Capítulo 1 NOVO CAPITALISMO E DECLÍNIO DO COLECTIVO
1.1. O mal-estar identitário e o problema dos usos de drogas e das
O declínio dos corpos intermédios, de que a profunda erosão do fenómeno sindical a partir de meados da década de 70 é um exemplo, entre muitos outros, representa uma profunda mutação das relações entre o individual e o colectivo. A referência ao colectivo enquanto meio fundamental de satisfação das necessidades individuais, às normas sociais e instituições enquanto instrumentos que ajudavam cada um a conquistar o seu lugar é, nas sociedades actuais, uma hipótese cada vez
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Richard Sennett, A Corrosão do carácter, op. cit., p. 219. 35
Paul Ricoeur: Oneself as Another, University of Chicago Press, Chicago, 1992, cit. in Richard Sennett, A corrosão do carácter, op. cit., p. 222
menos provável. Hoje há cada vez menos a possibilidade de contar com uma acção colectiva para negociar, reivindicar e enfrentar as dificuldades, cada vez que se torna mais evidente que o futuro dos indivíduos está menos ligado ao destino comum. Neste contexto, aumenta exponencialmente a pressão sobre o indivíduo, agora tornado o único responsável sobre o seu destino. A sociedade em que vivemos faz pesar sobre cada um, tomado isoladamente, o duplo imperativo de se empenhar num perpétuo auto aperfeiçoamento e de investir permanentemente na construção da sua auto- estima.
Analisemos, mais de perto, algumas manifestações deste processo global de destruição dos laços sociais, começando a orientar a reflexão para as condições sociais geradoras da propensão para o consumo de psicotrópicos.
O problema dos usos de drogas e das toxicodependências
―A juventude não está preparada para viver nesta ―stressante‖ sociedade. Os jovens precisam de desenvolver urgentemente resistência intelectual e emocional para suportar perdas, derrotas, humilhações e injustiças. O que diferencia os jovens que fracassam dos que têm sucesso não é a cultura académica, mas a capacidade de superar as adversidades da vida.‖ Augusto Curry, Nunca desista dos seus sonhos, Pergaminho, 2004
Nas últimas três décadas, a toxicomania - ou, de acordo com designações mais recentes, a(s) toxicodependência(s) - conheceu uma evolução considerável, havendo passado do consumo com fins de evasão ao consumo motivado pela necessidade de o indivíduo se sentir mais forte e à-vontade consigo próprio36.
36 “Num estudo realizado em 200636 sobre a subcultura juvenil ―trance‖, a cannabis aparece como uma substância valorizada positivamente, consumida não só nessas festas mas também no quotidiano e, de uma forma geral, vista como inofensiva e de consumo banalizado.
Ainda de acordo com os resultados do estudo realizado em Portugal, em 2006, é possível verificar uma tendência de crescimento dos consumos de cocaína em contextos recreativos ―trance‖, verificando-se a adesão de novos públicos. De notar que, até esta data, a cocaína não figurava nas drogas consumidas neste tipo de festas sendo mesmo desvalorizada negativamente, à semelhança da heroína e do álcool. No entanto, esta droga é ainda percepcionada como uma substância associada a outros estilos de vida e de diversão, como uma droga perigosa e ―gulosa‖, de consumo esporádico.
Já no que se refere à heroína, esta surge como uma substância rejeitada por completo. Conotada com outros estilos de vida, esta droga é valorizada muito negativamente, é vista como perigosa e de efeito contrário ao pretendido pela população inquirida. A análise dos discursos sugere um consumo nulo desta substância nas festas ―trance‖.
A carência de referentes culturais e simbólicos que permitem criar uma identidade e alimentar uma interioridade, a falta de valores colectivos que o indivíduo possa interiorizar, são hoje uma componente pesada da vida social, gerando um vazio que tende a ser, cada vez mais, preenchido pelos psicotrópicos. A impotência das famílias e dos ambientes sociais para que os indivíduos adquiram um património de defesas interiores, tornando-as menos frágeis, é uma evidência que numerosos estudiosos têm vindo a constatar nas sociedades modernas, cujas dificuldades de socializar as gerações mais jovens os submetem a fortes tensões. Exigir-lhes que construam uma identidade que é, ao mesmo tempo, constantemente ameaçada, desde logo pela profunda desorganização social decorrente da chamada ―nova economia‖, equivale a tudo remeter para o indivíduo.
Como vimos em ponto anterior, a fragilização do indivíduo é uma realidade incontornável numa sociedade que faz a defesa da competição como o mais eficaz mecanismo de regulação social, em que não se vislumbram formas de organizar a reflexão e a união em torno da defesa de princípios de vida colectiva coerentes com os direitos humanos. Numa sociedade dominada pela pressão de uma economia divorciada dos seres humanos, em que se dissipam as formas de vida colectiva, que haviam permitido descobrir e defender valores e normas capazes de definir limites e pontos de referência normativos, o indivíduo está cada vez mais entregue a si próprio. Tipos de drogas Prevalência de consumo na população
entre 15-64 anos
Prevalência de consumo na população entre 15-34 anos 2001 2007 2001 2007 Cannabis 7,6% 11,7% 12,4% 17% Cocaína 0,9% 1,9% 1,3% 2,8% Heroína/Opiáceos 0,7% 1,1% 1,1% 1,1% Ecstazy 0,7% 1,3% 1,4% 2,6% Anfetaminas 0,5% 0,9% 0,6% 1,3% LSD 0,4% 0,6% 0,6% 0,9%
Fonte: II Inquérito nacional ao consumo de substâncias psico-activas na população portuguesa, 2006 Taxas de continuidade de consumo na população total e na população jovem adulto em percentagem (*) Tipos de drogas Taxas de continuidade de consumo
na população entre 15-64 anos
Taxas de continuidade de consumo na população entre 15-34 anos
2001 2007 2001 2007 Cannabis 43,2% 30,5% 50,3% 39,4% Cocaína 34,1% 32,2% 46,4% 41,4% Heroína/Opiáceos 26% 24% 28,2% 34,6% Ecstazy 53,5% 32,7% 59,8% 35,1% Anfetaminas 13,20% 20% 19,4% 29,2% LSD 27,8% 20,5% 40,5% 28,3%
(*) Proporção de indivíduos que, tendo consumido uma dada substância ao longo da vida, declaram ter consumido essa mesma substância no último ano
Em média, 23% dos rapazes e 17% das raparigas experimentaram drogas ilícitas pelo menos uma vez ao longo da vida. O termo ―qualquer droga ilícita‖ inclui cannabis, anfetaminas, cocaína, crack, ecstasy, LSD e
No domínio da vida familiar, as mudanças ocorridas não deixam de apontar no mesmo sentido da fragilização do laço social, muito em especial pela adopção de modas educativas que parecem ignorar alguns dos mecanismos da vida psicológica mais essenciais. Um deles, abordado por Freud e amplamente estudado por numerosos psicólogos depois dele, é o que se refere à aprendizagem da consciência moral a partir de um diálogo entre os princípios do prazer e da realidade.
Atribuindo à socialização familiar um papel decisivo no desenvolvimento cognitivo e emocional dos indivíduos, a teoria sistémica da família37 identifica uma pluralidade de situações que podem precipitar a predisposição para os consumos. O elevado grau de conflito conjugal, a disciplina excessivamente severa, ou, pelo contrário, a inconsistência do exercício da autoridade parental, a ausência de clarificação de regras e o escasso controlo exercido pelas figuras parentais sobre os contextos de interacção dos filhos, são alguns dos principais factores que condicionam estilos de vida particularmente permeáveis aos consumos precoces de psicotrópicos.
Factores como o fosso comunicacional, a inconsistência da autoridade, a indefinição das regras e normas, a ambivalência do exercício do poder disciplinar, hoje recorrentes nas dinâmicas familiares, estão na origem de uma aprendizagem deficiente dos constrangimentos e limitações que a vida social impõe aos indivíduos. A indefinição das regras e a ausência de clarificação de normas, a ausência de confiança entre pais e filhos, sustentam, muitas vezes, a aprendizagem de papéis sociais e de padrões de conduta marcados pela incerteza, insegurança, falta de disponibilidade e abertura para aceitar o diferente e incapacidade para expressar sentimentos e opiniões sem recorrer à agressividade, física ou verbal.
Para pensar sobre a pluralidade dos factores que predispõem os indivíduos a tornar-se consumidores de drogas, vale a pena tomar conhecimento da reflexão desenvolvida por Tony Anatrella38, na sequência do seu já longo trabalho como psicanalista especializado no tratamento de toxicodependentes.
Comecemos por reter a pergunta que, a nosso ver, melhor sintetiza o pensamento deste autor: ―Como é que uma civilização profundamente animada pelas ideias de progresso, de felicidade e de esperança num futuro necessariamente melhor do que o das gerações precedentes chega exactamente ao inverso?‖39.
Na procura de resposta a esta pergunta, T. Anatrella desenvolve uma ideia forte que nos parece conter uma pista de reflexão teórica muito rica e profunda, a de que a melhoria das condições económicas está longe de induzir, por si só, a
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Madalena Alarcão: (Des) Equilíbrios familiares, Quarteto, Coimbra, 2000, pp. 237 e seguintes. 38 Tony Anatrella, Liberdade Destruída, Principia, S. João do Estoril, 2004.
concretização da felicidade humana. Como o autor observa, ―nas sociedades modernas impôs-se, pouco a pouco, a ideia de que a maior parte dos problemas humanos poderia ser resolvida graças às descobertas da biologia, aos novos meios de comunicação e a uma certa forma de democracia que se apoia mais na flutuação dos costumes do que na noção de bem comum‖40.
No entanto, se é verdade que a compreensão das estruturas biológicas da vida humana mantém toda a sua legitimidade, da mesma maneira que o progresso técnico, o desenvolvimento económico e a própria democracia, não é menos certo que o modelo de construção social requer muito mais do que isso. Em seu entender, a resposta à questão da felicidade evidencia bem o impasse a que uma visão idílica do progresso científico nos conduziu, privilegiando o conforto e o bem-estar, assegurados pela sociedade de consumo, em notório detrimento dos valores morais.
O que o autor quer sublinhar é que os avanços técnicos não são suficientes para honrar as expectativas profundas do homem na sua busca da felicidade e que o uso da droga decorre da diluição paulatina do papel regulador das exigências morais nas sociedades individualistas, onde o homem fica entregue a si próprio, completamente autónomo e, acima de tudo, preocupado com a sua inserção a nível económico.
Na sociedade mercantil, onde a economia assume o papel de principal regulador da sociedade, assiste-se a uma profunda transformação da relação com o prazer, a dor e o consumo. É por isso que o uso exponencial das drogas coloca três questões que se articulam em planos diversos: o psicológico, o moral e o educativo.
Numa reflexão estimulante acerca das modas educativas que hoje prevalecem nas sociedades mais ricas, Tony Anatrella41, um psicanalista que não hesita em recorrer a um olhar verdadeiramente sociológico, sublinha o papel dos processos de individualização exacerbada que estão em marcha nas sociedades modernas. O enfraquecimento dos laços sociais, em praticamente todos os campos e contextos de interacção, é um fenómeno com contornos perigosos no que respeita à compreensão e aprendizagem do exercício da liberdade humana. O sentido da independência e autonomia individual tende, cada vez mais, a ser equiparado à isenção de toda e qualquer obrigação para com a sociedade. O enfraquecimento do laço social toma uma pluralidade de manifestações que vão desde o desvanecimento do sentido dos valores morais comuns, ao enfraquecimento dos laços de solidariedade, e, muito importante, até à recusa do compromisso e à falta de exigência dos adultos na educação das crianças.
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Tony Anatrella, Liberdade Destruída, op. cit. p. 22 41
Na busca de um eventual tipo psicológico mais frequente entre os toxicómanos, Anatrella42 tece um conjunto de reflexões sobre o processo de elaboração da singularidade e da autonomia psíquica.
Começa por destacar que há um certo número de tarefas psíquicas que estão obrigatoriamente envolvidas na construção da personalidade e que não dependem unicamente dos pais ou da educação, mas do indivíduo. Mais concretamente, a estruturação da personalidade envolve sempre interesses e conflitos internos, resolvidos ou não, uma determinada configuração de desejos, e formas de expressão desses desejos mais primitivos (o que encaminha para a neurose) ou mais elaboradas (o que canaliza para condutas mais maduras e mais enriquecedoras). Para tomar posse de si próprio e diferenciar a sua personalidade, o indivíduo tem que ser capaz de trabalhar os estímulos do meio exterior, aprendendo a diferenciar os seus problemas dos problemas dos outros‖ 43.
A análise da relação edipiana tem interesse, desde logo para dar conta dos desejos profundos que foram instalados nesta fase precoce da vida, assim como do que dificultou a sua elaboração.
No que toca ao plano psicológico, este autor desenvolve uma reflexão sobre o desejo, começando por assinalar que este não se destina a ser agido, porquanto traduz o movimento interno da vida psíquica. Por definição, o desejo não tem fé nem lei, relaciona-se, muitas vezes, com os objectos perdidos da infância, em particular com os objectos imaginários que não serão encontrados no decurso da vida, a menos que se procure violar a realidade e outros. O desejo é um facto psíquico, a partir do qual se constroem diversas representações mentais que deverão ser trabalhadas no seio da vida psicológica para saber o que é exprimível, ou não, no mundo exterior. Trabalhar o desejo equivale a saber como coadunar as exigências subjectivas com as necessidades e limites da realidade, bem como com os valores universais que vão permitir que o individuo se humanize.
Resumindo a questão ao essencial, é fundamental, diz o autor, compreender que o desejo é uma actividade constante que anima a vida psíquica da pessoa humana cujas raízes remetem para o passado psíquico de cada indivíduo. Constituindo os elementos activos que conferem dinamismo à vida interior, os desejos actuam sob o impulso das aspirações e tendências mais irracionais. É isso que faz com que, por vezes, se apresentem e imponham com uma força que ultrapassa a compreensão do sujeito, acabando por perturbá-lo. Mas, se todos os desejos são
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Tony Anatrella,Liberdade Destruída, op. cit., p. 54 43
imagináveis, a verdade é que nem todos são, na mesma medida, realizáveis. Cabe à educação ajudar a criança a saber agir consequentemente e não de maneira impulsiva.
A complexidade da experiência do desejo humano remete para o facto de este não ser redutível, nem à experiência da necessidade, nem à do pedido. É por este facto que a pessoa fica muitas vezes dividida entre desejos que procuram impor- se sem ter em conta a realidade. Por isso, o sentido do desejo deve ser educado, para que se liberte dos seus aspectos imaginários e, logo, inacessíveis. Pertencentes a um registo que escapa muitas vezes à racionalidade humana, os desejos veiculam imagens de apetites idealizados. São esses apetites que o toxicodependente pensa poder satisfazer, fechado como está num desejo todo-poderoso que nada o ajuda a envolver-se com os prazeres reais que podem gerar uma existência positiva.
O ponto forte da argumentação de Anatrella remete para a importância decisiva que assume o trabalho de elaboração do desejo, sempre em função das características da realidade exterior e das exigências da vida moral. Se, no sentido psicológico do termo, o desejo remete sempre para cenários imaginários, que é importante reconhecer para nos compreendermos pessoalmente, se o desejo é uma inspiração proveniente das profundezas da psicologia humana que participa no dinamismo íntimo do sujeito, nem assim devemos considerá-lo como uma realidade que se deve realizar. Essa é a armadilha em que o toxicodependente cai, precisamente porque não possui os meios para discernir as fantasias e expectativas infantis e elaborar os meios de as coadunar com a realidade exterior e com os valores morais.
Portadores de uma história íntima, infantil e familiar, mas também de um espaço interior no qual se elaboram desejos, que, na sua maioria, nunca foram satisfeitos, não podemos ceder a todos os desejos, sobretudo quando estes são irrealistas e ligados a expectativas impossíveis da infância. Quando somos cativos dos desejos não elucidados, a procura que realizamos no mundo exterior não é mais do que a projecção das primeiras experiências da vida ligadas a determinadas pulsões e a certas satisfações.
Ora, o que acontece é que o nosso contexto social valoriza, por vários meios, a fragmentação e a dispersão da vida pulsional e incita os indivíduos a permanecerem nas agitações mais fantasiosas e anti-sociais da infância. A sociedade favorece condutas incoerentes que fragilizam a organização interior da pessoa, o que é particularmente verdade no indivíduo que se droga. Neste caso, o que está em causa é que o dependente de drogas procura encontrar um apaziguamento e uma satisfação que nunca conheceu, nem conhecerá desse modo. Estamos, pois, em
presença de uma situação verdadeiramente paradoxal, pois que a droga ajuda o indivíduo a não identificar e a fugir aos seus desejos. O drama da toxicodependência reside, assim, no facto de o sujeito, ―pensando que o seu desejo está satisfeito, ficar numa situação em que é ainda maior o seu confronto com as privações. Julga ter chegado, finalmente, ao fim da sua espera, mas falta-lhe o objectivo. É este o drama da toxicomania‖44.
É, por isso, fundamental que, quer no trabalho educativo, quer no terapêutico com toxicodependentes se estabeleça bem a diferença entre as componentes que são o desejo, a necessidade e o pedido, sendo que cada uma delas, apesar de ligada às restantes, representa uma determinada função.
Na maioria das vezes, o toxicodependente põe de lado a interacção entre os desejos (que têm as suas raízes no imaginário e relevam, portanto, do discernimento), as necessidades (que são necessárias ao desenvolvimento da vida) e os pedidos (que se dirigem sempre a outrem) para se acantonar, em parte, ou na totalidade, apenas na esfera do desejo imaginário. O seu discurso e a sua atitude evidenciam um posicionamento à margem dos outros e da vida, ―fecha-se num mundo de sensações e de imagens para escapar à condição humana‖, porque não dispõe dos instrumentos que permitiriam enfrentá-la. ―Apesar de tudo, o seu desejo procura impor- se, e acaba por fechá-lo sobre si próprio‖45
.
O trabalho do desejo implica necessariamente uma luta entre a vontade de auto-suficiência do sujeito e a aceitação dos limites, por isso a sua clarificação deve suscitar a superação de atitudes defensivas em relação aos outros e às realidades. Ora, a utilização da droga inscreve-se precisamente no funcionamento psicológico que alimenta o encerramento do indivíduo em si próprio, assim como alimenta a ideia de que se pode viver no imaginário. Neste caso, o indivíduo lança-se num caminho verdadeiramente impeditivo da sua existência.
Centrando-se sobre o funcionamento psicológico do toxicómano, Anatrella destaca que este cai num logro incontornável, uma vez que se deixa comandar pela busca permanente de prazer para preencher aquilo de que se encontra privado. É porque quer pôr termo ao sofrimento que o toxicómano se droga, sendo que a incapacidade para encontrar as verdadeiras fontes do prazer o precipitam no círculo fechado da interminável sucessão de desilusões46.
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Tony Anatrella, Liberdade Destruída, op. cit., p. 51 45
Tony Anatrella, Liberdade Destruída,op. cit., p. 51 46
Tony Anatrella, Liberdade Destruída, op. cit., p. 52 - Este autor refere certas obras cinematográficas que encenaram de forma muito expressiva, essa corrida desenfreada pela satisfação dos desejos, tal como eles se apresentam na vida psicológica, às vezes, sem nenhum espírito de discernimento. Filmes como, por exemplo, Laranja Mecânica, O Último Tango em Paris, A Grande Farra ou Instinto Fatal descrevem a violência dos desejos que se exprimem contra os outros e terminam sempre na morte.
Muitos jovens, que não aprenderam ou se recusaram a aprender o sentido dos limites, vivem na ilusão de preencher, a todo o custo, os seus desejos, acabando por cair na negação do próprio desejo e da própria existência. Resumem a vida a um estado de privação que, deste modo, tornam inaceitável. O consumo da droga é então subjectivamente vivido como a prova de que agem de acordo com o que lhes apetece, quando o que na realidade acontece é não saberem o que desejam.
Assim concebido, o prazer é apenas a experiência do nada que está muito longe de proporcionar uma real satisfação. ―Quem segue os seus impulsos cria as condições objectivas da toxicomania, caso em que o prazer não é mais do que o alívio passageiro de um sofrimento‖ 47.
Evitar o trabalho interior de reorganizar os desejos, o que verdadeiramente conferiria significado à vida, é o que o toxicómano acredita conseguir à custa da droga. Preencher o vazio de si mesmo e dos outros, vazio que fica quando não se aprendeu a enfrentar a vida com todos os seus limites e frustrações, é a necessidade irresistível e imperiosa que se impõe ao toxicómano. Pode dizer-se que, uma vez que o desejo é vivido através de uma sensação de vazio que urge preencher, a qualquer custo e por todos os meios, o problema psicológico do toxicómano se