Que poder têm de nos fazer viajar no tempo essas revisitações às ruas de nossas antigas idades.
Hoje resolvi passear por elas e embora não faça meu estilo reviver o que passou, fui tomado por um desejo saudosista e nostálgico que não conhecia em mim. Comecei então a observar e a comparar o que era com o que está hoje:
A maioria das casas continua aqui. Umas envelhecidas, de aparências desgastadas, outras, de fachadas renovadas e algumas sumiram, deram vez a novos prédios. Muitas coisas mudaram.
Entre as que continuam iguais, encontrei o prédio do meu colégio da infância. Continua como era, só a pintura do grande muro externo que abrange parte de duas ruas e da fachada está diferente, mas também envelhecida e deteriorada. Não há mais o colégio. O prédio está desativado, vai ser demolido.
Quando adultos as coisas infantis que nos entristeceriam não nos deixam perceber mais a tristeza. A educação que recebemos nos ensina que as coisas de crianças são só para crianças, não cabem no mundo adulto, mas fiquei triste.
Saber que aquele pedaço tão querido da minha infância estava prestes a desaparecer do mapa, devo confessar, não foi emocionalmente fácil para mim.
Saí dali e talvez procurando inconscientemente uma compensação, fui passear por outro bairro próximo, onde morei na adolescência. A primeira rua por onde passei foi a da outra escola na qual estudei. Essa estava lá, ativa, em pleno funcionamento.
Diminuí o passo, parei um pouco em frente ao portão de entrada e pude ouvir o mesmo burburinho das antigas horas dos intervalos. Os quinze minutos mais desejados pelos alunos.
Entra ano, sai ano e as escolas continuam iguais, entediantes, nada muda.
Só a pose de pedagogos e entendidos em educação falando na mídia e nas festas de aniversários da nova escola. A nova escola da velha informação, o velho banco de dados divulgando informações inúteis. Graduando novos servos de sistemas.
Futuros seres detentores de muita informação e pouca sabedoria.
Ninguém mais do que eu, cabulou aulas neste mundo. Tudo o que aprendi, foi porque quis e quando tive vontade. Por isso, de lado a matéria de língua portuguesa e literatura onde sempre fui aluno exemplar, sempre terminei o ano
escolar como um medíocre. Conheci inclusive amiúde o que eram as recuperações e o carimbo de “Não apto” na média final anual.
Pouco lembro de tudo o que ouvi em sala de aula ou respondi em provas que nunca provaram e continuam não provando nada. Um exemplo: nunca mais esqueci o nome das três pirâmides do Egito: “Quéops, Quéfren e Miquerinos”.
Como pode nomes tão feios saírem de lábios tão lindos como os daquela inesquecível professora de história? Foi o que pensei na hora e nunca mais esqueci, tamanho o choque que me acometeu.
Recordar este evento só não é mais agradável porque me faz lembrar um terrível sentimento de culpa certa vez que olhava para ela embasbacado e Marisa, a colega do lado, interrompeu meus devaneios para perguntar se eu tinha uma caneta para emprestar. Respondi aborrecido e com a voz um tanto alterada:
não!
Com raiva por ela ter me interrompido, propus: (em pensamento, claro) se você me mostrar os peitos te empresto uma caneta! Quando voltei a olhar para a professora me senti péssimo por tê-la traído, mesmo em pensamento.
Lembranças de uma idade bonita de recordar, mas péssima quando se está lá.
Antes de voltar dessa aventura vespertina por tantas lembranças, resolvi andar pelas ruas paralelas àquela que chamava de “a minha” e outras no entorno por onde andava com frequência na juventude. De vez em quando encontrava fisionomias que me remetiam às cenas daqueles anos, mas muitas, precisava fazer um certo esforço na lembrança para me certificar de que eram mesmo aqueles personagens.
Alguns envelheceram mantendo as aparências físicas e os trejeitos de sempre, outros mudaram consideravelmente. Enquanto caminhava e cumprimentava aqueles dos quais ia me lembrando, ia também notando o ar de curiosidade de alguns. É como se dissessem: nossa! Como cresceu! Está um homem! e outros, ficassem tentando lembrar quem eu era.
Naquela época eu fazia amizades com muita facilidade. Sendo como fui “da pá virada” atraia para perto de mim moleques como eu, dispostos a transgredir regras e a “chutar o pau da barraca”.
Nessa hora, em que estava me lembrando deles, fiquei triste porque percebi que todas as contravenções que cometíamos eram brincadeiras bobas que não prejudicavam ninguém, a não ser a nós mesmos. Maneiras de ser e de nos colocar diante da vida que com o tempo, desapareceriam dando lugar a homens responsáveis e retos, mas alguns não entenderam isso. Lembrei então de cinco desses amigos:
Um entrou para a polícia militar. Três meses depois, pensou que era um personagem da série SWAT, da qual era fã e se meteu num morro em São Paulo de peito aberto com arma em punho para enfrentar traficantes. Morreu ali
mesmo. Outro também entrou para a polícia, mas se envolveu com bandidos e foi preso ainda na academia. Li na página policial de um jornal local da época que conseguiu fugir da cadeia. Nunca mais foi visto. O terceiro morreu em acidente num armazém do porto, onde fora trabalhar e os outros dois viraram, traficante e assaltante sendo um preso e condenado por tráfico e outro por tentar molestar a sobrinha de dez anos. Desses três que sobreviveram, nunca mais tive qualquer notícia.
Fiquei pensando, o que me levou a um estado depressivo momentâneo, qual seria o motivo de, daquele grupo de seis, ter sobrado apenas eu para seguir uma
“vida normal”?
Das duas, uma: ou aquela necessidade inata e sempre perturbadora em mim de saber e conhecer tudo, acabou me colocando num caminho mais aceitável, o dos livros; ou as novenas e os terços da minha mãe, mulher muito religiosa, para o santo das causas impossíveis deram resultado.
Quando resolvi ir embora, já no final da tarde, tornei a prestar a atenção naquelas casas antigas, algumas com pessoas idosas e aparentemente cansadas nas portas esperando o tempo passar. Pensei então que seria interessante se cada pedaço de chão no mundo pudesse ter toda a sua história gravada e guardada em algum arquivo ao qual pudéssemos ter acesso. A biografia de cada época, cada construção e cada pessoa que interagiram entre si através dos tempos, num filme ao qual pudéssemos assistir, desde dias imemoriais até hoje, mas à parte esses assomos de memórias fracionadas, de nada mais podemos ter conhecimento, tampouco reviver o que já foi vivido.
É como diz a música do Lulu Santos: “Nada do que foi será / De novo do jeito que já foi um dia (...)”