que ele não a segue.
— Vamos logo doutor, também tenho coisas a fazer – novamente um abanar bobo e uma risada sem sentido – meu marido é um homem ocupado ficará nervoso se o prendermos aqui por muito tempo.
— Senhora – começa dr. Ruco –, mas não há necessidade de concluir. A mulher, sem desviar os olhos do médico balbucia um não enquanto aperta a mão na boca e no segundo seguinte desaba a chorar, foi necessário medicá-la.
Quando o plantão termina o médico vai para casa, no rosto o reflexo de todos os atendimentos. Apaixonadamente beija a esposa, segue para o quintal e abaixa-se quando uma garotinha corre e o abraça apertado.
— Você chegou bem a tempo papai... vamos soprar as velinhas e cortar o bolo. Cadê meu presente?
Ele sorri e coça a cabeça. Foi um dia daqueles e mesmo com todas as notificações de Cortana, ele simplesmente esqueceu. - E se eu lhe desse meu tempo?
Por um instante a garotinha sorri e é aquele tipo de sorriso que faz um pai perceber que o tempo está passando. Não para ela que ainda tem a vida toda, mas para ele que como todos, depois de uma certa idade, lutam contra o tempo.
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